QUARENTA ANOS NO DESERTO

Confissões de um professor universitário

 

Por que escrever sobre isto?

 

PRIMEIRA PARTE:

Os riscos da leitura

 

No início era o livro

 

Alencar ou Machado?

 

Machadolatria

 

Um machadiano: Marques Rebelo

 

Os descaminhos de Drummond

 

Manuel Bandeira e seus “heterônimos”

 

 

SEGUNDA PARTE

 

JOSÉ CARLOS ZAMBONI

O TRIGO E A PENEIRA

 NA ESCOLA DO AGRADECIMENTO                 OPUS MATER DEI

 

 

 

Quando o sol dançou em Portugal

 

Em agosto de 1917, quatro meses após o início de suas aparições em Portugal, a Virgem Maria prometeu aos três pequenos pastores que na última aparição, a 13 de outubro, deixaria um sinal para que todos cressem em sua presença em Fátima, e levassem a sério a sua mensagem: a lembrança de que o inferno existe; a oração do Rosário como arma contra o Mal; a crise que o cristianismo católico enfrentaria no século XX e o papel da Rússia como disseminadora do ateísmo socialista.

Foi um sinal maravilhoso, conhecido como “dança do Sol”. O astro parecia lançar-se sobre a terra, secando a roupa molhada de todos os presentes, encharcados pela chuva ininterrupta que, no entanto, não impediu que ali se reunissem. Calcula-se que setenta mil pessoas puderam ver o Sol dançar no céu por alguns minutos. Geralmente, esses fenômenos sobrenaturais são classificados como delírio coletivo, atribuídos à ignorância do povo simples, julgado incapaz de discernimento objetivo... Vejamos, então, o depoimento de dois intelectuais, um físico-matemático e um jornalista, mais acostumados à análise do que à rápida adesão aos dados do sentido.

 

* * *

Um professor universitário da Universidade de Coimbra, doutor em Matemática e astrônomo do Observatório Astronômico daquela universidade, estava entre os setenta mil que foram esperar pelo sinal prometido pela Mãe de Jesus. Era o Dr. Gonçalo Xavier de Almeida Garrett, que também foi Governador do Distrito de Castelo Branco e Par do Reino, e deixou por escrito o seu relado de testemunha ocular. Contou que céu ficou fechado e escurecido por toda a manhã de inverno, com muita chuva (as fotos mostram a multidão de guarda-chuva). De repente, clareou. O céu continuava com uma camada espessa de nuvens, mas o sol a tinha penetrado e brilhava com intensidade.

Era por volta de 1h30 da tarde, e o professor já estava desanimado de que algo pudesse ocorrer, quando subitamente um alvoroço de vozes: percebeu que todos, então, olhavam para o alto. O sol, como um disco muito claro, podia ser visto sem ferir a vista das pessoas, girando sobre si mesmo como um pião que rodopiasse.

Professor Garrett revelou, também, que houve mudanças de cor na atmosfera. Toda a paisagem tinha adquirido uma cor mais ou menos lilás, que se foi mudando para o vermelho-amarelado do pêssego. “As pessoas pareciam que sofriam de icterícia — recorda o professor — e lembro-me de uma sensação de divertimento ao vê-los tão feios e repulsivos. A minha mão estava da mesma cor.”

Foi então que um súbito grito de pavor subiu de toda a multidão. O sol, vermelho como o sangue e sempre girando, parecia soltar-se do firmamento e avançar sobre a terra. “A sensação, durante esses momentos, foi verdadeiramente terrível”, revelou o professor. O relato do professor Almeida Garrett encontra-se na obra do Padre Antônio M. Martins, "Novos Documentos de Fátima" (Edições Loyola, São Paulo, 1984).

 

* * *

Outro testemunho intelectual da “dança do sol” é o jornalista maçom Avelino de Almeida (1873-1932), que também foi escritor e critico de teatro, ligado aos círculos literários de Lisboa. Avelino trabalhava, nessa cidade, para o jornal “O Século”, de orientação anticatólica, e foi incumbido de viajar a Fátima para desmistificar, no dia 13 de outubro de 1917, a grande farsa armada pela Igreja, que instrumentalizava malignamente os três pequenos pastorinhos da roça.

Foi com esse espírito que o jornalista chegou à pequena cidade de Fátima: arrancar as máscaras dos padres embusteiros. Mas não pode realizar o seu objetivo, pois ele mesmo assistiu “a um espetáculo único e inacreditável”, em suas próprias palavras. “Do cimo da estrada”, escreveu Avelino, “onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zênite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:

— Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!

O seu artigo é um retrato bem feito de uma pequena cidade do interior. Intitula-se "Como o sol bailou ao meio dia em Fátima", também recolhido na obra do Padre Antônio M. Martins, atrás mencionada. Pode ser lido facilmente na internet. Porque foi fiel ao que viu, o jornalista Avelino de Almeida foi despedido do jornal “O Século”. Deixou as ideias maçônicas e converteu-se ao catolicismo, morrendo quinze anos depois como membro da Igreja que tinha combatido.

 

 

 Estudos psiquiátricos revelam: Missa previne depressão e suicídio

 

Dois estudos realizados com 89.708 mulheres, nos Estados Unidos, liderada por pesquisadores da Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard, publicado na revista científica JAMA Psychiatry, revelam que pessoas frequentadoras de serviços religiosos, pelo menos uma vez por semana, têm um menor risco de suicídio, em comparação com as que não participam, ou o fazem de vez em quando.

O professor de epidemiologia da Universidade de Harvard, Tyler Vander Weele, que comandou a pesquisa, concluiu que a participação em serviços religiosos comunitários — como a missa, por exemplo — é um fator de maior proteção pessoal do que viver sozinho uma espiritualidade qualquer: ao aumentar a consciência de fazer parte de um grupo, o serviço religioso coletivo cria no indivíduo uma visão mais otimista ou esperançosa da vida.

Eram católicas ou protestantes a maioria das 89.708 mulheres avaliadas, em acompanhamento de 1996 até 2010 — período em que aumentaram muito as taxas de suicídio nos EUA, bem documentadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Destas mulheres, 17.028 participaram do serviço religioso mais de uma vez por semana, 36.488 foram uma vez por semana, 14.548 frequentavam menos de uma vez por semana e 21.644 nunca participaram de nenhum serviço religioso. Em comparação com os que nunca iam à igreja, os que frequentaram missa pelo menos uma vez por semana, tiveram um risco cinco vezes menor de cometer suicídio durante o período estudado.

Os responsáveis pela pesquisa não pretendem recomendar aos médicos que receitem a participação em determinados serviços religiosos. Afinal, não seria atitude científica... Deixam, porém, bem claro que "a religião e a espiritualidade podem ser um recurso, ainda não devidamente considerado, que os psiquiatras e os médicos devem explorar com seus pacientes".

Dr. Aaron Kheriaty, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia, opinando sobre a pesquisa de Harvard, concluiu que “essas descobertas reforçam a certeza do vínculo entre a prática religiosa e a saúde mental, já explorada pelo sociólogo Emile Durkheim, em 1897.” E os católicos saem ganhando nos números: segundo os dados dos pesquisadores de Harvard, evidenciou-se que a menor taxa de suicídio encontra-se entre as mulheres que se declaravam católicas e participavam da Missa.

Segundo Dr. Kheriaty, a cura "só pode vir quando as descobertas legítimas da psicologia e da farmacologia modernas se associam com direção espiritual e sacramentos, sempre dedicando especial atenção à sabedoria dos Padres da Igreja e dos santos".

"As crenças e práticas religiosas podem ajudar as pessoas a desenvolver o sentimento de esperança, mesmo em meio a grandes crises ou adversidades", afirmou Dr. Kheriaty, acrescentando que a “fé religiosa pode ajudar as pessoas a encontrar sentido — sentido e propósito — mesmo no sofrimento".

Outro psiquiatra, o austríaco Viktor Frankl, aluno dissidente de Freud e criador da “logoterapia”, já falava na força misteriosa do “sentido”, do ter um sentido na vida, muito mais forte até do que a sexualidade. O homem vive sem sexo, mas não sem sentido.

Links para os artigos científicos mencionados:

https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2529152

https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2521827

 

 

Escolas de agradecimento no Brasil

 

O padre espanhol Santiago Martín, da diocese de Madrid, lidera atualmente um movimento religioso — os Franciscanos de Maria, inspirado em Nossa Senhora e em São Francisco de Assis, dois grandes modelos de serviço e agradecimento a Deus —, destinado a difundir e praticar a espiritualidade do agradecimento (em contraste com a moderna tendência de mais pedir do que agradecer, produto da “ideologia dos direitos humanos”).

Na linha missionária da “nova evangelização”, proposta pelos Papas João Paulo II e Bento XVI para enfrentar os novos tempos de relativismo moral e religioso, Padre Santiago criou as chamadas Escolas de Agradecimento. São grupos de pessoas que se reúnem, uma vez por semana, para retribuir a Deus de uma forma muito particular as coisas boas que Dele recebem: de um lado, estudando a doutrina católica e as Sagradas Escrituras; de outro, fazendo um propósito semanal de agradecimento (tantas são as razões para agradecer).

Segundo o sacerdote espanhol, o agradecimento cristão é uma extraordinária terapia espiritual. Ao tirar o foco das coisas más (que debilitam e deprimem) e dirigi-lo, de forma agradecida, a Deus pelos dons que Dele provêm — sobretudo o maior deles: a vida eterna —, as pessoas se tornam inevitavelmente mais felizes. Não há nada mais curativo do que estar em permanente estado de ação de graças. A humildade da súplica e a humildade do agradecimento não se excluem, mas se completam.

No entanto, a conversão espiritual requer hoje, mais do que nunca, a formação do intelecto, indispensável para dar o testemunho da fé num mundo cada vez mais hostil à religião. Para isto, Padre Santiago elaborou uma metodologia formativa destinada a desenvolver, nos leigos, o conhecimento dos princípios fundamentais da fé e da moral católica. O principal objetivo dos Franciscanos de Maria é a luta contra a grande doença do nosso tempo: o secularismo, a programada descristianização em massa da sociedade, o banimento total da religião da esfera pública.

O funcionamento de uma escola de agradecimento é muito simples, sempre precedido e finalizado com orações. Resumem-se, praticamente, a três atividades: leitura de um texto de formação semanal (redigido pelo Padre Santiago Martin); leitura e meditação do Evangelho de domingo; e, finalmente, a leitura do breve propósito de agradecimento para a semana. Deverá estar ligada a uma paróquia, contando com a aprovação do padre responsável, que comunicará a sua criação à respectiva diocese.

A associação dos Franciscanos de Maria, que faz funcionar as escolas de agradecimento, é composta basicamente de leigos (em torno de 12.000, atualmente), mas também possui religiosos consagrados (mais de 20 sacerdotes.). Foi fundada em 1988, restrita inicialmente à arquidiocese de Madrid, mas logo expandiu-se para outros países de língua espanhola. Em 2007, o Papa Bento XVI, através do Pontifício Conselho para os Leigos — presidido pelo cardeal Stanisław Rylko — deu aprovação pontifícia à associação religiosa. Em 2012, a associação e seus estatutos tiveram o pleno reconhecimento da Santa Sé.

Os Franciscanos de Maria estão presentes em quase todas as nações da América, do Canadá ao Chile, e já começam a surgir grupos de leigos em outros países da Europa, como Polônia, Holanda, Itália e Alemanha, num total de 31 países e 160 dioceses.

O Brasil ainda não possui “escolas de agradecimento”, mas seu fundador espera vivamente que nasçam grupos, entre nós, para levar adiante a sua missão. Padre Santiago Martin viajará, no próximo mês, a países da América do Sul onde seus missionários já atuam. Durante todo o dia 3 de outubro de 2017, estará na capital paulista, à espera de reunir-se com brasileiros interessados em começar o movimento em nosso país. Em sua breve permanência em São Paulo, o padre celebrará a Missa do meio-dia da Paróquia Nossa Senhora do Brasil, no centro de São Paulo (Praça Nossa Senhora do Brasil, sem/número). No mesmo dia e lugar, às 14h30, fará uma palestra organizada pelo Grupo de Oração Espírito Santo.

Para mais detalhes, entrar em contato pelo seguinte e-mail: jc.zamboni@hotmail.com

 

 

Ioga e cristianismo

 

O sacerdote belga Joseph-Marie Verlinde (que, antes de ser padre, envolveu-se durante anos com ioga e outras práticas religiosas hinduístas), revelou certa vez uma conversa que teve com o seu guru indiano, Maharishi Mahesh, que tinha sido também o guru dos Beatles. Quando o futuro padre lhe disse que as pessoas, no Ocidente, andavam fazendo ioga para relaxamento muscular e emocional, o famoso guru não conteve o ataque de riso. Disse, em seguida:

— Isto não vai impedir que o ioga obtenha o seu efeito...

Qual efeito? O de disseminar no Ocidente a religião hinduísta, cujas diferenças com o cristianismo são enormes. Sabemos que a ioga, técnica de meditação desenvolvida na Índia, transformou-se em moda, no Ocidente, a partir dos anos sessenta, com a chamada revolução contracultural (aquela que veio para disseminar o famoso trio: sexo, drogas e rock'n roll). 

O que procura o homem ocidental na ioga? Certamente bem-estar pessoal, distensão, relaxamento, em plena consonância com sua mentalidade hedonista, de permanente busca da felicidade material e psicológica.  Entretanto, os que bem conhecem a ioga jamais a enquadrariam na categoria de simples exercícios físicos, pois ela está intimamente ligada à religião da qual provém, a hinduísta, segundo a qual toda a realidade deriva de um certo princípio único, chamado Brahama, raiz de tudo o que existe.

Todas as coisas, segundo o hinduísmo, são emanações energéticas desse princípio fundamental, sobretudo o ser humano, que é visto como uma fagulha do fogo divino que a ela deve retornar. Esta é a função da ioga: conduzir a pessoa a uma “união” (este é o sentido etimológico da palavra ioga) com o seu próprio ser divino, desvencilhando-a da condição humana, buscando atingir a liberdade absoluta através de posturas do corpo e das mãos, emissões vocais, controle da respiração.

Por que livrar-se da condição humana? Para os hinduístas, a realidade que vemos diante de nós (as coisas, os animais, as plantas, os astros etc.) é tão defeituosa, tão dolorosa, tão incompatível com a perfeição divina, que preferem considerar que tudo isto não existe, não passando de mera impressão e aparência. É necessário, então, enquanto dura o pesadelo de nossa vida, procurar um caminho que nos leve de volta à fonte divina que se perdeu. Um desses caminhos é a ioga,

Fica bem evidente a megalomania dessas religiões orientais: hinduístas e budistas consideram-se divinos, ao contrário do cristianismo, que sempre viu e verá no ser humano uma criatura, eternamente criatura. Os cristãos consideram que a solução proposta pela ioga é uma forma ingênua e inaceitável de resolver o problema do mal.

Para o homem cristão, a realidade criada por Deus não é essencialmente má, apesar dos tantos aspectos problemáticos que possui. Aceita-a com todos os seus limites. Ama o próprio corpo e agradece ao Criador pela alma que, criada à imagem e semelhança de Deus, o distingue dos outros animais. É compreensível que, no fim de um dia cansativo de trabalho, as pessoas desejem relaxar o corpo e a mente, distender músculos e emoções. É nesse momento que a ioga aparece com uma solução fácil, entre outras.

Fácil e perigosa. Cristo convida o homem a tomar a sua cruz e segui-Lo — suportando com paciência a condição humana —, até o ponto de chegada que é o paraíso celeste, onde estará um dia junto de Deus por toda a eternidade: criatura e Criador para sempre unidos, mas sempre distintos. Bem diferente é o convite hinduísta da ioga, que propõe alívios momentâneos do sofrimento com a falsa promessa de que somos fragmentos da divindade que, em breve, retornarão à unidade perdida.

Uma óbvia consequência moral, ainda para este mundo, é a lição de humildade que sempre brotará das páginas evangélicas, ao contrário da inevitável soberba gerada pela falsa espiritualidade da ioga. (30/09/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Razões para agradecer

 

O homem tem mais do que merece? Sem dúvida que sim. Pense-se, por exemplo, na alimentação, nas muitas vezes em que, durante as refeições diárias, as pessoas se dão conta do grande prazer que experimentam, e até as obriga a retardar o fim da sensação agradável, como se quisessem eternizar o deleite. É um truque hedonista que nunca se vê nos cachorros, pois a manipulação dos sentidos é algo especificamente humano.

Por que o Senhor, em vez de só criar alimentos funcionalmente adequados à sobrevivência humana, criou ou proporcionou que se criassem alimentos deliciosos? Se a comida fosse insossa e só nos mantivesse vivos, já teríamos muito que agradecer, pelo resto da eternidade.

Mas não: os alimentos alimentam e, além disso, podem ser agradáveis ou até muito gostosos. A delícia, embora seja muitas vezes um bom caminho para o mal, é antes de tudo um inequívoco sinal de Deus e do Paraíso que espera pelo homem, conforme a justíssima meritocracia divina.

Tudo, na natureza, parece dirigir-se para a harmonia, para a simetria. Se, no entanto as pobres criaturas humanas só tivessem ao seu redor uma paisagem horrorosa — uma paisagem cubista, dadaísta, surrealista, parecida à que se vê muitas vezes na pintura moderna —, ainda assim teriam o que agradecer pelo resto da eternidade.

Mas não: bastam cinco minutos longe das cidades quadradas e fétidas, para os olhos humanos se deliciarem com as nuvens e as estrelas, a sinuosidade das colinas, a esbelteza das árvores, o ritmo dos rios, que dosam maravilhosamente ímpeto e serenidade.

Se a comida fosse muito ruim e a paisagem muito feia, mas, mesmo assim, ainda estivéssemos aqui, vivos e lúcidos, teríamos de agradecer por todo o sempre. A mim, me parece que teria sido perfeitamente justo se Deus, ao expulsar Adão e Eva do Paraíso, os mandassem a um mundo em que a comida fosse insossa, a natureza feia, e o prazer quase inexistente. Contudo, tivemos mais, muito mais do que merecemos, apesar da nossa antiquíssima inimizade com Deus.

Somos os filhos mimados da modernidade, que mais pedem do que agradecem. A ingratidão é um produto espúrio da autocomiseração, da autopiedade, da soberba, da inveja — essas paixões parasitárias que insistem em sugar a seiva das almas. Muitos dos que foram carregados como a ovelha perdida nos ombros do Bom Pastor — a centésima ovelha que foi encontrada e curada —, ainda tem a ousadia de reclamar dos ombros desconfortáveis de Deus...

Eis uma experiência boa de ser feita, justa e necessária: em nossas refeições, quando mais agradável for o prazer gustativo, lembremos de render graças a Deus por aquele inestimável, delicioso e imerecido dom. Agradeçamos ao Criador, que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. (São Mateus, 5, 45) (16/09/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

O romance católico dos anos 30

 

A época de ouro da cultura brasileira — os anos trinta do século XX — não produziu somente escritores preocupados com problemas sociais, como geralmente se aprende na escola. Houve no período, também, uma rica corrente psicológica, na qual se sobressaem os chamados “romancistas católicos”. Seus textos, bastante influenciados pelo escritor russo Dostoievski, eram confessionais, introspectivos, de sondagem espiritual, uma viagem mais demorada pelo mundo interior dos personagens.

Vejamos alguns desses nomes. Octavio de Faria (1908-1980), de família rica, diagnosticou os problemas de sua própria classe social na obra “Tragédia burguesa”, romance-rio com personagens recorrentes, sem grande brilho estilístico, mas de espantosa profundidade psicológica. Pensava que só o cristianismo poderia salvar a família moderna: nem o liberalismo do deus mercado, nem o marxismo da divindade igualitarista. De si mesmo, dizia ser não um romancista católico, mas um católico que escrevia romances...

Lúcio Cardoso (1912-1968), o mais novo do grupo católico, era mineiro, de família de fazendeiros. Além da ficção, praticou o teatro, a poesia e tentou o cinema. Começou mais ou menos naturalista, em 1934, com o romance “Maleita”, para depois descobrir o rico filão da narrativa psicológica. Adestrou a mão com uma série de romances antes de, em 1959, lançar-se à realização de sua indiscutível obra-prima no gênero: “Crônica da casa assassinada”. Trata-se de um retrato de certa burguesia rural mineira, economicamente em decadência, flagrada em seus mais inconfessáveis pecados capitais.

José Geraldo Vieira (1897-1977), proveniente da alta burguesia urbana, que lhe povoa os dez romances, era um virtuose do estilo. Médico, de formação enciclopédica, dominava a língua portuguesa como poucos colegas de sua geração. Algumas vezes, porém, abusava do virtuosismo: era capaz de, pela força dos detalhes e do rebuscamento estilístico, encher seus textos de informações que acabavam por esconder o seu principal objetivo, que sempre foi o estudo das almas; as quais, inconformadas com os limites impostos por este mundo passageiro, andavam em permanente busca de transcendência: espacial, com as frequentes incursões europeias; cultural, com o papel privilegiado da arte na busca de sentido existencial; metafísica, com a convicção de que só a vida eterna seria capaz de satisfazer as expectativas humanas. 

O discretíssimo Cornélio Pena (1896-1958), que durante muito tempo hesitou entre as artes plásticas e a literatura, sempre desprezou a vida literária. Escrever, para ele, era algo íntimo, uma espécie de ascese, cuja cristalização em obras literárias era mais um acidente do que um objetivo. Ligado à burguesia rural, passou pedaços da infância em algumas cidades mortas de Minas Gerais, ambiente que marcaria para sempre os seus quatro romances, nos quais também se percebe a presença das velhas fazendas paulistas do café. Nunca se interessou pelos aspectos sociológicos da decadência rural, mas pela oportunidade de ali emoldurar seus dramas intimistas, de profunda angústia existencial e religiosa, para sempre marcado pelos escritores russos que devorou na juventude. Aqueles ambientes mortos de Minas impregnaram o seu estilo, semelhante a um rio largo e parado que avança lentamente pela trama, sem pressa de chegar ao final do enredo. Disse em entrevista, certa vez, que o homem, caso queira salvar-se, deve comparecer voluntariamente perante o Criador. Seus personagens foram criados com essa finalidade: responder ao apelo intransferivelmente pessoal de Deus.

Finalizemos essa rápida apresentação com o engenheiro Gustavo Corção (1896-1978), que sabia calcular probabilidades, mas também acreditava na possibilidade da intervenção de Deus na natureza. Escreveu, lamentavelmente, só um romance: “Lições de abismo”, publicado no início dos anos cinquenta. Era um mergulho corajoso nos porquês da vida diante da morte, considerado pela boa crítica literária um dos principais romances de sua geração e um dos maiores de toda a literatura brasileira, tendo provocado inesperados elogios de um velho comunista, Oswald de Andrade, que equiparou com justiça o seu fino humorismo e a sua prosa concisa à de Machado de Assis. Prosa e humor que já estavam em seu primeiro livro, “A descoberta do outro”, de 1944, autobiografia espiritual em que o escritor, com arte consumada de romancista, relata a sua conversão à Igreja Católica, a quem dedicou toda a sua maturidade estilística, em artigos, ensaios e livros cuja arte apuradíssima é ressaltada até por inimigos. (02/09/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

A Igreja e a inquisição

 

A inquisição é um dos principais bodes expiatórios usados pelos inimigos da Igreja Católica, quando pretendem atacá-la. Filmes de Hollywood, livros didáticos, documentários de televisão – são muitos os meios à disposição dos que ousam dizer coisas sem o devido fundamento historiográfico.

Quando se trata, porém, de artigos ou teses acadêmicas, a mentira já começa a ficar mais difícil, diante da necessidade de comprovar as afirmações com as respectivas fontes históricas. Pesquisadores não católicos (homens honestos, como o protestante Henry Charles Lea ou o marxista Henry Kamen), quando se debruçaram sobre o mar de documentos existentes sobre a inquisição, perceberam que a sua história não é um filme em preto e branco, mas cheio de nuances, levantando questões que ainda hoje nos inquietam e para as quais ainda não temos respostas definitivas, como, por exemplo, o problema da guerra justa ou da pena de morte. Investigadores sérios cada vez mais se rendem às evidências, admitindo que, sem a Igreja, com todos os seus erros e problemas, a nossa civilização não teria sido a mesma. Mais do que isto: teria regredido muito cedo à mais completa barbárie.

No caso específico da inquisição (que surgiu intrinsicamente ligada a um fenômeno histórico conhecido como heresia cátara ou albigense, da mais absoluta irracionalidade), o conhecimento das circunstâncias antropológicas e sociológicas é necessário para a sua correta avaliação, como tudo na história. Qualquer historiador prudente sabe que não é possível julgar uma época com os critérios de avaliação de outro período histórico.

É arriscado, por exemplo, aproximar-se da inquisição sem consciência da rigorosa proporcionalidade que havia, na Idade Média cristã, entre o crime e a sua punição. Era inconcebível, no mundo antigo e medieval, uma ordem jurídica sem a pena de morte. Houve erros? Certamente, pois os tribunais eram compostos de homens e não de anjos. Apesar de tudo, nos mais ou menos setecentos anos de existência daquela instituição católica, apenas um pequeno número de condenados foi entregue ao braço secular para a pena capital.

É preciso, além do mais, não esquecer a concepção penitencial da vida que predominava na época, sem a qual permanece ininteligível o rigor do homem medieval para com o corpo humano. Submeter um criminoso impenitente à morte cruel era favorecer o seu arrependimento e contribuir para a salvação de sua alma, ao contrário dos assassinatos ideológicos cometidos no século XX por ateus como Stalin, Hitler ou Fidel Castro. É absurdo julgar a inquisição com nossa concepção atual de direitos humanos, e, sobretudo, a partir do disseminado “culto do corpo” que passou a existir no mundo ocidental, sobretudo a partir do século XX.

O conceito de “cristandade” — período histórico em que os fundamentos da sociedade eram essencialmente religiosos, baseados nos valores evangélicos — é de fundamental importância para o justo enquadramento daqueles tribunais eclesiásticos. Na Idade Média, apogeu da cristandade, cultura e fé eram praticamente uma coisa só: carne e unha. Qualquer ataque aos dogmas da fé significava colocar em risco a própria ordem social.

Em sociedade completamente cristã, quando as instituições respiravam e transpiravam Jesus Cristo, e o poder temporal se submetia ao poder espiritual — “Roma falou, caso encerrado” —, era muito viva a consciência do perigo das heresias, capazes de provocar fraturas irreversíveis na estrutura social. Não era outra a razão de ser da estrita vigilância exercida sobre a prática religiosa, em que o herético era tratado como criminoso de Estado, e o seu crime considerado como de “lesa majestade”. (04/08/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Mentiras e exageros contra a Igreja

 

Conta-se que dois monges medievais discutiam sobre a quantidade de dentes que haveria na boca de um asno. Cada um deles levantava uma hipótese. A discussão já andava acalorada, quando um terceiro monge interveio e propôs:

— Que tal se vocês procurassem um asno de verdade e contassem os dentes de sua boca?

O terceiro monge sabia que a realidade era independente das ideias humanas, e estas últimas só tinham sentido quando se conformavam ao mundo das coisas reais.

A anedota pode ser de grande utilidade para o assunto desta crônica: as mentiras e exageros que, ao longo dos últimos dois mil anos, os inimigos da Igreja Católica têm feito circular pelos livros, pelas escolas, pelo cinema e televisão, e, mais recentemente, pela internet.

Tais mentiras e exageros sobre a história da Igreja, depois de postos em circulação, adquirem vida própria e passam a ser repetidos automaticamente. Transformam-se em boatos, notícias cuja origem ou veracidade não estão provadas, mas que contêm tanto sal malicioso, que as más línguas não resistem e vão passando adiante.

Essas falsas notícias sobre a Igreja Católica ligam-se, inicialmente, a dois grupos de fatos históricos, cuja origem se encontra na Idade Média: as Cruzadas e a Inquisição. Mas vão além, muito além. Quem já não viu algum filme, ou leu nalgum livro didático, sobre a famosa caça às bruxas medievais? Quem já não ouviu falar da crepitante fogueira da Inquisição? Quem já não ouviu falar da perseguição católica aos judeus, sobretudo no reinado da Rainha Isabel de Espanha? Quem já não ouviu falar de um estranho conceito teológico, segundo o qual as mulheres não teriam alma? Quem já não ouviu falar de certa injustiça cometida contra o físico Galileu Galilei, no início do século XVII? Quem já não ouviu falar dos malvados conquistadores espanhóis ou portugueses que, nas Américas, oprimiram os nativos? Quem já não ouviu falar de certo conceito medieval, segundo o qual a terra não seria redonda, o que teria impedido a expansão ultramarina? Ou, mais recentemente, quem já não ouviu falar das denúncias contra padres pedófilos, largamente difundidas pela mídia?

A lista é interminável. Para mostrar o que é verdadeiro ou falso nisso tudo, a Igreja criou uma disciplina teológica, conhecida como “apologética”, cujo objetivo é defender a religião católica contra os que tentam depreciá-la, utilizando argumentos racionais e metodologia científica (que é, na verdade, tão antiga quanto a própria Igreja Católica, pois inimigos da fé já existiam desde a primeira hora do cristianismo, como já o atestam as várias cartas do Novo Testamento).

Várias seriam as causas da maledicência anticatólica, daquela lista de horrores e sua ampla difusão no mundo ocidental. Estudiosos mais recentes apontam, como origem, algumas circunstâncias históricas, entre as quais as disputas existentes, no século XVI, entre países protestantes (Países Baixos e Inglaterra) e a poderosa Espanha católica. Outras causas estariam no pensamento e na prática revolucionária, fundamentalmente anticristãos, e que, a partir do Iluminismo, da Revolução Francesa, do positivismo oitocentista, do Marxismo, do Nazismo, do Fascismo, e, atualmente, da Ditadura do Relativismo, tinham e têm todo interesse em neutralizar a influência da Igreja, em especial a moral católica.

É hora de dizer como o terceiro monge da anedota: procuremos o asno. Vamos abrir a boca do animal e contar a sua dentadura. Ou seja, voltemos às “fontes primárias” da história para conferir se tudo o que é dito contra a Igreja possui fundamento real, ou não passariam de lendas inventadas para servir a interesses políticos ou religiosos. História só se faz com fontes primárias, com o estudo honesto dos textos ou vestígios arqueológicos produzidos o mais proximamente possível dos acontecimentos que se pretende reconstruir com a narrativa historiográfica. (20/07/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Homeschooling

 

Será o homeschooling a melhor solução diante da incomensurável porcaria em que se transformou o ensino brasileiro? Ou será só uma saída de emergência, pra salvar as nossas crianças do grande incêndio de mediocridade que, há décadas, se alastra pelas escolas públicas e privadas do país? Pequenas ou pequeníssimas escolas confessionais não seriam mais adequadas ao espírito cristão, que é comunitário por natureza? (18/07/2017)

 

 

A voz do Papa emérito

 

“A Igreja tem necessidade de pastores que saibam resistir à ditadura do espírito do tempo. O Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo se às vezes a barca esteja cheia d'água, ao ponto de afundar-se.” (Palavras oportunas de Bento XVI lidas, recentemente, na Missa fúnebre do recém falecido cardeal alemão Joachin Meisner, um dos quatro cardeais que levantaram dúvidas sobre o documento pontifício Amoris laetitia).

 

 

A voz do profeta

 

Disse o Cardeal Carlo Cafarra sobre o bebê Charlie Gard, de dez meses, que sofre de doença incurável e a quem a justiça inglesa condenou à morte: "Chegamos à estação terminal da cultura da morte. São agora as instituições públicas, os tribunais, que decidem se uma criança tem ou não o direito de viver, mesmo contra a vontade dos pais. Chegamos ao fundo da barbárie. Acaso somos filhos das instituições? Devemos nossas vidas a elas? Pobre Ocidente! Rejeitou Deus e sua paternidade, e se encontra agora entregue à burocracia. Mas o anjo do Charlie vê sempre o rosto de Deus. Parem, em nome de Deus! De outra maneira, tenho de lhes dizer com Jesus: ‘Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar’.” (02/07/2017)

 

 

O papel das artes na guerra cultural

 

Em janeiro de 2012, estreava em Roma um espetáculo teatral com o título de Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, escrito e dirigido por Romeo Castellucci. Foi montado nas principais capitais europeias e até no Brasil.

O espetáculo tinha três cenas. Na primeira, um filho cuidava do pai idoso com incontinência fecal, trocando-lhe abnegadamente as fraldas geriátricas e limpando o chão. Na segunda, o rosto de Jesus, reproduzido de uma obra de Antonello de Messina, pintor italiano de Quatrocentos, era ampliado e estampado no fundo do palco, sobre o qual um bando de moleques em idade escolar arremessavam objetos que iam tirando da maleta escolar (inspirada provavelmente na malhação do Judas). Finalmente, o rosto de Jesus é destruído por três alpinistas, que deixa ver a frase ambígua “(Não) És o meu pastor”.

Jesus é ou não o bom pastor? O espectador é quem devia decidir. Como espetáculo “aberto”, carregado de ambiguidades, esperava que o público tirasse as suas próprias conclusões. Um cristão, ao ver a peça, não deixaria de perceber nela a velha revolta gnóstica contra o “Deus indiferente”. E, obviamente, se perguntaria: um trabalho desse tipo difere, realmente, dos simples delitos de profanação religiosa? Será lícito agredir a religiosidade alheia, por mais que dela se discorde?

Cenas de vilipêndio religioso se repetem, nos templos cristãos: imagens destruídas, sacrários violados, hóstias consagradas roubadas para cultos satanistas etc. Facilmente se esquece que o sacrilégio, ultraje exercido sobre objetos aos quais se imprimiu um valor simbólico, não atinge pessoas particulares, mas toda uma comunidade de crentes.

Muitos ainda se lembram, quando em 1995, no dia 12 de outubro, um pastor da Igreja Universal do reino de Deus, do bispo Edir Macedo, um certo Sérgio von Helder, desferiu pequenos chutes e socos na imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil (“um boneco desse tão horrível, tão feio, tão desgraçado”, disse diante das câmeras no programa “Despertar da fé”, na TV Record), deixando indignada e ofendida a maioria da população brasileira. O pastor foi condenado a dois anos de prisão. Recorreu da sentença e, no frigir dos ovos, nada teve de pagar.

Na época da agressão à imagem, era presidente da República o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, célebre, entre outras coisas, por não acreditar em Deus. Declarou, no entanto, em nota à imprensa: “O Brasil é um país democrático, conhecido pela tolerância religiosa, e sua força está exatamente na capacidade de convivência com a diversidade. Qualquer manifestação de intolerância fere esse espírito de convivência e, também, o espírito cristão”. É possível duvidar da sinceridade das palavras do político, jamais da verdade que nelas se expressa, com a qual concordaria plenamente qualquer pessoa mais ou menos normal.

Diante das palavras sensatas de FHC, não é difícil imaginar a cara que fariam o diretor Romeo Castellucci e todos os membros da companhia teatral que encenaram Sobre o conceito de rosto no filho de Deus. Muito provavelmente, escarneceriam. São inimigos viscerais do limite e partidários da famosa palavra de ordem da revolução contracultural dos anos sessenta: é proibido proibir. A tolerância, para esses niilistas, é um comportamento permanentemente cobrado do próximo, para que melhor possam impor as regras do seu próprio jogo.

Na atual situação de guerra cultural, indivíduos assim já estão estrategicamente espalhados pelos pontos-chaves do campo de batalha social (universidade, mídia, política, religião, o próprio sistema judiciário). Quanto aos cristãos, só há uma saída: em vez de mover ações judiciais contra os inimigos da ordem estabelecida, é preciso reconstruir pacientemente a ordem que eles estão destruindo a golpes de foices e martelos. Os materiais de construção são velhos como o próprio mundo ocidental (as “coisas permanentes”, de que falava o poeta T. S. Eliot). O belo, o bom e o verdadeiro ainda são as melhores armas da guerra cultural. (30/06/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Porque é que não há-de ser?

 

“Diz-se que a doutrina da Transubstanciação [transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo] é difícil de acreditar; não acreditava nela antes de ser católico, mas não tive dificuldade em a aceitar logo que me persuadi de que a Igreja Católica Romana era o oráculo de Deus e que, segundo as suas declarações, esta doutrina fazia parte da revelação original. É difícil ou impossível de imaginar, concordo; mas será difícil de acreditar? Não posso na verdade prová-la, não posso dizer como é; mas digo: ‘Porque é que não há-de ser? O que é que o impede? Que sei eu de substância ou matéria? Precisamente o mesmo que os maiores filósofos, ou seja, absolutamente nada.’” (Cardeal Newman. Apologia pro vita sua, capítulo V) (28/06/2017)

 

 

Se Deus não existe, tudo é permitido

 

Os irmãos Karamazov é o último romance do grande escritor russo Dostoievsky (nascido em 1821 e morto em 1881). Junto com Tchekhov, Gogol, Tolstói e Turguenev, o romancista Dostoievsky compôs esse maravilhoso time dos clássicos da literatura russa, talvez a mais densa literatura de ficção do século XIX, em todo o mundo ocidental.

O romance Os irmãos Karamazov foi publicado um ano antes da morte de seu autor. Seria a primeira parte de uma extensa biografia ficcional do mais novo dos irmãos Karamazov, o padre Aliocha. A morte, porém, frustrou os planos do escritor. Na verdade, “Os irmãos Karamazov” conta a história de uma família russa, ambientada em pequena cidade do interior, com o difícil relacionamento entre o pai Fiodor Karamazov (que se comportava de maneira imprópria a um chefe de família) e seus quatro filhos: o hedonista Dímitri, o intelectual Ivan, o monge Aliocha e o ressentido Smerdjakov, filho não assumido, que vivia em casa como empregado do pai.

A inimizade entre pai e filhos é o grande pano de fundo da obra. Mas é um romance em que há de tudo o que possa haver entre o céu e a terra, uma verdadeira suma da condição humana: pai e filho brigando pela mesma mulher; irmãos odiando-se pela mesma e feminina razão; grandes maldades e grandes generosidades; luxúria, vingança, orgulho, ressentimento, desespero, remorso; discussões sobre as consequências de crer ou não crer em Deus.

Há uma idéia no livro, defendida pelo ateu Ivan, que se tornou célebre: “Se Deus não existe, não há virtude. Tudo é permitido.” O meio irmão de Ivan, o ressentido Smerdjakov, tanto a ouviu que a transformou em princípio de vida: decidiu matar o próprio pai, a quem odiava profundamente. Foi um assassinato meticulosamente preparado, de modo que inculpasse o irmão Dímitri que, em momento de ira e ciúmes, havia prometido matar o velho Fiodor, com quem disputava a volúvel Grusenka. Dímitri talvez seja o personagem mais interessante da obra: era um homem impulsivo, agitado por sentimentos opostos, em que se alternavam momentos de crueldade e mansidão, luxúria e sacrifício, egoísmo e desprendimento.

Quando a verdade veio à tona, Ivan reconheceu que sua pregação ateísta tinha sido responsável pelo ato inadmissível de Smerdjakov, o mais inadmissível de todos os atos humanos: o parricídio. O próprio ateu Ivan ficou terrificamente abalado com a solução que ele mesmo admitia, como conclusão lógica do ateísmo. Percebeu, porém, que nem tudo era permitido. Portanto, se nem tudo era permitido, sob pena de tornar impossível a vida dos homens neste mundo, a conclusão só podia ser uma: Deus existia. Era Ele o nexo necessário que dava sentido à vida moral.

O grande tema da obra é a prova prática de que Deus não está morto (o romance termina com um belo ato de fé na ressurreição dos mortos). Era um assunto, no entanto, que batia de frente com a decisão do homem contemporâneo de afastar-se de Deus, teoricamente desinteressante às pessoas que, na modernidade, estavam se despedindo do cristianismo e partindo para a sua própria experiência de deserto espiritual e existencial. A obra fez, no entanto, grande sucesso. É um dos romances mais lidos dos últimos cem anos.

Aqueles quatro irmãos — o ressentido Smerdjakov, o hedonista Dímitri, o intelectual Ivan e o religioso Aliocha —, se transformaram em quatro caminhos possíveis para o homem moderno, que preferiu, no entanto, desgraçadamente, a solução de Dímitri (viver a vida sem limites) entregar-se à soberba intelectual como Ivan (que só acreditava nas verdades provisórias da ciência) ou a decisão de Smerdjakov, que viu no homicídio a saída para os seus problemas (pensemos nos milhões de mortos produzidos pelo ódio comunista e nazista, e nos milhões de abortos cometidos, nas últimas décadas, em nossas democracias ocidentais).

“O Ocidente perdeu o Cristo e por isso decai”, diria o mesmo Dostoievsky, antecipando profeticamente o que estamos vivendo hoje. (18/06/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Nossa Senhora em Fátima e Medjugorje

 

Por que Nossa Senhora aparece há tanto tempo, mais ou menos 37 anos, na pequena cidade de Medjugorje, antiga Ioguslávia e atual Bósnia? Por que ainda aparece cotidianamente a três videntes, além das aparições mensais e anuais aos outros? Por que as mensagens são tão repetitivas? Por que repetir o que já está, há dois mil anos, no Evangelho e na boca militante da Igreja?

Só vejo uma resposta: nunca a Igreja e o mundo estiveram tão ameaçados como hoje. As aparições de Medjugorje caminham na contramão da História contemporânea, desses últimos quinhentos anos que se convencionou chamar de “modernidade”, caracterizada pela crescente sobreposição da ciência sobre a fé, um aumento progressivo do poder do Estado sobre as pessoas, um relativismo moral que tende a aceitar todas as formas de comportamento.

As aparições de Medjugorje tiveram início no dia 24 de junho de 1981. A cidade era uma obscura aldeia da Iugoslávia, de cultura eslava e regime comunista. Quem mandava no país era o ditador Tito, e, como todos os ditadores comunistas, trazia a Igreja sob estrito controle. A história das perseguições aos seis jovens videntes (com prisões e interrogatórios sob pressão) é um dos capítulos mais interessantes de Medjugorje. É impressionante a coragem que demonstraram diante das autoridades, impossível sem a colaboração do Céu.

O curioso é que, quarenta e dois dias antes dessa primeira aparição de Nossa Senhora em Medjugorje, no dia 13 de maio de 1981, Papa João Paulo II tinha recebido no abdômen um tiro mortal do matador turco Mehmet Ali Agca, que não costumava errar o alvo. O nome do Papa polonês era Karol Wojtyla, também ele um eslavo, que conhecia na própria pele os espinhos do nazismo e do comunismo. O plano de assassinato do Papa foi obra da ex-KGB, agência de serviços secretos e informações da antiga União Soviética (Moscou temia que o Pontífice pudesse interferir nalguns países satélites da URSS, também eles eslavos).

Outra coincidência histórica importante, envolvendo eslavos naqueles meses de 1981: fazia pouco tempo que o operário polonês Lech Walesa tinha fundado o sindicato de trabalhadores Solidariedade, que foi decisivo para o fim do comunismo naquele país da então Cortina de Ferro. O católico Walesa seria, mais tarde, presidente da república polonesa, então já livre da ditadura marxista. Os eslavos poloneses, e demais povos eslavos que viviam sob a Ioguslávia, tinham algo em comum: todos sofreram sob a ditadura comunista.

Por falar em coincidência, não custa lembrar que 13 de maio foi o dia da primeira aparição de Maria Santíssima em Fátima, Portugal, que veio alertar para as consequências danosas do comunismo no século XX. “Se a Rússia não se converter”, dizia Nossa Senhora, “seus erros se espalharão pelo mundo.” Aquela confluência de fatos não era gratuita. João Paulo II atribuiria à mão sobrenatural de Nossa Senhora o desvio de rota daquela bala com destino certo e fatal.

Para finalizar, recordemos outra mensagem profética de Nossa Senhora, revelada em Medjugorje, sobre o destino da Polônia e da Rússia. Alguns meses depois de iniciadas as aparições, em 30 de outubro de 1981, a Mãe de Jesus disse o seguinte aos videntes: “Na Polônia, em breve, haverá graves conflitos, mas no fim os justos prevalecerão. O povo russo é o povo no qual Deus será mais glorificado. O Ocidente incrementou o progresso, mas sem Deus, come se não fosse Ele o Criador.

A primeira parte da profecia já se cumpriu: a Polônia é, hoje, o país mais católico do mundo. Quanto à Rússia, esperemos. (09/06/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Cardeal Newman e a Eucaristia

 

“Diz-se que a doutrina da Transubstanciação [transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo] é difícil de acreditar; não acreditava nela antes de ser católico, mas não tive dificuldade em a aceitar logo que me persuadi de que a Igreja Católica Romana era o oráculo de Deus e que, segundo as suas declarações, esta doutrina fazia parte da revelação original. É difícil ou impossível de imaginar, concordo; mas será difícil de acreditar? Não posso na verdade prová-la, não posso dizer como é; mas digo: ‘Porque é que não há-de ser? O que é que o impede? Que sei eu de substância ou matéria? Precisamente o mesmo que os maiores filósofos, ou seja, absolutamente nada.’” (Cardeal Newman. Apologia pro vita sua, capítulo V) (03/06/2017)

 

 

Em Cristo, por Cristo, com Cristo

 

Para São Paulo, era excremento tudo o que não fosse Cristo ou a Ele se relacionasse. (01/06/2017)

 

 

Paciência

 

"Nós precisamos ser furiosamente radicais nos princípios, e muito humanos na aplicação deles." (Dom Manuel Pestana, Bispo de Anápolis)

 

 

Pobres filhos de uma sociedade que já não reconhece o mal

 

A seguir, um belo texto de Dom Luigi Negri, arcebispo de Ferrara, Itália, publicado no dia 23 de maio de 2017, no jornal digital Nova Bússola Cotidiana, a propósito do ato terrorista ocorrido na véspera, na Inglaterra.

“Queridos filhos,

Quero chamá-los assim, mesmo que não os conheça. Mas, nas longas horas de insônia que seguiram ao anúncio deste terrível ataque, em que muitos de vocês já morreram e muitos ficaram feridos, eu os senti ligados a mim de uma forma especial.

Vocês vieram ao mundo, muitas vezes sem ser desejados, e ninguém lhes deu as “razões adequadas para viver", como dizia o grande Bernanos a seus contemporâneos adultos. Vocês foram entregues ao mundo sob dois grandes princípios: que podiam fazer o que quisessem, pois  cada desejo de vocês é um direito; e a importância de se ter o maior número possível de bens de consumo.

Vocês cresceram assim, acreditando que tivessem tudo. E quando vocês tinham algum problema existencial – antigamente se dizia assim – e o comunicavam aos seus pais, aos seus “adultos”, logo tratavam de agendar um psicanalista para resolver o problema. Eles só se esqueciam de dizer a vocês que existia o Mal. E o Mal é uma pessoa, não um conjunto de forças e energias. É uma pessoa. Esta pessoa estava escondida ali, durante o concerto. E a terrível asa  da morte, que a acompanha, se apoderou de vocês.

Meus filhos, vocês morreram assim, quase sem razões, do mesmo jeito como viveram. Não se preocupem, afinal ninguém os ajudou a viver; mas farão certamente um belo funeral, no qual se expressará ao máximo esta oca retórica laicista, com todas as autoridades  presentes – incluindo, infelizmente, até os religiosos –, todos de pé, em silêncio. Naturalmente, será um funeral em espaço aberto, mesmo para os que tem fé, já que hoje em dia o único templo é a natureza.

Robespierre riria de tudo isso, pois nem mesmo ele teve essa fantasia. Aliás, nas igrejas não se fazem mais funerais, pois, como diz agudamente o cardeal Roberto Sarah, agora nas igrejas católicas só se celebram os funerais de Deus. Os “adultos” não se esquecerão de colocar nas calçadas os seus bichinhos de pelúcia, as memórias da sua infância, da sua primeira juventude. E depois tudo será arquivado na retórica daqueles que não têm nada a dizer sobre tragédias, pois nada tem nada a dizer sobre a vida.

Espero que, nesse momento, pelo menos alguns destes gurus – culturais, políticos e religiosos – contenham as palavras e não nos atropelem com os discursos habituais,  dizendo que “não se trata de uma guerra de religião”, que “a religião é, por natureza, aberta ao diálogo e à compreensão”. Espero que haja um instante silencioso de respeito. Antes de tudo, pelas suas vidas, ceifadas pelo ódio do demônio, mas também pela verdade. Pois os “adultos” deviam, antes de tudo, ter respeito pela verdade. Podem não servi-la, mas devem ter respeito por ela.

Seja como for, eu que sou um velho bispo que ainda crê em Deus, em Cristo e na Igreja, vou celebrar a missa por  todos vocês no dia do seu enterro, para que do outro lado – quaisquer que tenham  sido suas práticas religiosas – vocês  encontrem o rosto querido de Nossa Senhora, e que, apertando vocês em seu abraço, os console desta vida desperdiçada, não por culpa de vocês, mas por culpa dos seus “adultos”. Em http://lanuovabq.it/it/articoli-poveri-figli-della-societa-che-non-riconosce-il-male-19937.htm

 

 

São Bento e o copo de vinho envenenado

 

Antes de São Bento (que viveu entre 480 e 547 depois de Cristo) criar a sua célebre comunidade religiosa, vivia o grande santo uma vida solitária e contemplativa, longe do mundo. Crescia, porém, a sua fama de santidade, que se espalhava cada vez mais pela Itália.

Conta o beneditino São Gregório Magno (540-604), nas páginas em que narrou a vida do grande santo padroeiro da Europa, que próximo ao lugar em que vivia o santo, havia um mosteiro muito problemático que tinha perdido, recentemente, o seu abade. Conhecendo a boa fama de Bento, foram ter os monges com ele, insistindo que aceitasse dirigir a sua comunidade religiosa, crentes de que teriam somente um abade a mais.

Bento, bem informado das coisas, sabia com quem estava lidando, já prevendo as enormes dificuldades que teria pela frente. Seria tarefa nada fácil conciliar a sua fidelidade ao Evangelho com aqueles homens de má vontade, que saíam do mundo e, ao mesmo tempo, a ele continuavam presos. Convém não esquecer que, apesar do esfacelamento do Império Romano, a mentalidade pagã ainda era muito forte na Europa.

O santo relutou muito, antes de aceitar o convite. Mas tamanha era a insistência dos monges que, movido pela caridade, acabou cedendo, advertindo-os porém sobre a austeridade que encontrariam pela frente. E assim foi. Começou impondo ao mosteiro a sua concepção pessoal de vida monástica, que já era, de certa maneira, o embrião da futura Regra de São Bento, baseada na conjugação de oração e trabalho, o “ora et labora” que, mais tarde, desenvolveria plenamente. Como bom pescador de homens, procurava trazer em sua rede de arrastão aqueles monges relapsos, acostumados à disciplina frouxa, com atitudes inconvenientes a quem se dispunha a seguir Jesus.

A reação contrária não tardaria a surgir. Os monges, que tanto se empenharam por tê-lo consigo, agora andavam furiosos com a seriedade com que o novo abade pocurava aplicar as normas de vida comum. Acusavam-se mutuamente da loucura cometida, já amargamente arrependidos de ter tirado da solidão aquele homem que reputavam exagerado, exigindo deles tanto trabalho e oração.

De uma coisa tinham certeza: com aquele reitor, deviam abandonar para sempre os velhos hábitos e o sonho da vida fácil. Imaginavam um mosteiro que fosse (diríamos hoje) uma espécie de hotel-fazenda místico, com o lado exclusivamente idílico da religião. Alguns deles, mais indignados com a nova direção da casa, começaram a planejar a morte de Bento. Alguém teve a idéia de colocar veneno no vinho que ele tomaria, solução que foi prontamente aceita pelo grupo rebelde.

No dia fatal, estavam todos sentados à mesa, na hora da refeição comunitária. O copo, com a bebida envenenada, lá estava e, como de costume, era o abade quem devia abençoar os alimentos. Bento, então, ergueu a mão e fez o costumeiro sinal da cruz. Imediatamente, o copo com a bebida estalou, partindo-se numa porção de pedaços, espalhando pela mesa todo o conteúdo. 

O santo comprendeu tudo: o copo, que trazia dentro de si a morte, não suportou a presença da Vida — o sinal da Cruz aliado à Divina Trindade — que a mão do abade tinha acabado de desenhar sobre a mesa. Ergueu-se no mesmo instante e, sem nenhuma ira no coração, reuniu todos os monges, entregando-lhes o cargo. Perdoou-os e, antes de sair, lembrou-lhes do que lhes havia dito sobre a dificuldade de se harmonizarem as duas concepções de vida, a sua e a deles, sugerindo que procurassem um diretor mais conforme às suas expectativas.

Dito e feito. Voltou Bento à sua solidão contemplativa, preparando-se espiritualmente para mais tarde, com homens verdadeiramente decididos a viver uma existência mais evangélica, iniciar a grande obra beneditina que salvaria a espiritualidade cristã, em meio à barbárie dos primeiros séculos da Idade Média. (19/05/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

O misterioso amor de Deus

 

Não só na época de Cristo, mas ainda hoje, muita gente gostaria que Deus tivesse mandado o seu Filho ao mundo sem as humilhações humanas que sofreu em Jerusalém. Muito mais digno (pensam eles) seria um Salvador vitorioso, descido do Céu como um raio fulminante para ferir de morte o pecado, em súbita e mágica encarnação, sem necessidade de Maria Imaculada, manjedoura de Belém, perseguições herodianas ou calvário vexatório. São pessoas que, zangadas com a severidade da Igreja Católica, prefeririam arrancar da cruz o Cristo ferido, com o seu sangue e as suas chagas, e escondê-lo definitivamente das vistas delicadas do homem moderno, que considera de extremo mau-gosto aquele sofrimento.

O Cristo de seus sonhos teria vindo ao mundo como um Superman da fé, um Flash Gordon da esperança, um Tarzan da caridade, olhando soberbamente de cima o poderoso Tibério César, imperador romano de sua época, atitude que não combinaria lá muito bem com o filho adotivo do carpinteiro José.

Esse modo de pensar atual descende, de alguma forma, de um movimento religioso surgido nos primeiros séculos da Igreja, conhecido como “gnosticismo”. A mentalidade gnóstica, caracterizada pela obsessão em procurar falhas na obra da Criação, resultou em diversas seitas heréticas, que tinham como denominador comum a rejeição da matéria e um vago espiritualismo panteísta (Deus espalhado e diluído na matéria). Não aceitavam que os defeitos do universo fossem conseqüências do pecado humano, mas produtos de uma falsa e impotente divindade. Somente eles, os gnósticos, é que teriam acesso ao verdadeiro Deus, revelável a poucos iniciados, de forma particular e esotérica (como, por exemplo, na já trissecular maçonaria, ou na recente Pró-Vida, do dr. Celso Charuri).

A verdade é bem outra. Ao contrário dessa expectativa gnóstica, determinou Deus, em seu insondável juízo, que seríamos salvos da tragédia do pecado pelo sacrifício de seu Filho único, segunda pessoa da Trindade Divina, que veio ao mundo e viveu como os nossos filhos, totalmente humano (sem deixar, misteriosamente, de ser totalmente divino, sem a mácula do pecado). Um Cristo humilhado pelos doutores da Lei judaica e as leis civis do Império Romano, obrigando-se a transitar por todos os estágios da nossa grande miséria.

Pobreza, perseguição, fuga, doenças, tortura, morte: Cristo passou por tudo o que nos compete sofrer sob o Sol. Sentou-se na sarjeta sórdida da condição humana, ao lado de nossa mendicância física e moral, e continuou mais puro do que os anjos. Mergulhou no vaso de impurezas da humanidade corrompida e, depois da ressurreição, saiu mais límpido do que uma taça de cristal. Morreu entre dois bandidos, e, antes de morrer, magnânimo em sua nudez humilhada, ainda conseguiu salvar um deles — que a tradição chamou de Dimas — do reino definitivo das trevas. Fez tudo o que não necessitava fazer. E tudo, misteriosamente, por amor.

Segundo os psicólogos, nada é mais danoso para o indivíduo do que não se saber amado. É uma verdade básica do comportamento humano, e o é, também, na relação do homem com Deus. Papa Bento XVI ensinava que “a coisa mais importante, na vida de uma pessoa, é saber que é amada por Deus.” A crença nesse amor é que dá sentido às nossas vidas, aos nossos sofrimentos, à nossa inevitável morte individual.

Em sua “Carta aos romanos” (8, 35), o apóstolo São Paulo revela, de maneira irretocável, a verdadeira finalidade da condição humana, quando iluminada pela Luz que vem do Alto. Depois de perguntar pelo sentido de tantas cosias terríveis que acontecem conosco, conclui com as mais concisa das respostas, a resposta cristã: “Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Mas, em tudo isso, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou.”

Esse Amor tem um nome: Cristo. E um método: a Cruz. (06/05/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

A idolatria da pobreza

 

Não é raro, hoje em dia, o católico encontrar, em meio às tradicionais orações da Igreja, a presença de palavras, expressões ou até frases inteiras que fogem completamente ao estilo cristão de rezar. São palavras, expressões ou frases de clara conotação política, do setor mais à esquerda da política, dominado pelo vocabulário do marxismo, condenado por todos os Papas (pelo menos até Bento XVI).

O que dizem tais palavras, expressões ou frases mais sociológicas do que teológicas? É o mesmo refrão de sempre: pede-se pelos pobres, pelos marginalizados, pelas vítimas de preconceitos. O pedido é justo, mas a forma do pedido está claramente comprometida por insinuações ideológicas. Algumas vezes, há uma tal insistência e ênfase na abordagem desses temas, que o católico tem a impressão de que os autores de tais textos já não crêem na vida após a morte; e que o novo céu e a nova terra, prometidos por Deus para a eternidade celeste, devessem se realizar neste mundo, aqui e agora, a partir de um esforço social e político, basicamente humano.

Ao contrário, ensina a Igreja Católica, desde sempre, que todos os batizados são filhos de Deus, sejam pobres, ricos, remediados; e que, no fundo, somos todos pobres, pobres, pobres: pobres pecadores.

Quem será mais necessitado de oração do que o rico? Jesus mesmo já avisou, no Evangelho, que é mais difícil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico salvar-se, tais são os obstáculos que a riqueza material oferece às pessoas. Pensemos, sobretudo, nos pecados capitais a que estão sujeitos os ricos (e, obviamente, também os pobres): acúmulo desnecessário de bens, sofrimento com o sucesso do próximo, exibicionismo do próprio sucesso, revolta contra os obstáculos interpostos. O rico, em primeiro lugar, prejudica-se a si mesmo, com a sua soberba, sua vanglória, sua avareza, sua ira. E, evidentemente, prejudica os que o cercam e dele dependem.

A sociologia marxista ensina que os burgueses, detentores dos meios de produção, são inimigos do povo, gerando com tal pensamento um clima de ódio entre as classes sociais e um natural endeusamento das classes desfavorecidas, numa clara idolatria do povo. O cristianismo prega o contrário: ricos e pobres, burgueses e proletários, são todos irmãos, miseráveis irmãos decaídos da Graça e seqüestrados pelo pecado. Se o rico explora o pobre, e se transforma, portanto, em seu inimigo, não deve atrair sobre si o ódio classista do oprimido, mas a oração humilde e confiante (que não deve impedir o pobre de defender-se legalmente dos que o exploram).

A oração cristã não pode privilegiar ricos ou pobres. Para melhorar o mundo (até o ponto em que isto seja possível), não convém jogar uma classe contra outra, nem revoltar-se contra o princípio de autoridade, irando-se contra Deus, o pai ou o patrão. Comece-se pedindo ao Espírito Santo, que habita em cada um dos homens: “Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da Terra.

É preciso levar a sério o que diz São Paulo (ICoríntios 6, 19), ao insistir que somos templos do Espirito Santo. Ora, onde está o Espirito Santo, estão inseparavelmente as outras duas pessoas da Trindade: Pai e Filho. Logo, somos morada da Trindade Santa. E onde está a Trindade, está toda a corte celeste: anjos e santos. Misteriosamente, de uma forma que não podemos compreender, todo o Céu está condensado dentro de nós. Cada um de nós — ou, pelo menos, a parte mais nobre de nossa alma, como ensina Santa Teresa d’Ávila —, é um privilegiado microcosmo do Céu.

Qual é o objetivo de toda essa maquinaria celeste posta à disposição da humanidade? A nossa santificação. Concretamente, isto só pode significar morte ao pecado e ao Dragão livre das correntes, que destroem a pobres e ricos. O mundo só vai melhorar quando ricos e pobres se entreolharem, e um enxergar no outro o Templo vivo do Espírito Santo. (19/04/2017, para o Jornal Agora Batatais)

 

 

Todos escolhemos Barrabás

 

Os dois evangelhos do Domingo de Ramos (entrada triunfal de Jesus em Jerusalém; condenação de Jesus) apontam para a história pessoal de cada um de nós, a nossa autobiografia espiritual. Estávamos lá, nas imediações de Jerusalém, no meio da multidão que gritava “Hosana ao Filho de Davi”. E, dias depois, estaríamos também diante de Pilatos, juntando nossa voz ao irado coro que gritava: “Crucifica-o, crucifica-o!”. Todos escolhemos Barrabás. (10/04/2017)

 

 

Padre Pio e os limites da ciência

 

O franciscano Padre Pio (1887-1968), hoje São Pio de Pietrelcina, foi proclamado santo, pelo Papa João Paulo II, no dia 16 de junho de 2002. Em 1918, aos trinta e um anos — quando o pontífice reinante era Bento XV —, já apareceriam nalguns pontos do seu corpo os célebres estigmas, ferimentos semelhantes às chagas de Cristo.

 Para evitar fraudes e imposturas religiosas, a Igreja sempre foi muito zelosa nesses assuntos, e, tão logo se espalhou entre os fiéis da região a notícia dos estigmas, cuidou de investigar o problema, enviando médicos e teólogos à cidadezinha de São Giovanni Rotondo, em cujo convento vivia o jovem frade. Padre Agostino Gemelli (1878-1959) foi um dos designados para essa missão investigativa, a pedido do Cardeal Merry Del Val, responsável pelo então Santo Ofício, atual Congregação para a Doutrina da Fé.

Padre Gemelli, também franciscano, era visto como autoridade científica na área da psicologia experimental. Converteu-se ao catolicismo depois de formar-se em medicina e se especializar em psiquiatria, entrando para a Ordem de São Francisco. Fundador de Universidade Católica de Milão, foi um nome importante da Igreja para o diálogo entre ciência e fé, o que não o impediu de equivocar-se, no caso do Padre Pio.

O fato é que foi mesmo desastroso o encontro dos dois religiosos. Durou muito pouco, menos de um minuto... Padre Pio nunca se esqueceu dos votos de pobreza, castidade e, sobretudo, de obediência, que havia feito. Sempre disposto a obedecer, recusou-se no entanto a receber em sua cela o ilustre visitante, alegando que não trazia uma solicitação formal da Santa Sé. O que era verdade: Padre Gemelli, orgulhoso de sua celebridade, confiava em sua fama para ser bem recebido pelo confrade ainda obscuro.

O santo de Pietrelcina era um grande perscrutador de corações. Famoso por adivinhar, no confessionário, o foro íntimo de seus penitentes e antecipar-lhes os pecados relutantes, Padre Pio teria seguramente sido mais simpático com padre psiquiatra, com ou sem solicitação formal, se nele não visse intenções suspeitas, certa má vontade cientificista para com o sobrenatural. Mais tarde, em carta enviada a um jesuíta inglês, Padre Gemelli faltaria com a verdade, ao afirmar que examinara, cuidadosamente, os estigmas de Padre Pio.

Padre Gemelli sentiu-se agredido com o tratamento que recebeu. Era também conhecido pelo temperamento vingativo, que não tardou a se manifestar no relatório que fez ao Cardeal Merry, enquadrando sumariamente Padre Pio na categoria dos histéricos. Acreditava suficientes para o diagnóstico os poucos segundos em que conseguiu observar o rosto e o modo de olhar, a fisionomia e o jeito como andava, a voz e as impostações da fala do frade estigmatizado. Quanto aos estigmas, que não pôde ver, sustentava que fossem provocados pelo próprio Padre Pio, em estado de semiconsciência.

Duas maneiras de perscrutar as almas se confrontaram naquele rápido e fracassado encontro: a natural, baseada na observação e perspicácia humana de um psiquiatra, e a sobrenatural, fornecida por Deus a um filho querido. Venceria a segunda, por maior que fosse a legitimidade da primeira.

Quanto aos estigmas, acompanharam Pare Pio por toda a vida. Jamais infeccionavam, exalando um misterioso perfume de rosas, o que foi bem comprovado e atestado por médicos e cientistas, que descartaram de pronto a sua origem patológica, junto com outras manifestações sobrenaturais (profecias, centenas de curas inexplicáveis, bilocações, consciência do pensamento alheio) que Deus permitiu a esse misterioso frade italiano.

O relatório do Padre Gemelli contribuiu para que alguns homens importantes, na alta hierarquia da Igreja, pensassem o pior do Padre Pio, vendo-o, na melhor das hipóteses, como um caso psiquiátrico, e até como impostor. Contudo, a vitória da mentira foi provisória. Hoje, Padre Pio é um santo canonizado da Igreja Católica e sua devoção não deixa de crescer em todo o mundo. (Publicado no Jornal Agora Batatais, em 08/04/2017)

 

 

Do Purgatório

 

Místicos, santos e videntes dizem que há “lugares”, no Purgatório, que quase não se diferenciam do inferno. Tem lógica! Não há fogo que purifica e fogo que consome? Certas almas, nas mãos do celeste ferreiro, necessitarão de mais maçarico que outras para se modelarem segundo o Céu. (01/04/2017)

 

 

Do inferno

 

No inferno, seguramente, não haverá ar condicionado. (28/03/2017)

 

 

Quinta coluna

 

Problema maior do que chamar inimigos da Igreja para palestrar no Vaticano, como Paul Ehrlich (célebre defensor do aborto), é a ordenação sacerdotal ou episcopal de inimigos da fé católica. (25/03/2017)

 

 

A esmola imerecida da Verdade

 

O que a pessoa deve fazer, quando está caída e não consegue se levantar por conta própria? Só pode haver uma solução: pedir ajuda, embora a principal doença do espírito, o demônio da soberba, vá tentar impedir que ela estenda a mão e implore a esmola de outra mão que lhe ajude.

Todos já estivemos em situação parecida, de beco sem saída existencial, medo da existência de Deus, medo de destronar o irrisório deus particular que julgamos ser. Mas o Deus verdadeiro existe. Não o Deus etéreo dos deístas, mas o Deus encarnado, nascido da Virgem Maria, que deixou uma Igreja justamente para essas horas difíceis em que, caídos, precisamos da mão solícita de uma mãe.

Que devemos fazer, os mendigos da fé? Estender a mão e pedir à Igreja a esmola da verdade, que não merecemos, mas está gratuita e misericordiosamente à nossa disposição. Incorporemos tudo o que ensina a Igreja de dois mil anos, sempre na contramão do relativismo diabólico, e que pode ser resumido em quatro tarefinhas básicas: humilde aceitação dos dogmas, vida de oração, combate ao pecado, confissão freqüente e comunhão diária. A vida não fica mais fácil com essa agenda espiritual. Pelo contrário. Adquire, porém, sentido. E se tem sentido, fica um bocado mais fácil...

Que Deus nos ajude na batalha. Não há outra saída, senão confiar Nele e em sua Igreja. (23/03/2017)

 

 

A revolução do Espírito Santo

 

Para melhorar o mundo, não é preciso botar uma classe contra outra, nem revoltar-se contra o princípio de autoridade, irando-se contra Deus, o pai ou o patrão. Basta ouvir o Espírito Santo, que habita em cada um de nós: “Enviai, Senhor, o Vosso Santo Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da Terra.” (20/03/2017)

 

 

Há quatro anos, Papa Bento XVI renunciava

 

Voltam a aparecer especulações sobre a misteriosa renúncia do Papa Bento XVI, ocorrida há quatro anos. Uma pessoa bem próxima ao Papa, Bispo Luigi Negri, da diocese italiana de Ferrara, falou em recente entrevista sobre as grandes pressões que Bento XVI sofreu, antes de sua renúncia. Mencionou, também, o recente apelo de católicos norte-americanos dirigido ao presidente Trump, para que abra investigação sobre possíveis ações secretas do ex-presidente Obama contra o então pontífice romano. “Permanece por enquanto um grande mistério, mas estou certo de que a responsabilidade acabará aparecendo”, concluiu o Bispo Negri.

A quem interessava a queda do Papa Bento XVI? A quem ele incomodava, com sua defesa intransigente dos chamados “princípios inegociáveis”, expostos em famoso discurso lido a 30 de Março de 2006? Esses princípios eram só três, mas o bastante para contrariar fortes interesses do mundo atual: defesa da vida em todas as suas fases, da concepção à morte natural; casamento como união permanente entre um homem e uma mulher; direito dos pais de decidir sobre a educação dos próprios filhos.

Incomodava, em primeiro lugar, à chamada “elite globalista”, que há décadas planeja e lentamente executa um governo mundial, acima das soberanias nacionais. Tal “elite globalista” — negada por muitos, que nela só vêem uma fantasia conspiratória e complotista — é uma reunião de forças políticas e econômicas internacionais, sobretudo americanas e européias, composta basicamente por representantes do capital financeiro (banqueiros e investidores) e da grande mídia, envolvendo muitos intelectuais e cientistas.

A alegação desta “elite globalista” é que, na atual situação do mundo, o crescimento da população deverá ser obrigatoriamente controlado, já que os recursos da terra são finitos e sua diminuição poderia ser causa de sérios conflitos entre as nações. Para evitar guerras, portanto, urgia praticar-se uma política agressiva, com duas medidas intimamente coligadas: controle da natalidade e defesa do meio-ambiente. Em palavras mais simples, menos pessoas no mundo e mais controle dos recursos naturais.

Para isto, era importante mudar o comportamento das pessoas. Somente uma força mundial, com amplos poderes, teria condições de salvaguardar os recursos naturais do planeta e alterar uma mentalidade tão entranhada nos povos, como era a da procriação generosa. Esse governo planetário seria capitaneado pela ONU e algumas bilionárias fundações norte-americanas, ditas filantrópicas (Fundação Ford, Fundação Rockefeller, Fundação MacArthur, Fundo Global para Mulheres, entre várias outras).

Como impor ao planeta um governo mundial? Para realizar aquele projeto bípede — menos pessoas no mundo e mais controle dos recursos naturais —, algumas providências básicas deveriam ser tomadas: desestruturação da família convencional através do divórcio, legalização do aborto, disseminação dos métodos anticoncepcionais, cultura de poucos filhos, fortalecimento do movimento homossexual, educação para o sexo livre, defesa histérica do meio-ambiente, e, sobretudo, uma educação a serviço das novas idéias, privando os pais do direito de educar os próprios filhos.

Parte fundamental desse projeto mundialista era elaborar estratégias de repressão às vozes discordantes, em especial os cristãos, que eram e são os seus principais adversários, cujas normas morais dificultariam a instalação da nova mentalidade. A solução, portanto, era diminuir o poder das religiões mais dogmáticas, como a Igreja Católica, favorecendo-se a difusão de uma espécie de sincretismo religioso, misturando-se elementos de várias religiões, visando uma futura e mais flexível religião universal, moralmente neutra.

Era necessário que as novas gerações se deixassem moldar pelo “relativismo moral”, ou seja, não mais acreditassem em verdades imutáveis, válidas para pessoas de quaisquer épocas, mas em verdades flexíveis e adaptáveis a cada nova circunstância histórica.

Papa Bento XVI não quis colaborar com esse programa insensato. Ao contrário, repudiou-o com veemência, cunhando-lhe uma expressão que ficou célebre — “ditadura do relativismo” —, e por isso teve, contra si, os inimigos mais poderosos do planeta. A grande mídia o atacava continuamente. Adversários internos, dentro da própria Igreja, o constrangiam a ceder às pressões do mundo. Mas ele foi firme e manteve-se fiel a Cristo. (18/03/2017)

 

 

A humildade de Deus

 

Creio que a mais bela ideia que pode passar pela cabeça de um ser humano é que Deus, o nosso Deus, é humilde. O criador do céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis, o onipotente, o onisciente, o onipresente — Aquele que é tudo isto, e infinitamente mais do que isto, é de uma humildade desconcertante para os nossos padrões habituais de compreensão. Veio Ele humildemente vestir a túnica da nossa carne, ser débil criatura como nós, e por nós pagar a dívida que jamais poderíamos pagar por conta própria: a divida cosmicamente monumental dos nossos pecados. Só um Ser tão humilde teria tanta paciência conosco. (11/03/2017)

 

 

Guerra justa

 

Diz São Paulo (ICoríntios 6, 19) que somos templos do Espirito Santo. Ora, onde está o Espirito Santo, estão inseparavelmente as outras duas pessoas da Santíssima Trindade: o Pai e o Filho. Logo, somos morada da Trindade Santa. E onde está a Trindade, está toda a corte celeste: anjos e santos. Misteriosamente, de uma forma que não podemos compreender, todo o Céu está condensado dentro de nós. Cada um de nós — ou pelo menos, a parte mais nobre de nossa alma —, é um microcosmo do Céu. Qual é o objetivo de toda essa maquinaria celeste posta à nossa disposição? A nossa santificação, a nossa divinização. Concretamente, isto só pode significar: morte ao pecado que nos mata, vitória sobre o Inimigo que nos acossa. (10/03/2017)

 

 

Os pedreiros do Céu

 

Sofrimentos e provações são os pequenos tijolos com que vamos construindo nossa mansão eterna. (08/03/2017)

 

 

Transcendência ou decadência

 

Ensina Santo Agostinho que o homem foi feito para Deus. Ou procura se aproximar de Deus, pela prática das virtudes morais (humildade, paciência, moderação, desapego, mansidão, generosidade, presteza etc.), ou se degrada ao nível animal, arrastado pelas paixões desordenadas (gula, sensualidade, cobiça, raiva, inveja, vaidade, preguiça etc.). Não há meio termo. O homem jamais permanece estático: se não sobe, fatalmente desce... desce… desce…(01/03/2017)

 

 

As demoras de Deus

 

“Suporta as demoras de Deus!” (Eclesiástico, 2, 4)

 

Seu Tião, meu finado vizinho, gostava de contar um causo — e sabia fazê-lo muito bem. Foi peão de boiadeiro até perto da Segunda Guerra Mundial, buscou boi no Mato-Grosso e Goiás, amansou burro xucro. Jamais me esquecerei de uma história que me contou um dia, pouco antes de morrer: tinha um sabor de testamento existencial, em que ele próprio era personagem (não o mais importante, como verá o leitor).

Penso, às vezes, que todos nós somos personagens desta história... Nela, o velho Tião ainda era o moço Tião, e ajudava a trazer uma boiada de Sacramento, quando foi escolhido para uma missão especial: encontrar dois bois que se perderam do rebanho — um boi preto e um boi branco.

Seu Tião deixou os companheiros, a boiada e partiu sozinho com a sua mula. Depois de muita busca, deu de tardinha com o boi preto, junto de uma mina d’água. Agradeceu a Deus, armou ali a sua rede e dormiu. No segundo dia, continuou atrás do boi branco: o reverso da medalha. Já tinha a cara e faltava a coroa. Pensou: “Será que o boi branco já não topou com a boiada?” Na dúvida, ficou com a pior hipótese e prosseguiu para o terceiro dia de pesquisa, naquele vasto chão de mundo.

Terceiro dia, coisa nenhuma. Rastreou fazenda por fazenda: e nada de boi branco. Do terceiro para o quarto dia, pernoitou na casa de um velho baiano, que quase não falava e morava sozinho, no meio de umas grotas. Manhãzinha, depois de arrear a mula e atrelar o boi preto para prosseguir na busca, o baiano lhe disse meio distraído, como quem não quisesse dizer nada:

Sem querer, o senhor vai achar o boi e a boiada — e mais nada falou.

Seu Tião agradeceu, despediu-se e retomou o caminho, pensando naquelas estranhas palavras do velho: “Sem querer, o senhor vai achar o boi e a boiada”. Já cansado de procurar em todas as planícies, colinas e montanhas do quarto dia, não tendo mais aonde ir, foi afrouxando de leve as rédeas do animal. Era a mula, agora, que indicava o rumo e conduzia o peão perdido.

Pousou num rancho abandonado. E veio mais um dia: era o quinto dia. As veredas subiam e desciam, cruzavam pastos e capoeiras, detinham-se em minas e riachos, mas não levavam ao boi sumido — que era o outro lado do seu disco, a contrapartida do seu destino. Rastreou mais fazendas por toda a extensão do quinto dia, e nada de boi branco.

No fim do sexto dia, parou num beco de caminho, próximo a uma aguada. Armou a rede num galho de árvore e dormiu. Acordou, de manhã bem cedo, com a mula zurrando bastante inquieta. Pegou a arma, instintivamente, e deu um tiro para o alto. Ouviu, em seguida, o toque de um berrante não muito longe dali. Era a boiada de Sacramento. A sua boiada! Voltara, enfim, ao ponto de partida, mas com a tarefa pela metade: faltava o boi branco.

— Você acredite se quiser — me disse ele. — Mas quando olhei pro lugar em que tinha amarrado o boi preto, o que foi que eu vi? O boi branco, junto do boi preto! Um do lado do outro.

Era o sétimo dia. Seu Tião, depois de fazer a sua parte, havia encontrado o boi branco e a boiada sem querer, de uma só vez, como havia profetizado o velho baiano. E do mesmo modo que Deus, no sétimo dia, descansou da criação do mundo, seu Tião pôde finalmente descansar de sua árdua parceria com o Espírito Santo, que foi o verdadeiro protagonista desta história. (25/02/2017)

 

 

A vida como conto de fadas

 

O maior prejuízo do homem moderno foi ter deixado de crer em contos de fadas. Pois os contos de fadas existem: não só as lições de moral que deles se espremem como sucos, mas sobretudo o lado fantástico dos contos de fadas. O fantástico existe, e é mais real que a aparente realidade em que nos movemos, segundo a segundo, a cada dia.

Quando lia histórias da literatura, sempre topava com certa corrente geralmente chamada de “literatura fantástica”. Era uma corrente marginal, uma estranha exceção numa história literária já marcadamente realista, voltada para o mundo limitado da percepção mais imediata.

Ora, se olharmos o conjunto da história das literaturas, veremos que a verdadeira exceção é o realismo. Sempre a literatura foi fantástica, predominantemente fantástica, e, nela, o realismo era só uma ferramenta a mais, um recurso utilizável para tornar mais verossímil a grande moldura fantástica em que se moviam as narrativas e os poemas do passado. O realismo é uma doença literária moderna, que nos últimos quinhentos anos foi ficando cada vez mais epidêmica.

A verdadeira realidade, da qual só temos uma vaga idéia pelas revelações divinas e pelas visões dos grandes místicos, é um maravilhoso conto de fadas no qual nossa pervertida humildade pós-cristã já não consegue acreditar. O materialismo corrompeu tanto a humildade judaico-cristã, que já não nos julgamos mais dignos de, um dia, protagonizar o maravilhoso conto de fadas da vida eterna. (14/02/2017)

 

 

Mudança e permanência

 

Folheando um pequeno jornal da minha cidade, vi uma foto proustiana do velho Ginásio do IESA, na qual um velho amigo fazia uma ponta, ao lado da professora de História. Avisei-o por e-mail. E logo o amigo respondeu que tinha essa foto. Dizia que estava tão sem parecer consigo, que ficava louco de vontade de conversar com esse personagem do passado... E o amigo proustiano se despedia machadianamente: “Eu de hoje”.

Lembrei do famoso poema de Apollinaire sobre o assunto. O poeta vê correr as águas do Sena sob a ponte Mirabeau, em Paris, e medita sobre o tempo que passou. Conclui que, embora os dias passem, ele misteriosamente permanece. Trata-se de um “eu” substantivo que resiste à enxurrada dos “eus” já sepultados, do rosto que enruga, das idéias substituídas, das células que trocam a cada instante, do rim que deixou de funcionar etc.:

 

“Sous le pont Mirabeau coule la Seine 

Vienne la nuit sonne l’heure

Les jours s’en vont je demeure”.

 

Depois de mandar os versos ao amigo proust-machadiano, ele respondeu assim: “O poema é muito bonito, parece falar-nos de uma lágrima caindo e indo pelo rio...” Penso às vezes que esse eu-substantivo, que podemos chamar de alma, tem uma parte alta e uma parte baixa. Esta, mais ligada ao corpo; aquela, já aspirando a vazar da matéria e unir-se ao Deus que a criou. Imagino que seja a parte baixa da alma, solidária com os sofrimentos do corpo, que manda as glândulas lacrimais pingarem gotas de dor sobre o rio que não pára de fluir. (13/02/2017)

 

 

São Bento e a fundação do Ocidente

 

Quem entrar no Santuário do Bom Jesus, em Batatais, e circular pelos arredores do altar da Imaculada Conceição, vai logo topar com a imagem de um monge calvo, vestindo hábito escuro: é o grande São Bento de Núrsia. Que fez de importante esse homem, para merecer a glória dos altares?

A palavra “monge”, do grego “monacós”, significa pessoa de vida solitária. Havia, à época de São Bento, duas formas de praticar-se a solidão monástica: a eremítica e a cenobítica. São Bento, nascido de família nobre quase quinhentos anos depois de Cristo, em pequena cidade perto de Roma, teve uma educação bem cuidada. Ainda jovem, sentiu o chamado para a vida eremítica, própria dos que se isolam em lugares desertos, rezando e fazendo penitência. Fez-se monge eremita, não demorando porém a perceber, por inspiração divina, que seu caminho era outro: a vida comunitária (ou cenobítica). Essa troca foi fundamental para a vida de todos nós, como veremos a seguir.

São Bento, a partir de então, dedicará toda a sua vida a fundar mosteiros, a começar pela grande Abadia de Monte Cassino. Funcionavam regidos por um estatuto que ele mesmo redigiu, conhecido como “Regra de São Bento”, que delimitava os princípios da vida e da espiritualidade beneditina, cuja base era deixar sempre Cristo em primeiro lugar (Christo nihil praeponere). A comunidade beneditina tinha como propósito fundamental conduzir seus membros à união íntima com Deus, pela prática da oração e a conquista da vida virtuosa, sem desprezo, porém, pelo trabalho material e intelectual. Sua filosofia está condensada em sentença que ficou famosa: “Ora et labora” (Reza e trabalha).

Um monge que vive em comunidade deveria dosar, obviamente, solidão e convivência. A razão do sucesso da ordem religiosa fundada por São Bento estava justamente na integração de valores aparentemente discordantes, como o isolamento e a comunidade, o trabalho e a oração, vida prática e vida contemplativa, razão e ação.

São Bento viveu à época da queda do Império Romano, quando o mundo civilizado corria o sério risco de desaparecer e viver sob a mais completa barbárie. De fato, algo mais ou menos parecido ocorreu na História: os povos bárbaros, entre os séculos VI e VIII, passavam sobre o Ocidente como uma máquina de rolo compressor, destruindo o grande patrimônio cultural que gregos e latinos tinham legado à humanidade: o pensamento lógico e a ordenação jurídica da sociedade.

Outros, porém, eram os planos de Deus. As forças das trevas não venceriam. De fato, não venceram: a fé cristã ergueu das ruínas romanas uma nova civilização, juntando à filosofia grega e ao direito romano a sua nova mensagem, cuja base era a crença na vida eterna e a idéia do ser humano como pessoa inviolável.

Os monges provinham de todas as classes sociais: eram nobres e plebeus, operários e camponeses, cultos e analfabetos. Um grande respeito pelo estudo e pela pesquisa foi o traço distintivo da ordem beneditina, que transformou os monastérios medievais em verdadeiras ilhas de cultura, espalhadas por toda a Europa — trincheiras de uma guerra santa, em que as principais armas eram a oração, o trabalho e o estudo. A cópia perseverante de manuscritos antigos ligava o passado ao presente, impedindo que desaparecessem as lições do passado. A necessidade de sobrevivência obrigava os monges a preparar a terra e plantar, a maioria das vezes em terrenos inóspitos, levando-os a descobrir novas técnicas agrícolas. Foram pioneiros da pesquisa científica, e as escolas monásticas se transformaram em embriões das futuras universidades, fundadas pela Igreja a partir do século XII (e que, mal fundadas, já começariam a trair a sua natureza).

Mas nada disso teria ocorrido sem a força da oração, sem o contraponto da vida contemplativa, combustível espiritual que abasteceria essa grande máquina de fabricar cultura que foi a Ordem Beneditina. São Bento não tinha em mente fundar uma nova civilização, mas somente conservar os valores básicos do cristianismo, mas, ao fazer isto, criou a maior civilização da história humana: a ocidental. Jesus Cristo, através da Igreja Católica, será sempre a principal fonte das coisas boas, das coisas belas e das coisas verdadeiras. (12/02/2017)

 

 

As três colunas do cristianismo

 

As três principais colunas do cristianismo são a crença em um Deus trinitário, na divindade do homem Jesus Cristo e na Igreja por Ele fundada como caminho de salvação. Segundo o Papa Pio XII, três grandes revoluções abalaram o edifício cristão, nos últimos quinhentos anos, a partir dessas três colunas-mestras: a reforma protestante (ruptura com a Igreja Católica), a revolução francesa (negação da divindade de Cristo) e, finalmente, o comunismo soviético (negação de Deus).

A primeira revolução, erroneamente chamada de “reforma”, explodiu no século XVI sob o comando de Lutero, Calvino, Zuínglio e outros, tendo como alvo a Igreja Católica que, fundada pelo próprio Cristo, já contava com mil e quinhentos anos de existência. Esses reformadores eram todos católicos, que não quiseram enfrentar por dentro os problemas da Igreja — alguns  gravíssimos —, e foram lavar a roupa suja fora de casa, ao contrário de muitos santos e santas, que optaram por permanecer no catolicismo romano e restaurar a Igreja ferida. A revolução protestante baseava-se no “livre exame”, ou seja, na capacidade individual e independente de interpretar os fatos relacionados à História Sagrada.

A segunda revolução ocorreu dois séculos mais tarde. Buscava alvejar, dessa vez, a divindade de Jesus Cristo e outras verdades reveladas da fé cristã: era o iluminismo racionalista, que se beneficiou enormemente do “livre exame” posto em circulação pela mentalidade protestante. Suas expressões mais notórias foram a criação da maçonaria, no começo do século XVIII, e, no final do mesmo século, a revolução francesa, mestra sanguinária dos totalitarismos contemporâneos.

Finalmente, irrompeu a terceira grande revolução. Foi gestada no século XIX e, em nalguns aspectos, era conseqüência das duas grandes revoluções anteriores: é o movimento materialista, que pretendia ser exclusivamente científico e anti-metafísico. Seus principais núcleos de pensamento foram a filosofia positivista de Augusto Comte, o evolucionismo darwinista, o comunismo de Karl Marx e a psicanálise de Sigmund Freud. Todos tinham, em comum, a pretensão de negar a existência de Deus. Sua materialização mais contundente foi a revolução comunista, que preferiu apostar mais na orfandade metafísica que na paternidade divina, e cujos males foram largamente espalhados pelo mundo, no século XX.

As três colunas-mestras do cristianismo ainda permanecem de pé (a Igreja Católica não está morta...), mas continuam a sofrer repetidos golpes dos adversários, impiedosamente desferidos pela mídia, pela universidade, pelos intelectuais. Com tantos inimigos à frente, o caminho da evangelização católica, em nossa época, deve refazer o tríplice percurso da terrível destruição posta em ato. Há três colunas, portanto, por salvar dos incansáveis martelos: Deus existe, Jesus é Deus e o cristianismo é a única religião verdadeira.

O homem contemporâneo pergunta-se, com frequência: “Acaso não serei suficientemente adulto para me salvar sozinho, compondo meu prato religioso no variado self-service da fé que a modernidade me oferece?” Sempre atacados pelo vírus adâmico da soberba, acreditamos que sim, que tudo podemos por nós mesmos. Mas Deus, que conhece nossa miséria e cada fio de nossa cabeça, sabia que não: enviou o Cristo Cordeiro para imolar-se e nos salvar, fundando uma Igreja que deveria ser a mestra das nações, una, santa e universal.

Portanto, se Deus existe, se Jesus é Deus, se fundou uma Igreja, e se desejou que essa Igreja cuidasse de nossa “educação sobrenatural”, delegando-lhe o papel de bússola da História e das almas, como não submeter-se com total adesão à vontade do próprio Criador? O Senhor prometeu que zelaria sempre de Sua Igreja, a qual, além da instituição visível que a sustenta no tempo, sujeita às chuvas e trovoadas de todas as instituições terrenas, representa no entanto bem mais do que isto: é o Corpo Místico, cheio da sabedoria dos santos, do qual Cristo é a Cabeça.

Mantenhamos o corpo sempre junto à cabeça. Restauremos as três colunas feridas. Deus, por ser amor, prefere a unidade à fragmentação. (04/02/2017)

 

 

Vitimismo católico

 

Dr. Dimas Covas, docente da Faculdade de Medicina da USP, Ribeirão Preto, em seu blog Memorabilia (https://dimascovas.wordpress.com), fez recentemente uma aguda reflexão sobre o vitimismo atual na Igreja Católica.

O texto “O vitimismo na Igreja Católica” vê na Igreja de hoje uma forte tendência de “transformar o católico ideal em uma vítima, seja social, seja economicamente, de algo perverso que ora parece ser a própria vida, ora o capitalismo, ora os ricos, ora os políticos e assim por diante. O catolicismo, nesta visão curta, parece ser uma religião que necessita de vítimas para justificar a ação pastoral. As vítimas mal definidas, sejam elas quais forem, tornam-se assim alvo da ação preferencial da igreja que gasta parte substancial da sua energia teorizando e pregando especialmente em nome e para estas vítimas.

Além desse vitimismo à esquerda, fruto da “teologia da libertação e seu marxismo oculto, tentando reabilitar a luta de classes no interior da igreja”, o autor sugere, mas não desenvolve, a idéia da permanência de uma outra espécie de vitimização católica: “O catolicismo deveria, na minha opinião de fiel, deixar de valorizar a queda, o erro, o pecado e passar a enaltecer a virtude, o esforço, a iluminação, a educação; não apenas a redenção dos pecados, mas a superação da ignorância, a superação das limitações impostas pelo meio, pelos condicionantes sociais e econômicos por meio da promoção do homem, por meio  da elevação, da descoberta do Divino no íntimo do ser.”

Esse vitimismo “à direita” (se for possível adaptar à realidade eclesial categorias emprestadas da ciência política), parece remanescente do velho jansenismo, que considerava a salvação humana uma obra quase impossível, numa atitude pessimista que tinha e tem grandes pontos de contato com a doutrina calvinista da predestinação. 

Enfim, nem vítima de classes opressoras cruéis, nem vítima de um Deus inclemente, muito semelhante ao Alá islâmico, o ser humano, para o autor, “não é, por principio, vítima de nada a não ser de si mesmo. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, portanto, existe em nós a potência Divina. O espírito perfeito, na figura trinitária, habita em nossos corações. Pode estar oculto, pode estar calado, pode estar submerso pelo pecado, mas ali, no nosso íntimo ser, está presente. Não é da natureza divina do homem procurar a queda, transformar-se em vítima de qualquer situação. Ao contrário é da sua natureza unir-se ao criador.

Dr. Dimas defende, na contramão desse vitimismo suicida, um catolicismo orgulhoso de sua mensagem de salvação, de seu papel histórico e cultural, criador da maior civilização já existente na história humana, a civilização ocidental.

Há outros textos interessantes no blog desse médico hematologista que é, também, interessado em literatura, artes e filosofia (ensina de filosofia da ciência na pós-graduação). Está bem longe de ser um especialista no sentido moderno da palavra, que cuida exclusivamente da sua área de atuação. Destacaria, aqui, as reflexões interessantes sobre os limites do conhecimento científico. Outro tema instigante, também abordado em seu blog, é o problema do evolucionismo (seria oportuno ouvi-lo sobre a questão da compatibilidade da teoria evolucionista com a doutrina cristã).

Enfim, considerando a deplorável situação atual da universidade, de completo deserto espiritual, é preciso agradecer a Deus a graça de um docente católico atuando no meio acadêmico. (29/01/2017)

 

 

Luz dos povos

 

O que acontece com certa tendência pós-conciliar da Igreja Católica, quando deixa de ter como propósito principal a luta pela conversão dos não-católicos, e se limita a expor o Evangelho às outras culturas? Está contrariando explicitamente o próprio Concílio Vaticano II, cujo documento “Lumen gentium” diz em seu parágrafo 14, cap. II:

“O sagrado Concílio volta-se primeiramente para os fiéis católicos. Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação. Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr. Mc. 16,16; Jo. 3,15), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar.” (24/01/2017)

 

 

O bom padre e seu misterioso cão cinzento

 

Era um padre corajoso e trabalhador. Tinha fundado, em Turim, um colégio para combater a ignorância e a miséria da juventude mais pobre, no qual, além de instrução escolar e religiosa, ensinava também os ofícios mais comuns. Queria formar cidadãos honestos e bons cristãos, que saíssem das ruas e pudessem, um dia, chegar ao Céu. Era o único caminho que desejava para os seus jovens alunos: a salvação eterna.

O padre trabalhador estava, porém, ameaçado de morte pelas lideranças liberais da época (que incluía protestantes e maçons), pois era também, além de padre, um escritor muito ativo: não abria mão de defender publicamente a Igreja Católica, através de cadernos que ele mesmo escrevia e imprimia, na gráfica que montou a duras penas. Segundo ele, os católicos mais devotos, expostos às más leituras, em breve se transformariam em pessoas ímpias e revoltadas, perfeitos anticristãos.

Era uma época difícil para o catolicismo, de aberta perseguição da Igreja da parte dos liberais (que de liberais só tinham o nome). Qual era o crime do padre? Alertava os católicos contra os inimigos da Igreja, utilizando os meios legítimos e universais da guerra cultural: com palavras e com idéias. Mas os liberais não queriam que ele fizesse isto, pois o padre tinha sucesso com seus artigos e pequenos cadernos, e buscavam impedi-lo — grandes liberais! — com a própria força física. Além de inúmeras calúnias, foram muitos os atentados que sofreu, entre 1852 e 1866, durante mais ou menos quinze anos, com armas de fogo, facas, bastões e tentativas de envenenamento.

Mas o padre não estava sozinho. Durante essas perseguições, um estranho personagem esteve sempre ao seu lado: era um grande cachorro cinzento, com aspecto de lobo, de orelhas retesadas, que surgia inesperadamente, salvava o padre de seus inimigos e, súbito, desaparecia.

Foi por volta de 1852 que começaram as ameaças. Embora aconselhado a não andar sem companhia, naquele escuro fim de tarde o padre voltava sozinho para o colégio, um tanto afastado da cidade. Ia cismado com os inimigos, quando de repente viu a seu lado um enorme cão que, de início, o assustou. Logo ficaram amigos e o cão o acompanhou até em casa. O fato se repetiria noutras vezes, sempre que o padre tinha de voltar sozinho.

Como não lhe soubesse o nome, apelidou-o de Grigio (cinzento em italiano). Era uma amizade de rua e calçada, sempre ocasional, pois Grigio nunca tinha hora para aparecer. Nalgumas vezes, a sua aparição era realmente providencial, surgindo sempre no momento preciso, como se caísse do Céu: urrava como um urso, lançando-se com dentes e patas sobre os agressores do sacerdote. Com o tempo, os alunos do colégio foram se acostumando com aquela estranha amizade do padre. Como não estranhariam um cachorro que, à diferença de seus colegas de espécie, nunca aceitava comida?

A última vez que o viu foi em 1866. O padre caminhava sozinho pela estrada, dirigindo-se à casa de um amigo que vivia fora da cidade. Como já era noite, ia ressabiado; e pensou que seria muito bom se o amigo Grigio aparecesse... Pensado e feito: naquele momento, o cão saiu do escuro e veio correndo em sua direção, acompanhando-o até o fim do percurso.

Na casa do amigo, Grigio aguardou deitado a um canto da sala, enquanto todos jantavam. Terminada a refeição, o padre lembrou-se de alimentá-lo. No entanto, ele já não estava na sala. Nem na sala, nem em lugar algum. Vasculharam todos os cômodos do sobrado, e nem um sinal do grande cachorro cinzento. Como teria saído, se todas as portas e janelas da casa estavam fechadas? Por que os cães da propriedade não deram o alarme?

Foi assim, envolta em mistério, a última vez em que viu o amigo Grigio, que tantas vezes lhe tinha salvado a vida. Curiosamente, a partir de então cessariam as perseguições ao padre, que, aliás, atendia pelo nome de João... O seu colégio para jovens se espalharia pela face da terra, junto com a congregação religiosa por ele fundada. Hoje, Padre João é um dos santos mais queridos da Igreja Católica: São João Bosco. Ou simplesmente Dom Bosco, como costuma ser tratado por seus milhões de devotos no mundo todo. (14/01/2017)

 

 

Os pretos escravos e a devoção do Rosário

 

Os templos católicos estão sempre contando histórias, com sua arquitetura ou suas imagens. A alegação protestante de que os “cristãos romanos” são idólatras, por adorarem imagens, não tem procedência. Uma das funções da imagem, em nossos templos, é ilustrar aspectos importantes da história sagrada. Nos primeiros tempos da Igreja, sobretudo depois que o Império Romano deixou de perseguir os cristãos, as imagens (estátuas ou pinturas) auxiliavam na catequese da maioria analfabeta da população, fixando na mente das pessoas os momentos centrais da fé cristã. É o que ensina o historiador austríaco Ernst Gombrich, que não era católico, em sua famosa “História da arte”.

Do ponto de vista das artes visuais, o Santuário do Bom Jesus, em Batatais, é uma verdadeira escola cristã. Será porventura casual o fato da nossa bela igreja, dedicada ao Cristo próximo de ser crucificado, ter justamente uma estrutura cruciforme?

O altar de Nossa Senhora do Rosário, como foi ressaltado em crônicas anteriores, ensina muito sobre a história da Igreja e, em particular, de um capítulo importante da história social da cidade de Batatais. É impossível falar desse altar sem referência especial à Irmandade do Rosário, confraria criada na Idade Média, pelos frades dominicanos, para difundir a oração do Rosário.

As confrarias ou irmandades católicas são associações de leigos que se reúnem para fomentar algum culto religioso, seja ao Santíssimo Sacramento, à Virgem Maria ou a algum santo, visando transformar a fé em fundamento da vida humana e caminho seguro para a busca da santidade pessoal. Qualquer cristão pode fazer parte delas, a partir de um ato público de admissão, no qual se faz um juramento de regras, com promessa de fidelidade e serviço.

Batataenses mais velhos ainda se lembrarão, com saudades, da profusão de confrarias na velha Igreja Matriz, à época do Monsenhor Mário: Congregação Mariana, Pia União das Filhas de Maria, Legião de Maria, Cruzados, Irmãos do Santíssimo, Apostolado da Oração, Irmandade do Rosário, das quais só as três últimas sobrevivem.

As Irmandades do Rosário, criadas com o objetivo especial de difundir a oração do Rosário, eram mais conhecidas, em todo o Brasil, como Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, pois inicialmente se restringiam aos escravos. Foram importantes na cristianização dos negros, contribuindo decisivamente para a sua integração social. Atestam, também, o cuidado da Igreja Católica na promoção humana e espiritual dos cativos. Não podendo alterar o fato iníquo da escravidão, a Igreja buscava integrar os marginalizados, sempre respeitando os elementos da cultura a ser integrada, assimilando os que não feriam a identidade cristã. No caso dos negros, contribuiu para a sua inserção menos traumática na civilização ocidental, com a qual só lucraram, apesar dos argumentos contrários dos marxistas.

A Irmandade do Rosário talvez seja a mais antiga confraria laica de Batatais. Segundo pesquisadores locais, essa associação de escravos remonta aos inícios do século XIX, tendo surgido com a própria freguesia dos Batatais. Teve capela própria (v. foto abaixo), situada no largo em que hoje se encontra a Câmara Municipal. Com a abolição da escravatura, a Irmandade mudou-se para a antiga Igreja Matriz, onde permanece até hoje, no Santuário do Bom Jesus. O belíssimo altar, erguido à devoção do Santo Rosário, será garantia da permanência, entre nós, da confraria da Irmandade do Rosário, que difunde a oração que Nossa Senhora mais aconselha em suas aparições.

Gostaria de agradecer, de maneira especial, ao Reitor do Santuário do Bom Jesus, Padre Pedro, pelas valiosas informações prestadas sobre o altar do Rosário. (05/01/2017)

 

 

Reflexões católicas sobre a paz

 

Como obter verdadeira paz no ano que começa? Jesus tem palavras muito desconfortáveis sobre o mistério da paz. Disse certa vez, aos apóstolos, que não tinha vindo para trazer paz (a paz superficial do mundo), mas a espada...

“Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (São Mateus, 10, 34)

Jesus sabia que a “loucura da Cruz” incomodaria a “sabedoria do mundo”. No cristianismo, paz é antes de tudo estar “de bem” com Deus, ou seja, satisfazer plenamente a Sua vontade, o que, em palavras simples, significa não pecar (verbo incômodo que o mundo moderno detesta). Essa paz com Deus, porém, pressupõe muita luta. “Se queres paz, prepara-te para a guerra”, diz o famoso provérbio latino.

Paz não é armistício. Paz como ausência de guerra é só uma conseqüência da paz com Deus. Quem está de bem com Deus, estará de bem com o próximo. (02/01/2017)

 

 

As aparições da Virgem Maria em Fátima

 

Como parte integrante do altar de Nossa Senhora do Rosário, no Santuário do Bom Jesus, em Batatais, um óleo do pintor batataense Mozart Pela logo desperta a atenção. Trata-se da obra “Aparição de Fátima”, retratando a aparição de Nossa Senhora, em 1917, aos três pastorinhos portugueses Lúcia, Jacinta e Francisco, lembrando ao mundo que a vida não termina aqui.

Por que Fátima está presente em painel destinado a celebrar o Santo Rosário, junto de São Domingos, Santa Catarina de Sena, Papa São Pio V? “Rezem o terço todos os dias à Nossa Senhora do Rosário”, foi um dos pedidos da Virgem aos pastorinhos. O terço foi a arma que recomendou contra os males da História e a perdição eterna. “Muitas almas vão ao inferno, pois não há quem se sacrifique e reze por elas”, disse também. Ficou, por isso, conhecida como Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Os acontecimentos de Fátima já são conhecidos da maior parte dos católicos e podem ser divididos em três fases. O primeiro momento deu-se entre 1915 e 1916, quando o Anjo de Portugal apareceu algumas vezes aos pastorinhos. Teve um sentido preparatório para a segunda etapa das aparições, iniciadas a 13 de maio de 1917. No dia 13 de cada mês, até outubro, os três videntes puderam ver e ouvir a Mãe de Jesus. 

Em agosto de 1917, prometeu que na última aparição, a 13 de outubro, faria um milagre para que todos cressem em sua presença em Fátima. Foi um sinal maravilhoso, conhecido como “dança do Sol”. A chuva ininterrupta não impediu que ali se reunissem setenta mil pessoas, que puderam ver o Sol dançar no céu por alguns minutos. Parecia precipitar-se sobre a terra, secando a roupa molhada de todos os presentes.

A última fase de Fátima envolveu somente Lúcia. Foi entre 1925 e 1929, quando já estavam mortos seus primos Jacinta e Francisco (morreram quase crianças, logo após as aparições de 1917). Lúcia já era noviça e teve visões particulares de Jesus e de Maria, que deixaram mensagens complementares às já recebidas em 1917.

Nossa Senhora deixou aos videntes três “segredos”: primeiro mostrou-lhes o inferno, depois indicou-lhes a devoção a seu Imaculado Coração como arma de combate espiritual, e, por fim, mostrou aos pastorinhos uma cena profética. Como num filme, viram o assassinato de um Bispo vestido de branco, que a Igreja interpretou, alegoricamente, como as perseguições que a Igreja sofreria, em nossa época, pela mentalidade ateísta. Este “terceiro segredo” foi objeto de muitas especulações, rendendo uma ampla bibliografia nas últimas décadas, sobretudo nas imediações do ano 2000, quando Papa São João Paulo II autorizou a sua divulgação.

Nossa Senhora, em Fátima, chamou a atenção para o maior inimigo da Igreja no século XX: o materialismo ateu, cujo principal disseminador foi a União Soviética. Fez questão de nomear profética e explicitamente o perigo que representava a Rússia que, “se não se convertesse, espalharia os seus erros pelo mundo” (nas próprias palavras da Virgem Maria). É bom lembrar que a Revolução Soviética foi vitoriosa justamente em outubro de 1917.

A Rússia não se converteu. Sua visão materialista do mundo espalhou-se  pelo Ocidente e pelo Oriente, contaminando inclusive países capitalistas, como os Estados Unidos e as nações européias, que se orgulhavam de haver mantido o direito de propriedade e a liberdade de mercado, mas que, no fundo, se rendiam à ideologia do “politicamente correto”, cujos principais objetivos são a destruição da família pelo divórcio, o casamento gay, a aprovação do aborto e da eutanásia.

Das milhares de aparições de Nossa Senhora, Fátima está entre as quinze reconhecidas oficialmente pela Igreja (cf. Padre René Laurentin, Dictionaire des apparitions de La Vierge Marie, Paris, 2007). São elas: Guadalupe (México), Aparecida (Brasil), Afonso Ratisbone (Roma), La Salette (França), Lourdes (França), Pontmain (França), Gietrzwald (Polônia), Beauraing (Bélgica), Banneux (Bélgica), Amsterdan (Holanda), Betania (Venezuela), Akita (Japão), Kibeho (Ruanda) e San Nicolás (Argentina). (23/12/2016)

 

 

Virgem Maria em Lepanto

 

Outra bela história, silenciosa e coloridamente narrada pelo altar do Rosário, no Santuário do Bom Jesus, em Batatais, é a batalha naval de Lepanto, no litoral da Grécia, em que cristãos europeus e turcos muçulmanos se confrontaram, no dia 7 de outubro de 1571. É considerada uma das maiores batalhas navais de todos os tempos. Dela tomou parte um soldado que, mais tarde, se tornaria um célebre escritor: o futuro terciário franciscano Miguel de Cervantes, autor do clássico Dom Quixote de La Mancha.

Dois são os trabalhos do Santuário que se referem à vitória cristã de Lepanto: o vitral do centro, situado logo acima do altar do Rosário, trazendo a figura do Papa São Pio V (cuja agudeza diplomática foi a principal responsável pela aliança européia contra os muçulmanos), sentado no trono pontifício entre dois anjos; e abaixo, à direita, um quadro a óleo do pintor batataense Mozart Pela, com os brasões representativos das principais forças que integraram a Liga Santa cristã. 

A Liga Santa compunha-se do Império da Espanha, da República de Veneza e dos Estados Pontifícios, nem sempre em perfeito acordo entre si. O Papa estava ciente das dificuldades que os cristãos enfrentariam e pediu aos católicos que, através da oração — com destaque especial das Irmandades do Rosário —, participassem espiritualmente daquela batalha decisiva, rogando a intercessão da Virgem das Vitórias.

Apesar dos navios europeus contarem com algumas inovações tecnológicas, fruto do desenvolvimento da ciência náutica ocidental, era notória a superioridade numérica dos navios turcos. No início do confronto, a frota inimiga estava disposta em forma de meia lua — o “crescente” que simboliza a fé islâmica —, enquanto os navios católicos organizavam-se em cruz, com franciscanos e jesuítas confessando e levando comunhão aos soldados. Era uma típica guerra santa e justa, pois os cristãos só procuravam defender-se dos turcos, que estavam seguros de que em breve dominariam a Europa e a submeteriam à religião de Maomé, havendo prometido entrar a cavalo na Basílica de São Pedro, quando chegassem a Roma.

No entanto, alguns fatos inesperados começaram a ocorrer naquele trecho do Mediterrâneo. Por volta do meio-dia, o vento mudou inexplicavelmente de direção e passou a favorecer os cristãos. Conta-se, também, que os muçulmanos viram no alto, sobre os navios cristãos, a gigantesca imagem de uma Senhora com semblante ameaçador... Às quatro da tarde, a Liga Santa já era vitoriosa.

Nessa mesma hora, São Pio V — o Papa dominicano do Concílio de Trento — estava reunido com seus cardeais, na Cúria Romana. De repente, o pontífice imobilizou-se e emudeceu, parecendo em êxtase. Em seguida, levantou-se e dirigiu-se à janela. Tinha acabado de ter uma visão da vitória. Ao voltar, comunicou com firmeza aos prelados: “Nossos soldados venceram!” Só vinte e três dias depois chegaria a confirmação oficial do sucesso.

Em agradecimento à Rainha do Céu e da Terra, a quem atribuiu a vitória, São Pio V criou a festa de Nossa Senhora da Vitória, logo depois mudada para Nossa Senhora do Rosário, celebrada a cada dia sete de outubro, fortalecendo notavelmente a devoção do terço (que muito deve, como já visto, aos filhos de São Domingos).

Hoje, o islamismo está crescendo. A conquista da Europa parece ser um dos objetivos dos seguidores de Maomé, que também já olham com ambição para as Américas. Pouco a pouco, sem nenhuma batalha de Lepanto, espaços tradicionalmente cristãos são agora ocupados por mesquitas e pessoas rezando de braços erguidos ao céu, voltadas para Meca. É a consequência de um Ocidente que deixou de fazer filhos e se vê forçado a acolher trabalhadores de países muçulmanos.

A vitória de Lepanto foi, sobretudo, uma vitória de Jesus, do Deus que se fez homem, em cuja divindade os muçulmanos não acreditam. Entre nós, também aumenta a crença de que Jesus não é Deus, não passando de um espírito iluminado, um anjo de luz, um grande sábio, a exemplo de Buda ou Confúcio. Novas batalhas de Lepanto são travadas sempre que, em homilias, salas de aula ou páginas da internet, aparecem cristãos dispostos a resistir aos novos anticristos — ou seja, a todos aqueles que, hoje, insistem em negar a divindade de Jesus. (04/12/2016)

 

 

Literatura deleitante

 

O ensino da literatura, na universidade, está todo ideologizado. É difícil entrar e é difícil se manter nos departamentos de literatura, como professor. Nas seleções para pós-graduação, os autores objetos das teses são policiados pelo crivo do politicamente correto, o mesmo valendo para a metodologia a ser aplicada na investigação.

Mais lucraria, hoje, quem estudasse literatura como “diletante” (que tem a mesma raiz de deleitar-se, fazer algo por prazer, não por obrigação profissional). O “deleitante” com literatura é o que lê o que é necessário para a formação espiritual, e não o que a academia impõe na mera instrumentalização dos textos a serviço das ideologias da moda. O poeta T. S. Eliot preferiu continuar bancário durante uma parte do dia, em vez de enfrentar a carreira acadêmica. Acho que foi sábio. (03/12/2016)

 

 

A coragem de Santa Catarina de Sena

 

Segundo uma tradição bem difundida, Nossa Senhora apareceu a São Domingos de Gusmão e lhe pediu que disseminasse pela Europa a oração do Rosário (que, então, era conhecida como Saltério da Virgem Maria e ainda não tinha a forma de hoje). Era mais uma arma de combate à heresia cátara, que entre outras coisas negava a divindade de Jesus. O Rosário era uma oração sob medida para tal combate, centrada nos principais mistérios do Deus que se fez homem. Os dominicanos encarregaram-se de espalhar essa oração por toda a cristandade, e coube a um frei dominicano, Alano de La Roche (1428-1475), a responsabilidade de imprimir ao Rosário o seu aspecto atual.

Por que Santa Catarina de Sena (1347-1380) está associada a São Domingos, no altar do Santuário do Bom Jesus? Certamente, pelo intenso trabalho que a religiosa dominicana realizou em defesa da unidade da Igreja Católica. Como filha de São Domingos, terá sido devota do Saltério da Virgem; foi rezando com Maria, que Catarina se aproximou de Jesus e pode lutar destemidamente pela unidade da Igreja, seriamente ameaçada pelas heresias e os interesses políticos. O próprio São Domingos lhe apareceu, na juventude, e lhe mostrou o hábito das irmãs dominicanas (vestido branco e véu preto), o que a fez decidir-se pela vida religiosa.

Vigésima quinta filha de um tintureiro de Siena, Catarina logo cedo ofereceu a vida ao Senhor, o que não agradou à família. Já na infância rezava muito, fazia penitência, jejuava. Aos doze anos, quando os pais já pensavam em arranjar-lhe marido, cortou os cabelos e encerrou-se em seu quarto, sempre a rezar. Certo dia, o próprio pai surpreendeu uma pomba sobrevoando a filha durante a oração.

Depois dos votos religiosos, prestou serviços junto a enfermos, sobretudo os de doenças contagiosas, que cuidava com corajosa generosidade. No entanto, além da vida de ação, foi uma grande contemplativa. Tinha vinte anos quando, pelas mãos de Nossa Senhora, Jesus lhe apareceu como noivo místico. Por essa promessa de núpcias, Dele recebeu uma aliança que somente ela podia enxergar no dedo. Mais tarde, noutra aparição, Jesus finalmente lhe substituiu o coração pelo seu: o casamento místico estava realizado.

Catarina foi mulher movida pelo Espírito Santo. Com freqüência, tinha êxtases místicos, lutava com o demônio, experimentava bilocações, lia os pensamentos alheios. Por quase dois meses, alimentou-se exclusivamente de Eucaristia. Freira terciária, com permissão de residir com a própria família, estava em permanente contato com o mundo, sempre junto dos que necessitassem de ajuda material ou espiritual. Reuniu à sua volta um grupo de filhos espirituais, de várias idades e procedências, com os quais estudava a doutrina católica. Para ela, oração e estudo eram coisas inseparáveis, não admitindo que os fiéis ignorassem os ensinamentos da Igreja.

Catarina tinha o dom da “sabedoria infusa”, que vinha diretamente de Deus. Viveu boa parte da vida escrevendo e respondendo cartas (380 ao todo), que hoje compõem sua famosa e densa correspondência, publicada sob o simples título de “Cartas”, dirigidas a religiosos, parentes, amigos, ou a pessoas importantes, como príncipes ou o próprio Papa. Escreveu, também, uma obra-prima da espiritualidade católica, “Diálogo da Divina Providência”, além de várias orações. Em 1970, declarou-a Doutora da Igreja o Papa Paulo VI, reconhecendo a alta espiritualidade de suas obras, a maior parte das quais ditada, pois aprendeu a escrever só no final da curta vida.

Tão próxima estava de Cristo, que como Ele morreria aos trinta e três anos, depois de haver recebido os estigmas. Dessa total configuração ao Esposo, vinha-lhe uma grande coragem: não temia dizer a verdade, fosse a quem fosse. Quando, com apenas seis anos, Jesus lhe apareceu vestido de Papa, queria lhe dizer algo que só bem mais tarde compreenderia plenamente, ao empenhar-se pela volta do Papa Gregório XI a Roma (desde 1309, os Pontífices estavam exilados em Avignon, na França).

Nada a magoava mais do que as divisões internas da cristandade.  Suas idéias fixas eram a conversão dos pecadores e a unidade da Igreja. Inspirada por Jesus, em 1376 foi pessoalmente a Avignon alertar o “doce Cristo na terra” (assim chamava o Sumo Pontífice) que já não podia adiar a sua volta à Cidade Eterna. Disse-lhe palavras respeitosas e firmes, apelando para a hombridade do Santo Padre.

No ano seguinte, em 1377, Gregório XI voltava a Roma. (26/11/2016, para o jornal Agora, de Batatais)

 

 

As três colunas da fé

 

Três grandes revoluções abalaram o cristianismo nos últimos quinhentos anos: a reforma protestante, a negação da divindade de Cristo e, finalmente, a negação de Deus.

A primeira revolução, erroneamente chamada de “reforma”, foi o protestantismo, que explodiu no século XVI sob o comando de Lutero, Calvino e outros, e tinha como objetivo destruir a Igreja Católica, cujos problemas não quiseram enfrentar por dentro, como já tinham feito muitos santos reformadores durante a Idade Média, como São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, São Domingos de Gusmão, e outros. Era baseada no “livre exame”, ou seja, na capacidade individual de interpretar os fatos relacionados à “história sagrada”.

A segunda revolução, fruto da primeira, ocorreu duzentos anos mais tarde. Completava a obra protestante e buscava alvejar, dessa vez, a divindade de Cristo: era o iluminismo racionalista, que se beneficiou enormemente do “livre exame” posto em circulação pela mentalidade protestante. Suas expressões mais notórias foram a criação da Maçonaria, no começo do século XVIII, e a Revolução Francesa, no final do mesmo século.

Finalmente, irrompeu a terceira grande revolução. Foi gestada no século XIX e era conseqüência das duas revoluções anteriores: trata-se do grande movimento materialista que, desaguando no marxismo comunista, pretendia negar a própria existência de Deus.

As três colunas do cristianismo — a fé num Deus monoteísta, que enviou seu Filho para completar, com a Igreja, a obra da Revelação iniciada com a velha aliança judaica — rolavam por água abaixo, arrastadas pela moderna fúria revolucionária, que preferia apostar na orfandade metafísica que na paternidade divina.

Com tantos inimigos pela frente, o caminho de conversão, em nossa época, deve refazer o tríplice percurso dessa destruição. Há três colunas por salvar da torrente e reerguer com o guindaste da fé: Deus existe, Jesus é Deus e a Igreja Católica é o único caminho de salvação.

Mas não seremos suficientemente adultos para nos salvar sozinhos, compondo o nosso prato religioso no self-service da fé? Sempre atacados pelo vírus adâmico da soberba, nós achamos que sim, mas Deus, que conhece cada fio da nossa cabeça, disse que não.

Portanto, se Deus existe, se Jesus é Deus, se fundou uma Igreja, e se quis que essa Igreja cuidasse de nossa educação espiritual, delegando a ela o papel de bússola das almas, como não submeter-se com total adesão à vontade do próprio Criador? Prometeu que assistiria sempre a Igreja Católica, que, além da instituição que a sustenta no tempo, sujeita às chuvas e trovoadas de todas as instituições, é bem mais do que isto: é o Corpo Místico, do qual Cristo é a Cabeça. (03/11/2016)

 

 

São Domingos de Gusmão contra os cátaros

 

Continuemos nossa pequena excursão ao Santuário do Bom Jesus. O impressionante, no grande “painel do Rosário”, é a sua perfeita unidade, tendo ao centro o altar propriamente dito, réplica da tradicional representação pictórica de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, na Itália (que mereceria uma crônica à parte).

É preciso insistir que, naquele recanto do Santuário, estão resumidos alguns capítulos importantes da história da Igreja. De início, destacaremos três narrativas que ali se entrelaçam, referentes a três grandes lutas e a três grandes inimigos da Igreja e da civilização cristã: a heresia cátara da Idade Média; a ameaça muçulmana à época do Renascimento; e o movimento comunista do século XX. Os protagonistas das três batalhas foram católicos de diversas épocas, mas unidos pela mesma e poderosa arma, que é o Terço mariano.

Que foi a heresia cátara? O catarismo era uma seita maniqueísta, que afirmava ser bom somente o espírito, criado por Deus, enquanto a matéria era essencialmente má, pois teria origem diabólica. Eram inimigos da propriedade privada e o corpo era visto como sórdida prisão da alma. Dividiam-se em duas categorias: os “perfeitos” e os “simples”.

Os verdadeiros cátaros, os “perfeitos”, consideravam o sexo uma coisa abominável e se retiravam do mundo, vivendo em pobreza e mortificação. Eram vegetarianos — não ingeriam comida animal, produzida sexualmente. Já os “simples”, que compunham a grande maioria, viviam sem maiores constrangimentos morais. Para serem salvos, bastava que, na hora da morte, recebessem o “consolamentum”, uma espécie de sacramento que apagava todos os pecados anteriores. Casamento e filhos deviam ser evitados, enquanto o aborto, o suicídio e a eutanásia eram práticas legítimas, pois favoreciam a libertação da alma.

A ameaça social do catarismo logo chamou a atenção da Igreja, que se apressou a combatê-lo. Inocêncio III, o grande Papa desse período, percebeu que o mal avançava devido à ignorância religiosa dos católicos e enviou missionários especialmente preparados às regiões mais impregnadas pela heresia.

São Domingos de Gusmão, contemporâneo de São Francisco de Assis, foi um dos protagonistas na batalha espiritual contra o catarismo (que exigiu, também, outras armas). Espanhol de família ilustre, teve sólida formação intelectual e era de uma lucidez admirável, imbatível na argumentação. Foi, ao mesmo tempo, profundo místico e homem de ação, um pregador como poucos em sua época. A ordem por ele fundada em 1215, os Irmãos Pregadores, seria mais tarde a célebre Ordem Dominicana. Em contraste com padres e bispos de então, vestiam-se com extrema simplicidade. Iam de aldeia em aldeia, esclarecendo os cristãos sobre as verdades católicas. Onde houvesse ameaça à fé, São Domingos para lá enviava seus pregadores, que conciliavam admiravelmente a vida de estudo e a pobreza evangélica.

Esses pregadores de aldeia logo conquistaram cátedras nas grandes universidades da Europa (era dominicano o maior pensador católico da Idade Média, Santo Tomás de Aquino, nascido alguns anos após a morte do grande São Domingos). Enfim, foi da luta contra a perigosa heresia cátara — atualíssima em muitos aspectos — que surgiu uma das ordens religiosas mais fecundas da Igreja Católica. (28/10/2016, para o jornal Agora, de Batatais)

 

 

O poder histórico do Rosário

 

Venha comigo, leitor. Façamos uma rápida visita ao Santuário do Bom Jesus, em Batatais. Gostaria que você me acompanhasse, nesta crônica, a um lugar diferente e bem específico do grande templo — um recanto de discreta e silenciosa beleza. Refiro-me ao altar lateral de Nossa Senhora do Rosário, cuidado pela Irmandade do Rosário, a mais antiga confraria leiga de Batatais. Pretendo lhe mostrar, se você tiver paciência, a riqueza que ali se esconde.

Recuemos um pouco e olhemos, panoramicamente, o conjunto dos trabalhos artísticos que compõem o nicho semicircular do altar, sob o teto abobadado. O que vemos, à frente, é um grande e variado painel, composto de elementos arquitetônicos, imagens, pinturas e vitrais; e, o que é mais fascinante, todos eles interligados pelo enorme poder de uma coisa muito simples e humilde: o terço.

Vamos por partes. À altura dos nossos olhos, ocupando a parte central do espaço, está o altar propriamente dito, com a imagem de Nossa Senhora do Rosário e o Menino Jesus sobre o joelho esquerdo. Maria Santíssima oferece um terço a São Domingos, que está ajoelhado aos seus pés, pedindo-lhe que espalhe pela Europa a oração do rosário; enquanto isso, ao lado, o Menino Jesus entrega o terço e o coração a uma mulher coroada de espinhos, também de joelhos: é Santa Catarina de Siena, leiga da Ordem Terceira dominicana, fundada por São Domingos.

Se atentarmos aos vitrais que, no alto, circundam o nicho, perceberemos logo a ligação com o assunto geral. O vitral à direita representa São Domingos distribuindo terços, enquanto o da esquerda é quase uma réplica do assunto do altar, em composição um pouco diferente. Mais dois vitrais, já fora do nicho, um de cada lado, completam o conjunto: um deles homenageia o Santo Rosário e outro traz o brasão da Ordem Dominicana.

O vitral do centro, situado logo acima do altar, apresenta a figura do Papa São Pio V: foi ele quem costurou a aliança européia contra os muçulmanos em Lepanto, no século XVI, pedindo que toda a Europa rezasse o terço na intenção da batalha naval que ocorreria no litoral da Grécia. Os cristãos rezaram, os soldados lutaram e os muçulmanos foram vencidos.

Abaixo, à direita e à esquerda do altar, veem-se dois quadros a óleo do pintor batataense Mozart Pela, também bem integrados ao tema do conjunto. O primeiro é a “Batalha de Lepanto”, uma curiosa montagem de brasões representativos das principais forças europeias que integraram a Liga Santa cristã (Espanha, República de Veneza e os estados pontifícios), que derrotou os muçulmanos. No alto, uma cruz entrelaçada ao rosário é cortada pela inscrição com lugar e data da batalha: 7 de outubro de 1571.

O segundo óleo do mesmo pintor local é “Aparição de Fátima”. Sobre um fundo predominantemente azul, Nossa Senhora aparece em 1917 aos três pastorinhos portugueses. Estão ajoelhados a futura Irmã Lúcia e seus primos Jacinta e Francisco, com seu cajado de pastor. A Virgem de Fátima, que também é conhecida como Nossa Senhora do Rosário de Fátima, pediu insistentemente, nessas aparições, que se rezasse o terço todos os dias. (15/10/2016, para o jornal Agora, de Batatais)

 

 

Não há nada de novo sob o sol

 

Tudo se repete. Os petistas desempregados do Brasil podem mudar-se para a Colômbia, onde algo muito parecido ao PT pode recomeçar, com o possível acordo entre governo e as FARC (pelo menos nos termos em que esse acordo se realizaria). Já vimos esse filme. Ali surgirá em breve um Lula ou um Chaves, incensado pela mídia, a universidade e a classe média (que mais tarde, adúltera arrependida, o renegará em ritmo de bolero). Não sei quem inventou esse trocadilho fétido, mas não há outro capaz de expressar o nosso pobre continente: América Latrina. (13/10/2016)

 

 

O politicamente correto na Igreja

 

Há correntes ou movimentos da Igreja Católica que brotaram da própria Igreja, ou, no máximo, com influência das cercanias mais imediatas, como o Opus Dei, Renovação Carismática, Neocatecumenato, Focolares, Comunhão e Libertação.

Já a Teologia da Libertação é uma verdadeira intrusa: veio de muito longe, do continente oposto do marxismo. Só aparentemente foi escorraçada; possui estratégias sofisticadas para permanecer na Barca de Pedro sem chamar muito a atenção. No entanto, como o capetinha, por mais que se disfarce, sempre deixará visível um pedaço de rabo ou as unhas de lobo. É preciso notar como a sua linguagem politicamente correta — penso, agora, em palavrinhas forjadas pelo discurso neomarxista, como inclusão ou exclusão — se infiltrou nas homilias de padres insuspeitos de esquerdismo e no vocabulário corrente de verdadeiros católicos. Esse discurso anticatólico penetrou até nas orações, como é possível verificar nalguns livretos devocionais ou folhetos de Missa organizados por certas editoras católicas. (11/10/2016)

 

 

Viagem de turismo e peregrinação religiosa

 

Nas viagens de turismo, ocorre algo muito parecido ao uso de drogas: uma evasão da realidade cotidiana. Na peregrinação religiosa não deixa de haver o mesmo efeito, só que acrescido da satisfação espiritual. (07/10/2016)

 

 

Padre Pio e a “doçura do sofrimento”

 

Você olha para o mundo e reconhece que é belo; sente o seu corpo e percebe que é bom. Mas sabe também que o belo mundo é efêmero, que seu corpo é passageiro — e isto lhe faz sofrer. Haverá outra saída senão pedir a São Pio de Pietrelcina que lhe ensine a “degustar a doçura do sofrimento”, como ele mesmo recomendava a uma filha espiritual?

Como degustar a doçura do sofrimento, ó bom e santo frade? Nós não somos masoquistas. Não nos interessa o sofrimento pelo sofrimento, mas somente enquanto estado que aponta para outro estado; enquanto bilhete que dá acesso ao estado oposto.

Degustar a doçura do sofrimento... Isso será possível às pessoas comuns, como nós, ou só aos santos está reservado tal segredo? Nossa primeira reação, diante da dor, é recusá-la como algo torpe. Se é, porém, um bilhete tão promissor, como não vê-lo com carinho? Se foi Deus Quem o colocou em nossas mãos para esse nobre fim, como tratá-lo com desprezo? (05/10/2016)

 

 

Entre a soberba capitalista e a empáfia do socialismo

 

É o triste saldo da brincadeira comunista: quase cem milhões de mortes distribuídas entre China (65 milhões); União Soviética (20 milhões); Coréia do Norte (2 milhões); Camboja (2 milhões); África (1,7 milhão, distribuído entre Etiópia, Angola e Moçambique); Afeganistão (1,5 milhão); Vietnã (1 milhão); Leste Europeu (1 milhão); América Latina (150 mil entre Cuba, Nicarágua e Peru).

Como nossa época respeita mais números que idéias, é preciso exibir permanentemente esses números às vítimas da histeria ideológica, que ainda podem acordar do pesadelo revolucionário, da cega servidão a psicopatas frios e calculistas, travestidos de socialistas e amigos dos pobres. Estes são caso de polícia ou de manicômio. Os primeiros são pessoas muitas vezes bem intencionadas, movidas por certa caricatura do amor ao próximo, que é, no fundo, uma virtude enlouquecida, como diria Chesterton, uma virtude de cabeça pra baixo, quando dela se apropria gente como Robespierre ou Lênin.

Vamos mostrando os números e os fatos; e pedindo a sua conversão, se somos cristãos, crentes na “comunhão dos santos”, o único comunismo possível, que une, numa mesma cadeia de intercessão, os vivos deste mundo aos vivos do lado de Lá.

Isto não significa isentar de culpas a sociedade liberal e capitalista, que podia ser mais fraterna. O progresso econômico e técnico não justifica as condições desumanas de trabalho e a idolatria das coisas do mundo, que a história do capitalismo registra com muito pesar, assim como a hipotética fraternidade socialista não justifica os milhões de mortos imolados em seu santo nome.

Mas, para ser franco, ainda acho mais aceitável a soberba capitalista, com todos os seus terríveis pecados, do que a empáfia do socialismo com todas as suas pretensas virtudes... (29/09/2016)

 

 

Se enxerga, rapaz!

 

Naquele tempo, Jesus contou uma parábola aos discípulos:

— “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”. (São Lucas 6,39-42)

 

 

A eternidade volátil de Vinícius de Moraes

 

É impressionante como a poesia de Vinícius de Moraes, depois do poeta abandonar a fé cristã, não perdeu a religiosidade. Em vez, porém, do Deus monoteísta, criador do Céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis, a sua obra poética passou a cultuar unicamente o mundo visível, palpável, material, especialmente o sexo. Seus versos são produto de um esforço de construir uma “liturgia erótica”, um sistema de práticas e devoções destinadas à sua nova igreja do momento que passa, fundada no efêmero do amor carnal (que é eterno enquanto dura).

Para o ritual do deus erótico, propunha ele um sacerdote, uma sacerdotisa e o deus imanente que se apresentava como fruto exclusivo do ato sexual. Só no sexo enxergava Vinícius a salvação... Era preciso repetir indefinidamente essa busca salvífica, essa procura do absoluto erótico, que só podia dar-se no encontro íntimo do homem com a mulher.

Queria o poeta o absoluto, mas a partir do efêmero da união carnal... Para continuar no encalço desse absoluto sempre volátil, era preciso mudar permanentemente de parceira ritualística, assim que o relacionamento esfriava e perdia o fogo da paixão.

Sua poesia revela como ele procurava enredar-se nos sentimentos que melhor pudessem alimentar essa paixão: a angústia, a saudade corrosiva e a dor da separação não eram vistas como emoções negativas (a ser superadas pela tranqüilidade de um relacionamento estável), mas dilaceramentos fundamentais para realimentar e reacender o fogo passional sempre ameaçado de extinção. Suas letras românticas para as belas modinhas de Tom Jobim ilustram bem essa tentativa absurda de encontrar o absoluto erótico na eternidade passageira do orgasmo.

O descontentamento com o verdadeiro Deus e a construção de um deus próprio, mais adequado à demanda pessoal do poeta, era a fonte gnóstica dessa obra “religiosa” e “mística” à sua maneira, uma religiosidade indiscutivelmente demoníaca, mais material que espiritual, fundada mais na morte que na vida, mais amiga dos abismos que dos altos céus. (26/09/2016)

 

 

Santidade no Brasil

 

Quando os romeiros batataenses chegaram à cidade mineira de Três Pontas, sob o comando de Dirce Marques, espantaram-se com os morros e colinas forrados de pés de café. O município é um dos maiores centros cafeeiros do Brasil e, certamente, se orgulhará muito disto.

No entanto, o povo católico da região terá, cada vez mais, um motivo ainda maior de alegria: Três Pontas é também a cidade do Padre Francisco de Paula Victor, ou simplesmente Padre Victor, declarado beato pela Igreja em 2015. O milagre, exigido para beatificação, foi o de uma professora que engravidou contra todas as expectativas médicas: só tinha uma trompa uterina, porém obstruída.

Filho da escrava Lourença Maria de Jesus e de pai desconhecido, Padre Victor nasceu pertinho de Três Pontas, na vila de Campanha da Princesa da Beira, atual Campanha, em 12 de abril de 1827, num casarão da então Rua Direita pertencente à família de dona Mariana Ferreira, sua senhora e madrinha de batismo.

Há um preconceito, bem espalhado pelo Brasil, de que os escravos não eram respeitados pelos seus senhores, e só excepcionalmente recebiam tratamento digno. Não é verdade, como bem demonstrou o sociólogo Gilberto Freyre em sua clássica obra “Casa Grande & Senzala”. Ao lado de senhores cruéis, havia cristãos que temiam a Deus e sabiam que os escravos eram seus semelhantes, também salvos pelo sangue de Cristo na cruz.

Dona Mariana Ferreira era uma boa católica. Tinha pelo pretinho talentoso um carinho especial, tratando-o não como escravo, mas filho de Deus. Percebendo a inteligência do pequeno, ensinou-o a ler, escrever, falar francês e a tocar piano.

Além de inteligência, Deus lhe deu boa saúde de corpo. Certamente por influência da madrinha, pouparam-no dos serviços mais rudes reservados a pessoas de sua condição: foi alfaiate em sua adolescência e juventude. Tinha passado dos vinte anos, quando era aceito no Seminário de Mariana pelo Bispo Dom Viçoso (um santo pastor, cujo processo de beatificação já caminha no Vaticano). Dona Mariana doou ao afilhado o dote necessário para os estudos eclesiásticos, então exigido pela Igreja.

Em vez de rebelar-se, padre Victor foi um verdadeiro discípulo de Cristo, aceitando as humilhações inevitáveis que a sociedade da época lhe impunha. Sofreu com paciência o desprezo dos colegas brancos no Seminário, apesar da proteção de Dom Viçoso; superou as dificuldades iniciais de sua carreira religiosa, a partir de 1852, como pároco de Três Pontas, cargo que exerceu até sua morte, em 23 de setembro 1905, já nos inícios do século XX.

Em vez de rebeldia, contribuiu com obras concretas para o fim das barreiras sociais e humanas de sua cidade, fundando, em Três Pontas, a Escola da Sagrada Família, para servir toda a região e todas as classes sociais. Era notório o seu cuidado com todos os que necessitassem de conforto espiritual, em especial os pobres, livres ou escravos. Quando de sua morte, o corpo permaneceu exposto por três dias, sem maus odores, na Matriz por ele construída, tão grande era o número de pessoas de Três Pontas e região que vieram para despedir-se do seu pároco, já com fama de santidade.

É impressionante como Três Pontas se deixou impregnar da presença espiritual e até física do Padre Victor. Casas comerciais levam o seu nome ou ostentam o seu retrato. A Igreja Matriz Nossa Senhora d’Ajuda, onde o santo está enterrado, vive cheia de gente; e, aos domingos, são várias as missas com a capela apinhada de devotos. Romeiros pedestres se deslocam de cidades vizinhas para cumprir promessas ou alcançar graças. Enfim, toda a cidade parece viver sob a proteção do Padre Victor.

Como se não bastasse Padre Victor, Deus foi ainda mais generoso com Três Pontas: abriu-se recentemente o processo de canonização da madre carmelita Teresa Margarida do Coração de Maria, mais conhecida como “Nossa Mãe”, que foi fundadora e abadessa do Mosteiro São José.

Duas pessoas santas já intercedem por Três Pontas, no Céu. O que mais poderia desejar uma cidade? (19/09/2016)

 

 

Quando o silêncio é proibido

 

Em breve não ficará pedra sobre pedra na universidade. Uma de suas pedras angulares é, sem dúvida, o silêncio. Eu me lembro, quando comecei a trabalhar na universidade pública — o campus assisense da Unesp —, final dos anos oitenta, do efeito que tinha sobre mim um pequeno luminoso, já sem lâmpada, que havia no alto do corredor das salas de aula, pedindo “silêncio”. Gostava de vê-lo lá no alto, como sinal de outra época e outra maneira de compreender a relação com os livros e o conhecimento.

Aquele pedido de “silêncio” vinha de longe, dos fundadores e primeiros professores da faculdade (gente como Almeida Prado, Soares Amora, José van der Besselaar, Rolando Morel Pinto, Jorge de Sena, José Carlos Garbuglio, Ênio Fonda, Júlio Garcia Morejón, Antônio Cândido etc.),os quais, independentemente do que pensavam sobre política, sociedade ou Deus, ainda acreditavam no aspecto mais ou menos monástico do trabalho intelectual, apesar da influência negativa que alguns deles, como Antonio Candido, exerceriam sobre os vândalos posteriores.

Se o pequeno luminoso não fazia mais sentido naquela última década do século XX, e já era uma simples peça de museu esquecida em seu lugar de origem, hoje deve provocar observações no mínimo sarcásticas aos poucos alunos que ainda o enxergam no vasto corredor modernista do prédio de Letras, pois na mesma medida em que o silêncio é coisa básica para os estudos superiores, é absolutamente incompatível com a mentalidade acadêmica de hoje.

O barulho é o pano de fundo da modernidade. Quantas vezes as aulas se tornavam difíceis, e até impossíveis, pelo ruído pouco intelectual que vinha do corredor, da manada desembestada de alunos, adestrados pela pedagogia construtivista dos Piaget, Emília Ferreiro e Cia. Ltda., finalmente alforriados da prisão das salas e da tortura dos livros! (16/09/2016)

 

 

Notas sobre o filme Ressurreição, de Kevin Reynolds

 

Neste ano, estreou o filme Ressurreição, do diretor americano Kevin Reynolds. A história gira em torno de Clavius, tribuno e chefe militar romano que comandou a crucificação de Cristo e foi encarregado por Pilatos, nos dias seguintes, para investigar o desaparecimento do corpo recém sepultado e, sobretudo, encontrá-lo, para abafar os rumores de que teria ressuscitado. A maior parte do filme cobre a investigação realizada pelo militar romano, que finalmente descobriria Jesus vivo entre os discípulos. Depressa o reconheceu, identificando-o imediatamente com o crucificado que tinha visto morrer no monte Calvário.

Nesse momento, a vida do tribuno mudou. Ganhou logo a confiança dos apóstolos e com eles permaneceu, não mais porém ao serviço do Império Romano: acompanhou-os, testemunhando vários milagres realizados pelo Ressuscitado. Falou com o próprio Jesus, mas ao ser indagado, pelo Mestre, se enfim acreditava, pediu um tempo: respondeu que, como estava em jogo a sua eternidade, precisava pensar mais... Um pouco antes, Jesus tinha dito a Tomé, que, enfim, depois de tê-Lo visto, passou a acreditar: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (São João, 20, 19) Clavius, misteriosamente, viu e ainda assim não acreditou. Será, doravante, a mais infeliz das criaturas, o protótipo dos personagens existencialistas da literatura moderna, treinados para duvidar da própria sombra.

O diretor, homem de formação protestante, deixou algumas marcas calvinistas no filme. O seu Jesus convence pouco. Minha mulher, que comigo viu o filme, percebeu certa malícia em seu olhar, que não combina lá muito bem com aquele que era homem em tudo, menos no pecado. Os santos apóstolos transmitem pouca espiritualidade, como se não tivessem convivido intimamente, por três anos, com o Homem Deus.

A cena que mais me agradou foi a investigação de Clavius junto ao apóstolo Bartolomeu, buscando arrancar-lhe informações sobre o paradeiro do corpo de Jesus: é uma verdadeira “aula” do tribuno romano sobre os efeitos do cravo no corpo dos crucificados.

Não se pense que seja um filme protagonizado por Jesus: o personagem principal é o próprio Clavius, que me parece um agnóstico típico de nossa época. Mudou de vida, é certo, depois que viu Jesus e passou a conviver com os apóstolos. De perseguidor dos cristãos, passou a perseguido de Pilatos. Mas, no final, perguntado pelo interlocutor a quem narrou sua história, se enfim acreditava, respondeu hesitante:

— Acredito... que jamais serei o mesmo...

Mais que um filme sobre a ressurreição de Cristo, tematiza a dificuldade de crer, sobretudo para aqueles que, como Clavius, puderam ver tudo. Os judeus também tinham visto os milagres e os atribuíam a Satanás. Clavius aceitou a moral cristã, mudou de vida, mas relutava quanto à sobrenaturalidade do que tinha visto, como hoje fazem ateus,agnósticos, parapsicólogos, diante dos milagres.

Não é um filme feito para ostensivamente abalar a fé dos crentes, embora me pareça que os protestantes o possam ver mais à vontade que os católicos: a cena de Maria, mãe de Jesus, esgoelando aos pés da cruz, não harmoniza com a imagem que fazemos de Nossa Senhora, que tudo sabia guardar em seu coração, como o fez a Maria de Mel Gibson, em Paixão de Cristo, que sofria como ninguém ao ver o Filho naquele estado, mas sabia que sua missão era ajudá-Lo a cumprir Seu desígnio redentor.

Ressurreição é, sobretudo, um filme feito para não incomodar os que não crêem: a permanente hesitação de Clavius deixa-os muito à vontade na poltrona. Alguém poderia acrescentar, não sem razão, que esse personagem hesitante é mais nocivo que benéfico à fé dos já crêem, e seria até possível perceber, aqui, o dedo mindinho do Inimigo...

Enfim, sentimos que falta alguma coisa a Ressurreição. Talvez sejam o temor e a reverência que a verdade deve obrigatoriamente inspirar, como bem observou um comentarista americano. Resta-nos esperar pela versão cinematográfica da ressurreição já prometida por Mel Gibson, como coroamento de seu belíssimo trabalho anterior, a Paixão de Cristo. (14/09/2016)

 

 

A tentação revolucionária

 

Trabalhei 26 anos numa universidade pública, cercado de comunistas por todos os lados. Fui forçado a concluir que, com as luzes da simples razão, é impossível convencê-los do seu engano, daquele absurdo de construir uma “sociedade perfeita” num mundo tão provisório como o nosso, rompendo com as regras morais belíssimas que cristianismo nos legou, baseadas na contenção das paixões (que o próprio estoicismo pagão já recomendava). Como podem acreditar que o estado super-controlador seja fonte de felicidade? A literatura moderna está cheia de exemplos do que é o Estado Leviatã, onisciente, onipotente, onipresente, que quer ocupar o lugar de Deus e controlar cada célula do nosso corpo e do nosso pensamento.

Só a luz da Graça para os afastar de tantos equívocos. Não faz o menor sentido, naquele lugar, uma luta socrática e leal, com adversários civilizadamente empunhando argumentos. Então calei meu bico e empunhei o Rosário. Peço por eles e pelas vítimas que farão por aí como professores, pois seus erros se espalharão ainda por algumas décadas, quando Deus intervirá e dirá: “Basta de tanta asneira!

Andei lendo, nestes dias, a biografia do grande escritor italiano Alessandro Manzoni (1785-1873), romancista de “Os noivos”. Aos quinze anos, influenciado pelas idéias iluministas da família materna (era neto do famoso jurista Beccaria), rompeu com as ideias e a moral cristã. Não tardou a perceber o seu equívoco. Era um homem inteligente. Aos vinte anos, pasmo diante da irracionalidade da moral libertária nos altos círculos milaneses de sua convivência (era uma “zona total”, diríamos hoje), foi retornando às idéias mais conservadoras. Percebeu que uma sociedade baseada na liberação das paixões era suicida. Basta o raciocínio mais elementar para concluí-lo. “Vocês podem construir uma sociedade sem Deus”, disse certa vez São João Paulo II a uma multidão de jovens, “mas ela se voltará contra o homem.” (08/09/2016)

 

 

Por que a universidade não quer saber do Cristo?

 

Para quem ainda está na universidade, ou por ela passou, e vive se perguntando por que o cristianismo foi praticamente banido dos campus, a resposta está nos vídeos do curso do Padre Paulo Ricardo: “Marxismo Cultural e Revolução Cultural”. Estão todos no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=VyGQCs6RHd4&list=PL3C5CB833F0175C0D

 

 

Terço de agradecimento pelo impeachment

 

Um bom programa para o próximo dia 7 de setembro, feriado da Independência do Brasil, seria as famílias católicas se reunirem e rezarem um terço de agradecimento a Deus pelo impeachment (que não resolve tudo, mas já é um alívio). Nos intervalos das dezenas do terço, é possível render ação de graças pelo acontecimento, lembrando os perigos que o partido deposto representa para as pessoas e a família brasileira: promoção do ódio entre as classes e as etnias, a violência como forma de pressão política, a corrupção como instrumento de perpetuação no poder, a destruição sistemática da verdadeira cultura e da moral cristã, com a legalização do casamento gay, as tentativas de aprovação do aborto e, como coroamento, a educação a serviço de todas essas obras condenáveis. Peçamos, também, a Nossa Senhora de Fátima a graça da conversão das pessoas envolvidas nesse projeto nocivo. (04/09/2016)

 

 

O monge e o boêmio (crônica para o jornal Agora Batatais)

 

Certa madrugada, numa cidade grande, um monge caminhava pela rua, depois de permanecer boa parte da noite, numa capela, em adoração ao Santíssimo Sacramento. Ao passar por um bordel, deu de cara com dois jovens que saíam, após uma noite de farra e bebedeira. Um deles olhou com desprezo o religioso mal vestido e disse-lhe, com a voz alterada pelo álcool:

— Que decepção, cara, quando você morrer e verificar que o Céu não existe!

O monge, em tacada rápida e firme, sem perder o tom sereno dos religiosos, respondeu-lhe:

— Decepção maior será a sua, irmão, quando morrer e verificar que existe o Inferno...

Quem fez a opção de vida mais inteligente? Quem teria mais razão, na hora da morte? O monge ou o boêmio? O que viveu como se o inferno não existisse, ou aquele que confiou na Igreja fundada pelo Filho de Deus? Para o boêmio, o monge era um tolo que perdia a oportunidade de gozar a vida presente, em nome de uma ilusão futura. Para o monge, o boêmio era um imprudente: corria o risco de passar a eternidade longe de Deus.

Imaginemos o jovem boêmio, na hora da morte. Viveu sempre coerente com suas idéias, convicto de que a vida não era eterna e, por isso, podia desprezar os ensinamentos de Cristo. Casou-se, teve muitas amantes, ganhou e perdeu no jogo. Mergulhou fundo nos sete pecados capitais. Nada lhe parecia mais absurdo e inconveniente do que amar o próximo como a si mesmo...

Vamos supô-lo, agora, nos minutos finais do jogo da vida. O que lhe aguardaria, logo em seguida? O nada ou a vida eterna? Sabemos que não há uma terceira hipótese. Se continuasse a optar pelo nada, e o saldo final, após o último suspiro, fosse o fim de tudo, ele só perderia uma coisa finita: a sua pobre vida mortal. Incalculável, porém, seria o seu espanto — e bote-se espanto nisso! —, se existisse a vida eterna e ele não pudesse mais reverter o resultado.

É a famosa “aposta de Pascal”, filosofo e matemático católico do século XVII. Somos convocados a apostar e, depois da aposta, viver conforme a escolha feita: na vida eterna (os crentes) ou no fim de tudo após a morte (os ateus). Não há uma terceira saída, mesmo para as pessoas que preferem adiar permanentemente a decisão (os chamados agnósticos). Em qual das duas possibilidades você apostaria?

Há dois mil anos que a maioria das pessoas, no Ocidente, tem apostado na divindade de Jesus. Como o monge da nossa anedota, acreditamos que Ele fez todos aqueles milagres narrados na Bíblia e ressuscitou após a crucificação, confiantes no testemunho dos apóstolos, que mais tarde dariam a própria vida pelo Cristo redivivo que tinham visto e tocado. A maior parte dos homens sempre acreditou que a Igreja Católica foi fundada por Jesus, deixando-a como o único caminho de salvação; e que convém segui-la, para viver em paz com Deus. Por que apostar na descrença, nos falsos profetas, nas heresias da moda? Não é muito arriscado brincar com a vida eterna? (02/09/2016)

 

 

Os sábios deste mundo

 

Não há maior sofrimento, para os que tiveram a graça de sair do deserto do ateísmo ou da indiferença religiosa, do que olhar para trás e notar que há tantas pessoas lutando para sair de lá. Os que escaparam sabem, por experiência própria, que a luta não é fácil. O demônio não quer perder a presa e, por isso, capricha nas artimanhas, para retê-lo permanentemente nas malhas da hesitação e da dúvida.

Uma das dificuldades é livrar-se do aparato conceitual dos muitos ismos modernos, que pretendem manter as pessoas no deserto da descrença. É praticamente impossível pretender convencê-los com argumentos, por mais razoáveis que sejam. Santo Agostinho dizia que, para o que queria acreditar, tinha mil provas da existência de Deus, mas não tinha nenhuma para o que não queria crer.

A complexidade da ciência moderna condiciona as pessoas a olhar com desprezo para as coisas da fé, as promessas da Igreja, as verdades do cristianismo. São Paulo afirmava que Deus quis, com a simplicidade da fé cristã, confundir os sábios deste mundo; e, antes dele, Jesus já tinha dito que o Reino do Céu só se conquistava com a alma simples e confiante de uma criança, com a confiança cega da criança na proteção dos pais. “Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior do Reino dos Céus.” (Mt 18,1-5)

São muitos, hoje, os que perdem a fé em Deus e a trocam pela fé na ciência, sem saber que é perfeitamente possível conciliar as duas realidades. Jesus, porém, não quer perder uma só de suas ovelhas, como deixou claro em uma famosa parábola (Mt 18, 12-14): “Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”. (28/08/2016)

 

 

Filhos mimados da modernidade

 

A ingratidão é filha espúria da autocomiseração, da autopiedade, da soberba, da inveja, essas carcereiras que nos algemam as almas. Devemos ser gratos ao Senhor “sempre e em todo lugar” (como diz o Prefácio da missa, antes da consagração), sobretudo pela paciência com que tem aturado nossa ingratidão e insolência, dando-nos tudo sem que merecêssemos nada. Ele já tinha avisado, como bom Pai, que faria chover tanto sobre os bons como os maus... No entanto, muitos de nós, que fomos carregados como a ovelha perdida nos ombros do Bom Pastor — que a encontrou e pacientemente a curou —, ainda temos a coragem de reclamar dos Seus ombros desconfortáveis. (25/08/2016)

 

 

A largueza da porta estreita

 

A Igreja não é uma fábrica de cadeados, mas de chaves que abrem a única porta possível — a porta estreita — que pode nos salvar da condição humana. Para o pecado, fornece o remédio do perdão; para as doenças do corpo, a ressurreição da carne; para a soberba do mundo, a humildade de coração. (24/08/2016)

 

 

O jogo perigoso dos ateus

 

A fé dos sem-fé é tão fundamentalista como podem ser as outras crenças. Muitos de nós a conhecem por dentro, minuciosamente. Nada incomoda mais o homem sem Deus do que tentativas próprias ou alheias de conversão, a possibilidade de ancorar o seu barquinho de livre-penseur nos pés desconfortáveis de um banco de igreja. O ateu é muito orgulhoso de sua gélida fé no Nada; defende-a com unhas e dentes. Já o agnóstico é mais problemático: mais fechado à graça que o cofre dos avarentos, evita tomar partido, alegando que a morte, ao seu tempo, revelará se há ou não vida eterna.

O dominicano espanhol Antonio Royo Marín, grande divulgador da teologia tomista, contou uma anedota que ilustra bem esse impasse dos ateus e dos agnósticos. Certa madrugada, um monge voltava de uma capela. Havia permanecido boa parte da noite em adoração ao Santíssimo Sacramento. Ao passar por um bordel, deu de cara com dois jovens que saíam, depois de uma noite de farra e bebedeira. Um deles olhou com escárnio o religioso mal vestido e disse-lhe:

— Que decepção você terá quando morrer e verificar que o Céu não existe!

O monge, em tacada rápida e firme, respondeu-lhe:

— Decepção maior será a sua, quando morrer e verificar que existe o Inferno...

O padre espanhol contava esta anedota para concluir, com base na famosa “aposta de Pascal”, que o mais racional é crer em Deus, mesmo sem provas científicas de Sua existência. A razão é que, para a pessoa com dúvidas sobre o seu destino eterno, seria mais inteligente viver conforme os ensinamentos da Igreja, do que correr o risco de apostar todas as fichas no fim de tudo, após a morte, e só lhe restar, depois, a perdição eterna. (22/08/2016)

 

 

Velhos tempos!

 

No dia de Corpus Christi, recebi e-mail de um gaúcho, que revela muito bem o que é um verdadeiro ato de agradecimento a Deus. Recordava o que lhe contaram sua avó e sua mãe sobre uma distante Festa de Corpus Christi, em 19 de junho de 1924, na então vila de Rolante, Rio Grande do Sul.

Fazia um mês e quatro dias que o navio Sierra Nevada tinha zarpado do porto de Bremen, na Alemanha, com dois mil passageiros a caminho do Brasil. Em Porto Alegre, pegaram o trem para Taquara, onde as famílias contrataram duas carroças e, enfim, puderam chegar a Rolante, coincidentemente na hora da missa.

A avó não teve dúvidas: pegou os sete filhos e levou-os à Casa do Senhor, enquanto o avô se encarregava de levar a mudança até a casa em que iriam morar. O padre já esperava as famílias: fazia o sermão quando viu os imigrantes entrarem extenuados pela nave da igreja, e interrompeu-o, saudando os conterrâneos que vinham da longínqua Alemanha. Não perdeu a oportunidade de mostrar aos fiéis de Rolante aquele belo exemplo de cumprimento do preceito da missa aos domingos e dias santos de guarda. 

Após a missa, mesmo cansados da longa viagem, participaram todos da longa procissão pelas ruas enfeitadas da pequena vila, em homenagem a Cristo Eucarístico. (21/08/2016)

 

 

Quando Santo Antônio pregou aos peixes (crônica para o jornal Agora Batatais)

 

Santo Antônio de Pádua, discípulo de São Francisco, estava de passagem por Rímini, Itália, onde pregava ao povo do lugar. A maioria das pessoas, no entanto, mergulhadas em suas distrações cotidianas, não reconheciam o quanto deviam a Deus e desprezavam as palavras do pregador.

Um dia, por inspiração divina, o santo dirigiu-se à foz do rio Marecchia, junto ao mar Adriático, e começou a pregar aos peixes:

— Ouçam então vocês a palavra de Deus, ó peixes do mar e do rio, já que os pecadores não a querem ouvir!

Logo em seguida, milagrosamente, aproximou-se da praia uma multidão de peixes de todos os tamanhos, ordenadamente distribuídos ao longo da orla. Pacíficos e tranqüilos, com a cabeça fora da água, permaneciam atentíssimos ao que lhes dizia frade Antônio.

O santo ia enumerando, aos “irmãos peixes”, as muitas razões pelas quais deviam ser gratos ao Criador do céu e da terra. Em primeiro lugar, agradecer pela sobrevivência após o dilúvio; pela água em que habitavam; pelas barbatanas com que se locomoviam; pelos refúgios em que podiam se esconder das tempestades; pelos alimentos com que sobreviviam; pela possibilidade de procriação e perpetuação da espécie.

Lembrou-lhes, também, de algumas vezes em que apareciam nas Sagradas Escrituras, a começar pelo grande peixe em cujo ventre Jonas esteve por três dias e três noites, devolvido depois à praia são e salvo; o peixe que o anzol de Pedro apanhou, por ordem de Jesus, e em cuja boca estava o “didracma”, a moeda de ouro com que pagariam o imposto do Templo; os peixes que serviram de alimento a Cristo, antes e depois da ressurreição. Muito deviam louvar e bendizer a Deus, o qual, mais do que às outras criaturas, lhes tinha dado tantos benefícios.

Dito isto, os peixes começaram a abrir as bocas e inclinar as cabeças, em sinal de reverência e gratidão, louvando ao Deus que tudo lhes tinha oferecido. Antônio, vendo tanto reconhecimento para com o Criador, rejubilou-se e disse em alta voz:

— Bendito seja o Deus eterno, porque mais o honram os peixes aquáticos do que os homens heréticos! Melhor escutam a sua palavra os animais do que os homens infiéis!

Animado, Antônio continuou a pregar àquela plateia humilde e solícita, cuja multidão só aumentava. A notícia propagou-se por toda a Rímini e o povo dirigiu-se em massa à praia, tanto os indiferentes como os heréticos, podendo testemunhar o milagre. Ali, envergonhados, continuaram a ouvir a pregação de agradecimento que o santo dirigia aos animais de boa vontade.

O frade não perderia a ocasião e, logo, dirigindo-se aos homens e mulheres ali presentes, recomeçou o ensino da doutrina católica, que antes eles haviam desprezado. Depois do milagre, converteu os hereges, entusiasmou os indiferentes e os fez voltar à verdadeira fé cristã.  Em seguida, abençoou e despediu os peixes, que voltaram alegremente ao fundo do mar, enquanto as pessoas retornavam mais cristãs à sua rotina.

Santo Antônio continuou por muitos dias em Rímini. Obteve inesperados frutos espirituais entre as pessoas daquela cidade, que, enfim, puderam reconhecer o quanto deviam a Deus. Foi uma bela lição de agradecimento. (18/08/2016)

 

 

Preces de uma só palavra

 

Um amigo mencionou, em e-mail, uma das mais belas orações que conheço, composta de uma única frase: “Creio, Senhor, mas aumentai minha fé.” Sei também de uma outra, mais ou menos parecida, que sempre rezei sem saber, sem formular explicitamente, nos meus tempos áridos de agnosticismo: “Não creio, Senhor; dai-me porém a graça da fé.”

A Igreja, quando recomenda “oração permanente”, sugere que a pessoa repita ao longo do dia essas pequenas frases, como pastilhas para a alma, pastilhas-suplicantes. Um padre chegou a recomendar menor de todas as preces, formada de uma só palavra: “Maria!”. Garante que o efeito é poderoso: o demônio treme só de ouvir essa doce e única palavra. Na mesma linha da super-síntese, efeito semelhante terá a repetição de “Jesus!”, ou, um pouco maior, “Piedade, Senhor!”. Dizia um parente da roça que até o sabiá a repete, várias vezes, em seu canto... (17/08/2016)

 

 

O sentido da palavra coração na Bíblia

 

Não sabia que, para a sabedoria chinesa, a aparente dualidade coração-mente é no fundo uma coisa só. Para o cristianismo, também a palavra “coração” tem esse sentido de conjunto. A Bíblia a usa nesse sentido: significa a vida interior do homem no sentido mais lato possível, ao contrário do uso atual, “romântico”, restrito às paixões, aos sentimentos e à vida afetiva. Coração compreende também nossas recordações, nossas ideias, nossos projetos, nossas decisões. É o mundo interior da consciência, onde razão e fé não brigam, exceto numa minoria de intelectuais teimosos. Há uma bela frase de João Paulo II a respeito, numa encíclica em que procurou mostrar que fé e razão não podem se divorciar: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”. (14/08/2016)

 

 

Cristianismo e família (crônica para o jornal Agora Batatais)

 

Família sempre existiu, mas quando Jesus viveu entre nós ela não ia nada bem das pernas. Os hábitos sexuais, no antigo Império Romano — ao qual estava submetido o povo judeu —, degradaram-se a tal ponto, que comprometiam seriamente a convivência familiar. O pai era um déspota, com todo o poder sobre a esposa e os filhos. Homens doentes, incapacitados para o trabalho, eram enjeitados e abandonados à própria sorte. O aborto era uma prática normal. Crianças valiam pouco, sobretudo se fossem meninas; e, quando nasciam deficientes, podiam ser assassinadas e até vendidas.

Antes da Igreja, a família era, portanto, bastante imperfeita. O cristianismo deu-lhe um novo rosto e um novo sentido: passou a ser um grupo de pessoas em que esposa e filhos tinham o mesmo valor que o pai, que continuava a ser o chefe, mas com poder limitado pelo amor cristão, que gerava respeito recíproco. Evidentemente, a mudança não se deu por passe de mágica: foi produto de um esforço lento e permanente, que ainda continua.

A Igreja Católica foi pioneira na defesa dos “verdadeiros” direitos humanos. Quando São Paulo disse que já não havia diferença entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, pois eram todos “um” em Jesus Cristo (Gal, 3, 28), estava iniciando a mais profunda restauração da família de que se tem notícia na História; uma restauração, repita-se, que se deu muito devagar, pois o cristianismo católico não recomenda métodos revolucionários.

A humanidade depende da família como o rio da sua nascente. A necessidade do homem de unir-se fisicamente a uma mulher, resultando inevitavelmente em filhos, é a razão de ser da espécie humana. O cristianismo, porém, acrescentou a essa realidade biológica e natural alguns elementos sobrenaturais, que fazem da família cristã um conjunto de pessoas ligadas entre si não só pelo sangue humano, mas sobretudo pelo sangue divino que o Cristo derramou na Cruz.

Quais são esses elementos que a diferenciam? Todos os seus membros são iguais perante Deus. Sua base é o sacramento do matrimônio, no qual homem e mulher se unem por livre e espontânea vontade, tanto para a alegria do encontro íntimo como para a geração de filhos, prometendo fidelidade mútua. É, por vontade divina, humanamente indissolúvel, e tem, como finalidade mais importante, a santificação dos seus membros para a salvação eterna.

Já nos primeiros séculos do cristianismo, o comportamento sexual dos casais católicos despertou a admiração dos próprios pagãos. Quem ganhou com a indissolubilidade do casamento foram os filhos e, dessa renovação da família, surgiria uma civilização diferente de todas as anteriores: a nossa civilização ocidental, a qual, com todos os seus defeitos, ainda é a que mais se aproximou do modelo desejado por Deus. Depois de Jesus, a família já sabe como deve ser para merecer o Céu.

Não esqueçamos que Deus também é família — Pai, Filho, Espírito Santo — e nos quer incorporados a ela, através do modelo da Sagrada Família de Nazaré. É a família humana que continua, aqui no mundo, a obra divina da Criação, mantendo vivas as verdades religiosas e morais permanentes, transmitidas de geração a geração, como prenúncio da inumerável família ressuscitada à qual pertenceremos um dia, na casa do Pai — mais numerosa que as areias do mar e as estrelas do céu.

Ser família é nosso destino eterno. É preciso agradecer a Deus, sempre, pelo modelo de família que nos deixou, através da Igreja. Agradeçamos por ela, defendendo-a de seus inimigos. (05/08/ 2016)

 

 

Para ler o Apocalipse

 

Segundo Bossuet, uma profecia vai se tornando mais clara à medida em que se aproxima de seu cumprimento. (31/07/2016)

 

 

Prece contra a perseguição religiosa

 

Em época de perseguição religiosa anticristã (venha de muçulmanos, ateus, sincretistas, indiferentes, relativistas etc.), é conveniente rezar a oração que os primeiros católicos fizeram, quando São Pedro e São João foram postos em liberdade, depois da cura do paralítico na Porta Formosa. Conta São Lucas que “voltaram aos seus irmãos e referiram tudo quanto lhes tinham dito os sumos sacerdotes e os anciãos. Ao ouvirem isso, levantaram unânimes a voz a Deus e disseram:

‘Senhor, vós que fizestes o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há. Vós que, pelo Espírito Santo, pela boca de nosso pai Davi, vosso servo, dissestes: Por que se agitam as nações, e imaginam os povos coisas vãs? Levantam-se os reis da terra, e os príncipes se reúnem em conselho contra o Senhor e contra o seu Cristo (Salmo 2,1-2). Pois na verdade se uniram nesta cidade contra o vosso santo servo Jesus, que ungistes, Herodes e Pôncio Pilatos com as nações e com o povo de Israel, para executarem o que a vossa mão e o vosso conselho predeterminaram que se fizesse. Agora, pois, Senhor, olhai para as suas ameaças e concedei aos vossos servos que com todo o desassombro anunciem a vossa palavra. Estendei a vossa mão para que se realizem curas, milagres e prodígios pelo nome de Jesus, vosso santo servo!’

Mal acabavam de rezar, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram com intrepidez a palavra de Deus”. (Atos dos apóstolos, 4, 23-31) (23/07/2016)

 

 

O que falta ao islamismo

 

Eis o que falta à religião de Maomé: o mistério da misericordiosa e humilde Encarnação de Deus. (20/07/2016)

 

 

À beira do caos

 

Não é de hoje que os bons cristãos já sabem: se a Igreja Católica enfraquecer, a moral por ela custodiada entraria em colapso e sobreviria algo parecido ao caos, que ainda não se instalou de todo — avisou Papa Bento XVI — pois os valores cristãos ainda dão suporte à incipiente civilização neopagã que está aí, e ao que restou da velha família desejada por Cristo.

Até quando, porém? Nesta sociedade naturalista, que favorece o individualismo, a família é um empecilho que deve ser remodelado. O espírito de sacrifício, em que está baseada a família cristã, é incompatível com a felicidade sem limites a que aspira o indivíduo pós-cristão, mais necessitado de liberdade do que de obrigações. Um casamento não passa, assim, de um contrato negocial, que pode ser desfeito sempre que interessar a um dos parceiros, livre para escolher, como “cônjuge”, uma pessoa do sexo que lhe interessar. (17/07/2016)

 

 

Os pobres de Deus

 

Atendi o telefone e logo soube que era “engano”. Uma voz de senhora desculpou-se educadamente, perguntando, pela segunda vez, se eu não era mesmo quem ela pensava que eu fosse. Viu, pelo telejornal, a notícia do pavoroso assassinato que ocorreu em minha cidade e imediatamente ligou a um parente daqui, para mais detalhes. Na pressa, a ligação caiu em minha casa e a tragédia policial acabou nos aproximando:

— O senhor viu que absurdo? Quem poderia imaginar uma tragédia dessas em nossa tranquila cidade?

Era uma conterrânea que há muito vivia em São Paulo, provavelmente num elegante monstro de concreto e vidro, cercada de urgência e poluição por todos os lados. Aqui nasceu e viveu até casar-se, estudou no Colégio Auxiliadora das salesianas. Depois, o vento da vida soprou para outro lado e levou-a para longe, teve filhos, netos, enviuvou.

A voz ainda era ágil e firme. Uma ou duas vezes por semana, costumava ligar para cá, aos velhos parentes e amigos, entre os quais já parecia incluir-me. Além do assassinato, que levou a pequena cidade aos noticiários de todo o país, conversamos sobre outras mortes: o sumiço de antigas casas e prédios, o asfaltamento das charmosas ruas com paralelepípedos.

— Como a cidade empobreceu!... — ela suspirou. — Aliás, o mundo todo anda mais pobre, em todos os aspectos, sobretudo o moral. Pobre de espírito, pobre de beleza, pobre de Deus... O senhor não acha?

Já telefonava mais do que viajava, mas parecia saber de tudo o que ocorria em nossa cidade, mais até do que muitos que daqui nunca tiraram os pés. Confessou-me, a certa altura:

— Tenho, na parede da sala, uma foto antiga da nossa pracinha central, com o coreto, a fonte luminosa, a igreja. Nossa cidade está mais viva, em mim, do que este lugar horrível em que moro. Vou sabendo das catástrofes por telefone, como se acompanhasse uma guerra pelo rádio. Dói menos, compreende?

Pensei em citar o famoso verso de Drummond e adaptá-lo à sua situação ("Nossa cidade é só uma velha fotografia na parede, mas como dói!"), mas preferi continuar em minha condição de plateia complacente e continuei só escutando, deixando entrar por meus ouvidos coisas e fatos da velha cidade, por mim desconhecidas. Era uma verdadeira palestra sobre a antiga cidade, proferida com elegância e finura por quem sabia conjugar direito os verbos, usar corretamente regências e concordâncias, sem recorrer a irritantes palavras da moda.

— Por que continuo aqui? Fora a Missa dos domingos e alguma visita ocasional aos filhos, pouco desço à rua. Prefiro a companhia dos meus livros e das minhas orações. Dinheiro, graças a Deus, não me falta. Agora que os netos já estão moços, poderia vender um dos apartamentos que tenho e terminar meus dias mais tranquilamente, longe da babilônia que é São Paulo. Mas acho que morreria de desgosto em minha pequena cidade, no meio de tantos escombros...

Concordei sem reservas, admitindo que seria mesmo arriscado confrontar, ao vivo, as duas cidades: a que ela ainda trazia no coração e a que sobrou da antiga, suja, barulhenta, obcecada por festas, infestada de carros e motos. 

— É a pobreza espiritual de que falei antes, muito mais danosa que a falta de recursos materiais. Pobreza cultural, moral, religiosa, apesar de tanta tecnologia e tanto conforto. Uma pobreza absoluta, filho! E pensar que Deus nos deixou tantas fontes de riqueza...

O telefonema já passava de uma hora, quando minha anônima professora de passado decidiu desculpar-se por tantas palavras, despedir-se e recolher-se à sua solidão de viúva paulistana, antes que pudesse dar-lhe o número do meu telefone ou ela passar-me o seu.

Não, não foi um “engano”. Oxalá todos os enganos telefônicos fossem como esse! (14/07/2016)

 

 

Oração desentranhada de uma homilia de São Bernardo

 

Maria Santíssima,

Sustentai-me

Para que não caia,

Protegei-me

Para que nada tema,

Conduzi-me

Para que não me canse,

Sede-me favorável

E chegarei ao porto da salvação. (10/07/2016)

 

 

E Deus estava dentro de nós...

 

Meu amigo, você tem razão. Caminhamos quarenta anos no deserto, à procura de Deus, quando de repente, como Santo Agostinho, descobrimos que Ele já estava em nós, à espera de ser bendito, adorado, louvado e agradecido. É certo que não faltavam avisos de Sua presença, como uma espécie de fagulha que saltava da alma e logo desaparecia. Voltava, outra vez, a noite escura, mas o Senhor estava ali, em nossas almas distraídas, enquanto os pés se afundavam na areia interminável do deserto, o Saara existencial que escolhemos por nossa livre vontade e prejuízo.

Na analogia do deserto não pode faltar a imagem do oásis, que dá aos peregrinos a impressão que não estão mais no deserto. Como o velho Zorba nietzschiano (personagem do romance homônimo, do escritor grego contemporâneo Nikos “gnostikos” Kanzantzakis), dançávamos exultantes quando encontrávamos algum jardim de Epicuro, com sombra e água fresca, em meio à aridez da vida: uma companheira para brincadeiras sexuais, conforto material, saúde física e, nalguns poucos, a ilusão da ciência ou das artes. Eram boas distrações para o corpo e a inteligência, nos quais púnhamos toda a provisória esperança de pessoas sem Deus, que acreditavam no término da vida após a morte.

Não havia, no entanto, escapatória: se fugíamos de Deus, Ele ia conosco na fuga, disparando aqui e ali as rápidas fagulhas da Graça, cuidando indiferentemente dos bons e dos maus. Lembro que, na cega caminhada do deserto, uma das minhas fagulhas de Deus era uma ideia de Pascal, que sempre me inquietou: se pela matéria o universo me envolve, pelo espírito e a imaginação ele se deixa envolver por mim. Ou esta de Leibniz, ainda mais excitante: por que existe o ser, em vez do nada?

Deus, que nunca saiu de nós e parecia não ter nenhuma pressa de ser encontrado, impedia no entanto o caos interior com Sua presença ordenadora, ao mesmo tempo em que nos movíamos relativamente em paz entre as coisas e as pessoas.

Sei, hoje, que a proximidade de Deus, no deserto, se manifestava sobretudo no oásis da família, embora fosse um sinal que não sabíamos interpretar em sua plenitude, talvez por estarmos imersos nela. O Deus Trindade, família trina e una, nos fez plantas (“plantas sois e caminheira”, Gil Vicente) também brotadas de uma família, de um seio familiar mais ou menos ferido, que tinha a família divina como modelo permanente, embora inatingível. O principal oásis do nosso deserto existencial era a família, bombardeada por todos os canhões da modernidade. Todos nascíamos de uma família, inclusive os maiores monstros morais da humanidade, como Nero, Stalin e Hitler, que cuspiram no prato em que comeram.  

Até que, nalguns de nós, as escamas dos olhos finalmente caíam e Ele se deixava “ver”. Não há remédio mais eficaz do que saber que o Senhor está em nós e nos mantém no ser, impedindo que desapareçamos no turbilhão da “desexistência” (com o perdão do neologismo). Paradoxo dos paradoxos, Ele está em nós, ao mesmo tempo em que Nele vivemos, Nele nos movemos e Nele existimos, dizia São Paulo. Ainda segundo o Apóstolo, nosso pobre corpo mortal é templo do Espírito Santo, que nos ensina a responder, na Missa, que Ele está conosco, no meio de nós. É o único caminho de saída do nosso Saara existencial. (07/07/2016)

 

 

Terra de Maria

 

Um amigo me indicou o filme Terra de Maria, do ator, roteirista e diretor espanhol Juan Manuel Cotelo. Fui, logo, conferir no Netflix. Ele me chamava a atenção para o início "um tanto ridículo" do filme, mas — garantia — em seguida a trama engrenava.

O amigo me desculpe, mas fui fisgado desde o início "um tanto ridículo". Não sabia se ria dos dois personagens conspiratórios na catedral, digitando a Bíblia audiovisual, ou se me emocionava com o relato da Queda (nada me toca mais, atualmente, que esse terrível começo do Gênesis). Pausei na expulsão de Adão e Eva do Paraíso e na briga do Arcanjo Miguel com Lúcifer. Foi só um aperitivo, mas já deu para perceber que era vinho de primeira. Quando voltasse da procissão de Corpus Christi, à tarde, beberia a taça até o fim.

De volta da procissão, e logo após a janta, me sentei enfim no sofá. O aperitivo não me enganou: o vinho era mesmo muito bom. Belíssimo filme, esse Terra de Maria! O recurso do humor, humor inteligente, contrabalançava a seriedade do assunto: conversões e curas relacionadas às aparições marianas de Medjugorje, coisa que acompanho com muito interesse.

O certo é que, sob a aparência de um simples documentário sobre aparições de Nossa Senhora, o autor joga com as grandes questões da condição humana e os “equaciona” do ponto de vista católico. Impressionam os depoimentos pessoais. O da bailarina Lola, de Las Vegas, eu já conhecia. A paróquia de Medjugorje tem um dossiê bem gordo, documentando as centenas de milagres lá ocorridos, como a história de um empresário americano, Arthur P. Boyle (não aparece no filme), que acaba de ser publicada e é de arrepiar: em 2000, estava desenganado, os médicos lhe davam seis meses de vida. Foi a Medjugorje, sentiu quando foi curado ao subir a montanha das aparições e está entre nós até hoje. A ciência não sabe explicar como ainda continua vivo.

Essa é a Medjugorje que ainda espero conhecer, e sobre a qual já andei lendo alguns livros. Homens da Igreja e escritores católicos, a quem respeito, se dividem quanto às origens divinas dessas aparições. Como a Igreja não proibiu a devoção e a peregrinação pessoal à cidade da Bósnia, eu sigo em frente. Depois de estudar o assunto, comparar posições favoráveis e opostas, minha pobre mente, com todos os seus limites, ordenou ao coração: “Creia, seu teimoso! Maria Santíssima está ali.” Se, um dia, a Igreja ordenar o contrário, obedeço.

Comecei, até, a ajuntar dinheiro para dar um pulo lá com minha mulher, mas o valor atual do euro me desanimou e... vou ficando mesmo por aqui. Com a oração, enfim, a gente pode ir bem mais longe que Medjugorje... (17/06/2016)

 

 

A vida extraordinária do Padre Pio

 

Padre Pio, declarado santo pelo Papa João Paulo II em 2002, foi o homem mais impressionante do século XX. Não há artista, homem de ciência, chefe de Estado ou líder religioso que a ele se equipare, por mais importantes que tenham sido. O santo italiano foi uma obra-prima de Deus, de Quem recebeu os dons mais extraordinários.

Conseguia ler o interior das pessoas, graça que lhe foi de extrema utilidade enquanto confessor, tanto ajudando os que, sem se confessar muito tempo, não se lembravam de pecados graves, como para advertir aqueles que se aproximavam do confessionário sem a disposição de verdadeira mudança de vida. Foi um grande confessor.

O místico Padre Pio falava com Jesus, Maria Santíssima, o Anjo da Guarda. O próprio demônio não se cansava de assediá-lo. Era tão completa a sua configuração a Cristo, que teve os mesmos estigmas de seu pai espiritual, São Francisco de Assis. As feridas, que doíam e sangravam muito, jamais infeccionavam, exalando um misterioso perfume de violeta. Desde o início, médicos sérios garantiam que a ciência não podia explicar o fato.

Esse estranho perfume não estava só ligado aos estigmas. Era, também, uma espécie de sinal de sua presença, e foi sentido nos mais diferentes lugares, tanto por seus filhos espirituais, como por pessoas chamadas à conversão. Esse dom de estar presente, ao mesmo tempo, em dois lugares (bilocação), manifestou-se várias vezes na vida de Padre Pio.

Os milagres são um capítulo à parte em sua vida. São inúmeras as curas de doenças irremediáveis que Deus fez por seu intermédio. Ainda estão vivas, ou viviam até pouco tempo, muitas pessoas que testemunharam esses feitos incomuns, alguns bem documentados, sobre os quais a medicina nada tem a declarar.

Como todo verdadeiro cristão, sofria com as dores alheias. Planejou e construiu em São Giovanni Rotondo, com dinheiro proveniente de todas as partes do mundo, um grande hospital para aliviar o sofrimento alheio, e que ficou com esse belo e sábio nome: Casa Alívio do Sofrimento. É o famoso hospital do Padre Pio, cuja beleza já começa na própria arquitetura neoclássica.

Foi, também, um grande missionário. Os grupos de oração, tal como os encontramos hoje em todo o mundo católico, foi uma criação do Padre Pio, inspirado em uma bula do Papa Pio XII, que exortava os cristãos à oração conjunta.

O santo italiano levou uma vida de penitência e mortificação. Vivia como um verdadeiro filho de São Francisco, cultivando a pobreza e a castidade (que o demônio e algumas mulheres puseram à prova). Nas várias provações por que passou durante a vida, Jesus e Nossa Senhora foram os seus modelos de obediência: foi pelo sim de Maria que Deus se fez carne e pelo sim de Jesus que o mundo se salvou. Jamais se rebelou contra a Igreja, nos momentos em que ela, por cautela, lhe proibia o exercício do sacerdócio.

Agradeçamos ao Senhor por esse grande santo que foi Padre Pio, sobretudo por tê-lo em nossa companhia, na época mais materialista da história universal. (16/06/2016)

 

 

O entusiasmo evangélico

 

Estudiosos das culturas orientais antigas revelam a importância da memorização — e, portanto, das técnicas mnemônicas — na transmissão entre gerações das preces e ensinamentos religiosos. Entre os recursos desse sistema mnemônico estavam o ritmo da frase, a aliteração, a antítese etc., os quais, se bem utilizados, facilitavam enormemente a memorização dos textos.

O povo judeu, em especial, desenvolveu essas técnicas até o seu limite, pois estava convicto de que era o povo eleito, por Deus, para guardar e veicular as suas mensagens. As escolas rabínicas eram zelosas dessa transmissão e cuidavam que houvesse, no aprendizado oral das crianças, total fidelidade para com a sua fonte escrita. Os judeus não estavam brincando. Ao longo de sua “história sagrada”, viveram “entusiasmados”, ou seja, cheios de Deus (este é o sentido etimológico da palavra). Se as técnicas de memorização criaram uma linguagem menos objetiva, mais poética, o entusiasmo messiânico veio acrescentar um algo a mais.

Esse misterioso “algo a mais”, indefinível, é que transfigura os textos evangélicos, transformando-os, apesar da extrema simplicidade, em fonte inesgotável de Água Viva. O tom poético, com que foram escritos, espanta aqueles que os procuram unicamente como gênero biográfico, mas é preciso entender que os quatro escritores sagrados os redigiram com a alma plena da convicção de que escreviam sobre Deus — o Deus que se fez carne. Redigiram “entusiasmados”, cheios de Cristo. Ele escreveram, mas não eles: era o Espírito escrevendo por eles... Não seriam capazes de praticar o estilo frio dos amanuenses.

Dois fatores, portanto, contribuíram para a sua configuração estilística: terem sido memorizados e transmitidos oralmente, por alguns anos, antes de receberem a forma escrita; e serem redigidos por homens cheios do Espírito Santo, que é o maior de todos os poetas, o Poeta dos poetas. O Poeta por antonomásia. (14/06/2016)

 

 

Agradecer sempre, em todo lugar

 

Volto ao padre espanhol Santiago Martín, da diocese de Madrid, que lidera atualmente um movimento, em países de língua espanhola, destinado a praticar a espiritualidade do agradecimento. A associação por ele criada, os Franciscanos de Maria, formada de leigos e religiosos, foi inspirada na Virgem Maria e em São Francisco de Assis, dois grandes modelos de agradecimento, e teve, em 2012, o pleno reconhecimento da Igreja.

Segundo Padre Santiago, o agradecimento é uma virtude fundamentalmente cristã. É o próprio coração do Evangelho, embora nem sempre praticada como deveria. Sendo um dever, tanto em relação a Deus como ao próximo, é também sinal de maturidade espiritual, já que é mais fácil pedir do que agradecer. Pedir é importante e devemos continuar pedindo, humildemente suplicando: revela o quanto somos miseráveis, necessitados de Deus e das pessoas que nos cercam. Só não é lícito transformar a vida numa lamúria sem fim, esquecendo ingratamente os dons já recebidos, sobretudo o maior deles: a vida eterna. A humildade do pedido e a nobreza do agradecimento não se excluem, mas se completam.

Agradecer é difícil, pois exige humildade. Padre Santiago gosta de recordar o filósofo espanhol Ortega y Gasset, que via na ingratidão um dos traços marcantes do homem contemporâneo, responsável por seu comportamento de criança mimada, mais atenta aos direitos que aos deveres. Há mesmo uma tendência, hoje, de sacralizar os direitos e demonizar os deveres... Bem sintomático dessa tendência é o que disse o sanguinário Joseph Stalin, um dos principais líderes comunistas do século XX, para quem “gratidão é doença de cachorro”.

O cristão não pensa assim e sabe que deve cultivar a virtude do agradecimento. No entanto, a quem agradecer? Quais as razões pelas quais devemos ser gratos? Em primeiro lugar, agradecer a Deus por nossa criação, pela ação da Providência divina em nossas vidas, pela morte redentora de Cristo na cruz, pela Igreja que Ele nos deixou como caminho da salvação.

Como agradecer? O agradecimento a Deus pressupõe duas atitudes complementares: primeiramente, pela oração, cumpre-se o “dever” de louvar e bendizer o generoso Criador de todas as coisas; depois, é preciso que se manifeste em obras concretas, no “dever” de ajudar o próximo, através da caridade desinteressada. A prática da misericórdia, corporal ou espiritual, é uma maneira privilegiada de agradecer a Deus, amando de volta, através dos irmãos, Aquele que nos amou por primeiro. Beneficiar o próximo, que não nos beneficiou, é uma forma de agradecer ao Deus que em tudo nos tem beneficiado.

Padre Santiago Martin entende que o agradecimento já se transformou, realmente, em virtude, quando é exercido inclusive na adversidade. Pela memória, não é difícil verificar que os bons momentos, no cômputo geral, normalmente excedem os maus; de que as coisas boas ultrapassam em larga medida as ruins. Temos, portanto, muito mais razões para agradecer. Os santos, por suas virtudes heroicas, não dão graças a Deus até pelos sofrimentos? (02/06/2016)

 

 

Mediocridade espiritual da literatura moderna

 

Na literatura, os homens falam das coisas do mundo a partir do ponto de vista dos homens. Nas melhores obras, há uma sofisticação psicológica muito grande na criação e abordagem dos personagens. Nós, leitores, nos sentimos verdadeiramente transportados para uma faixa da realidade antes desconhecida, pois o bom escritor tem o poder de apresentar o mundo de uma forma diferente daquela que vemos a partir da nossa limitada experiência pessoal. A literatura é um primeiro exercício de transcendência: somos elevados a um ponto mais alto, além do que normalmente pisam os nossos pés.

Mas, geralmente, a transcendência para por aí. São raros, atualmente, os escritores que avançam em busca de transcendências ainda mais elevadas, como fez, por exemplo, Dante, em cuja Divina comédia os dramas e problemas humanos são enquadrados numa dimensão sobrenatural. Os escritores contemporâneos não conseguem mais rasgar a capa sutil que envolve o mundo e enxergar para além da esfera da percepção imediata. Prisioneiros do tempo, fecharam todas as janelas da cadeia que, antes, se abriam para a eternidade. Ficaram “inteligentes” demais no varejo da pequena feira e não conseguem avançar além, para o grande mercado atacadista que envolve céus e terra, transitoriedade e permanência, morte e ressurreição da carne.

Basta ver como grandes psicólogos da narrativa literária, como Henry James ou Proust, mobilizam ferramentas sofisticadíssimas de análise do comportamento humano, revelando-nos maravilhosamente aspectos antes insuspeitados do agir e reagir das pessoas; mas, misteriosamente, param por aí! Entristece perceber como toda essa maquinaria analítica se resigna à experiência natural. Estão hermeticamente fechados ao desafio sobrenatural. Seu potente microscópio está sempre de cabeça baixa, voltado para o mundo inferior e terreno, ao contrário do aparelho analítico de Dante, que alternava habilmente as funções de microscópio e telescópio, ora atento ao mundo natural, ora ao sobrenatural. 

A literatura moderna ficou inteligentíssima no particular e burríssima no geral.(22/05/2016)

 

 

A hóstia que sangrava

 

Natal de 2013. O padre celebrava missa na paróquia de Saint Jack, na cidade de Legnica, Polônia. Não muito depois de haver pronunciado as palavras da consagração (“Este é o meu Corpo... este é o meu Sangue...”), uma pessoa se apresentou na fila da comunhão. A hóstia, porém, como acontece algumas vezes, caiu no chão e o padre abaixou-se para apanhá-la. Fez o que prescreve a Igreja: deixou-a em pequeno recipiente de água até o final da celebração.

Após a bênção final, o padre foi atrás da hóstia para recolhê-la ao sacrário, onde ficaria até se corromper. Para surpresa sua, porém, quando se aproximou do pequeno vaso, a hóstia estava com manchas avermelhadas. Levou-a imediatamente ao Bispo de Legnica, Dom Stefan Cichy, que criou uma comissão para cuidar do caso. Foi decidido que fragmentos da hóstia seriam encaminhados a quatro laboratórios diferentes da Polônia. O resultado foi unânime: o tecido era de músculo cardíaco. Mais que isto: era músculo de coração humano, com as alterações que aparecem durante a agonia do moribundo.

Com o laudo médico final do Departamento de Medicina Forense polonês, o Bispo diocesano encaminhou o processo ao Vaticano. No dia 17 de abril de 2016, a Congregação para a Doutrina da Fé deu, finalmente, a aprovação oficial da Igreja, permitindo que a hóstia, agora relíquia, fosse exposta em lugar público. Era mais um milagre eucarístico, atestando que a presença de Cristo, na hóstia consagrada, é real e não simbólica, juntando-se às dezenas de outros milagres semelhantes ocorridos nos últimos dois mil anos e, agora, na catolicíssima Polônia.

Logo depois, a grande mídia internacional noticiou com ênfase o milagre. Em letras garrafais (como se dizia antigamente), saiu em manchete no New York Times, The Guardian, Le Monde, La Repubblica, El País, Berliner Zeitung e até na Folha de São Paulo. O próprio Jornal Nacional deu notícia do fato, pela voz espantada do William Bonner. 

Evidentemente, estas últimas linhas são uma brincadeira com o leitor. Quando o Vaticano reconheceu o milagre, só a mídia católica mais fiel à Igreja falou do milagre. O mundo estava envolvido com outras coisas, olhos e ouvidos voltados para o momento que passa e a vida que chama. 

Contam que o poeta Manuel Bandeira, em visita ao compositor Villa-Lobos, encontrou-o ao piano, finalizando uma partitura. Na sala, várias pessoas conversavam; e, na rua, passavam carros e bondes ruidosos. O poeta aproximou-se do amigo e perguntou-lhe: “Como você consegue compor com esse barulho?” Villa-Lobos voltou-se e respondeu: “Caro Manuel, o ouvido de dentro não tem nada a ver com o ouvido de fora.

Nós temos, de certa forma, dois ouvidos: o de dentro e o de fora. Não adianta gritar as maiores evidências ao ouvido externo das pessoas, se o ouvido interior fechou-se aos apelos de Deus.

Aos que, no entanto, ainda tem fé na presença real de Cristo na Eucaristia, foi publicada em 2010, no Brasil, uma obra que compila dezenas de milagres eucarísticos da Igreja: O milagre e os milagres eucarísticos, do padre italiano Gino Nasini (Editora Palavra & Prece).

Há também alguns sites muito bons sobre o assunto:

http://www.therealpresence.org/eucharst/mir/port_mir.htm

http://www.miracolieucaristici.org/

É coisa para aquecer o coração dos católicos e, no mínimo, inquietar os que duvidam. (29/04/2016).

 

 

A ortodoxia religiosa não é uma limitação

 

Se Deus não existe, tudo é permitido. Mas existe! São Paulo já resolveu esse problema, dialogando intemporalmente com Nietzsche: “Tudo posso, mas nem tudo me convém”. Deus é o pastor que indica o caminho, e a humanidade o rebanho com direção pré-determinada. A ortodoxia propicia uma segurança existencial que nenhuma doutrina heterodoxa poderia oferecer: é um contrapeso sobrenatural à heterodoxa tendência da liberdade humana, sempre disposta a repetir a soberba adâmica.

A ortodoxia católica é, portanto, uma consequência normal da “concepção” cristã de Deus, que na verdade não é concepção, mas revelação. Deus se revelou, e revelou sua Verdade, que é um conjunto básico de normas morais e religiosas que o “fiel” deve seguir para melhor viver aqui e preparar-se para a vida eterna. (20/04/2016)

 

 

A humilhação de Deus

 

Para compreender a morte de Deus na Cruz, em que Ele se submeteu tão radicalmente à condição humana, a palavra-chave me parece ser “humilhação”. É o que a Igreja ensina na belíssima oração da Liturgia das Horas: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei de santa alegria os vossos filhos e filhas que libertastes da escravidão do pecado, e concedei-lhes a felicidade eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo.”

O principal remédio para a soberba é a humildade. Humildade e  sua inseparável companheira: a obediência. A soberba de Adão e Eva, que neles alimentou o desejo de serem deuses como Deus, os tornou indignos do Paraíso e desgraçou a espécie humana. É o pecado dos pecados, que a Igreja chamou de Pecado Original. Contra essa que foi a soberba-mor, só a maior das humilhações: Deus Filho gerando-se como homem, como homem vivendo (exceto o pecado) e, como homem, morrendo a mais humilhante das mortes. Ele só se humilharia a esse ponto se amasse incondicionalmente o ser humano. Humilhação e obediência por amor: eis o Calvário. (18/04/2016)

 

 

O sofrimento não é coisa inútil

 

Ao contrário. Quando suportado com fé, o sofrimento tem peso de ouro na “comunhão dos santos”, esse intercâmbio de intercessões que, pela oração, une as almas dos cristãos: as que agora batalham no mundo, as que ainda padecem no purgatório e as que já gozam das beatitudes celestes.

Há poucas semanas, o mundo católico teve um exemplo perfeito desse que é o verdadeiro comunismo. Madre Angélica, monja franciscana de clausura e fundadora do maior canal católico do mundo, a EWTN (Rede de Televisão da Palavra Eterna), estava gravemente enferma desde 5 de setembro 2001, quando sofreu um derrame cerebral. Um lado de seu rosto ficou paralisado. Disse ela a propósito: “Nunca, em toda a minha vida, tive tanta certeza de que Deus me escolhia para ajudar as pessoas a compreender que é pelo sofrimento que Deus nos santifica”.

Na última Sexta-feira Santa, Madre Angélica começou a “chorar compulsivamente, logo pela manhã, por causa das dores que estava vivendo. Era possível ouvi-la pelos corredores", contou em sua homilia o padre Joseph Wolfe, capelão da EWTN. Madre Angélica havia instruído seus cuidadores para que não lhe dessem analgésicos, pois queria oferecer a Jesus as últimas dores de sua vida, que, aliás, nunca foi isenta de sofrimento. Morreu no Domingo de Páscoa, dia do seu único Senhor.

Madre Angélica tinha aprendido, com São Paulo (Carta aos romanos, 5, 3), que o cristão deve se gloriar “até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

Quando outros logo pensariam em eutanásia, ela desprezou até os lícitos analgésicos, pois queria oferecer a Deus o diamante puro de suas dores. Quem lucraria? Pecadores deste mundo em busca de conversão; e almas do purgatório à espera da liberação definitiva. É o que ensina a Igreja. (15/04/2016)

 

 

A Igreja diante da dor humana

 

Gostei das memórias da UTI, do poeta José Vanderlei Machado, que estão no blog Nas redes do canto verde. O poema “Na minha morte” é belíssimo. A tinta do humor, na falta do óleo da oração, deixa a realidade hospitalar mais respirável. Noutros textos, o poeta fala dos enfermeiros profissionais. É possível ser um profissional da compaixão?

Eu me lembro de algumas vidas de santos que li — sobretudo São Camilo Lellis e São João de Deus —, que fizeram do cuidado com os doentes não uma profissão, mas uma missão. Diziam ver Jesus em cada doente, e era assim que os tratavam: o leproso era Jesus com lepra, o canceroso era Jesus com câncer etc. Se a doença era transmissível, não tinham medo de se contaminar e, junto com os medicamentos, rezavam junto com o enfermo que, muitas vezes, já nem mais tinham condições de rezar. Tratavam do corpo e da alma. Uma grande santa medieval, Santa Francisca Romana, dama da nobreza romana, tinha um especial cuidado com os pobres e, sobretudo, os doentes. Saía de seu “palazzo” para cuidar gratuitamente das doenças mais asquerosas no hospital fundado por seu sogro. Nada ganhava com isso, senão o gosto puro e simples da caridade.

Milhares de santos não canonizados fizeram o mesmo nos dois mil anos de história da Igreja: monges e monjas que deram a sua vida à enfermagem gratuita. Foi disso que mais senti falta em minhas vinte e quatro horas internado no Hospital São Paulo, em Ribeirão Preto, depois de uma cirurgia: preces ministradas junto com os soros e os analgésicos. Coisa que a Idade Média, dita das trevas, conheceu bem. O historiador americano Thomas Woods Jr., no seu recente livro Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, mostra que foram esse homens de Deus que criaram a instituição “hospital”. Não havia nada parecido na Antiguidade.

Os cemitérios, antigamente, eram extensões da igreja paroquial, como o nosso cemitério dito dos ricos, perto do campo de futebol. E parece que os hospitais católicos também. Em Batatais, curiosamente, quando a gente sai da matriz e olha para a esquerda, no fim da rua, enxerga o hospital; e para a direita, o cemitério. Quando operei da garganta com o dr. Luís Cândido, nos anos sessenta, fui cuidado por uma freira de hábito branco... A descristianização do ocidente trivializa os cemitérios e os hospitais. Transforma os últimos em fonte de renda e arreda os primeiros cada vez mais para a margem das cidades. Dizem que foi Napoleão o autor da ideia de marginalizar os cemitérios, transformando a morte numa coisa maldita — morte a quem São Francisco chamou, em sua linguagem dialetal,  de “sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente po' scappare”, ajuntando em seguida, como bom católico: “guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali” (“nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum dos vivos pode escapar: felizes os que morrem sem pecado mortal”).

[O blog Nas redes do canto verde encontra-se no seguinte endereço: http://jvm-chcaraerede.blogspot.com.br/] (12/04/2016)

 

 

A espiritualidade do agradecimento

 

Há dois anos, mais ou menos, que acompanho padre Santiago Martin pela tevê católica EWTN (fundada pela recém-falecida Madre Angélica, santa criatura) e, sobretudo, pela web tevê Magnificat, depois de tê-lo conhecido pela site Corrispondenza romana, do prof. Roberto de Mattei.

Só recentemente, porém, descobri a associação internacional Franciscanos de Maria, por ele fundada em 1988 e que, em 2012, teve o pleno reconhecimento pela Santa Sé. O agradecimento é a razão de ser de sua fundação e há predominância de leigos em seus quadros. Fiquei sensibilizado por sua luta em defesa da Igreja, contra o secularismo e o relativismo, através do estudo sério da doutrina católica e da ação de graças.

No Brasil, a comunidade ainda não existe, devido à barreira da língua (é uma associação que fala espanhol). Já está nas Américas, incluindo o Canadá e os Estados Unidos, porque há forte migração latino-americana nesses países. Há muitos grupos em todos os países vizinhos do Brasil, como Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Mas, no Brasil, ainda não.

É preciso trazer a missão do agradecimento ao Brasil. Nosso país, nas últimas décadas de governo socialista, especializou-se em pedir e exigir. O velho povo católico, nas mãos da grande mídia e das telenovelas, vai entrando lentamente no ritmo da chamada “nova ordem mundial”, assimilando valores anticristãos. Andamos, a cada dia, mais distantes de Cristo e Nossa Senhora, cuja maternal presença vai diminuindo com a difusão das seitas protestantes, presentes em cada esquina do país.

Pouco antes de me aposentar, na Unesp de Assis, conversando com uma aluna depois da aula, eu lhe falava do dever da gratidão, ao que ela me interrompeu, dizendo: “Discordo, professor. Não tenho nenhum dever de ser grata!” Tinha toda razão Ortega y Gasset, quando falava da radical ingratidão do homem contemporâneo, como um dos traços marcantes de sua psicologia de “niño mimado”.

Estou convencido de que todos nós, crianças mimadas da modernidade, precisamos aprender a agradecer. Acabei de finalizar uma pesquisa sobre Santa Francisca Romana, santa italiana pouco conhecida por aqui; é impressionante como a vida dessa grande mulher era uma permanente ação de graças, cujo refrão predileto foi a famosa frase de Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou; seja bendito o nome do Senhor”. (07/04/2016)

 

 

Domingo de Páscoa

 

Duas vezes Deus criou o homem. Na primeira, modelou-o do barro e soprou-lhe uma alma eterna e livre como a Sua. Como Deus, o homem-barro era livre para o bem e o mal, as alturas e os abismos, a luz e as trevas. Diferente de Deus, amor infinito, que só escolhe o bem, o homem-barro, cego de soberba, quis ser deus como Deus.

Enamorou-se tanto do mal, dos abismos e das trevas, que fez correr rios de sangue pela Terra: das montanhas às planícies, dos desertos às florestas, dia e noite. Órfãos e viúvas gemiam, inconsoláveis, pelas estradas. O pranto das jovens violentadas ressoava pelos bosques e pelas estepes. O homem-barro parecia condenado à morte eterna.

Então Deus Pai, que é amor incondicional, num gesto de incompreensível humildade — humildade das humildades, suprassumo da humildade, único antídoto aceito por Deus contra a soberba —, decidiu recriar o homem-barro e salvá-lo de seus próprios grilhões: mandou Deus Filho se fazer barro como ele.

Fomos salvos pela Presença de Deus num pobre corpo de barro, durante trinta e três anos assumindo o barro da nossa miséria e morrendo a morte mais degradante que o barro poderia experimentar: a crucificação, depois de cruel tortura. E o Deus feito barro, ressuscitado do chão, transfigurou a terra, a carne e o sangue dos homens. O barro, remodelado pela luz divina, agora é corpo glorioso. Nossa pobre humanidade está hoje no Céu, transformada e enriquecida pela glória da ressurreição, no corpo imperecível de Cristo. O mesmo acontecerá com o barro de cada um de nós, se permitirmos, humildemente, que a mesma luz o remodele pelo modelo de Jesus. (27/03/2016)

 

 

A Igreja e a esterilização

 

Imaginemos uma dona de casa católica, de trinta e poucos anos. Vai à missa todos os domingos e tem três filhos pequenos, dois dos quais já em idade escolar. Sua cruz não é leve: o marido vive de salário fixo e o orçamento de casa é apertado. Para não engravidar do quarto filho, procurou o SUS e submeteu-se a uma cirurgia de laqueadura. O medo de engravidar acabou para sempre e a cruz tornou-se mais suave. Um dia, por um canal católico de televisão, descobriu que a esterilização era condenada pela Igreja. A nossa dona de casa ficou num dilema: não gostava de desobedecer à Igreja, mas não conseguia deixar de sentir-se confortável sem o risco de engravidar. A situação dessa dona de casa é muito parecida à de outras mulheres católicas, que, sem consciência da gravidade, aceitaram a solução que lhes foi oferecida de imediato, por desconhecerem o que ensina a Igreja sobre planejamento familiar e a cruz de cada dia.

A laqueadura é uma cirurgia muito praticada atualmente, e, dos meios disponíveis para evitar a gravidez, é o mais procurado em todo o mundo. Reversível ou definitiva, consiste no fechamento das tubas uterinas, ou “trompas de falópio”, impedindo o óvulo de chegar ao útero e se encontrar com o espermatozoide masculino.

Pela própria dignidade do ser humano, deve haver limites em sua exploração como objeto científico. O homem não é uma coisa. O homem não é um animal qualquer. Como estabelecer esses limites? O Papa Pio XI, em sua encíclica Casti connubii (sobre o matrimônio cristão), de 1931, iluminou de maneira definitiva a questão: o homem só tem domínio sobre o próprio corpo, se for para garantir a função, a razão de ser de cada uma de suas partes. É aceitável que se extirpe um órgão, se a sua permanência comprometer a vida da pessoa (um exemplo, entre muitos, é o da extração da vesícula com excesso de pedras); mas é inaceitável alterar a função reprodutiva dos órgãos sexuais, a menos que a gravidez comprovadamente coloque em risco a vida da mulher ou haja possibilidade de grave doença hereditária transmitir-se ao filho.

Por isso, já em 1951, Papa Pio XII, baseando-se nos limites estabelecidos pelo seu antecessor, alertava os católicos contra essa falsa solução. Em discurso às parteiras italianas, o Papa dizia que “mutilar o organismo é uma grave violação da lei moral” e lembrava às autoridades públicas que não tinham o direito, sob qualquer pretexto, de prescrever ou de fazer executar a esterilização. Exortava os católicos a se oporem, quanto fosse possível, a essas tendências ilícitas, recusando-lhes qualquer cooperação.

Os métodos contraceptivos, ao limitar a função natural dos órgãos do corpo humano destinados à procriação, reduzindo-os a fontes de prazer, afrouxam as rédeas do relacionamento sexual, trazendo sérias consequências sociais: condiciona o surgimento de uma sociedade exageradamente erotizada, que tende a reduzir o ato conjugal a fonte de prazer. Em consequência, o cônjuge também passa a ser visto como um objeto precioso, que é preciso conservar enquanto for útil ao fim destinado. O amor ao próximo, baseado no auto-sacrifício, substituído pelo amor a si mesmo, em busca de permanente autossatisfação.

Já o controle da natalidade pela abstenção sexual, no qual nada no corpo é estruturalmente modificado, propicia um enorme ganho psicológico e espiritual, pois a privação é um excelente exercício de autodomínio e refreamento dos impulsos, preparando o casal para os momentos de provação a que a vida os submeterá, mais cedo ou mais tarde. Abstenção de sexo, na fase fértil da mulher, parece impossível para um ser humano, mas não o é para Deus. (22/03/2016)

 

 

A terra é o “centro” do universo?

 

Com o “princípio antrópico” — concepção cosmológica segundo a qual o universo teria sido milimetricamente construído para o surgimento da vida, culminando no ser humano —, não seria justo reafirmar a validade do geocentrismo? Se o universo foi feito para nós, será delírio dizer que a terra é o seu centro? (18/03/2016)

 

 

Acaso não sabeis que sou filho da Imaculada?

 

São Luís de Montfort, padre francês que viveu no início do século XVIII, dizia em sua célebre obra Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, que toda a terra estava cheia do nome e da glória de Maria. E enumerava a presença de Nossa Senhora pelo planeta...

Começava destacando o fato de muitos países a tomarem como padroeira e protetora. Províncias, dioceses e cidades se dedicavam ao seu culto e se punham sob a sua proteção. Eram inúmeras as catedrais e capelas consagradas ao seu nome. Não havia Igreja sem um altar em sua honra, quando não vários, nem região ou país que não possuísse alguma imagem milagrosa de Maria Imaculada, como fonte de graças e milagres. Confrarias e congregações religiosas eram fundadas em sua honra. Institutos de ensino e ordens religiosas levavam o seu nome e se abrigavam sob a sua proteção. A cada minuto, incontáveis eram os monges e monjas católicos, espalhados pelos dois hemisférios, cantando os seus louvores e anunciando as suas maravilhas. Pessoas leigas, de todas as idades, da criança que mal sabia falar ao velho quase sem memória, balbuciavam e recitavam Ave-Marias, em circunstâncias as mais diversas. Mesmo pecadores, já afastados da Igreja, conservavam ainda alguma confiança em Maria Santíssima. Os próprios demônios, no inferno, a respeitavam bastante, ainda que trêmulos de medo ante o poder que sabiam ter a Mãe do Salvador.

Concluía São Luís, observando que, apesar de tudo, faltava muito para que o mundo a louvasse e amasse suficientemente, pois ela, sendo quem era, merecia o dobro, o triplo, o quádruplo. Por mais, porém, que o mundo a glorificasse, jamais se compararia à glória que ela recebia do próprio Deus, por ter sido quem foi (mãe do Cristo) e ser quem era (Rainha do Céu e da terra).

O próprio São Luís fez o que pode para servir Nossa Senhora. Na mesma obra, escreveu algo belíssimo, que os grandes poetas invejariam: “Deus reuniu todas as águas, e as chamou de mar; reuniu todas as graças, e as chamou de Maria.” A Igreja sempre acreditou que Maria fosse a nossa corredentora e a medianeira de todas as graças, aquela através de quem o coração de Jesus pode ser mais facilmente tocado. Há uma expressão que revela bem o poder que Deus lhe deu: ela é a “onipotência suplicante”, a todo-poderosa pela humildade da súplica... Maria, a que tudo pode, não pela própria natureza, pois não é divina, mas pela graça de Deus.

Contudo, é perceptível que aquela presença de Maria no mundo, ainda muito forte à época de São Luís, tende em nossa época a diminuir. Os demônios continuam a temê-la, mas nações e cidades parecem esquecidas de sua maternal proteção. Com a secularização do ensino, outros são agora os nomes de nossas escolas. Desapareceram confrarias e associações católicas, como a Congregação Mariana e as Filhas de Maria. Muitas igrejas e capelas, a partir dos anos setenta, reduziram a sua presença nos nichos e altares, para facilitar o diálogo ecumênico com os protestantes. E, com o crescimento do protestantismo calvinista, Nossa Senhora é até hostilizada por algumas seitas, como atesta o famoso episódio do pastor que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida (a Mãe de Misericórdia já o perdoou, sem dúvida).

Maria foi mulher escolhida por Deus para trazer ao mundo o nosso Salvador, e o seu corpo, humano como o nosso, foi no entanto fecundado pelo Espírito Santo. A semente de Deus ali cresceu como em nenhuma outra mulher. Foi porta-joias do Deus Filho, guardando por nove meses o mais precioso bem da humanidade: Jesus. Essa presença de Deus, no ventre de uma mulher, não seria suficiente para santifica-la de modo especial? (11/03/2016)

 

 

A responsabilidade de Fernando Henrique Cardoso

 

O velho Roberto Campos nunca acreditou muito em nosso FHC. Chamava-o de “cristão novo” do livre-mercado. O ex-presidente realmente se convertera ao capitalismo ou tudo não passava de postura estratégica, permanecendo sempre adepto da dialética marxista, como os antigos judeus da Idade Média que só aceitavam o batismo católico para que os deixassem em paz em seus negócios?

Uma prova de que FHC ainda cheirava a “marrano” (apelido que tinham judeus e mouros falsamente convertidos), foi o estranho apoio que deu a Lula, na primeira eleição deste, ao recusar adesão firme ao candidato do seu próprio partido, José Serra, alegando uma pouco convincente imparcialidade de ex-presidente.

Seu comportamento, à época do mensalão, também foi muito suspeita, quando todo o país ansiava por, finalmente, varrer de cena os corruptos, que depois se firmariam no poder e transformariam o Brasil nisso que vemos hoje: a coisa mais lamentável do planeta Terra.

FHC, que sempre quis legalizar o aborto no país, atirou pelas costas em sua antiga clientela eleitoral, que se sentiu traída ao vê-lo “dialeticamente” silencioso diante da primeira exibição pública, ao vivo e em cores, do verdadeiro rosto do PT. Alguma coisa me diz que FHC & Lula fizeram a dobradinha mais misteriosa da política brasileira... Acredito que o sociólogo nunca deixou de ser discípulo do professor Antonio Candido, um discípulo mais esperto que o mestre, mais hábil no uso do disfarce e da dissimulação. (05/03/2016)

 

 

Vinícius de Moraes e a idolatria do sexo

 

Antigamente, as melodias mais inspiradas eram oferecidas a Deus. Depois do romantismo, às mulheres. Não que elas não mereçam belas melodias. Quem já esteve apaixonado, sabe como paixão amorosa e música se entrelaçam... Quando ouço, porém, as belas modinhas de Tom Jobim, com letras de Vinícius de Moraes, percebo claramente como o poeta, ex-católico, substituía o Deus da juventude pelo desesperado “eros” romântico do resto de sua vida. Em vez de adorar o Cristo na cruz, atirava-se aos pés da mulher arredia. Sua idolatria final foi esta: a mulher. Não sei se o sexo foi uma compensação posterior por haver perdido a fé ou se terá sido a própria razão de sua perda de fé... (03/03/2016)

 

 

Os santos, obras-primas de Deus

 

Os santos são uma obra-prima de Deus, realizada em tripla parceria. Três são os autores da obra: Deus com sua graça, o homem com seu esforço e a Igreja com sua materna proteção. (29/02/2016)

 

 

Filhos ou cães?

 

Não podemos esperar dos cães mais do que eles podem dar. Afinal, eles não possuem almas racionais. Muitas pessoas, infelizmente, sobretudo mulheres, andam esperando dos cachorros mais do que eles, coitados, poderiam oferecer, além de companhia fiel ou guarda de quintais. Se não tem almas, não são capazes de sacrificar-se. Jamais amarão o próximo como a si mesmos... Nada podem fazer além daquilo para o qual foram programados. Não são seres livres. Não substituem os filhos que as mulheres modernas não mais querem conceber. No entanto, o gasto com cachorrinhos movimenta atualmente rios de dinheiro. (26/02/2016)

 

 

Por quem os sinos dobram?

 

Os sinos são uma invenção muito antiga. Na forma, porém, como os conhecemos ainda hoje, é uma criação católica da Idade Média. E, até hoje, é impossível dissociar essas duas coisas: sino e catolicismo. Conta-se que, quando nasceu São João de Deus, em Portugal, no dia 8 de março de 1495, todos os sinos de sua aldeia começaram a bimbalhar sozinhos, embora ninguém pudesse suspeitar que profetizassem a futura santidade do menino.

Os sinos eram a voz da Igreja e, indiretamente, a voz de Deus. Por eles é que convocava festivamente as pessoas para a Santa Missa e demais ofícios religiosos. Podiam dobrar grave e melancolicamente, anunciando funerais de cristãos. Tinham, também, uma função oposta à religiosa: servir de relógio, bater as horas, administrar o tempo, contribuir para a vida cotidiana das cidades, sem deixar de marcar, em três grandes momentos (às seis da manhã, meio-dia e seis da tarde), a Hora do Ângelus, Hora suprema da vida cristã, em que o tempo e a eternidade se cruzaram: o anúncio a Maria do nascimento de Jesus.

Contudo, mesmo quando exercia essa função meramente prática, de auxiliar dos relógios, os sinos não deixavam de imprimir, no ar, o timbre solene do mistério religioso. Se lidava com assuntos do tempo, fazia-o pela perspectiva da vida eterna. Enfim, eram os sinos (do latim “signum”) um sinal do sagrado. Ao crente, fazia lembrar-se de Deus; aos incréus, provocava uma grande nostalgia do Criador.

A presença dos sinos, na literatura, era muito frequente. Não há grande romance do século XIX em que não se ouça a voz de um sino, tocando geralmente pela tardinha. Poemas românticos e simbolistas se deixaram impregnar de seu misterioso apelo. O poeta americano William Carlos Williams, que não era católico, gostava de ouvir os sinos que soavam na nova igreja de tijolos, em sua pequena cidade. Sentia-os tocar por tudo: pelos fenômenos naturais, pelo início da vida e pela velhice, pelas novenas e pelos fiéis, pelo seu amigo surdo que já não os podia ouvir e pelos filhos de seu amigo surdo. “Que toquem”, dizia o poeta, “toquem sempre!

O poeta brasileiro Manuel Bandeira, mesmo em suas crises religiosas, não deixava de fazer repicar sinos em seus poemas. Mencionava a voz noturna dos sinos (“de repente nos longes da noite um sino”); a voz das manhãs cantando pelos sinos; os sinos da redenção; o “sino de Belém, pelos que inda vêm! Sino da Paixão, pelos que lá vão!

O escritor americano Ernest Hemingway, mesmo ateu, batizou um romance, ambientado na Guerra Civil Espanhola, com o sugestivo título de “Por quem os sinos dobram”, extraído de um texto de John Donne, poeta e pastor anglicano inglês, o qual, pensando nos sinos que tocavam em funerais, escreveu estas belas e célebres palavras: “Nenhum homem é uma ilha. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Pelo início da década de setenta, no gélido inverno de 1974, ouvi do adro da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, os mais belos sinos da minha vida. Tinha dezoito anos e era um fim da tarde de junho, muito frio. O som dos sinos vinha de uma igreja vizinha, um pouco mais abaixo, e da qual eu só via o telhado (Ouro Preto é a campeã dos declives).

O sineiro saltava de uma torre a outra, correndo pelo próprio telhado. Colocava um sino para funcionar e corria até o outro, permanecendo nesse ziguezague por algum tempo. Um toque tão impressionante, que me deixou uma profunda lembrança. Por muitos anos, ainda conseguia lembrar-me de sua estranha melodia, vibrando cadenciadamente na memória. Era, certamente, um lembrete de Deus a um jovem inquieto, no momento em que começava a dar mais ouvidos às coisas do tempo que da eternidade... (25/02/2016)

 

 

Padre Pio e o demônio

 

Algumas vezes, o embate era físico: padre Pio literalmente apanhava do demônio. Ainda em Pietrelcina, à noite, cercavam-lhe a cama com insultos, zombarias, palavrões. Pulavam aos urros sobre ele e o agrediam com socos, atirando-o contra a parede. Cadeiras caiam, móveis eram arrastados. Tudo isso sob o espanto dos vizinhos, que nem de longe imaginavam o drama que vivia padre Pio.

Estava certa vez em sua cela, no Convento de Santana, em Foggia, quando o anjo malévolo apareceu e o agrediu violentamente. Padre Pio se defendeu como pôde. Um colega, padre Fernando, que tinha acabado de sair e não estava distante, ouviu o ruído da luta e voltou imediatamente: viu o santo ofegante, pálido, com os cabelos e a barba desfeitos. A cama estava desarrumada, havia uma cadeira caída no chão e uma vassoura quebrada.

Mais de uma vez, o embate com o Inimigo foi assim, tremendamente físico, como quando se hospedou em Nápoles: um demonio agarrou-lhe pelo braço, rodopiou-o como um pião pelo quarto e o jogou chão, deixando-lhe o braço contundido.

Aos vinte e seis anos, durante breve tratamento de saúde, num hospital da mesma Foggia, ele ouvia estranhos barulhos, que também eram percebidos pelos outros doentes, que se aproximavam para saber do que se tratava. Padre Pio via, então, figuras horríveis, ora de pessoas, ora de animais.

Um dia, enquanto rezava a Liturgia das Horas à sombra de um carvalho, no sítio dos pais, em Pietrelcina, apareceu-lhe uma enorme serpente. Ao seu grito de espanto, acorreu um vizinho que nada viu. Ainda nessa época, todas as vezes em que entrava sozinho em casa, pela tarde, via uns vultos indefinidos e zombeteiros. Nesses ataques, padre Pio ora via figuras horríveis e disformes, ora pessoas (como nuas e provocantes bailarinas ou algum superior religioso, aconselhando-o a abandonar o hábito), ora animais (cachorro, gato, serpente).

O interessante é que esses ataques físicos e mais frontais parecem ter durado até o começo de sua vida religiosa, na época em que começaram a aparecer as dores e, em seguida, os estigmas, com as feridas nas mãos e nos pés. Foi uma tentativa desesperada do tinhoso de impedir a entrega total de padre Pio à Igreja. Tentativa frustrada, como sabemos; mas a luta continuaria até o final de sua vida, com outros métodos e outras armas. (20/02/2016)

 

 

O denominador comum das negações protestantes

 

O protestante parece ser o precursor do revolucionário moderno, em sua tendência para negar a história, passando-a a limpo. No seu incomodar-se com a ordem estabelecida da Igreja, o “establishment” católico, abriu o caminho secularizado para as revoluções modernas. É o princípio do livre-exame teológico estendido, enfim, a tudo o que existe sob o céu e sobre a terra. Não há classificação mais equivocada do que a de “reforma” para aquilo que fez Lutero. Revolução é a palavra mais adequada.

Reformadores cristãos foram São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, São Domingos, São Tomás de Aquino, São Francisco de Paula, Santo Inácio de Loyola, São Filipe Néri, Santa Teresa de Jesus, São Vicente de Paula, São João Bosco, etc.; homens que, de um modo ou de outro, propugnaram por mudanças na Igreja, sem romper com a Igreja.

Quando um “reformador” protestante, movido pelo vírus da dissidência radical, resolvia negar todo o edifício católico, devia partir da pedra fundamental: a concepção do Cristo. O Cristo protestante — é a tese que defende Padre Paulo Ricardo no seu último curso on-line Por que não sou protestante — é um Cristo descarnado, um Deus sem dimensão humana, o menosprezo da natureza humana do Verbo eterno.

Esse Cristo etéreo só podia mesmo resultar numa “igreja” sem artes plásticas, sem grande literatura religiosa, sem iconografia, sem liturgia, sem a presença mediadora de Maria e dos santos. Os templos se transformavam em salões de palestras e louvor. Ao negar a permanente necessidade humana de mediação, de simbolização — o homem é uma alma tão visceralmente unida a um corpo, que a ele voltará no fim dos tempos —, transformava-se ao cabo numa “igreja” tão leve e abstrata que, com o tempo, tendia à evanescência e à dissipação próprias do éter.

Combater o protestantismo, portanto, não é só uma guerrinha interna e intolerante entre cristãos: é botar o dedo na ferida, é apontar para uma das possíveis causas desse relativismo moderno que ameaça a civilização ocidental.(18/02/2016)

 

 

A linguagem da oração

 

Temos sempre um programa de aprendizado de línguas pela frente. Quanto mais línguas souber, mais aumenta o chaveiro do intelectual e as portas das culturas vão se abrindo. As línguas, porém, intercambiam quase só informações humanas, preciosas e necessárias muitas delas, sem dúvida. Há momentos na vida em que, mais que línguas, há a necessidade de aprender certas linguagens, que são “línguas” dentro das línguas, como a linguagem das ideologias que nos aprisionam, a linguagem do politicamente correto que nos avilta etc. Esse aprendizado é fundamental, tem a ver com defesa pessoal, aqui e agora; algo como aprender karatê ou judô.

Mais que línguas, procuro, agora, aprender certa linguagem, “língua” adormecida dentro da nossa própria língua, que é de vital importância para a minha salvação eterna: a linguagem da oração. Como toda linguagem, tem seus símbolos, regras, método de aprendizado. Há uma verdadeira ciência da oração guardada nos baús da espiritualidade católica, que é preciso trazer à luz e divulgar por aí.

Padre Paulo Ricardo, poliglota à antiga, faz a sua parte, no belo site Christo Nihil Praeponere, e deixa à disposição do público uma boa introdução à linguagem da oração; mais que isso, à própria vida orante. Trata-se do curso “Caminho de perfeição”, sobre Santa Teresa de Jesus. No mesmo site, há uma utilíssima introdução à linguagem revolucionária, sobre a “revolução cultural” operada na universidade nas últimas décadas, apoiado em ampla bibliografia. Bate forte no esquerdismo existente na própria Igreja e na universidade. (16/02/2016)

 

 

O que farei da minha eternidade?

 

Fui, durante muito tempo, um agnóstico, e quando confronto a vida anterior, sem fé, com a de agora, não consigo acreditar como consegui viver todos aqueles anos distante da verdade cristã. No fundo, nem tão distante assim, pois, como disse certa vez o Cardeal Ratzinger, são as verdades e valores cristãos que impedem nossa civilização secularizada de mergulhar de vez no abismo. Respiramos cristianismo, mesmo quando recusamos o seu oxigênio; sua força civilizacional transcende veleidades pessoais.

Para falar em termos mais existenciais, eu diria que nasci de novo com a conversão. Ou melhor, experimentei algo parecido a uma ressurreição. Não é fácil a vida do cristão. Admito, sim, que a do ateu e do agnóstico é bem mais tranquila, pois a sua única preocupação é com o “que-fazer” aqui e agora, enquanto o cristão lida com um problema bem mais complicada: o que farei da minha eternidade? O maudit Olavo de Carvalho tem uma bela colocação sobre o assunto: se somos eternos, disse ele, temos de ser eternos desde já! Viver, aqui e agora, com nossa miséria humana, com os olhos postos na vida eterna. (15/02/2016)

 

 

Santa Francisca Romana

 

A cidade não teria, então, mais de vinte mil habitantes, dizimada pela peste negra de 1348 e reduzida a menos de vinte mil habitantes, a maioria pobres, cercados por um monte de ruínas milenares. Bois, vacas e ovelhas pastavam tranquilamente pelo centro da cidade. Propriedades rurais, com seus pomares, pastagens e vinhedos, cercavam a sua área urbana.

Na época em que Francisca nasceu e cresceu, as principais igrejas da cidade pareciam abandonadas, e quase não se cuidava do ensino das coisas religiosas, como se Roma não fosse o centro simbólico do cristianismo. Os séculos XIV e XV foram muito difíceis para a Igreja. No primeiro, o Papa se mudaria para Avinhão, na França, e só regressaria definitivamente à sua sede original em 1377. Mal instalara-se em Roma e, já ocorreria o chamado “grande cisma do Ocidente”, com dois ou até três papas simultâneos. 

Não eram raras as disputas políticas, quase sempre sangrentas, entre as principais famílias da cidade, sobretudo entre os Orsini, os Colonnesi e os Savelli. Eram frequentes as invasões de príncipes estrangeiros, que vinham para saquear as velhas ruínas.

O bairro em que Francisca nasceu, o Parione, era na época no centro cultural da cidade. Uma próspera indústria, a do livro manuscrito com suas iluminuras, tornava-o um ponto de referência no mercado livreiro.

Quem hoje passa pela Via dei Vascellari, perto da ponte Palatina e da Ilha Tiberina — situados no Trastevere, coração da Roma medieval — e pára no nº 61, hoje misto de museu, pousada e sede do Instituto Casa di Santa Francesca Romana, não consegue imaginar que exatamente ali, entre aquelas paredes austeras e senhoriais, há mais de seiscentos anos vivia a humilde Francisca, a jovem esposa que, por não se sentir à vontade nos vestidos engomados de sua classe social, teve de pedir licença à sogra para trocá-los pela roupa comum das mulheres do povo.

Francisca saia às ruas de uma Roma bem diferente da de hoje. Não havia essas igrejas ricamente ornadas e decoradas de agora, nem turistas atravessando uma ponte qualquer do Tibre e invadindo, com suas máquinas de fotografia, as ruelas tortas e estreitas do Trastevere, rijamente calçadas de pedra, cujas paredes desbotadas pelo tempo charmosamente escondem lojas, restaurantes, pizzarias.

Em 1397, ano provável de seu casamento com Lourenço Ponziani, o instituto atual que leva o seu nome era o palácio dos Ponziani, cercado por um rude pomar, onde viviam os sogros, os filhos, os numerosos empregados que cuidavam da casa e das terras, além dos animais, recolhidos no estábulo, usados por eles em seus trabalhos e deslocamentos. Era no meio das árvores do pátio que Francesca ia, frequentemente, buscar refúgio para suas orações. (14/02/2016)

 

 

A viravolta da cantora Elba Ramalho

 

A cantora pertencia a um grupo de artistas da MPB, que não era só composto de produtores de canções populares, mas tinha um propósito muito claro: contribuir com o “movimento revolucionário” para a tomada do poder político e cultural no Brasil. O propósito foi atingido. Atualmente, o poder político, acadêmico e midiático está nas mãos de ativistas de esquerda.

Um dia, porém, a cantora mudou de rumo. Viu, em si mesma e nos outros, os efeitos danosos daquela mentalidade esquerdista — que é abortista, homossexualista, anti-família —, e reconverteu-se à Igreja Católica, transformando-se em nome importante do movimento anti-aborto Pró-Vida.

Em seus depoimentos públicos, dados nos últimos cinco anos e facilmente acessíveis no Youtube, salientam-se três aspectos centrais de sua vida: inicialmente, um retrato muito vivo da mentalidade esquerdista dominante, atualmente no poder, envolvendo artistas, jornalistas e professores/alunos universitários; a surpreendente conversão da cantora, na qual merecem destaque a intercessão de Nossa Senhora e a presença muito viva de Medjugorje; e, atualmente, o engajamento no movimento Pró-Vida. A cantora Elba Ramalho, agora, só quer trazer pessoas de volta à Igreja Católica e salvar vidas no útero materno. Que Nossa Senhora cuide e interceda por ela! (13/02/2016)

 

 

Medjugorje é fraude, histeria ou coisa de Deus?

 

Várias investigações científicas, realizadas durante as próprias aparições, descartaram as duas primeiras hipóteses: os videntes não mentem, nem estão doentes da cabeça. Que algo aparece, portanto, é coisa líquida e certa.

Medjugorje, que parece não ter prazo de validade, intriga alguns pesquisadores. “Será mesmo a Virgem Maria?”, questionam eles, alegando desvio da norma em relação à “estrutura” permanente das aparições, que sempre foram bem limitadas no tempo.  Tradicionalistas, apoiados em Lourdes e Fátima, não aceitam a laicidade dos videntes, que se casaram e tiveram filhos, em vez de procurar a vida religiosa. Modernistas torcem o nariz para o conservadorismo da “mensagem” medjugorjana, que caminha na contramão da esquerda (os videntes e os padres franciscanos que cuidavam da paróquia medjugorjana sofreram muito, nas unhas do antigo comunismo iugoslavo). Medjugorje também bate de frente com a chamada “nova ordem mundial”, ao recusar com veemência a dita “agenda globalista”: aborto, eutanásia, divórcio, casamento gay etc.

Há os que preferem pensar na presença do demônio, uma molecagem do Inimigo, que apareceria travestido de Nossa Senhora. Essa hipótese foi descartada por um dos principais demonólogos da nossa época, o nonagenário padre Gabrielle Amorth, exorcista da diocese de Roma e expert em “coisa-ruim”.

É possível que o demônio trabalhe contra si mesmo durante tanto tempo? Ele pode ser tudo, menos idiota. O próprio Jesus, quando acusado pelos fariseus de fazer milagres por influência do diabo, respondeu: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino?” (Mateus, 12, 24-26)

Satanás não faria aquela árvore da Bósnia dar tantos bons frutos, como tem dado; frutos de primeira, em muito maior quantidade que as maçãs bichadas que inevitavelmente aparecem em qualquer fato humano.

Mas vamos admitir que as aparições de Medjugorje tenham causa demoníaca. Ora, os frutos colhidos na cidadezinha da Bósnia são, mais que bons, indubitavelmente divinos: as mensagens são estritamente evangélicas, milhares de pessoas foram convertidas, centenas de milagres estão registrados nos arquivos da paróquia, os seis videntes levam vida cristã exemplar. Enquanto o Inimigo fizer e ensinar coisas tão boas, não custa ouvi-lo. Por enquanto, o diabo de Medjugorje está se revelando uma criatura extremamente virtuosa. Enquanto ele continuar assim, não custa ouvi-lo...

Os detetives de maçãs bichadas apontam alguns familiares dos videntes, que acabaram enriquecendo com o turismo religioso de Medjugorje. Mas quem não sairia lucrando, com os milhares de peregrinos diários à procura da pequena aldeia da Bósnia Herzegovina? O mesmo raciocínio deveria ser estendido aos demais santuários marianos, sobretudo os de Guadalupe, Lourdes e Fátima. (12/02/2016)

 

 

As conversões provocadas por Padre Pio

 

Há quem pense que os milagres mais difíceis realizados por intercessão do santo frade não tenham sido as curas físicas, mas as mudanças espirituais, como um materialista que de repente se transforma em cristão.

As primeiras despertam mais a atenção pública, por serem mais espetaculares e apontarem para uma realidade diferente, oculta sob a realidade aparente das coisas. No entanto, um homem ou mulher que deixam de adorar a ciência, a evolução das espécies, a luta de classes, e caem de joelhos diante de um crucifixo — eis o prodígio dos prodígios em época como a nossa. São as curas ou milagres espirituais, menos ostentosos, porém não destituídos de mistério.

Converteu muitos marxistas. Ele incluía os comunistas entre os adversários de Deus, exatamente como sempre pensou a Igreja, por servirem à criatura e não ao Criador. Certa vez, disse a um membro do partido comunista, ao final de uma confissão: “Você traiu o Senhor teu Deus e passou para o lado de Seus inimigos”.  Se houve membros da Igreja que aderiram a essa doutrina, ou a aceitaram estrategicamente, cometeram um grave equívoco. O nosso santo não se deixava enganar por um dos aspectos do igualitarismo marxista — o pretenso cuidado com os pobres —, pois sabia que era só um disfarce, uma sedutora isca para arrastar os incautos às mais cruéis formas de totalitarismo de que se tem notícia na história contemporânea, ao lado do fascismo e do nazismo. Em vez de escravos do Estado, os cristãos deviam ser escravos uns dos outros pela caridade, como já dizia São Paulo na “Carta aos Gálatas”. Ser marxista, para o padre Pio e para a Igreja, era e continua a ser um pecado mortal. (10/02/2016)

 

 

Literatura cristã no Brasil dos anos 30

 

Os dois veios temáticos recorrentes do modernismo — crítica à cultura burguesa e valorização das idiossincrasias regionais — de certo modo continuaram, nos anos trinta, sob novo enfoque. E, se renascia a ficção urbana, tanto a costumista como a psicológica, apareceria a seu lado uma nova corrente, tanto na poesia como na prosa, com um novo assunto, que não figurava no programa modernista: eram os problemas do pecado, da Graça e do destino eterno do homem, abordados por escritores católicos, geralmente sobre o pano de fundo da classe burguesa.

O renascimento da espiritualidade brasileira, sobretudo do pensamento católico, irrigaria um vasto território literário a partir de trinta. Essa tendência foi bastante auxiliada pela fundação do Centro Dom Vital e de sua revista A Ordem, criados em 1922 (mesmo ano da exageradamente famosa semana paulista) pelo pascaliano Jackson de Figueiredo, morto prematuramente em 1927 e principal responsável pela conversão de Alceu Amoroso Lima, que assumiria em 1928 a direção do centro e da revista no lugar de Jackson. Num país em que os principais críticos literários eram homens sem fé religiosa, ou já sem entusiasmo pela fé, a militância católica de Alceu de Amoroso Lima foi uma extraordinária novidade, de extensa repercussão.

Ainda está por ser feito o estudo definitivo da importância, para o pensamento brasileiro, do Centro Dom Vital, cujo nome era uma homenagem ao bispo pernambucano que muito lutou em sua época contra a influência da maçonaria no clero brasileiro; e de sua revista — que ecumenicamente acolhia ensaístas não católicos —, responsáveis pela criação de uma mentalidade cultural cristã disposta a discutir a realidade contemporânea e nela influir.

Direta ou indiretamente, muito influenciou a corrente literária dita espiritualista, mas basicamente católica, que reunia nomes como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria (cunhado de Alceu), Gustavo Corção, Plínio Salgado, Augusto Frederico Schmidt, e até o Vinícius de Moraes da primeira fase. Não se deve excluir desta lista o poeta Manuel Bandeira, que foi recuperando a fé à medida que envelhecia — até aparecer, numa de suas últimas fotos, abraçado a um crucifixo —, nem Mário de Andrade, católico que parecia não o ser.

É preciso não esquecer que esses romancistas e poetas eram contemporâneos do modernismo, mas caminhavam quase todos noutra direção, mais disponíveis a voos metafísicos do que a mergulhos etnológicos na cultura nacional, embora sofressem aqui e ali alguma influência das vanguardas europeias. (02/02/2016)

 

 

Literatura e misericórdia

 

A grande literatura sempre se originou da compaixão. Escritor de verdade é aquele que sofre junto com suas criaturas, como, por exemplo, o milanês Alessandro Manzoni (1785-1873), neto do célebre jurista César Beccaria e autor de uma obra-prima da literatura italiana e universal: o romance Os noivos.

Convertido ao catolicismo aos vinte e cinco anos, Manzoni conta em Os noivos a história de Lourenço e Lúcia, camponeses muito simples que, no início do século XVII, viviam em pequena vila da Itália, às margens do Lago de Como. Pretendiam casar-se, no que foram impedidos por Dom Rodrigo, um nobre que mandava na cidade: agradando-se da moça, mandou raptá-la. Lúcia conseguiu escapar, mas permaneceu boa parte da história escondida, para não cair de novo nas garras do fidalgo canalha. Veio, porém, uma terrível peste e Dom Rodrigo foi contaminado, morrendo depois de muito sofrer. O casal de camponeses pôde, finalmente, realizar o seu sonho.

Este brevíssimo resumo não pode dar, nem de longe, uma ideia da complexidade moral e psicológica de Os noivos, do qual há edição mais ou menos recente em português (Nova Alexandria, 2012, 648 páginas). As grandes paixões humanas nele se agitam do início ao fim: ódio, vingança, soberba, inveja. Além de grande auscultador de almas, Manzoni era também um hábil contador de histórias, deixando o leitor preso, sem tédio, da primeira à última página do grosso volume.

Não há comunismo mais radical que o da morte, diante da qual todas as pessoas são rigorosamente semelhantes. Prova-o o capítulo de Os noivos dedicado à peste de Milão. Todos os contaminados — nobres e plebeus, ricos e pobres, padres e leigos, homens e mulheres — estavam nivelados por baixo e pertenciam, então, à classe humilhada dos moribundos. A terrível epidemia, com a sua democrática indiferença, a todos infectava por igual, indistintamente.

Ao contrário, porém, do que ocorria ou ocorre na ex-URSS, China ou Cuba, o comunismo da peste e da morte oferecia ricas possibilidades de transcendência pessoal. É o caso do episódio, talvez o mais comovente da obra, em que Lourenço descobriu finalmente o paradeiro de seu malfeitor, Dom Rodrigo, que tinha raptado sua noiva e transformara a sua vida num pesadelo: fora contaminado pela doença, encontrando-se num hospital completamente improvisado, mais uma vítima em meio às outras. Seu título de nobreza já nada mais valia.

Lourenço para lá seguiu, furiosamente decidido a vingar-se do nobre, agora transformado na mais miserável das criaturas. Frei Cristóvão, um homem de Deus, logo deixou sem sentido o projeto de vingança de Lourenço. Fez o jovem aproximar-se do corpo chagado e indefeso de Dom Rodrigo, diante do qual imediatamente desistiu de tomar o lugar de Deus, compreendendo que a justiça já estava feita. Restava-lhe o perdão e a misericórdia. Foi o que fez: perdoou-o.

Um pouco mais tarde, foi o mesmo frei Cristóvão, porta-voz de Cristo, quem diria aos noivos Lourenço e Lúcia, sobre como deviam educar os futuros filhos:

— “Vocês viverão em um mundo triste, e em tristes tempos, no meio de soberbos e provocadores. Ensinem a eles que perdoem sempre, sempre, tudo, tudo!

A pedagogia moral de Manzoni estava, toda ela, concentrada nessa nobre advertência cristã. É a principal lição a tirar do grande romance italiano: só a misericórdia pode salvar, seja ela proveniente de Deus ou dos homens (a qual, misteriosamente, nunca anda separada de sua tremenda companheira, a justiça). (16/01/2016)

 

 

Igreja e sexo

 

“Se não dominarmos o sexo, ele fatalmente nos dominará”, não me canso de repetir o quer sabiamente dizia Chesterton, o grande escritor inglês. Sexo é ótimo na mesmíssima medida em que é perigoso. Por isso, a Igreja Católica sempre viu na luxúria — que é o sexo concebido e praticado de forma desordenada — um pecado capital, entendendo que o seu melhor contraveneno é contê-lo nos limites estreitos do casamento, vínculo indissolúvel que visa, sobretudo, a procriação de filhos e sua educação na moral cristã. Para os casais de hoje, isto parece absurdo; para os casais de ontem, era, no entanto, perfeitamente possível.

O casamento católico, sem anticoncepcional, praticando a privação nos momentos de fertilidade da mulher, ainda é a melhor maneira de disciplinar o apetite sexual, que pode perfeitamente ser contido, ao contrário de outros impulsos, como a fome, a sede e o sono. O amor verdadeiro é aquele que traz o sexo sob controle, para permitir a entrada, no relacionamento conjugal, de virtudes morais e espirituais como a solidariedade, a generosidade, a abnegação. 

Quando o Papa Paulo VI, há quase cinquenta anos, condenou os contraceptivos em sua encíclica “Humanae vitae” (1968), foi atacado dentro e fora da Igreja, mas estava sabiamente iluminado pelo Espírito Santo: percebeu que a sua liberação criaria uma sociedade precocemente erotizada, à mercê da indústria pornográfica. O Papa tinha razão: desistimos de dominar o sexo, e ele, finalmente, nos dominou. Não é exatamente isto que ocorre hoje em dia?

Uma das consequências do sexo fácil e disseminado é a criação de uma sociedade distraída, desatenta, inimiga de tudo o que exige método e discernimento. Há algumas décadas, o escritor americano Saul Bellow localizou na “desatenção” um dos principais obstáculos à criação cultural e espiritual. A distração é a grande inimiga do pensamento. Uma sociedade distraída pelo sexo está, fatalmente, condenada a regredir à barbárie (o próprio Dr. Freud o admitia). Estudos recentes revelam que as pessoas, quando vítimas da pornografia, são mais facilmente manipuladas, pois sexo além da medida funciona como droga: entorpece. Uma sociedade entorpecida é um prato cheio nas mãos de governos inclinados à dominação totalitária.

Facilmente nos esquecemos de que o prazer sexual não é a finalidade, mas só um componente do ato sexual (que a Igreja, para minimizar a sua dimensão animalesca, prefere chamar de “ato conjugal”). O seu fim é a união do casal e a generosa procriação de filhos, em consonância com o projeto de Deus Criador, que é o maior amigo da vida e deseja o Céu superlotado de homens e mulheres.

Segundo a Igreja, as famílias devem fazer a sua parte, crescendo generosamente a partir da única fonte possível: um homem e uma mulher. A moda da prole pequena, reduzida melancolicamente a dois filhos ou ao filho único — mesquinhez que hoje nos parece ser a coisa mais sensata do mundo —, surgiu a partir dos anos sessenta, por inspiração de algumas organizações internacionais, como parte de um plano muito ousado de controle demográfico do planeta, com objetivos visivelmente econômicos, como se já estivéssemos no limite do crescimento populacional. A história é bem outra: a baixa densidade demográfica atual da Europa, obrigada a abrir suas fronteiras à imigração, é um claro desmentido a essa pretensa verdade científica.

Infelizmente, a moda da família pequena pegou fácil, pois apelava a outros pecados capitais, como a preguiça (pra que tanto trabalho?), em união com a vaidade (menos filhos, menos desgaste) e a avareza (vai sobrar mais no orçamento doméstico). (12/12/2015)

 

 

A Igreja e o PT

 

Se o marxismo tem origem claramente anticrística, portanto satânica — quer substituir Cristo como Senhor da História pela ação humana —, a Igreja não pode dialogar nem unir-se a ele. Quanto aos marxistas, homens de carne e osso, pecadores como nós, podem e devem ser procurados por nós e nossas orações: é nossa obrigação tentar convertê-los, fazê-los empreender a quase impossível e miraculosa caminhada que vai de Lúcifer a Jesus. (06/11/2015)

 

 

Padre Pio e os comunistas I

 

Exatamente como sempre pensou a Igreja: por servirem à criatura e não ao Criador. Certa vez, disse a um membro do partido comunista, ao final de uma confissão: “Você traiu o Senhor teu Deus e passou para o lado de Seus inimigos”.

Se houve membros da Igreja que aderiram a essa doutrina, ou a aceitaram estrategicamente, cometeram um grande equívoco, como os católicos brasileiros que, mesmo sabendo das origens marxistas do PT, insistiram em apoiar um partido que sempre defendeu a luta de classes, o casamento gay, o aborto, entre outras coisas condenadas pelo verdadeiro cristianismo. O materialismo petista está, hoje, bem visível a todos.

O nosso santo não se deixava enganar por um dos aspectos do igualitarismo marxista — o pretenso cuidado com os pobres —, pois sabia que era só um disfarce, uma sedutora isca para arrastar os incautos às mais cruéis formas de totalitarismo de que se tem notícia na história contemporânea, ao lado do fascismo e do nazismo. Em vez de escravos do Estado, os cristãos devem ser escravos uns dos outros pela caridade, como já dizia São Paulo na “Carta aos Gálatas”. Ser marxista, para o padre Pio como para a Igreja, era e é um pecado mortal. (05/11/2015)

 

 

Padre Pio e os comunistas II

 

Padre Pio converteu muitos comunistas. Como, por exemplo, o médico francês Charles Boyer, comunista, ateu e herói da resistência francesa na Segunda Guerra Mundial. Era um fruto perfeito da mentalidade existencialista da época. Depois da guerra, entrou em depressão e não via mais sentido na vida. Um amigo sugeriu-lhe uma visita ao padre Pio, na Itália. Falou-lhe das feridas nas mãos e nos pés do santo, sempre abertas e sangrentas, e que nunca infeccionavam, além do estranho perfume de violeta que delas exalava. Ele zombou do amigo: garantiu que se o padre lhe enviasse um “sinal”, iria vê-lo... Um dia, estava ele às margens de um lago, em Lugano, Suíça, pensando seriamente em atirar-se nas águas, quando sentiu um forte cheiro de perfume, mistura de rosa e violeta. O médico não localizou, por perto, uma possível origem do cheiro. Só lhe restou voltar ao hotel, acertar as contas e pegar o primeiro trem para a Itália. Transformou-se num dos primeiros médicos do hospital construído por padre Pio.

Outro exemplo de comunista convertido é o de Italia Betti. Era professora de matemática no Liceu Galvani, em Bolonha. Cunhada do prefeito da cidade e militante do Partido Comunista, não só se vestia de vermelho, como também mandou pintar de vermelho a sua motocicleta. Pegaria em armas, se fosse preciso. Em sua profissão, criticava com vigor o ensino religioso nas escolas. Até que ficou sabendo que tinha um câncer. Por insistência da irmã mais nova, a única católica da família, viajou a São Giovanni Rotondo e, fascinada pelo padre Pio, de lá nunca mais arredou pé. O curioso é que não pediu a cura física a padre Pio. Usou o sofrimento como forma de santificação, penitenciando-se de tantos erros cometidos em nome do ex-ídolo Karl Marx. Experimentou, porém, a cura espiritual: revelou, em carta a seu chefe regional, que havia finalmente conquistado a paz.

No caso do comunista Savino Greco, houve cura física e espiritual. No auge da militância política, no imediato pós-guerra, Savino descobriu um grave tumor no cérebro, e o marxismo perdia, de repente, todo o fascínio que até então tivera. Que fazer, então, com a luta de classes e o sonho da sociedade igualitária? No hospital de Milão, antes de uma cirurgia arriscadíssima, sonhou com padre Pio. Este lhe dizia que, com o tempo, ficaria curado. E foi o que ocorreu: a cura se deu por etapas. Na manhã seguinte, sentiu-se melhor e fugiu do hospital, para onde voltou, dias depois, com o retorno das dores intensas na cabeça. Durante os novos exames, sentiu um forte cheiro de violeta, que sabia ser o traço da presença de padre Pio. Os médicos ficaram espantados com a inexplicável ausência dos tumores. Livre do hospital, foi com a mulher a São Giovanni Rotondo agradecer pessoalmente a padre Pio. Para angústia de Savino, as dores continuaram por algum tempo: Deus queria que as lições não terminassem já. Mas, depois de algum tempo, cessaram. O ex-comunista estava curado no corpo e no espírito.

Veja-se o caso quase cômico de Fulgo Pilli. Era um militar comunista metido a valente. Um dia, recebeu um desafio de certa senhora católica: se tivesse mesmo coragem, fosse à cidade de padre Pio. Com tudo pago pela Associação Católica Italiana... Pilli, soldado corajoso, aceitou ir a São Giovanni Rotondo; garantiu que voltaria de lá ainda mais comunista! Perdeu a aposta: padre Pio o converteu no confessionário. Perdeu, sim, mas nunca se sentiu tão vitorioso na vida. (04/11/2015)

 

 

Meditação de finados

 

Dai-me, Senhor, compreender que este corpo é quase uma ilusão, sobretudo quando parece mais vivo e saudável. Uma ilusão de poder que ele não tem; uma ilusão de glória mais vã que o pó assentado nos móveis; uma ilusão de vida que ainda não é a sua verdadeira vida. Senhor, como o corpo sufoca a alma! Por quanto tempo ainda teremos de suportá-lo em sua efêmera arrogância? Por quanto tempo ainda viver sob o seu jugo inclemente? Por quanto tempo ouvi-lo menosprezar a alma imortal, denegri-la com sua língua de trapo, humilhá-la com sua fome de mundo? E pensar que, um dia, a alma sorrirá com saudade do corpo carrasco, ao deixa-lo inerte sobre o último lençol, já sabendo porém de sua vitoriosa restauração em Cristo. (02/11/2015)

 

 

Aprendendo com os santos

 

Descobri algo parecido a uma felicidade possível — felicidade não precisa ser alegria dos sentidos — quando, enfim, abri mão de pretender decidir, só com minha limitadíssima esperteza pessoal, sobre as grandes questões do mundo e da vida. Entreguei-as aos grandes santos, não aos filósofos. A santidade quase perfeita dos grandes santos é a única janela aberta para o outro lado, o lado verdadeiro, a verdade sem nenhum véu de disfarce. (29/10/2015)

 

 

Péssimo instrumento

 

Serei eu aquele que escreve artigos católicos para o jornalzinho da minha cidade? Não. Eu, não. É o Cristo Quem tenta escrever por mim, apesar de eu ser um péssimo instrumento. (28/10/2015)

 

 

O demônio existe?

 

Se depender do testemunho do padre Pio (hoje São Padre Pio de Pietrelcina), o demônio existe, sim. E foi o que sempre ensinou a Igreja Católica: os demônios são anjos, criados inicialmente bons, mas que foram tomados de soberba e, num momento da criação em que Deus lhes concedeu a liberdade de aceitá-Lo ou recusá-Lo, se rebelaram contra o Onipotente, tendo sido, por isso, expulsos da comunidade angélica. 

Alguns santos católicos, por sua completa adesão a Cristo, tiveram acesso ao mundo invisível das criaturas angélicas. Viram e falaram com o próprio Anjo da Guarda e foram, também, alvos preferidos dos anjos maus. Desde muito cedo, São Padre Pio de Pietrelcina — que nunca se rebelou contra a doutrina oficial da Igreja — teve a experiência concreta do demônio, a quem chamava de “cossaco” (o povo cossaco era conhecido pelo anticatolicismo), “barbazul” (famoso personagem que matava as esposas) ou Belzebu... Não gostava de rir do demônio. Preferia rir dos que nele não acreditavam, pois eram as suas presas mais vulneráveis.

Algumas vezes, o embate com o inimigo era físico: padre Pio apanhava do demônio. Depois da luta, o santo era visto ofegante, pálido, com os cabelos e a barba desfeitos. Os demônios cercavam-lhe a cama com insultos, zombarias, palavrões. Pulavam aos urros sobre ele e o agrediam com socos, atirando-o contra a parede. Cadeiras caíam, móveis eram arrastados. Nesses ataques, padre Pio ora via figuras horríveis e disformes, ora pessoas (como nuas e provocantes bailarinas ou algum superior religioso, aconselhando-o a abandonar o hábito), ora animais (cachorro, gato, serpente). O “pai da mentira” teve até a audácia de disfarçar-se de Nossa Senhora ou do Anjo da Guarda do santo. Após essas lutas, para consolá-lo, sempre lhe apareciam a verdadeira Mãe de Jesus, o verdadeiro Anjo da Guarda ou o próprio Jesus.

Noutras vezes, a presença demoníaca era mais sutil. Houve ocasião, num período de grande aridez espiritual, em que padre Pio parecia carregar um grande peso no corpo e na alma, chegando-lhe a dificultar-lhe a respiração. Revelou que a tentação do demônio, nessa época, era no sentido de que não se ocupasse do próximo e do bem alheio. Chegou a solicitar a dispensa de orientar almas, para não prejudicá-las.

Sobre certa peça teatral religiosa, numa cena aparentemente ingênua, padre Pio viu a presença insidiosa do inimigo. Ninguém poderia suspeitar, mas garantiu que lá estava a marca de sua pata invisível. O que não diria ele das novelas atuais da Rede Globo, destinadas sobretudo a destruir a família brasileira?

Em San Giovanni Rotondo, cidade onde vivia padre Pio, formou-se nas imediações do convento o bairro Santa Maria das Graças, onde se fixavam as pessoas que, de todas as partes do mundo, vinham para viver perto do grande santo, que prezava essa companhia devota. Utilizou muitas dessas pessoas no grande hospital Casa Alívio do Sofrimento, que fez construir em São Giovanni Rotondo. Certa vez, algumas religiosas manifestaram o desejo de se estabelecer ali. Advertiu-as padre Pio: “Preparem-se para a luta. Aqui reside o estado maior dos demônios!” Uma das tentações mais frequentes do adversário era provocar nesses voluntários a vontade de desistir e voltar às suas cidades. Muitas vezes, quando isso ocorria, padre Pio era obrigado a lembrar-lhes a origem desse desejo: “Você está querendo fazer a vontade do demônio?

A experiência pessoal de padre Pio com os anjos maus foi muito útil na orientação de seus filhos espirituais.  Sempre lhes aconselhou que pedissem a intercessão de seus Anjos da Guarda, que é um excelente antídoto contra os malefícios do tentador. Padre Pio gostava de dizer que deixamos ociosos demais os nossos Anjos da Guarda. Era preciso mobilizá-los com mais frequência.

Certa teologia moderna, influenciada pela mentalidade cientificista, prefere dizer que os demônios não existem: não passariam de representações alegóricas do Mal (exatamente o contrário do que ensina a Igreja há dois mil anos). Essa atitude moderna, aliás, deixa felicíssimo o nosso inimigo, cujo objetivo é mesmo fazer com que as pessoas deixem de acreditar em sua existência, o que facilitaria sobremaneira a sua ação destruidora. (25/10/2015)

 

 

A Igreja e o sexo

 

“Se não dominamos o sexo, ele fatalmente nos dominará”, dizia Chesterton. Sexo é ótimo na mesma medida em que é perigoso. Por isso, a Igreja sempre viu na luxúria um pecado capital e entendeu que o melhor contrapeso do erotismo é a procriação. O prazer sexual não é a finalidade, mas só um componente do ato conjugal; seu fim é a procriação. Deus quer habitantes para o Céu, e, por que é Amor e generosidade, quer o Céu superlotado.

Imaginemos que ocorreria com o mundo — que não passa de uma fábrica de produzir seres humanos para o Céu —, se o homossexualismo fosse tratado como coisa normal; se meninos e meninas, desde a infância, fosse treinados para o namoro e o casamento gay; se uma cultura gay tivesse o apoio do Estado, da universidade, das religiões. Certamente, haveria um número muito grande de casais desse tipo, e a consequência disso logo se fariam notar na estatística demográfica, com a diminuição de nascimentos. É o sonho dos bilionários que financiam e manipulam o movimento chamado LGBT.

Imaginemos mais um pouco: que essa mentalidade tivesse surgido bem antes, lá no início da História. Não teria havido História... Portanto, que as famílias façam a sua parte: multipliquem-se a partir de sua única matriz possível, homem e mulher, e sejam generosamente numerosas. As famílias pobres tenham menos filhos; as de classe média, tenham mais; e os ricos, muito e muito mais... (21/10/2015)

 

 

O cristianismo e o comunismo

 

Em certo sentido, o cristianismo é meio comunista... Um dos dogmas centrais da Igreja Católica é o da “comunhão dos santos”, que reafirmamos em todas as Missas dominicais quando dizemos o Credo. Comunhão dos santos, entre outras coisas, é a crença na possibilidade de todas as almas intercederem umas pelas outras, tanto as que ainda estão neste mundo, presas aos corpos, como as já recolhidas por Deus no Purgatório e no Paraíso.

Uma passagem da vida do padre Pio, hoje São Pio de Pietrelcina, ilustra bem o mistério desse dogma. Encontra-se no saboroso livro do jornalista irlandês John McCaffery, Padre Pio, histórias e memórias (Loyola, 2011, 7ª edição, p. 46). Doutor Sanguinetti, grande amigo do frade franciscano, certa vez o encontrou em sua cela rezando pelo próprio avô, morto há muito tempo.Mas o senhor não me disse que ele já estava no Céu?”, perguntou a Padre Pio. Este sabia que o tempo dos homens e a eternidade de Deus são realidades distintas. “Sim, está”, respondeu-lhe o padre, “mas as orações que digo por ele agora, e aquelas que direi no futuro, ajudaram-no a chegar no Céu.”

Como padre Pio já sabia da presença do avô no Céu? É um desses privilégios que Deus concede aos grandes santos e místicos. Quanto à estrutura do tempo, a experiência nos mostra que o passado, o presente e o futuro ocorrem consecutivamente, um depois do outro. Para Deus, ao contrário, essas três faixas do tempo são simultâneas. Por isso, padre Pio podia rezar pelo avô que já estava no Céu, enquanto Deus, Senhor do tempo e do espaço, deslocava a súplica para “antes”, para quando o avô ainda necessitava de preces, coisa que nossa mentalidade prática não consegue compreender. Era a mesma concepção do tempo, em sua relação com a eternidade, que também fazia padre Pio rezar pelo Cristo ainda solitário e em agonia no Horto da Oliveiras, há dois mil anos, numa simultaneidade estonteante que só os homens de muita fé conseguem experimentar.

Não queiramos explicar racionalmente esses fatos misteriosos. É fascinante, contudo, essa interpretação que a Igreja oferece da “comunhão dos santos”, ao abrir uma possibilidade imensa de mútua intercessão entre vivos e mortos. Podemos e devemos pedir por todos, mesmo pelos mortos cuja salvação nos pareça impossível.

Atualmente, são muitos os católicos que acreditam mais na eficácia da ação política que no poder da oração. Há forte tendência, na Igreja de hoje, de privilegiar a pobreza material enquanto objeto da humana misericórdia, como se a vida terminasse com a morte. A grande pobreza dos tempos modernos é a espiritual, responsável pelo caos em que se transformou o mundo. O dogma da “comunhão dos santos”, ao contrário, aponta para um horizonte muito maior, de todos ajudando a todos, neste e no outro mundo. É o verdadeiro comunismo, não restrito às coisas materiais, antes submetendo-as a uma ordem superior: a realidade espiritual.

São Pio de Pietrelcina, provavelmente o maior santo do século XX, sabia conciliar as duas dimensões. Enquanto curava as almas ou intermediava milagres espantosos nos corpos das pessoas, construiu um grande hospital em São Giovanni Rotondo, cidade em que viveu a maior parte de sua vida, destinado principalmente aos pobres. (16/10/2015)

 

 

A humildade de Deus

 

Para nós, é impossível amar tanto! Mas Ele tudo pode. Pode, por exemplo, prender o Sol em pequena lâmpada doméstica, sem reduzir a força do Sol nem explodir a lâmpada doméstica... Assim o Verbo Divino espremeu-se em Jesus de Nazaré, carne vulnerável como a nossa. Como lâmpada tão frágil poderia conter o infinito Sol da Justiça? Como o barro humano do filho de Maria não se derretia ao contato do Fogo Divino que nele ardia? Deus sabe conciliar abismos tão intransponíveis: Jesus obediente à lei da gravidade e caminhando sobre as águas; apaziguando ventos e tempestades e se deixando prender por alguns soldados judeus. (15/10/2015)

 

 

O pós-macaco darwiniano

 

Agora tudo é pós: pós-isso, pós-aquilo. Já fomos homens; agora somos o pós-macaco darwiniano. (27/08/2015)

 

 

O preço da liberdade

 

O terrorismo islâmico não surge do nada: tem suas bases, como tudo no mundo, na vida familiar. Em julho do ano passado, surgia na fronteira do Iraque com a Síria o ISIS, grupo muçulmano “jihadista” disposto a impor-se pela guerra e o terror, com o propósito de criar um Estado Islâmico radical. Vimos imagens terríveis pela mídia, sobretudo contra os cristãos que ali vivem.

Um bom exemplo dessa ligação da família com o resto da sociedade está na vida desse cidadão Joseph Fadelle, pertencente a um rico e poderoso clã iraquiano. O Iraque, até a época de Sadan Hussein, ainda tolerava a existência de minorias cristãs, presentes no país desde o início do cristianismo.

Tudo começou quando Joseph tinha pouco mais de vinte anos. Era 1987, e ele servia o exército na guerra contra o Iran, quando conheceu, casualmente, um cristão católico, através do qual entrou em contato com a Bíblia, convertendo-se depois da leitura do Evangelho de São João.

Manteve, porém, em segredo a conversão, para evitar conflitos com a família. Procurou em segredo um padre, que iniciou sua catequese, recusando-se porém a batizá-lo pelo medo de ser acusado de proselitismo (doutrinação), considerado um grave delito, se praticado por cristãos.

Cinco anos mais tarde, já com vinte e oito anos, seu pai decidiu casá-lo com uma jovem desconhecida, de vinte e quatro anos. Sempre mantendo em segredo a conversão, aceitou a vontade paterna. Nascido o primeiro filho, a esposa descobriu seus encontros com o padre e o abandonou, mas Joseph conseguiu que voltasse a casa e também se convertesse, depois de uma leitura comparativa entre a Bíblia e o Corão.

A esposa passou a acompanhar o marido nas catequeses secretas, que o padre ministrava sempre com a condição de permanecerem sem batismo. Um dia, a família de Joseph descobriu o segredo e o próprio pai o denunciou à polícia, que o torturou e manteve preso por um ano e quatro meses.

Algum tempo depois, debilitado e magro, Joseph decidiu fugir com a esposa e os filhos para uma aldeia cristã da vizinha Jordânia (já havia nascido o segundo menino). Foram caridosamente acolhidos por uma monja, que cuidou da instalação do casal fugitivo. Depois de muito empenho, encontrou um bispo corajoso que aceitou batizá-los.

Quando a paz parecia ter chegado, os parentes distantes de Joseph descobriram o seu paradeiro. Um tio e três irmãos procuraram, em vão, convencê-lo a voltar. Disse-lhe o tio:

— Tua doença se chama Cristo e não tem cura.

O sobrinho respondeu que não podia renunciar a Cristo, pois Cristo era o seu oxigênio:

— Renunciar a Cristo equivaleria a um suicídio!

Desentenderam-se e, em sua fuga, Joseph foi baleado na panturrilha. Acolhido por um cristão local, curou-se e logo migrou com a família para a França. Com a esposa e os filhos, Joseph Fadelle — vítima da própria família —  vive agora no Ocidente, sempre mudando de endereço, pois sabe que no Islã a apostasia (abandono da fé) só se resolve com pena de morte.

Esse caso expõe com muita clareza as raízes familiares do terrorismo islâmico. Tal é a família, assim serão seus filhos. Joseph Fadelle e sua mulher, alimentados pelo amor de Cristo, decidiram romper com o círculo vicioso do ódio, expondo-se corajosa e permanentemente à morte. Serve, também, de exemplo para nós, aqui no Ocidente, que ainda podemos professar livremente a fé cristã, e, no entanto, preferimos ajoelhar diante dos novos ídolos que o mundo nos oferece: obsessão do dinheiro, prazer ilimitado, ostentação, consumismo, entre outros. De alguma maneira, também consideramos Cristo como uma espécie de doença, da qual é preciso defender-se. (25/08/2015)

 

 

Humildade e verdade

 

Para Chesterton, a mentira e o erro decorrem da interferência da soberba na apreciação da realidade. (20/08/2015)

 

 

O ciúme

 

Uma doença venérea chamada ciúme... (17/08/2015)

 

 

A morte do próximo

 

Eis uma pergunta difícil de responder. A verdade é que nunca entramos espontaneamente em hospitais: para lá somos arrastados, seja pela corrente da misericórdia ou da obrigação. Jamais algum hospital figurará em roteiros turísticos. Entre as paredes frias, percorrendo suas escadas e corredores, invejamos os funcionários da saúde quando passam por nós com sua profissional indiferença, manejando remédios, bisturis ameaçadores e outras ferramentas sofisticadas.

Contamos os segundos para sair dali. Juramos que nosso lugar é lá fora, no torvelinho do dia a dia, esquecidos de que dispomos de algo muito precioso para esse momento crucial na vida do doente que visitamos: palavras de conforto. São as palavras mais valiosas do dicionário! Muitos de nós, convictos da salvação eterna das almas, trazemos ainda uma pequena bagagem de preces pessoais que, silenciosamente, podemos soprar no ouvido misericordioso de Deus.

Mais do que os médicos, preocupados com o lado técnico da doença, nós estamos livres para assistir a um confronto privilegiado, que ali se oferece aos nossos olhos espantados: a luta entre a alma e o corpo. Percebemos o esforço desta última em segurar a primeira por mais um pouco de tempo, retendo-a no mundo que tanto a agradava. Notamos como a alma, apesar de sua natureza espiritual, visivelmente sofre com a possibilidade de perder o frágil vaso de barro que tão estreitamente a contém. Esse sofrimento da alma não será um dos principais indícios de sua vocação eterna de viver enlaçada a um corpo, coerente com a promessa cristã da futura ressurreição dos corpos?

É bom não esquecer: um dia, para nossa surpresa, alguém muito próximo estará prestes a deixar este mundo ilusório e empreender a grande viagem rumo ao país verdadeiro, através do mar desconhecido da morte — estranha peregrinação da qual nós, espectadores imóveis no porto, só veremos o impulso inicial da partida do barco. O resto, a parte mais importante do trajeto, permanecerá para sempre irrevelável aos nossos olhos limitados de criaturas.

A presença de um corpo moribundo está definitivamente fora da nossa capacidade humana de compreensão. Em sua luta de vida e morte — de vida que, com sua impotente força humana, procura vencer a morte —, ocorre a mistura de duas coisas muito distintas, embora complementares: a condição humana, da qual julgamos saber muito, e o mistério divino, do qual não sabemos quase nada, além daquilo que Jesus revelou e a Igreja ensina (um “quase nada” que, no entanto, é suficiente para a salvação eterna das almas).

É o que podemos oferecer aos que partem — companhia, palavra amiga e oração suplicante —, quando o destino nos colocar à beira deste que é um dos maiores privilégios da vida: estar diante de alguém que poderá presenciar, antes de nós, a inimaginável realidade do outro mundo, a face oculta de Deus finalmente desvelada. (09/08/2015)

 

 

Gide e a morte de Deus

 

Prezado amigo: não respondi antes o seu e-mail, pois estava recuperando de uma cirurgia. Já não me lembrava mais do projeto gideano com os diários, que sugeri numa aula, há vários anos.

Enfim, Gide é um grande escritor e merece ser estudado. Só não sei se seria eu, na situação em que me encontro hoje, a pessoa mais indicada para “orientar” um trabalho desse tipo, pois estou me afastando cada vez mais da “pesquisa literária”, seja em sentido acadêmico ou mesmo na forma mais livre do ensaísmo tradicional. São outras as preocupações espirituais que me provocam atualmente: depois de, nos últimos cinco anos, experimentar um retorno à Igreja Católica – inesperada conversão que não figurava em minha agenda agnóstica --, não consigo trabalhar em nada que não tenha relação com assuntos de fé e difusão do cristianismo, em meio a uma sociedade caracterizada pela crescente descristianização.

Quanto à literatura, que continuo praticando mais pelo hábito adquirido do que pela crença em sua autonomia intelectual, também ela revestiu-se de uma nova perspectiva, aberta às velhas questões do pecado, da culpa, da expiação e da redenção, que sempre marcaram a literatura ocidental, antes do século XVIII, quando os escritores mergulharam quase em sua maioria no barco sem leme do secularismo, com as exceções conhecidas de um Dostoievski, Manzoni, Bernanos, Mauriac, G. Greene e poucos mais.

Gide foi uma dessas vítimas da “morte de Deus”. Parece que ele esteve muito próximo da conversão à Igreja, no início dos anos vinte, mas voltou atrás: a volúpia da dúvida o impedia de aceitar a realidade sobrenatural como a expõe a Igreja romana, e dar, finalmente, o passo decisivo da fé. Um assunto interessante seria estudar essa estranha e dúbia religiosidade de Gide... Nada me impede, porém, de ser um leitor de suas traduções do diário gideano. (27/07/2015)

 

 

A perspectiva do outro mundo

 

Padre Lívio Fanzaga, diretor da principal rádio católica italiana, a Rádio Maria (com emissoras em quase setenta países), acha que a Igreja precisa falar mais do outro mundo. Escreveu ele num de seus últimos livros, Medjugorje, il Cielo sulla Terra (Milão, Piemme, 2014):

“Nossa Senhora começou, muito cedo, a manifestar aos seis videntes [de Medjugorje] o Outro Mundo. Dizendo que veio para despertar a fé, Ela queria tocar num ponto muito sensível — a vida após a morte —, a respeito do qual desceu uma sombra escura na alma de muitos batizados. Quantos daqueles que participam da vida da Igreja realmente acreditam na vida eterna? E aqueles que vão à igreja unicamente nos funerais, tristes e resignados, como se duas pazadas de terra sobre o caixão fossem o fim de vida?

Há aqueles que repreendem a Igreja de nosso tempo, por haver perdido a perspectiva escatológica. Não podemos dizer que isto ocorra na oração litúrgica e no ensinamento do Magistério, mas acontece na catequese ordinária de muitas paróquias, onde as realidades últimas, os Novíssimos, cederam lugar aos problemas atuais.

A consequência é que muitos cristãos vivem sem a perspectiva do Céu e do santo medo do inferno, agora rebaixado a território desabitado. O perigo para as almas é fatal. Isso é demonstrado pelo estado de despreparo e de sonolência espiritual com que muitos afrontam a passagem para a eternidade. Nossa Senhora veio como a Rainha da Paz, mas a paz na terra só é possível quando se está em paz com o Céu. Seu primeiro objetivo é levar as almas para o Paraíso. O plano de Maria, que vai de Fátima a Medjugorje, parte da constatação, reiterada em ambas as aparições, de que "muitas almas vão para o inferno". Esta catástrofe irreparável se consuma enquanto muitos, na Igreja, argumentam irresponsavelmente que Satanás é um símbolo, que o inferno está vazio, que os demônios serão convertidos. Desta maneira, eles se colocam a serviço deles, desviando as almas do verdadeiro caminho.” (09/07/2015)

 

 

Senhor do vento e do mar

 

Durante a grande tormenta,

De águas a barca se enchia.

Recostado a um travesseiro,

Na popa Jesus dormia.

Acordaram-no, assustados,

E puseram-se a implorar:

— Mestre, acaso não te importa

Se perecermos no mar?

Despertando, Jesus disse

Ao mar: “Silêncio!”. E ao vento,

“Cala-te!”, o viram ordenar

Com o mesmo e firme acento.

Cessou o vento e, depois,

Veio uma grande bonança.

“Por que tão medrosos sois?

Que é da vossa confiança?

Com grande medo, entre si

Foram logo cochichar:

— “Mas Quem será Este, a Quem

Obedecem vento e mar? (04/07/2015)

 

 

Os direitos dos animais

 

O ser humano se distanciou tanto dos animais, que um verdadeiro abismo se abriu entre eles. Esse abismo imenso é o pequeno selo de Deus — seja na evolução, se chegamos onde estamos por ele; seja noutro caminho qualquer que Ele tenha escolhido para nossa vinda ao mundo. Os ateus e panteístas querem terraplenar o abismo e reaproximar o que a vontade de Deus separou: homens e bichos. Ou reabrir o abismo em benefício desses últimos, depois de concluir que o homem é um cancro que precisa ser eliminado da face da terra. (03/07/2015)

 

 

A misericórdia e a justiça de Deus

 

Que a misericórdia divina é maior que a Sua justiça, prova-o sobejamente o Calvário, pois não era nada justo que Deus morresse por mim, por você, por nós. Isto não significa dizer que a justiça de Deus é inoperante. Ao contrário: são estarrecedoras as visões do inferno que tiveram os grandes místicos católicos e os videntes marianos. É sábia a Igreja ao ensinar que a justiça divina é, no fundo, expressão de nossas próprias escolhas. Nós optamos pelo inferno, antes de sermos jogados lá. (29/06/2015)

 

 

A vida dos santos

 

O mundo espiritual é espantosamente complexo. Perto dele, o raciocínio matemático mais sofisticado não passa de um balbucio de recém-nascido. Diante da vida e da experiência dos santos ficamos permanentemente perplexos, sem entender quase nada, embora presos ao grande fascínio da vida mística. Pessoalmente privados dessas veredas misteriosas de acesso à realidade superior, resta-nos no entanto o consolo da arte e as outras vias mentais, mais simples, de aproximação do ser, como a filosofia e as ciências humanas.

Quando folheamos um ensaio psiquiátrico sobre um aspecto qualquer da realidade psicológica mais imediata (e, fique bem claro, sem desprezar a validade prática desses estudos), confrontando-o a seguir com um êxtase de Santa Faustina Kowalska, Santa Teresa d’Ávila ou Santa Francisca Romana, parece que estamos diante de duas ordens de coisas separadas por um abismo intransponível. O pior é quando o psiquiatra procura aterrar o abismo, convencendo as pessoas da não existência dessa outra ordem de fatos, que é o mundo sobrenatural, reduzindo-o a dois ou três conceitos científicos de precária verificabilidade. (18/06/2015)

 

 

Cristianismo, única religião verdadeira

 

Deus onipotente, quando se encarnou num homem como nós, revelou qual era o seu modelo de humanidade: os homens, para merecerem o Céu, tinham de ser mansos e humildes de coração. Não um guerreiro violento e concupiscente como Maomé; não um Buda de pernas dobradas em permanente busca do nirvana; não um frade comunista apostando todas as suas fichas pseudo-religiosas na luta de classes. O modelo era outro: um Jesus que ensinava a amar os inimigos (contra Marx e Maomé) e procurava doentes e desgraçados para curar (contra o quietismo autocentrado dos budistas). Mistério dos mistérios, este de um Deus que, mesmo possuindo o exército mais poderoso de todos, se deixou matar na cruz para salvar a humanidade — para, com isso, mostrar o poder superior da misericórdia sobre a justiça. Um Deus que, sendo maior que tudo, se fez o menor dos homens: loucura para o mundo e para a sabedoria do mundo, como diria São Paulo. (17/06/2015)

 

 

Da sabedoria de Deus

 

Quem poderia ter tido a genial ideia de criar machos e fêmeas — homens e mulheres —, coisas tão complementares e tão absolutamente internecessárias, se não Deus? O “acaso” dos materialistas não seria capaz dessa criatividade. (16/06/2015)

 

 

Mal menor

 

É preciso, a todo custo, impedir a chegada ao poder dos comunistas. Quanto aos capitalistas, convém vigiá-los permanentemente, protegendo a nossa carteira. (15/06/2015)

 

 

Orai e amai

 

O atual bispo de Ferrara, Don Luigi Negri, discípulo do padre Giussani, em recente entrevista ao jornal digital La nuova bussola quotidiana (09 de maio), disse que é preciso preocupar-se não só “com a pobreza material, mas com a humana, cultural, espiritual.

Continua o bispo Negri: “Disse-o várias vezes aos responsáveis por várias iniciativas caritativas [da Diocese que dirige], que no entanto são importantes e exemplares. Em Ferrara, todos os nossos recursos são gastos com  essa terrível pobreza material, que dissolveu a tranquilidade e o bem-estar de tantas famílias. Mas devemos também ser muito claros: apesar de tanta retórica sobre pobres e pobreza, este problema não será resolvido, nem o resolverá a Igreja. O próprio Jesus o disse: ‘Pobres tereis sempre convosco, mas a Mim nem sempre tereis’.

“E mesmo socorrendo cotidianamente os que vivem na pobreza, devemos nos perguntar: estaremos cuidando da pobreza cultural? Essa pobreza cultural que é filha de um vazio existencial, de um vazio de consciência, de humanidade, de capacidade de amor, de capacidade de sacrifício. Se não ficarmos atentos, arriscamos parar por aí mesmo, na diminuição da pobreza material, compartilhando uma concepção materialista da vida. Penso que seria terrível impedir o coração de amar a atual humanidade em todas as suas condições, em todos os seus aspectos, segundo todos os desafios que recebemos. Mas só podemos fazer isto se, no centro, houver o amor a Cristo. Ama-se aos pobres porque se ama o Cristo; é preciso levar à humanidade de hoje – seja pobre ou rica – um único anúncio: o Nosso Senhor Jesus Cristo é o redentor do homem e da história, o centro do cosmo e da história.”

A Igreja Católica é o bispo Luigi Negri. Os padres que desvinculam oração e amor ao próximo são homens necessitados de nossas orações. Atribui-se à Madre Teresa de Calcutá um aforismo que vai na mesma direção: “São mais sagradas as mãos que ajudam do que os lábios que rezam.” Ouçamos nosso verdadeiro Mestre e fiquemos com as duas coisas: vigiemos, oremos e amemos. A oração é o melhor fermento do amor. (14/05/2015)

 

 

O filósofo Ortega y Gasset acreditava em Deus?

 

Parece que Ortega y Gasset tenha sido um agnóstico, mas num artigo para jornal escrito em 1926, “Deus à vista” (Obras completas, “El espectador - VI”, tomo II, p. 495), ele fazia uma distinção muito pertinente entre agnosticismo e gnosticismo, essas duas atitudes humanas frente ao conhecível de Deus.

O agnóstico é o que não quer saber de certas coisas; trata-se de uma “alma que antepone a todo la cautela y la prudência (…) las cosas cuya ignorancia complace al agnóstico no son cualesquiera, sino precisamente las cosas últimas y primeras; es decir, las decisivas (…) la actitud del agnóstico no consiste en proclamar la realidad inmediata y "positiva" como la única existente, cosa que no tendría sentido, sino al contrario: reconoce que la realidad inmediata no es la realidad completa; que más allá de lo visible tiene que haber algo, pero de condición tal, que no puede reducirse a experiencia. En vista de ello, vuelve la espalda al ultramundo y se desentiende de él (…) mantiene la mirada fija exclusivamente en este mundo (…) el paisaje agnóstico no tiene últimos términos. Todo en él es primer plano, con lo cual falta a la ley elemental de la perspectiva. Es un paisaje de miope y un panorama mutilado. Se elimina todo lo primario y decisivo. La atención se fija exclusivamente en lo secundario y flotante.”

O homem gnóstico parte, ao contrário, “de un profundo asco hacia este mundo. Este tremendo asco hacia todo lo sensible ha sido uno de los fenómenos más curiosos de la Historia. El asco hacia "este mundo" es tal, que el gnosticismo no admite ni siquiera que lo haya hecho Dios (…) el mundo es obra de un ente perverso, gran enemigo de Dios. De aquí que la verdadera creación del verdadero Dios sea la "redención". Crear fue una mala acción; lo bueno, lo divino es descrear; esto es, redimir (…) mientras la palabra del agnóstico es experiencia — lo que quiere decir atención a este mundo —, el vocablo del gnóstico es salvación, lo que quiere decir fuga de éste y atención al otro.”

Sem distinguir entre gnosticismo e cristianismo, até sugerindo que este seria uma modalidade do primeiro, o filósofo espanhol finaliza dizendo que “frente a estas dos preferencias antagónicas e igualmente exclusivas cabe que el atender se fije en una línea intermedia, precisamente la que dibuja la frontera entre uno y otro mundo. Esa línea en que "este mundo" termina, le pertenece, y es, por tanto, de carácter "positivo". Mas, a la vez, en esa línea comienza el ultramundo, y es, en consecuencia, trascendente. Todas las ciencias particulares, por necesidad de su interna economía, se ven hoy apretadas contra esa línea de sus propios problemas últimos, que son, al mismo tiempo, los primeros de la gran ciencia de Dios.”

O filósofo espanhol já não se movia à vontade dentro dos limites estreitos do agnosticismo, nem conseguia aceitar a adesão ao outro mundo exclusivamente pela fé.  Quase dez anos depois da aparição de Nossa Senhora em Fátima, Portugal — e depois de milhares de outras aparições anteriores da mãe de Jesus, para não falar dos inumeráveis milagres da Igreja —, Ortega ainda estava à espera dessa linha intermediária e fronteiriça entre este e o outro mundo: uma linha que fosse ao mesmo tempo "positiva", na qual nosso mundo termina, e que ainda lhe pertence, mas com a qual já começa o outro mundo, sendo, portanto, ao mesmo tempo trascendente.

Era preciso um sinal do “ultramundo” ainda maior do que aquela “dança do sol”, que ocorreu em Fátima, vista por mais de cinquenta mil pessoas? O agnóstico Ortega morreria sem poder aceita-lo, ao contrário do seu amigo Munuel García Morente — que todos conhecemos pelas famosas e deliciosas Lições preliminares de filosofia —, também ele um agnóstico, o qual, poucos anos antes de morrer, teve a oportunidade de ver aquela fronteira que divide o nosso estreito mundinho terreno e o mundão aberto de Deus. (06/05/2015)

 

 

Leituras da adolescência

 

Dois romances, lidos na adolescência — e para os quais não estava nem um pouco preparado —, me marcaram muito. Um deles foi Os irmãos Karamazov, o último romance de Dostoievsky, lido com muita dificuldade e frequentes impulsos de largar mão daquilo. Só cheguei ao final por uma espécie de sentimento de honra: com que cara me olharia no espelho, se desse mostras de preguiçoso e desistisse logo no início?

Era um mundo completamente estranho para mim aquela história de uma família russa, ambientada em pequena cidade de província, com o difícil relacionamento entre um pai e seus quatro filhos: o hedonista Dímitri, o intelectual Ivan, o monge Aliocha e o ressentido Smerdjakov, filho não assumido, que vivia na casa como empregado do próprio pai. O pai, Fiodor, era um campeão dos vícios capitais — sobretudo a avareza, a ira, a luxúria, o orgulho —, comportando-se de maneira pouco recomendável a um chefe de família.

Era um romance em que havia de tudo: pai e filho disputando a mesma mulher, irmãos odiando-se pela mesma razão, grandes maldades e grandes generosidades, luxúria, vingança, orgulho, ressentimento, desespero, remorso, discussões sobre as consequências de crer ou não em Deus... Os irmãos Karamazov, essa verdadeira suma da condição humana, espantou o adolescente que nada sabia da vida, mas dela queria tudo  — e imediatamente!

O grande tema da obra — a prova prática de que Deus não estava morto — batia de frente com minha recente decisão de afastar-me Dele. Mas, se o assunto não podia interessar a quem, naquele momento, estava se despedindo da Igreja Católica e partindo para a sua própria experiência de deserto espiritual, deve ter de algum modo funcionado como uma espécie de antídoto que, se não evitou o enfraquecimento quase total da fé, me impediu de dar o salto mortal no ateísmo. Ivan reconheceu que sua pregação ateísta tinha sido responsável pelo ato inadmissível de Smerdjakov, o mais inadmissível de todos os atos humanos: o parricídio. Portanto, se nem tudo era permitido, sob pena de tornar impossível a vida dos homens neste mundo, a conclusão só podia ser uma: Deus existia. Deus era o nexo lógico que tornaria a vida vivível. O próprio romance termina com um ato de fé na ressurreição dos mortos.

Aqueles três irmãos — o hedonista Dímitri, o intelectual ateu Ivan e o religioso Aliocha — se transformaram em três caminhos possíveis. Um desses caminhos eu já tinha experimentado rapidamente, na breve passagem pelo seminário católico. Restavam dois: viver a vida, como Dímitri, ou entregar-se à soberba intelectual, como Ivan.

Eu certamente esperava que a literatura me ajudasse a escolher... Logo em seguida, experimentei a leitura de um tipo de romance completamente diferente, sem complicações existenciais, feito para a pura diversão: Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Li com o maior prazer, sem nenhuma vontade de interromper a leitura, mas ao final pude perceber, claramente, que nada havia permanecido em mim, ao contrário do romance anterior, lido com enfado, mas cujos personagens levaria comigo pelo resto da vida. (25/04/2015)

 

 

Os riscos da leitura

 

Em 1969, com treze anos e já numa escola pública, fui obrigado a ler O Guarani, de José de Alencar, por imposição de um professor que gostava mais de gramática do que de literatura.

Foi, aliás, o único livro que ele exigiu daquela turma do terceira série ginasial. Meu pai trouxe-o de São Paulo, numa edição da Melhoramentos com capa feia e cheiro bom. Depois de muito sacrifício, escalei a última página sem saltar nenhuma, espantado com aquele estranho final: o índio Peri e a louríssima Ceci acuados no alto de uma palmeira, enquanto as águas se aproximavam.

Acostumado aos finais bem acabados dos filmes que via no cine Castelo e Madalena, fiquei pela primeira vez surpreso — lembro-me bem — diante de um desfecho que ainda não era propriamente um fim, mas só sugestão de final. "E daí?", perguntava-me. O que aconteceria depois que as águas chegassem até a copa da palmeira? Um milagre? Um passe de mágica do Criador? Mas eis que o livro emudecia de repente: a página ficava subitamente branca.

Falei sobre isso com um primo mais velho, que já tinha lido alguns romances por obrigação escolar. O primo olhou-me com desprezo: “Não gostei desse livro. Prefiro o Dom Casmurro, de Machado de Assis.” Fez questão de avisar que era obra para gente grande, e eu dificilmente a compreenderia. “Obra profunda — garantiu-me —, que fala da realidade.”

Como se vivêssemos numa redoma, distante do mundo verdadeiro, nenhuma outra palavra era mais sedutora do que esta — realidade. Antes de uma das viagens de meu pai a São Paulo, intimei-o a trazer aquele romance, que não era para o meu bico e a minha idade. Depois de três dias, o livro estava comigo: uma edição da Cultrix, capa azul, com prefácio e notas do professor Massaud Moisés. Pulei o prefácio, desprezei as notas e fui direto ao assunto. Também sem pular uma só página, cheguei estoicamente ao final. Iniciava-se, aqui, uma veneração pela obra machadiana que duraria décadas.

Aquele primo foi o primeiro a pronunciar, na família, o substantivo próprio Darwin, aprendido com algum professor de ciências do curso ginasial. Meu pai, que era Congregado Mariano, sentia-se na obrigação de defender a posição tradicional da Igreja em favor do criacionismo, contra o evolucionismo. Debates e mais debates, com esse tema, eu presenciei após os almoços de datas festivas, quando toda a família se reunia.

Não muito tempo depois, quando juntei essa possível ascendência simiesca ao pessimismo machadiano, estava montada a equação que me desafiaria por boa parte da vida. Só faltava a luta de classes e o sonho do paraíso socialista, teoria que nunca me seduziu, rebatida com uma ideia de Jesus (Evangelho de São João, 18, 36) que, mesmo depois da perda da fé, continuaria a ser o meu refrão predileto contra Karl Marx:

— “O meu Reino não é deste mundo”. (22/04/2015)

 

 

Uma infância sem livros

 

Não li um único livro infantil na época da escola primária (foram quase mil e quinhentos dias sem um único livro de literatura exigido ou recomendado pelos professores), mas só hoje consigo entender que isso não foi tão catastrófico assim, antes o contrário, pois a ração literária acabava chegando a nós de alguma maneira, através dos causos contados pelos avós e as histórias bíblicas que meu pai narrava com muita frequência, todas elas carregadas de moralidade judaico-cristã, destinadas a reforçar em nós os vínculos com um passado que, se não era um mar de rosas, era no entanto a fonte dos princípios e virtudes permanentes que deviam ser cultivados para tornar esse mundo uma coisa mais tolerável.

Não me esqueço de uma coleção de discos das edições Paulinas, com a leitura dramatizada das principais passagens das Sagradas Escrituras, que meu pai comprou para facilitar o seu trabalho catequético. Com que estranho fascínio ouvíamos a voz da serpente, no episódio do Gênesis! Por outro lado, nada soava mais aterrorizante do que a voz do Senhor expulsando Adão e Eva do Paraíso, chamando-nos à dura realidade da salvação e da perdição eternas. Não imaginaria que, em breve, na adolescência, a serpente pudesse ser fonte de tantas coisas atraentes. Foi quando o demônio se vestiu de literatura e saiu à caça de mais uma pobre alma indefesa.

Tive a sorte de viver a infância numa época em que ainda não havia escritores infanto-juvenis a serviço da luta de classes, do feminismo, do movimento gay. Na verdade, ainda não havia, naqueles idos, essa categoria literária e profissional do escritor infanto-juvenil, que mais tarde prosperaria, no Brasil, à sombra dos incentivos oficiais, sob a tutela de intelectuais que sabiam muito bem o que queriam: mudar a mentalidade das crianças.

Já tinha onze anos, na primeira vez em que o objeto livro adquiriu certa visibilidade em minha vida. Foi em 1967, num seminário católico, onde entrei para sair padre e acabar saindo, um ano depois, um cristão cheio de dúvidas e alguns anos mais tarde um agnóstico muito insolente, incapaz de acreditar em Deus e, por tabela, no próximo.

Mais precisamente, foi numa tarde de chuva, enquanto andava sozinho pelas dependências do prédio central. Dei com uma porta aberta e, dentro, no meio de uma sala quase vazia, vi um monte de livros — pequena pirâmide de papel. Um aluno da Comunidade dos Maiores, que por ali passava, avisou-me:

— Não prestam. O reitor mandou jogar no lixo.

Ou queimar? Não me lembro bem. Foi a época em que, sob o entusiasmo do recém concluído Concílio Vaticano II — primavera da Igreja —, muitos seminários e mosteiros fizeram a mesma coisa: jogaram fora livros e mais livros que cheirassem a integrismo católico, pois eram coisas do passado, do outono e do inverno sombrios da Santa Madre.

Aproximei-me, peguei alguns, folheei. Podia levar quantos quisesse... Era a primeira vez que folheava um livro que não fosse didático, mas nenhum deles me interessou. Todos os que apanhava eram de religião, e à pirâmide logo os devolvia, desencantado. Só um, lamentavelmente, acabou permanecendo em minha mão. Não pelo conteúdo, mal entrevisto, porém pela capa, uma bela e dura capa vermelha, com letras prateadas. Olhei para os lados: não havia ninguém por perto. Com um gesto violento, separei a capa da brochura e fui escondê-la sob minha mesa, na Sala de Estudos.

Ficou comigo por um bom tempo, sem nenhuma utilidade, simples objeto para ser contemplado — nem mais, nem menos. Com aquilo iniciava-se, sem que soubesse, um estranho ritual, com seus inevitáveis sacrifícios, oferendas, etc., que teria como centro esses objetos de papel meticulosamente manchados de palavras e de vida. Fico imaginando, hoje, quanto livro bom, da Igreja de sempre, não haveria naquela pirâmide destinada ao lixo!

Esse aspecto fetichista do livro, de objeto fascinante, independente do conteúdo que transportasse, foi importante para fazer dele um instrumento eficaz nas mãos do diabo. (21/04/2015)

 

 

A palavra e o sagrado

 

A palavra não é só uma ferramenta humana, nem é só o traço distintivo dos homens em relação às outras espécies; é, antes de tudo, o canal de comunicação entre eles e os deuses (comunicação e comunhão tem a mesma origem linguística) e, a partir do povo hebreu, entre o povo eleito e o verdadeiro, único Deus (que, quando desejou vir até nós, veio como Palavra encarnada).

A fala exigiu a escrita. A escrita, e logo em seguida o livro, como seu veículo privilegiado, foi desde o início uma forma de perenizar aquilo que os homens diziam dos deuses, que os deuses “revelavam” aos homens e que os homens diziam entre si.

É misterioso o encontro das pessoas com os livros. Há os que crescem e vivem entre eles, e não descobrem o seu estranho fascínio. Outros, e é o meu caso, inicialmente levados por aspectos mais exteriores da coisa “livro”, inevitavelmente associado a prestígio e ascensão social, se deixam agarrar pelas páginas impressas e delas não se libertam mais, correndo-se o risco de transformá-los em objetos com poder quase sobrenatural ou mágico, ao qual até se presta um certo culto. É o fetichismo bibliomaníaco dos chamados ratos de biblioteca.

Não cheguei a esse ponto, mas quase. (20/04/2015)

 

 

Mestres ausentes

 

Um dia, em busca de sentido

Para o morrer e o ter vivido

(Sempre gostei desses assuntos),

Vi que as pessoas mais queridas,

Que ensinam com as próprias vidas,

Já não vivem mais: são defuntos. (18/04/2015)

 

 

Judas, fundador da teologia da libertação

 

Quem foi que recriminou Maria, irmã de Lázaro, quando pegou bálsamo de nardo puro, que não era barato, para ungir os pés de Jesus e os enxugar com os próprios cabelos? Ninguém mais, ninguém menos do que Judas Iscariotes. É o verdadeiro fundador da teologia da libertação. Judas pretendia que fosse vendido o bálsamo por trezentos denários e distribuído aos pobres... Jesus, sabiamente, disse que sempre haveria pobres entre nós, mas a Ele nem sempre O teríamos. Esta é a base de refutação mais sólida à heresia de Judas Iscariotes e Leonardo Boff: sempre haverá pobreza neste mundo, mundo que é pobre por natureza, pois o verdadeiro Mundo não é deste mundo. (07/04/2015)

 

 

A hesitação dos agnósticos

 

Como entender a hesitação dos agnósticos? Não sei se é só medo de escolher. Parece mais a soberba de não errar; daí a protelação indefinida da escolha... Se só há duas possibilidades para depois da morte — sobrevivência ou não da alma —, o ceticismo não faz nenhum sentido, a não ser como breve, muito breve, pausa antes da escolha. Mais que isso, e já merece ser tratado como algo patológico.

Se a alma sobrevive à morte (é o cavalo no qual todas as pessoas normais deviam apostar), nenhuma religião faz mais sentido que o cristianismo. Se o cristianismo é a única religião verdadeira, a Igreja Católica é obrigatoriamente a sua única e válida base operacional, aqui no planetinha provisório. Se a Igreja Católica é tudo isso, só o seu Magistério terá credibilidade doutrinal, pois detém o poder das chaves.

O resto é pura revolta gnóstica. (15/02/2015)

 

 

Sobre o sofrimento

 

O sofrimento humano, fartamente registrado nas obras literárias de todos os tempos e povos, não é uma vingança do deus demiúrgico dos gnósticos. Também não é incapacidade humana de conduzir os fatos históricos. Ensina a Igreja que o sofrimento é consequência inevitável do pecado; é o filho primogênito do Pecado Original. O homem, não contente com o seu ser divinizado, feito à imagem e semelhança de Deus, quis e quer mais; quis e quer ser Deus.

Sempre necessitaremos de imagens para compreender algo desse mistério. É como se essa terrível presunção humana, como se esse pecado dos pecados exalasse um gás deletério que, desde o início da humanidade, fosse acumulando-se na atmosfera espiritual do mundo, contaminando indistintamente a todos, exceto duas pessoas: o Deus que se fez homem para nos salvar e aquela doce nazarena que seria a escada pela qual o Senhor desceria até nós — Maria — e pela qual poderíamos subir ao Céu (na bela imagem de São Fulgêncio, contemporâneo de Santo Agostinho).

Essa poluição demoníaca atinge o corpo e a alma das pessoas. Se somarmos a essa poluição sobrenatural outras duas, ambas materiais — a corrupção do meio ambiente, que estraga o espaço físico, e a corrupção genética, que degrada a nossa descendência —, então teremos o quadro completo dos verdadeiros inimigos do homem, que habitam tanto o mundo visível como o invisível. Todos produzidos, não tenhamos dúvida, sob ação direta e inteligente do demônio, ou por sua inspiração. (13/02/2015)

 

 

O chão flácido da história

 

Nunca teremos segurança neste mundo, é certo, mas parece que o chão anda cada vez mais flácido. Essa cultura do provisório, instalada no Ocidente a partir dos anos sessenta, trouxe o inferno até nós, ao buscar remover as bases permanentes que sempre sustentaram a vida moral dos cristãos. É a diferença de construir-se sobre areia ou rocha. Bento XVI disse, certa vez, que nosso mundo neopagão ainda se aguenta de pé somente graças às bases cristãs que ainda lhe sustentam. Devagar, porém, são eliminadas as pedras do alicerce e substituídas por flácida areia, até que, um dia, todo o edifício do Ocidente acorde estirado no chão, olhando espantado para as próprias ruínas. (10/02/2015)

 

 

Entrevista com São Paulo Apóstolo

 

P: O sr.. viu que certos bispos, sobretudo alemães, andam querendo mudar o Evangelho de Cristo no sínodo sobre a família?

Apóstolo Paulo: “Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente. De fato, não há dois evangelhos: há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema.

Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo.

Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo.” (Gálatas, 1, 6-12)

 

 

Da dificuldade de ser santo

 

A própria diferença entre hagiografia e literatura lança alguma luz sobre o tema. Os hagiógrafos escrevem sobre homens esvaziados de si mesmos e prostrados aos pés do Senhor, perfeitos habitantes da Cidade de Deus. Já os romancistas, poetas e dramaturgos falam de pessoas como nós, seduzidos pelo mundo, entreolhando-se com espanto e ódio, perfeitos habitantes da Cidade dos Homens. (05/02/2015)

 

 

A Igreja morna

 

“Ao anjo da igreja de Laodicéia, escreve: ‘Eis o que diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus. Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. Pois dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro. Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo. Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono. Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.’” (Apocalipse, 3, 14-22)

 

 

Os mandamentos do bom relativista

 

Para o relativista, o fundamento de tudo é amar a si mesmo sobre todas as coisas; o resto é hipocrisia. Como consequência, nada é mais válido do que tomar o próprio nome como bandeira. Se for necessário, sustentar um falso amor ao próximo (disfarçado de filantropia ou socialismo) para melhor defender o supremo direito de amar a si mesmo. Por que não mentir, se a própria realidade muda de roupa a cada instante, como o rio de Heráclito? Quem se ama obsessivamente, lutará por viver sem esforço, de pernas para o ar, aproveitando o momento que passa, como ensinou um velho poeta latino. Se indispensável, não hesitar em roubar, pois o roubo, no fundo, é mera apropriação de fato do que já pertence por direito ao homem  autocentrado; portanto, se não deixar marcas, o roubo é perfeitamente legítimo (o crime como obra de arte...); caso contrário, deve ser severamente punido por incompetência operacional.

Por outro lado, se a pessoa não tem vocação para apropriar-se do alheio, sujeite-se mal-humoradamente ao trabalho, mas compense-o com muita festa e esbórnia após o expediente. Deve saber que a verdadeira liberdade está no ato sexual; deve praticá-lo, pois, como bem lhe aprouver. Para isso, urge libertar-se do jugo paterno e do modelo ultrapassado de família, lutando pela plena legitimidade do aborto, da eutanásia e do suicídio, embora defendendo, a todo custo, o princípio do pacifismo universal. Abaixo as guerras! As guerras atrapalham a serena prática do amor a si mesmo e à mulher do vizinho, a qual, pelo simples fato de ser do outro, será sempre mais apetecível que a própria (nono anti-mandamento do anti-decálogo). Falando em próximo, o bom relativista não admite que o outro tenha o que ele não pode ter; e procurará possuir o que o vizinho já tem (comunismo) ou mais (capitalismo), o que faz dessas duas opções político-econômicas duas faces só aparentemente opostas da mesmíssima moeda. (29/01/2015)

 

 

Opção preferencial pelos pobres

 

Estará certo, na Igreja, isso de “opção preferencial pelos pobres”? No meu entender, corretíssimo! Mas convém esclarecer, prontamente, que não só pobres de bens materiais devem ser objetos da caridade cristã, mas todos os necessitados, num arco que vai dos carentes de bens físicos aos carentes de bens espirituais. Se Cristo é o centro e todo o resto é periférico, como bem salientou o Papa, não há marginalidade mais terrível que a dos que se situam muito longe daquele centro. São os marginais de Cristo, que podem estar em qualquer classe social, sobretudo entre os ricos, cujo ingresso no Reino dos Céus será bem mais difícil. Lembra-se daquela “pobre menina rica”, cantada pelo poeta Vinícius de Moraes, também ele um paupérrimo de Deus? É isso que entendo quando a Igreja fala em “opção preferencial pelos pobres”: tanto os pobres materiais que sofrem por não ter o que comer, como também, e sobretudo, os pobres espirituais que não conseguem acreditar em Deus. Os primeiros estão mais perto da salvação que os últimos. Garante um personagem de Faulkner que a principal fome não é a do estômago, mas a do coração, e essa nenhuma bolsa-família pode resolver: só Cristo.

O Qual, aliás, falou muito em pobres. Em Mateus, 19, 21, disse Jesus: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” No entanto, também em Mateus, 26, 7-11, já pensando no futuro ex-frade Leonardo Boff & outros teólogos da libertação, esclareceu bem as coisas:

“Aproximou-se Dele uma mulher com um vaso de alabastro, cheio de perfume muito caro, e derramou-o na sua cabeça. Vendo isto, os discípulos disseram indignados:

— Para que este desperdício? Poder-se-ia vender este perfume por um bom preço e dar o dinheiro aos pobres.

Jesus ouviu-os e disse-lhes:

— Por que molestais esta mulher? É uma ação boa o que ela me fez. Pobres vós tereis sempre convosco. A mim, porém, nem sempre me tereis.”

Se sempre teremos pobres conosco, será inútil toda a sangueira derramada na fratricida luta de classes recomendada pelo marxismo. (26/01/2015)

 

 

Filosofia da história

 

Pego carona, respeitosamente, na filosofia da história de Santo Agostinho. Nunca me canso de ler a famosa passagem de A cidade de Deus, XIV, 28, que diz tudo o que precisamos saber a respeito:

“Dois amores fundaram duas cidades, a saber: o amor próprio levado ao desprezo a Deus, engendrou a cidade terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a segunda em Deus, porque aquela busca a glória dos homens e tem esta por máxima glória a Deus, testemunha de sua consciência. Aquela ensoberbecesse em sua glória e esta diz a seu Deus:

Sois minha glória e quem me exalta a cabeça.

Naquela, seus príncipes e as nações avassaladas vêem-se sob o jugo da concupiscência de domínio; nesta, servem em mútua caridade, os governantes, aconselhando, e os súditos obedecendo. Aquela, nos seus potentados, ama a própria força; esta diz ao seu Deus:

— Amarei só a ti, Senhor, que és minha força.

Por isso, naquela, seus sábios, vivendo segundo o homem, têm buscado só os bens do corpo, ou aquele do espirito, ou ambos; e também aqueles que têm podido conhecer a Deus, não o têm glorificado como Deus, mas desvaneceram-se em seus pensamentos e obscureceram-se-lhes o néscio coração...

Na outra, ao contrário, não há sabedoria humana, mas piedade, que rende ao verdadeiro Deus o culto devido, e que espera como recompensa na sociedade dos Santos — não só dos homens, mas também dos anjos — que Deus seja tudo em todos.” (23/01/2015)

 

 

Por que ser cristão?

 

Pela graça de Deus, pude compreender que o cristianismo, antes de ser uma doutrina, é um conjunto de fatos (que, para nosso bem, geraram uma doutrina). Essa doutrina, como a conhecemos hoje, deriva de fatos que a precedem e foram presenciados por muitas pessoas, que reputamos sadias da cabeça e honestas de coração.

Que fatos são esses? O acontecimento central do cristianismo é a ressurreição de um homem que tinha sido condenado e morto, aos trinta e três anos, por desobediência religiosa. Essa ressurreição, testemunhada por muita gente, foi depois registrada por escrito, e o conjunto desses textos é chamado de Novo Testamento, agregado a outro conjunto, bem mais antigo, chamado Velho Testamento, que reunia os textos sagrados da velha religião judaica.

O primeiro registro escrito do Novo Testamento está numa carta de um jovem intelectual judeu, chamado Paulo de Tarso, que lia e escrevia em hebraico, grego e latim. Esse intelectual era sobretudo um teólogo (ou fariseu, na terminologia hebraica). Paulo não conheceu pessoalmente o homem ressuscitado — ou melhor, o conheceria de uma forma estranha, alguns anos após a ressurreição, através de uma aparição sobrenatural no caminho de Damasco, cidade para a qual se dirigia o intelectual para continuar a fazer o que era a sua principal atividade de então: perseguir a seita cristã nascente.

De perseguidor, o teólogo-inquisidor judeu se transformou imediatamente no principal difusor da Boa Notícia, como eram então chamados os fatos e ensinamentos deixados pelo homem ressuscitado a seus discípulos. Depois da aparição (que seria só a primeira de uma séria de muitas), Paulo conheceu e virou amigo dos discípulos diretos do ressuscitado, os apóstolos, tendo escrito várias cartas nas quais disseminava os ensinamentos que deles ouvia, de mistura com o que lhe fora revelado diretamente, pelo ressuscitado, naquela série de várias aparições sobrenaturais.

Três textos importantes do Novo Testamento — Evangelho segundo Marcos, Evangelho segundo são Lucas e Atos dos apóstolos — foram escritos por discípulos de Paulo: João Marcos e um presumível médico chamado Lucas. Este também não conheceu pessoalmente o ressuscitado, mas privara intimamente com os discípulos de primeira hora. Na verdade, os dois textos de Lucas eram um único escrito, desdobrado em dois pela tradição que montou a Bíblia cristã.

Os outros dois Evangelhos (segundo Mateus e João) teriam sido escritos por dois apóstolos, ou por seguidores seus: o ex-cobrador de impostos Mateus e o chamado João Evangelista, que também escreveria o famoso Apocalipse e mais duas cartas, recolhidas no Novo Testamento, junto com duas cartas do apóstolo Pedro, uma do apóstolo Tiago e outra do apóstolo Judas.

Esse conjunto de textos é que trouxe, até nós, aqueles estranhos fatos ocorridos, há quase dois mil anos, num pequeno país do Oriente Próximo, dominado então pelo Império Romano. (18/01/2015)

 

 

Judas Iscariotes na Igreja

 

Sempre o “mistério da iniquidade”! Bom exemplo da presença de Judas na Igreja é o novo escândalo envolvendo a Campanha Católica para o Desenvolvimento Humano, associação humanitária da conferência episcopal dos Estados Unidos, a CNBB americana: deu dinheiro grosso a uma associação presidida por um pastor protestante que costuma celebrar casamentos gays em sua congregação em Pomona, na Califórnia. Não é a primeira vez que é acusada de trair a Igreja na partilha de subvenções. (15/01/2015)

 

 

Ação de graças

 

Obrigado, Senhor, pelas coisas boas e belas da vida, que prenunciam o Paraíso. Obrigado, Senhor, pelas coisas difíceis da vida, que nos preparam para o Paraíso. (10/01/2015)

 

 

Descatolização da América

 

Assusta a crescente “descatolização” da sociedade brasileira, com o demônio sentindo-se confortavelmente em sua própria casa, como ocorre até em nossas pequenas cidades.

De vez em quando, convém olhar para os números. Segundo pesquisa realizada pelo instituto norte-americano Pew Research, e divulgada no último mês de novembro de 2014, os 92% da população latino-americana, que se diziam católicos em 1970, são agora 69%... No mesmo período, o número de protestantes passou de 4 para 19% da população, e o dos declaradamente sem religião chegou a 8%. Apesar dos efeitos positivos do pontificado de São João Paulo II, que conteve por algum tempo a queda, a verdade insofismável é que Igreja continua perdendo fiéis na América Latina e no Brasil (que prefere brilhar noutras estatísticas, como a dos 60.000 assassinatos por ano ou 60.000 mortos anuais no trânsito)

Desses 69% que se dizem católicos, sabe-se que só uma minoria efetivamente vai às Missas obrigatórias dos domingos; e, dessa minoria, só um pequeno número cuida efetivamente das demais lições de casa que o ser católico impõe: entre outras, puxando a fila, a caridade fraterna, seguida da leitura diária das Sagradas Escrituras, as confissões frequentes, a reza diária do Rosário, o jejum e a mortificação e, se possível, a Eucaristia diária. Enfim, é o cardápio de salvação — do qual o mundo besta vive escarnecendo — que a Igreja Católica sempre recomendou, sintetizável em duas palavras eternas: orar e amar. (08/01/2015)

 

 

Católicos de volta para casa

 

Em primeiro lugar, sem nenhuma dúvida, rezando por eles. No entanto, a Graça divina conta sempre com a vontade humana, e é preciso agir. Papa Ratzinger, em consonância com Papa Wojtyla, chegou a falar em uma Nova Evangelização, especialmente destinada a católicos fujões, como eu mesmo fui durante muito tempo.

Autor de uma ideia genial a respeito foi o empresário norte-americano Tom Peterson, quando trocou sua morna religiosidade por uma viva fé católica, fazendo veicular nas principais redes de televisão dos EUA uma propaganda “sui generis” da Igreja Católica, como outros fariam de automóveis ou refrigerantes, na qual imagens e palavras, escolhidas a dedo, destacavam o protagonismo da Igreja romana na construção do mundo ocidental. Veja no “youtube”, bastando digitar “Católicos, voltem para casa”. O texto do vídeo é o seguinte:

“Nossa família é feita de todas as raças. Nós somos jovens e velhos, ricos e pobres, pecadores e santos. Nossa família se difundiu pelos séculos e pelo mundo. Com a graça de Deus, nós abrimos hospitais para cuidar dos doentes, criamos orfanatos e ajudamos o pobre. Nós somos a maior organização caritativa do planeta. Trazemos alívio e conforto para aqueles que precisam. Nós educamos mais crianças do que qualquer outra instituição educativa ou religiosa. Nós desenvolvemos o método científico e as leis da evidência. Nós fundamos o sistema universitário. Nós defendemos a dignidade de toda a vida humana, preservando o casamento e a família. Cidades foram homenageadas com o nome de nossos venerados santos, que percorreram um sagrado caminho antes de nós. Guiados pelo Espírito Santo, nós escolhemos os livros que comporiam a Bíblia. Nós somos transformados pelas Sagradas Escrituras e pela Sagrada Tradição, que têm nos guiado consistentemente por dois mil anos. Nós somos a Igreja Católica! São mais de um bilhão de pessoas, em nossa família, compartilhando dos sacramentos e da plenitude da fé cristã. Por séculos, nós temos rezado por você e pelo mundo, a cada hora, todos os dias, sempre que celebramos a Missa. O próprio Jesus lançou os alicerces da nossa fé, quando disse a Pedro, o primeiro Papa:

– Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja.

Por mais de dois mil anos, nós temos uma linha ininterrupta de pastores guardando a Igreja Católica com amor e verdade, num mundo confuso e doloroso para a vida humana. E neste mundo cheio de caos, dificuldade e dor, é importante saber que algumas coisas permanecem coerentes, verdadeiras e fortes: nossa fé católica e o eterno amor que Deus tem por toda a criação.

Se você esteve afastado da igreja, nós te convidamos a um novo olhar... Nossa família é unida em Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador. Nós somos católicos. Bem vindo a sua casa!

Para mais detalhes, há agora em português o recém-lançado livro de Tom Peterson, Católicos, voltem para casa (Editora Cléofas, 2014, 120 p.) (07/01/2015)

 

 

Comunhão na boca ou na mão?

 

Se a Igreja permitiu as duas formas, cada qual escolhe a que mais lhe convém. Fiquei muito tempo sem comungar. Minha última comunhão a recebi na boca, para a qual tinha sido diligentemente preparado na catequese infantil; era inimaginável, naquela época, a simples ideia de tocar na santa hóstia, e muito menos mastigá-la. Quando voltei a procurar o Senhor, na Eucaristia, era natural que retomasse o hábito interrompido do jeito como tinha aprendido. Mesmo quando já não ia à Missa, achava um absurdo a facilidade com que meus pais assimilaram a nova maneira de comungar.

Segundo o bispo Athanasius Schneider, que se doutorou em patrística e conhece os primeiros hábitos eucarísticos da Igreja, a comunhão na mão, então permitida, era realizada com a maior e a mais humilde reverência: a hóstia era depositada na mão direita do cristão, lavada imediatamente antes, o qual se inclinava profundamente e a recolhia diretamente com a boca, atento para não deixar fragmentos na palma.

A evolução para a comunhão na boca foi uma espécie de aprimoramento na expressão de reverência: o fiel aproximando-se da Eucaristia como um bebê do seio materno (tornar-se criança para merecer o Reino...). Mas foi, também, produto de espírito prático, para evitar a perda de possíveis fragmentos e dificultar o roubo da hóstia consagrada. 

Eu me esforço em compreender a outra forma de comungar. Seus defensores argumentam que a palma esquerda do fiel, nesse momento, se transforma em manjedoura de Belém, prestes a receber o menino Deus. É uma bela analogia, mas acho o simbolismo da mão esquerda pouco interessante para um católico... Além do mais, o Cristo Eucarístico é o Cristo total: o que já existia antes de todos os séculos, o depositado pelo Espírito Santo no seio de Nossa Senhora, o nascido humildemente em Belém, o escarnecido e morto na Cruz, o vitorioso ressuscitado ao terceiro dia e o que gloriosamente subiu aos Céus. Símbolo por símbolo, prefiro o de não tocar com minhas “mains sales” o misericordioso Onipotente contido no pequeno pedaço de pão. Obviamente, minha língua também não é nada limpa, nem as entranhas que receberão o divino remédio. Agrada-me a omissão simbólica das mãos na comunhão eucarística, por tudo o que as mãos humanas possam significar: sobretudo o ridículo poder humano, tão paradoxalmente cheio de miséria e soberba. (05/01/2015)

 

 

A virgindade de Maria é mito?

 

Os ateus, a respeito de Nossa Senhora, dizem que outras religiões também conheceram virgens, das quais nasceram semideuses ou homens importantes...

Se existe, porém, noutras religiões, além da cristã, uma virgem que dá à luz um homem importante, de duas uma: ou esse “arquétipo” tem origem humana ou origem divina. Se não existe um só povo sem religião, de duas uma: ou essa universalidade das religiões tem origem humana ou origem divina.

Qualquer das duas opções, que você escolha, será baseada em fé: fé em Deus ou fé em Nada, que é uma espécie de não-Deus com uma incrível capacidade de também fundar seitas e religiões, com seus ritos, seus dogmas, seus sumo-sacerdotes, mas compostas de uma gente muito estranha, que prefere apostar no cavalo que já sabe, de antemão, destinado a perder. Não vejo como um precedente mítico da concepção virginal de Maria anularia, por si só, a encarnação do Verbo. Ao contrário, revelaria uma tendência muito compreensível, no ser humano, em associar as coisas transcendentes à ideia de pureza e castidade. Desde que o mundo é mundo, a luz do Espírito Santo sempre instruiu os corações humanos, levando-os a apreciar retamente as coisas. (02/01/2015)

 

 

A permanente lição de humildade do Natal

 

Nenhuma alegria é maior que a do Natal, quando se comemora a verdadeira libertação da humanidade. A soberba adâmica — vontade de ser deus igual a Deus — foi e é o mais grave de todos os pecados humanos. Como reação à ridícula ambição de Adão e Eva, Deus deixou o mundo mais ou menos entregue a si mesmo:

— Que o homem saiba, agora, como é amargo viver por conta própria!

Foi, e ainda é, uma experiência terrível. Mas um pecado tão extraordinário, um preço tão alto só poderia ser resgatado e pago pelo próprio Deus. Por isso, Ele precisou encarnar-se num homem para salvar a humanidade, sofrendo o que sofreria o mais vil dos homens, e como ele morrendo, e morrendo por ele.

Livrai-nos, Senhor, da soberba do homem que quis e continua querendo ser deus! Dai-nos, Senhor, a humildade do Deus que se fez homem e nasceu num cocho de estábulo. (25/12/2014)

 

 

Se pecados abundam na Igreja, superabundam os milagres

 

Muitos são os pecados da Igreja? Inumeráveis, também, são os milagres da Igreja. Entre eles, seguramente um dos maiores, é o fato dela ter conseguido guardar intacta a doutrina da fé por dois mil anos, apesar de tantos pecados cometidos pelos seus filhos. Divulgar esses pecados (os pecados de fato, não os que lhe são falsamente imputados pela militância anticristã midiática e acadêmica) não deve ser, portanto, motivo de vergonha, mas permanente exercício de humildade — e com uma perdoável pontinha de orgulho: o de saber que, apesar tudo, de tantos erros e escândalos, a Verdade continua residindo em Roma e as portas do inferno não prevalecerão sobre o misterioso império de Pedro, atenda o Papa pelo nome de Bento XVI ou pelo nome de Francisco. (12/12/2014)

 

 

Antonio Olavo Pereira, escritor católico

 

Descobri, há pouco, que o escritor Cony é grande fã do romance Marcoré, de Antonio Olavo Pereira, irmão do editor José Olympio. Em palestra na Academia, disse o seguinte sobre o meu conterrâneo batataiense:

"Caso especial, que cito agora com muito carinho, é o caso de Antônio Olavo Pereira. Vocês talvez nunca tenham ouvido falar nesse nome. Antônio Olavo Pereira era irmão de José Olympio Pereira, editor, maior editor do Brasil. Eu não o conheci pessoalmente, conheci o José Olympio, conheci o Daniel, mas não conheci o Antônio Olavo. Ele tem um livro chamado Marcoré, que é um dos livros que mais me impressionou. Lembro-me que, quando comecei a escrever meu primeiro livro, alguém me disse assim: - Mas você nunca leu literatura brasileira? - Realmente, eu lia muito pouco literatura brasileira. Lia os novos. Entrei numa livraria e perguntei: - Qual o último livro que saiu?- Me deram Marcoré. Eu gostei muito do livro, é um livro muito sério, e se não me engano, está na segunda edição. Aí veio aquela decadência de José Olympio, a editora foi vendida. Ele era um sujeito muito modesto, ele não insistiu. Mas Marcoré é um livro que boto na estante entre aqueles que mais apreciei na minha vida."

Há vários anos, na UNESP, fui convidado por um colega do curso de História, Prof. Alexandre Hecker (primo do crítico gaúcho Paulo Hecker), para uma visita à sua sala, pois ficou sabendo que eu era de Batatais e queria me apresentar uma parte da biblioteca particular do romancista Antonio Olavo Pereira (também não tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente), e que ele, encarregado por um filho do romancista, seu amigo pessoal, tentava vender. Eram duas ou três estantes atulhadas de livros.

— Os herdeiros querem vender. Será que o prefeito da tua cidade não se interessa? — me perguntou.

Respondi qualquer coisa bem cética. Prefeito, hoje, sabemos bem, não quer mais saber de livros. Acabou me vendendo bem barato, por insistência minha, um diário de juventude de Gilberto Freyre, Tempos mortos, com dedicatória do sociólogo pernambucano ao Antonio Olavo, que guardo em minha biblioteca com muito carinho. O restante dos livros particularmente não me interessou, pois era composto, em sua grande maioria, de obras de apologética católica. Eu era, então, um agnóstico muito besta e sem nenhum interesse por esse tipo de obras.

Depois que retornei à Igreja, ficava imaginando quanta coisa boa teria naquele acervo que o prof. Hecker logo mais venderia a não me lembro mais que instituição paulista! Essa visita à sala do prof. Hecker foi preciosa num aspecto: fiquei sabendo que o Antonio Olavo era um católico entusiasmado, coisa de que eu, leitor seu desde a juventude, nunca pude suspeitar, apesar de Marcoré ter uma "promessa cristã" como pivot da história e o último romance, Fio de prumo, dar algumas pistas nesse sentido. Nunca o imaginei, porém, um leitor de apologética católica... (10/12/2014)

 

 

Ribeiro Couto, grande poeta

 

O poeta Ribeiro Couto anda merecendo reaparecer de corpo inteiro, com suas poesias completas. Urgentemente. Folheei recentemente os livros do poeta, do primeiro ao último, à procura de Deus. Eis um poeta que sempre foi muito delicado com as coisas de Deus, embora as tratasse com discreta e asséptica distância. Nada é mais falso do que a segurança dos agnósticos. Não há nada mais solitário do que a vida dos que não creem em Deus. Se são poetas, como Ribeiro Couto, possuem a lira mais harmônica do mundo, as palavras estão preparadíssimas para dizer o mundo. Falta-lhes, porém, o mundo, falta-lhes o próprio chão onde pisam, por mais que — é o caso do grande poeta santista — aparentem um grande senso de realidade. (29/11/2014)

 

 

Converter os católicos ao catolicismo...

 

Os protestantes ativos não necessitam, por ora, de conversão: já atuam em seus “grupos de oração”. Já se disse, com acerto, que as seitas cristãs não passam de grupos de oração. No entanto, por mais que o verdadeiro cristianismo exceda esse minimalismo calvinista, reduzido a leitura da Palavra e louvor a Deus, já estamos diante de pessoas que orbitam em torno a Cristo. Deixemos em paz os protestantes.

Quem necessita de conversão ainda não são os ateus ou agnósticos, cuja teimosia (teimosia em desconhecer o Evangelho e seus vínculos indispensáveis com a tradição sobrenatural da Igreja) não se elimina só com argumentos teológicos, por mais consistentes que sejam. Sem a ajuda da Graça não há negócio com ateus ou agnósticos, trancados que estão em suas profundas ou mornas convicções antirreligiosas.

São os próprios católicos que precisam ser convertidos. Os católicos que dizem acreditar em Deus, fingem crer na Igreja e até vão à Missa, mas padecem daquela tibieza que os comprometerá para sempre, conforme garantiu o Filho do Homem em Apocalipse, 3, 16 (“como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te”). Também os católicos que, quentíssimos no ímpeto militante, se aliam a ideologias e partidos políticos declaradamente anticristãos, tornando-os campões da heresia. E, sobretudo, os que já se acham redimidos por acreditar em Deus e em tudo o que ensina a Igreja, julgando terem feito o suficiente, quando ainda estão no bê-á-bá da salvação.

O método da evangelização é, portanto, obrigatoriamente centrífugo: deve começar com a autoconversão permanente do evangelizador e, por irradiação contínua, sem a soberba de confiar demais na própria ação, buscar atingir os pontos mais distantes da circunferência. (13/11/2014)

 

 

Árvore de pé

 

A fúria do vento cresce,

Leva tudo de roldão.

Somente a Cruz permanece,

Firme, plantada no chão. (12/11/2014)

 

 

Pedagogia maquiavélica

 

Como chegamos a essa descarada pedagogia maquiavélica do PT e (um pouco mais disfarçada) do PSDB? Nos países moldados pela moral cristã, o Estado moderno quis inicialmente promover um ensino que fosse “moral”, sem ser nomeadamente cristão. Algo como aproveitar os frutos, recusando a árvore. A própria árvore, considerada desnecessária, foi cortada. As virtudes cristãs, no entanto, degeneraram facilmente sem a seiva original que as alimentava e provinha da fonte sobrenatural da Igreja.

Os próprios católicos, influenciados pela mentalidade positivista do século XIX, perderam todo o senso de escala; posaram de objetivamente bonzinhos e, ao considerar igualmente dignas de respeitos todas as confissões religiosas, e depois todas as ideologias, ajudaram os políticos anticatólicos a abrir as portas para o ensino dito laico, hoje praticamente nas mãos dos vira-mesas liberais e socialistas. (10/11/2014)

 

 

O bangue-bangue doutrinal do Sínodo sobre a família

 

Ainda está nos créditos iniciais. O chumbo-grosso virá no próximo ano, certamente. Ontem, o cardeal americano Raymond Burke — o John Wayne da Igreja, pronto para meter bala em heresias — deveria celebrar missa em latim na igreja paroquial de São Leopoldo, em Viena, que pertence ao monastério de Klosterneuburg. A missa foi proibida, apesar do “motu próprio” Summorum Pontificum de Bento XVI, que estimulava a celebração do rito antigo, ainda ter plena vigência.

O fato é sem precedentes, na história atual da Igreja. Afinal, Cardeal Burke, pessoa obediente ao Magistério e à disciplina eclesiástica, atua na Cúria romana e é prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Um secretário de Estado do Vaticano, portanto.

Mas o que faz em Viena o nosso John Wayne purpurado? Foi para o lançamento do livro que publicou contra a comunhão aos divorciados, às vésperas do Sínodo, em parceria com mais outros três cardeais da Cúria, e que acabou influindo na reunião dos bispos.

Acontece que São Leopoldo é uma paróquia da arquidiocese de Viena e dependente do Cardeal Christoph Schönborn, que, no Sínodo, estava ao lado dos “bandidos” Cardeal Walter Kasper e Bispo Bruno Forte, responsáveis pelo famoso e vergonhoso relatório. (06/11/2014)

 

 

Família grande, espécie em extinção

 

No último 30 de outubro, quinta-feira, foi uma grata surpresa ligar a tevê na Canção Nova e assistir ao programa “Escola da fé”, do prof. Felipe Aquino — no meu entender, o melhor programa da televisão brasileira —, em que um jovem cientista, Alexandre Zabot, de pouco mais de trinta anos, tratou da relação entre ciência e fé. Pertence ao grupo de astrofísicos da Universidade Federal de Santa Catarina e, absurdamente, é católico praticante.

Entre as várias coisas interessantes que disse, gostaria de destacar aqui apenas uma, dita de passagem: ele é casado e — outro absurdo — já tem uma penca de filhos: quatro. Contou, em seguida, da alegria que sente ao chegar em casa e logo ouvir a gritaria das crianças — pulando, brincando, brigando... Dão trabalho? É claro que sim, mas é justamente essa dificuldade — completou o professor — que santifica o casamento. Deus quis que homem e mulher (jamais homem com homem ou mulher com mulher) se completassem no matrimônio, abrindo-se generosamente à procriação, como ensina a Igreja de dois mil anos, de quem esse professor de cálculo físico é um humilde aprendiz, pois não vê nenhuma incompatibilidade entre equações e mistérios.

Referiu-se à melancolia das casas que não conhecem aquela algazarra infantil; casas em que, ao contrário, um chorinho de filho único se mistura ao latido de um pequeno cão, e isso quando os casais não optam miseravelmente pelo cão. Terrível e sepulcral silêncio de uma casa sem filhos, onde só os latidos de um cachorro conseguem dar sinal de vida!

Prof. Alexandre Zabot faz parte de uma espécie em extinção: os defensores da família numerosa, que acreditam ser o casamento uma instituição sagrada — é um dos sete sacramentos da Igreja —, uma divina fabriqueta de vidas eternas, e não um simples passatempo sexual, um “parque de diversões” (como gosta de dizer o padre Paulo Ricardo) da carne insatisfeita. Não há nada mais belo, neste mundo, do que o segredo, o mistério, o paradoxo do encontro conjugal de um homem e uma mulher: uma união extremamente prazerosa destinada, no entanto, ao sacrifício da geração e educação dos filhos — tremendo sacrifício, considerando a época em que vivemos. São os dois hemisférios obrigatórios do casamento; a eliminação de qualquer um deles mutila-o irreversivelmente.

Muitas famílias pobres, antigamente, sofreram com seus nove, dez, doze filhos. Não tiveram escola, nem medicina preventiva, mas foram criados nas leis de Deus e nelas morreram. Contavam com a graça de viver numa época em que os pais educavam a prole em parceria com Deus, através da Igreja, que era mais zelosa que hoje no ensino e cumprimento das leis morais. Ocorria, então, um verdadeiro milagre: famílias grandes, de dentes estragados, mas com filhos decentes.

Nada é mais utópico, porém, do que construir hoje uma família numerosa. O espírito pragmático de nossa época, voltado principalmente para as coisas deste mundo, inclina as pessoas para o conforto imediato, o gozo efêmero, a felicidade material. A ideia de família pequena foi usada, no século passado, por organismos internacionais interessados na redução demográfica, como condição básica para a ascensão social. Os prêmios seriam mais poupança, seguro saúde, carro novo, casa boa, melhores escolas para os poucos filhos, tudo muito competentemente propagandeado pelos filmes de Hollywood ou as novelas da Globo. 

Na realidade, a diminuição da população produziu desertos. Hoje, governos do primeiro mundo, preocupados com a rarefação humana de seus países, agora à mercê da migração muçulmana, já dão sedutores incentivos à procriação. Outra consequência nefasta dessa política de família pequena é a erotização da sociedade e da cultura, em que a mesma pílula contraceptiva, que colaborava no planejamento familiar, seria responsável pela maior onda de pornografia jamais vista na história humana (Papa Paulo VI, em sua profética encíclica “Humanae vitae”, de 1968, já tinha alertado o mundo sobre o perigo).

O que é não existir, podendo ter existido? Qual é o preço de uma vida que, a um passo de ser criada (e criada para a eternidade), será entretanto impedida de conhecer a glória da existência? Deus, o maior amigo da vida, certamente não estará contente com esses casais escravizados ao moderno comodismo burguês, que privam da existência um ser que seria eterno. Muitos jovens, que hoje defendem a redução da natalidade, não teriam botado os pés no mundo se seus pais já tivessem praticado essa filosofia mesquinha.

Eis um verdadeiro desafio aos cristãos do século XXI: não terem medo de gerar candidatos ao Céu. E cuja eternidade poderá ser vivida no próprio palácio do Rei, lá onde encontrarão “a luz verdadeira, a plena saciedade, a eterna alegria, a ventura completa e a felicidade perfeita”, na perfeita síntese do Paraíso feita por Santo Tomás de Aquino. É para isso que as pessoas procriam, e não para a felicidade efêmera e ilusória deste mundo.

Detalhe importante: só dentro do cristianismo é possível encarar essa barra pesadíssima, pois os adeptos da mentalidade pagã jamais terão motivação suficiente para algo tão desafiador. Se os jovens casais, em vez das torpes novelas da Globo, assistissem semanalmente ao programa do prof. Felipe Aquino, ficariam talvez mais animados — como dóceis ferramentas nas mãos criadoras de Deus — para a difícil e no entanto frutuosa tarefa de fazer filhos.

Que o mundo zombe à vontade dessas nossas ideias ultrapassadas. O riso do mundo, como a mentira, também tem pernas curtas. (03/11/2014)

 

 

A coisa “livro” em minha vida

 

Um amigo costuma dizer que teve uma infância feliz, pois contou com a sorte de viver numa época em que ainda não havia a escritora Ruth Rocha. Compartilho com ele essa felicidade... Mas, por outro lado, lamento muito não ter lido um único livro infantil de Monteiro Lobato. Nos quatro anos do curso primário, foram quase mil e quinhentos dias sem um único livro de literatura exigido ou recomendado pelos professores.

De família de pequena classe média interiorana, a minha foi uma infância sem literatura escrita. Contava nos dedos de uma só mão os livros que havia em casa: a Bíblia da Ave Maria, a História da Igreja, de São João Bosco, Uma fonte de energia, do jesuíta mexicano Carlos María de Heredia e uma edição dos documentos do Vaticano II, pela Vozes. Algo parecido com literatura só chegava até mim oralmente, através dos causos contados pelos avós e as narrativas bíblicas que meu pai contava com muita frequência. Mais tarde, para facilitar a coisa com os outros filhos, comprou uma coleção de discos das edições Paulinas com a leitura dramatizada das principais passagens das Sagradas Escrituras. Não me esqueço do estranho fascínio com que ouvia a voz da serpente, no episódio do Gênesis; creio que estava ali a fonte do meu posterior agnosticismo...

Tinha onze anos, na primeira vez em que o objeto livro adquiriu certa visibilidade. Foi em 1967, no seminário, onde entrei para sair padre e acabar saindo, um ano depois, um católico cheio de dúvidas e alguns anos mais tarde um agnóstico muito insolente, incapaz de acreditar em Deus e no próximo.

Mais precisamente, foi numa tarde de chuva, enquanto andava sozinho pelas dependências do prédio central. Dei com uma porta aberta e, dentro, no meio de uma sala quase vazia, vi um monte de livros — pequena pirâmide de papel. Um aluno da Comunidade dos Maiores, que por ali passava, avisou-me: "Não prestam, o reitor mandou jogar no lixo" (ou queimar, não me lembro bem).

Foi a época em que, sob o entusiasmo do recém concluído Concílio Vaticano II — primavera da Igreja —, muitos seminários e mosteiros fizeram a mesma coisa: jogaram fora livros e mais livros que cheirassem a integrismo católico. Eram coisas do passado, do outono e do inverno sombrios.

Aproximei-me, peguei alguns, folheei. Podia levar quantos quisesse... Era a primeira vez que folheava um livro que não fosse de escola, mas nenhum deles me interessou. Todos os que apanhava do monte eram de religião, e à pirâmide logo os devolvia, desencantado. Só um, lamentavelmente, acabou permanecendo em minha mão. Não pelo conteúdo, mal entrevisto, porém pela capa, uma bela e dura capa vermelha, com letras prateadas. Olhei para os lados: não havia ninguém por perto. Com um gesto violento, separei a capa da brochura e fui escondê-la sob minha mesa, na Sala de Estudos.

Ficou comigo por um bom tempo, sem nenhuma utilidade, simples objeto para ser contemplado — nem mais, nem menos. Com aquilo se iniciava, sem que soubesse, um estranho ritual, com seus inevitáveis sacrifícios, oferendas, etc., que teria como centro esses objetos de papel meticulosamente manchados de palavras e de vida. Fico imaginando, hoje, quanto livro bom, da Igreja de sempre, não haveria naquela pirâmide destinada ao lixo! (20/10/2014)

 

 

“Quem sou para julgar?”

 

A famosa pergunta de Papa Francisco — “Quem sou para julgar?” —, espertamente manipulada pela imprensa, se transformou até em mote do movimento gay...

Certamente, o Papa utilizou aquele verbo no sentido teológico de “sentenciar”, para uso restrito de Deus, que aliás foi Quem primeiro julgou o homossexualismo e o enquadrou na lista das práticas interditas. É um decreto da Providência. Quem não acredita é livre para inventar a sexualidade que quiser, ao contrário dos que professam a fé cristã, seja um cardeal do Sínodo ou um garçom de restaurante. Quem somos nós para julgar o Senhor?

Aproximar-se dos homossexuais seria uma atitude perfeitamente conforme à virtude da caridade se, em seguida, os bispos responsáveis pelo relatório do Sínodo lembrassem ao mundo pró-gay o que pensa a Igreja do homossexualismo, de preferência mencionando — com toda a delicadeza possível —  as famosas passagens de São Paulo na Carta aos Coríntios e na Carta aos Romanos.

Desligada, porém, da doutrina, a frase soa como discreto sinal de aproximação ideológica, mais do que misericórdia cristã. Os bispos que estão no comando do sínodo, principalmente o seu secretário, monsenhor Bruno Forte, teólogo “progressista”, sabem que sexo, para o movimento gay, não é uma prática privada, mas algo escancarado, exposto ao público como um poste ou um banco de praça, ligado a outros movimentos contemporâneos de controle social, como o feminismo e o ambientalismo. São esses os aliados que a Igreja quer? É preciso ter cuidado para, ao acolher um homem desejoso de mudar de vida, não embarcar em espertas ideologias mundialistas.

O menor ruído no Sínodo pode ter repercussões acústicas inimagináveis. Bom exemplo é o do jornal eletrônico italiano La nuova bussola quotidiana, que no dia seguinte à veiculação do relatório tornou público o caso da jovem Gabriella, convidada recentemente pelo namorado a compartilhar o seu teto e que, encontrando resistência na família, agora teve um forte estímulo no relatório dos bispos, que já vê na simples convivência “elementos de santificação e verdade”, embora se distinga, no documento, entre a união que já atingiu uma notável estabilidade através de um vínculo público, e a convivência que surgiu sem nenhuma intenção de desaguar num futuro matrimonio, sem nenhuma intenção de estabelecer uma relação institucional

 Foi o que Gabriella, confiante no que aprendeu da mídia, disse à família: que o que queria fazer com o namorado já continha “elementos de santificação e verdade”. A família, boquiaberta, vai responder o quê? A linguagem não é só uma ferramenta apta a exprimir conceitos, com maior ou menor precisão. Pode ser também um jogo, uma armadilha, e o seu uso inábil pode ser mais perigoso do que uma bomba. (18/10/2014)

 

 

São Paulo e o homossexualismo

 

Uma rápida folheada pelas cartas paulinas que tratam do assunto já seria suficiente para iluminar a questão. Uma das maiores deslealdades do homem para com Deus, segundo São Paulo, diz respeito ao uso do próprio corpo, e, em suas cartas, não faz mais do que reiterar velhas verdades já reveladas ao povo de Deus, na Antiga Aliança. “Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação” (Levítico, 18, 22). “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a sua culpa” (Levítico, 20, 13).

Para São Paulo, que já se dirigia a judeus e gentios, seriam punidos de morte, e não possuirão o Reino de Deus, “Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes.” (I Coríntios, 6, 9-10)

Pelo menos quem acredita na Bíblia como palavra de Deus, deve aceitar o que dizem esses versículos duríssimos do Velho e do Novo Testamento. Aos idólatras — os que trocaram a verdade de Deus pela mentira, explica o Apóstolo, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador —, Deus os deixou entregues a desejos desordenados, a paixões que desonram o corpo humano.

Que desejos desordenados? São os daquelas “mulheres que mudaram as relações naturais em relações contra a natureza; dos homens que, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario” (Romanos, 1, 26-27).

O apóstolo é implacável na qualificação dessa sexualidade self-service, individualista, arredia à vontade de Deus. Fala em “sentimentos depravados”, em “procedimento indigno”. Distingue nela a presença de várias doenças espirituais: malícia, perversidade, cobiça, maldade, inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade, difamação, calúnia, insolência, soberba, altivez, rebeldia contra os pais.

Não são, portanto, amigos de Deus aqueles que fazem tais coisas, e que, além de as praticarem, aplaudem os que as praticam. De acordo com o justo decreto de Deus, diz São Paulo, estarão condenados, pois sabiam o que estavam fazendo.

Sabiam mesmo? Segundo São Paulo, o que se pode conhecer da vontade de Deus, os homens o leem gravado em si mesmos, escrito que está na própria consciência, pois Deus o revelou com suficiente clareza a todos os homens. À inteligência humana foi dado o poder de entender algumas coisas básicas, entre elas discernir o que Ele quis e o que Ele não quis para as pessoas.

Mas essa inteligência, porque feita à imagem e semelhança da inteligência divina, dotam os homens da liberdade de desobedecer a Deus, e, insensatamente, por um obscurecimento da razão, podem extraviar-se em seus pensamentos falsos. “Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos”, disse o apóstolo. Já tinha dito em I Coríntios 1, que a sabedoria dos homens, quando desligada da fonte divina, é insensata, ao passo que a loucura de Deus — imposições morais que nos parecem uma verdadeira cruz — é sábia.

O cristão deve ser educado para aceitar a cruz, seja de madeira ou de chumbo. É uma verdadeira “loucura”, um mistério que é preciso admitir com a humildade de quem compreende que não compreenderá tudo, embora já seja uma bênção do Céu ter recebido um manual de instruções tão perfeito como a Bíblia. (17/10/2014)

 

 

A Igreja e o sexo

 

A razão do relato provisório, lido pelo cardeal Peter Erdo, no Sínodo dos Bispos, foi reunir as principais linhas de discussão em torno da família, visando o documento final do Sínodo. No entanto, em pelo menos três parágrafos, atribuídos ao bispo Bruno Forte, de tendência progressista, apareceram algumas ideias que não se encaixam na doutrina da Igreja. O relatório provisório foi lido e a mídia fez a sua parte, trombeteando-o como mais um sinal da renovação da Igreja “franciscana”... Evidentemente, os bispos mais conservadores protestaram e a redação foi amaciada, mas aí já era tarde: como sempre, a imprensa publica só o que lhe interessa, deixando quase sem destaque o brado dos descontentes.

O primeiro parágrafo do relatório parte da premissa de que “pessoas homossexuais têm dons e talentos para oferecer à comunidade cristã”, o que seria uma afirmação correta se formulada no condicional. Afinal, qualquer ser humano, independente da forma como pratica o sexo, pode ser útil à comunidade, seja ele um fotógrafo de periferia ou um Leonardo da Vinci. Em seguida, o texto pergunta se as comunidades católicas são capazes de acolher essas pessoas, proporcionando-lhes um “espaço de fraternidade”. Esse gesto de acolhimento, porém, não será jamais católico se não for semelhante àquele de Cristo, que defendeu a adúltera dos apedrejadores, mas ordenou que não pecasse mais.

Outra pergunta feita pelo documento: quando os gays procurarem uma Igreja que seja, para eles, como uma casa acolhedora, as comunidades católicas estarão em condições de aceitar e avaliar a sua “orientação sexual”, sem comprometer a doutrina católica sobre o casamento e a família? A Igreja está impossibilitada de aceitar a sua “orientação sexual”, a começar por esta expressão equivocada, que já entrou na legislação de vários países, segundo a qual sexo não passaria de uma opção entre tantas, no teste de múltipla escolha da existência humana.

Depois de afirmar que, para a Igreja, a união de pessoas do mesmo sexo não pode ser comparada ao matrimônio entre homem e mulher, e de repudiar pressões internacionais de organismos ligados à ideologia de gênero, o documento avisa que a Igreja está diante de um importante “desafio educativo”: “A questão homossexual nos interpela para uma séria reflexão sobre como elaborar caminhos realísticos de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica, integrando a dimensão sexual.

Traduzindo para uma linguagem mais direta: a Igreja do bispo Bruno Forte, na mesma linha do finado cardeal milanês Carlo Martini, parece estar disposta a aceitar a relação homossexual. A propósito, é notório como a linguagem teológica atual tem assimilado alguns termos ou expressões típicas do pensamento moderno, sobretudo de Heidegger e dos pós-modernos. Evidentemente, não se trata só de palavras; com elas, migram conceitos e ideologias.

Diz o documento que “sem negar as questões morais relativas às uniões homossexuais, é preciso reconhecer que há casos em que a mútua colaboração, chegando até o sacrifício, constitui um valioso apoio para a vida dos parceiros.” Fica bem clara, nesta formulação, a intenção de combater o casuísmo de uma doutrina moral insensível a realidades existenciais concretas, mas propondo-se, com um exagero oposto, a suavização da velha lei moral a partir de apelo emocional a exemplos particulares. Contudo, o desvelo abnegado de um gay por seu parceiro, nalguma doença terminal, não tem o poder de transfigurar magicamente a imoralidade básica dessa relação. Em que medida poderiam viver com dignidade? Que elevação moral proviria de uma vida em tão completa ruptura com a vontade divina?

O apóstolo Paulo diria que não é possível. (14/10/2014)

 

 

Poema político

 

Eu sou monarquista,

Meu rei é Jesus.

Um rei diferente,

Dorido regente

Cuspido na Cruz.

Eu sou monarquista,

Meu rei é Jesus.

Um rei perseguido,

Que reina ferido,

Pregado na Cruz.

Eu sou monarquista,

Meu rei é Jesus.

Rei da vida eterna,

Que reina e governa

Do alto da Cruz. (13/10/2014)

 

 

31ª Bienal de Artes no Ibirapuera homenageia a Igreja

 

Aleluia! Aleluia! Quem já esteve por lá, voltou extasiado e repete sem parar: — Imperdível! É uma verdadeira declaração de amor à Igreja fundada há dois mil anos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Como os intelectuais adoram a Igreja Católica! A exposição foi concebida e realizada por um grupo de experts internacionais, sob a coordenação do curador oficial do Museu de Arte Moderna de São Paulo, prof. Felipe Chaimovich, chileno radicado no Brasil, colaborador de respeitadas revistas internacionais de arte, e que, além de doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo, também ensina no curso de Artes Plásticas da FAAP, da mesma universidade. Tudo gente sabida, ligada a influentes organizações internacionais amicíssimas da Igreja Católica.

O que o público vai encontrar nesta Bienal? Foram criados vários ambientes dentro do grande pavilhão do Museu de Arte Contemporânea do Ibirapuera. Um desses ambientes se denomina “Errar de Deus”. É composto de vários trabalhos, todos muito criativos e de uma beleza artística sem par em nossas matas. Num deles, o público poderá ver singelos e famintos corvos devorando o corpo crucificado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo menos outros três homenageiam a Mãe do mesmo Jesus: uma Virgem, com o Menino ao colo, recoberta inteiramente de baratas e escorpiões de plástico; Maria Santíssima toda enroscada por uma gorda serpente; e uma imagem de Nossa Senhora atada a um ralador de cozinha, como uma abobrinha prestes a ser triturada. A seu lado, uma Santa Ceia aguarda, dentro de uma frigideira, o momento sublime de ser fritada no óleo. No mesmo ambiente, os visitantes ainda são orientados a assinar um urgente abaixo-assinado, dirigido ao Papa Francisco, pedindo a abolição total do inferno, promovido por uma certa CIHABAPAI (Clube dos Ímpios, Hereges, Apóstatas, Blasfemos, Ateus, Pagãos, Agnósticos e Infiéis).

As homenagens não param por aí. Há, também, uma sala chamada “Deus é bicha”, com outras obras na mesma linha serenamente apologética. Novamente, a protagonista é a Mãe de Jesus. Chama logo a atenção uma Virgem Maria com barbas; e, adiante, um grupo de corpos andrógenos, em relações homossexuais diante de uma complacente Nossa Senhora de Guadalupe. Ainda nesse ambiente, é possível extasiar-se diante da obra “Casa particular”: trata-se da Santa Ceia, encenada em um prostíbulo da Rua São Camilo, em Santiago do Chile. Sentada ao centro da mesa, uma cândida prostituta representa o duplo papel de Jesus Cristo e do ditador chileno Augusto Pinochet, dizendo depois de oferecer o pão e o vinho:

— Este é meu corpo, este é meu sangue...

No ambiente “Linha do Tempo”, a obra chamada “Museu Travesti do Peru” exibe uma Virgem Maria com traços masculinos. E, para terminar, há uma exposição de cartões postais comemorativos da destruição de igrejas, imagens e conventos por comunistas, durante a guerra civil espanhola, entre 1936 e 1939.

Como a Igreja é contra o assassinato de bebês intrauterinos, não poderia faltar referência ao fato. No ambiente denominado “Espaço para Abortar”, vários cilindros cor-de-rosa se sucedem numa área circular, feitos de tela transparente, mais ou menos do tamanho de cabinas telefônicas. São representações de úteros vazios, já livres do feto indesejável, e onde é possível entrar para saber como é um útero depois do aborto... Deve ser uma experiência inesquecível.

Imagine você a inveja que a 31ª Bienal não terá provocado em Giotto, Michelangelo, Leonardo da Vinci, El Greco, Rembrandt, Goya, Cézanne, Renoir etc., se lá no Purgatório as almas ainda puderem sentir inveja!

Várias empresas e instituições educativas deram dinheiro, ideias ou colaboram com a divulgação dessa terna mostra de admiração à Igreja. Mencionem-se só as nacionais: Itaú, SESC, USP, Rede Globo, Instituto Votorantim, Eletropaulo, Sansumg, Oi, Eternit, Gerdau, Klabin. Não faltam o apoio de fundações culturais de vários países europeus e americanos, como a Bloomberg Philanthropies, famosa por apoiar causas nobres. Até a República Argentina de madame Kirchner colaborou com o caixa. O Brasil petista de outra madame também não poderia faltar nesta homenagem multinacional, e o faz em grande estilo, através do generoso BNDES e da límpida Petrobrás.

Nas calçadas do Brasil, cães produzem a todo instante obras-primas — geralmente em estilo barroco ou rococó —, que nada ficam a dever a essas que estão expostas na 31ª Bienal, embora sem nenhum reconhecimento da parte de nossos curadores de artes-plásticas. É uma injustiça com os cães. Quem sabe o prof. Chaimovich ainda organize uma Bienal toda dedicada a esculturas canino-fecais. (01/10/2014)

 

 

Jornalista Ruy Castro lamenta a sobrevivência do namoro casto

 

“Nós, os garotos de 68, derramamos nosso sangue, suor e sêmen em vão.” (Ruy Castro, Folha de São Paulo, 4/8/2014)

 

 

O inferno é aqui mesmo

 

Eu Te dou graças, Pai, Deus de bondade,

Pois a mim, filho ingrato, permitiste

Vivesse o inferno aqui no mundo triste

Para o querer jamais na eternidade.

Que ele começa aqui, já estou bem certo.

Parece um filme de Jean-Luc Godard:

A todo instante tem uísque perto

E uma gana sem fim de fornicar.

Do demo, nesse inferno, nenhum rastro.

Nada de cenográficas fogueiras:

Todos os dias são segundas-feiras

E as pessoas têm cara de Rui Castro. (15/09/2014)

 

 

Elogio da tradição

 

Você que tem quintal, e gosta de plantar, consegue imaginar uma árvore sem raiz? Mas nem é preciso ter quintal, nem gostar de plantar, para saber da importância das raízes. Sem elas, simplesmente não há plantas. Rosas suspensas no ar só brotam em filmes de efeito especial. Mesmo as orquídeas, que florescem sossegadamente em troncos emprestados, dependem desses condutores de seiva que ligam o mundo palpável ao invisível, a superfície tangível às profundezas inescrutáveis.

Assim é, também, a tradição nas culturas e nas civilizações: por mais oculta que esteja, é a raiz vivíssima de tudo o que floresce.

Se você é poeta e corta os vínculos com a tradição, só escreverá bobagens que não merecerão ser lidas. Se você é pai e corta os vínculos com a tradição, só ensinará monstruosidades a seus filhos. E cosí via... O poeta, que acha que pode fazer poemas sem a seiva das velhas raízes, só construirá bolhas de sabão, que duram dois segundos e depois explodem como um inocente peido de bebê. O pai, que acha que pode educar seus filhos sem o fundamento das velhas raízes, criará jovens tão vulneráveis que, ao menor sopro do mundo, desabarão como os muros sem colunas. (14/09/2014)

 

 

“Pecador minha mãe me concebeu”

 

Convém que o cristão, logo ao despertar, ligue o detector de pecados instalado em sua consciência. Ele já existe ali, mas é preciso acioná-lo. Muitas vezes, por falta de uso, emperra; ou emite sinais quase inaudíveis...

Se a pessoa estiver sempre atenta a essa implacável maquininha — que, dentro de seus limites humanos, tem bom censor e é eficiente —, verá como é difícil passar um minuto sem pecar. Pecadilhos, mas ainda assim pecados, com nítido cheiro de condição humana. Um jansenista diria que pecamos a cada segundo... “Pecador minha mãe me concebeu”, diz o salmo do Miserere. Os pecados de pensamento jorram abundantemente do coração e, ao fim do dia, sem perceber, estamos imersos num imenso lago subterrâneo de iniquidade.

Hoje entendo bem por que a Missa diária não é um luxo. Creio que a oração contínua, recomendada desde o início pela Igreja, deva conter, de preferência, súplicas de perdão. Imploremos, sem cessar, a misericórdia divina: “Piedade, Senhor!” Você já ouviu um sabiá da mata cantador? Certamente, sim. Dizem os caipiras que o sabiá, em seu canto melancólico, não repete outra coisa se não “Piedade, Senhor! Piedade, Senhor! Piedade, Senhor!” Não é isso mesmo?

Para a defesa contra os ataques do maligno, há excelentes orações de pouquíssimas palavras, como “Meu Deus!”, “Jesus Cristo!” “Nossa Senhora!”. Padre Livio Fanzaga é mais radical e, em sua última catequese para jovens, na Rádio Maria (transmitida hoje, 13 de setembro), recomenda uma prece de exatamente uma única palavra: “Maria”. Basta ouvir esse cândido e doce nome, disse o fundador da maior rádio católica da Itália, para todo o inferno tremer! Não há oração de exorcismo mais eficaz do que o doce nome de Maria.

Foi dessa doçura materna que o padre tirou a vinheta poética da rádio: “Estejamos sempre em sintonia/ Com nossa dulcíssima Rádio Maria.” (13/09/2014)

 

 

Letra para toada caipira

 

São Pedro, manda uma chuva,

Aqui está secando demais...

Faz chover em São Paulo,

São Pedro,

Faz, faz-faz-faz, faz-faz-faz!

 

Cumpram-se as ordens do Céu

E aos Céus digamos amém.

Mas isso está um fogaréu;

Fogo demais não faz bem...

 

São Pedro, manda uma chuva,

Aqui está secando demais...

Faz chover em São Paulo,

São Pedro,

Faz, faz-faz-faz, faz-faz-faz!

 

Aqui secou tanto, tanto,

Nada mais tem pra secar.

Por isso peço ao meu Santo:

— Manda uma chuva pra cá!

 

São Pedro, manda uma chuva,

Aqui está secando demais...

Faz chover em São Paulo,

São Pedro,

Faz, faz-faz-faz, faz-faz-faz! (11/09/2014)

 

 

Parceria homem & Deus

 

. “Para te amar como Tu me amas, Senhor, é preciso que me emprestes o teu próprio amor”, disse Santa Teresinha de Lisieux. Santo Agostinho tem uma frase que a completa: “Dá-me, Senhor, o que pedes e pede-me o que quiseres”. (10/09/2014)

 

 

Fatos e ideias

 

Por que acreditar em fatos, quando eles contrariam nossas teses?... Assim pensa, curiosamente, boa parte da “comunidade científica”. Quanto é prodigioso o esforço dos ateus em buscar explicações científicas para os prodígios fartamente guardados na memória das religiões! Quando a ciência não encontra resposta — como no caso dos milagres aferidos pelo Vaticano para beatificação e canonização dos santos —, satisfazem-se com a esperança de que, no futuro, virá uma explicação redentora. Não há exemplo mais patente de fé que a desses ateus; maior que a de muitos católicos. (09/09/2014)

 

 

Mentira de pescador

 

Ouviu o que andou dizendo por aí o salvador da pátria, sobre a década petista com valor de quinhentos anos? Não saiu, evidentemente, da cabeça dele, mas dos marqueteiros políticos que são, antes de tudo, grandes humoristas. Quem terá sido o gênio da publicidade que inventou o lema da promessa de campanha do Juscelino Kubitscheck, aquilo de em 5 anos fazer o que a República Velha e o Estado Novo não tinham feito em 50? O marqueteiro do PT foi um pouco mais genial: fez o principal líder do partido berrar, em recente discurso na Bahia, que fizeram pelo país o que os governadores-gerais, imperadores e presidentes não tinham feito em 500 anos... Hipérboles são excelentes cabos-eleitorais, mas não gastemos o nobre jargão da retórica com o Lula, cuja área de especialização é a mentira de pescador e o papo-furado de boteco. (07/09/2014)

 

 

A engenharia da ascese

 

Segundo Padre Livio Fanzaga, “é mais fácil construir uma Ferrari que um homem virtuoso”. (27/08/2014)

 

 

A literatura e os vícios capitais

 

Foi muito esclarecedor trabalhar com literatura e os vícios capitais. Quando escolhia os sete pecados capitais para assunto das aulas de literatura, notava sempre nos alunos um súbito brilho nos olhos. Não era difícil perceber que o tema lhes era muito grato. Inicialmente, achava que fosse por motivos virtuosos. “Esse pessoal anda querendo entrar na linha”, pensava eu.

Só no decorrer dos trabalhos de análise é que notava o meu engano. Eles estavam contentes, sim, em trabalhar com os sete pecados capitais, mas não pela aversão que lhes pudessem provocar. Pelo contrário, era nítido o fascínio pelos vícios em si, como se a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a inveja, a vaidade e a preguiça fossem virtudes que a maioria dos alunos devesse cultivar, e não verdadeiras doenças espirituais.

Já há vinte e cinco anos ensinando na universidade pública, posso afirmar com toda segurança: nossos cursos superiores são fabriquetas especializadas em formar idiotas sem fé religiosa. Pais cristãos, com filho prestes a ingressar em faculdade, sobretudo a pública, não imaginam como ele será em breve modificado por um sistema que tem por objetivo transformá-lo num pagãozinho sem remorsos (transformação, sabemos nós, que começou bem antes, já no “jardim da infância”, poético nome agora substituído por pré-escola).

Você já deve ter notado como os livros didáticos do ensino básico e médio estão cheios de coisas estranhas, que não supúnhamos pudessem ser ensinadas a crianças e adolescentes. Por exemplo: o aborto como direito da mulher, a rebeldia como virtude juvenil, o combate a toda espécie de autoridade, o incitamento ao ódio entre classes sociais, o estímulo à prática sexual precoce, a escola como ambiente de lazer mais que de estudo, diminuição das tarefas escolares, desnecessidade de ralar para passar de ano.

Já em casa, na própria família, a disciplina anda bastante afrouxada. As crianças são agora poupadas dos trabalhos domésticos de uma forma que minha saudosa mãe jamais entenderia — ela que, valentemente, me obrigava a lavar louças todos os dias, com a santa varinha de marmelo na mão, que não era de marmelo, mas de roseira sem espinhos. Nunca foram tão solicitadas para festinhas e outros encontros marcados, nem sempre na companhia escolada dos pais. Pobres pais de hoje, ameaçados ao norte pela televisão e ao sul pelo Estatuto do Menor! São insistentemente cobrados, pelos próprios filhos, a mantê-los num certo padrão que os conservem competitivos diante dos coleguinhas — e lhes atualizem a roupa, o tênis, o celular, o corte de cabelo etc.

Tanto a autoridade paterna quanto a escolar são, agora, frouxamente complacentes e protecionistas, atitude que a recente “lei da palmada” vem reforçar. Mas quem é que está por trás dessa transformação tão profunda nos hábitos infanto-juvenis? Não serão os pais nem os professores, que estão preocupados com suas bobagens pessoais.

Atualmente, as duas principais fontes geradoras de mudança comportamental são o livro didático e a grande mídia. Quem está por trás do livro didático é o governo, seja estadual ou federal, atualmente nas mãos da “esquerda” (incluindo o PSDB, obviamente, que conheço muito bem, “desde dentro”). Por trás da grande mídia estão os capitalistas, que tradicionalmente chamamos de “direita”. Ambos, porém, esquerdistas e direitistas, querem que nossos filhos e netos se pós-graduem nos sete vícios capitais e nos outros não menos fatídicos.

Percebe como isso é estranho? Sempre ouvimos dizer que os comunistas eram grandes inimigos dos capitalistas... Não é bem assim. Se um pai mais atento comparar um livro didático do PT (ou PSDB) a uma telenovela da Rede Globo, vai verificar como há uma grande afinidade de pensamento entre esses falsos inimigos. Tanto o empresário mais egoísta, quanto o presidente do sindicato que a ele se opõe, defendem no fundo o mesmo programa: aborto, casamento gay, divórcio, complacência educacional.

Voltemos, agora, à universidade, pela qual meus netos — temo e tremo só de pensar! — em breve serão sequestrados. Ali vão permanecer por quatro, cinco, seis anos, não somente engolindo os conteúdos ligados à área profissional escolhida, mas também, e sobretudo, aprimorando aqueles hábitos estranhos que começaram a aprender com a mídia e a escola. No fim do curso, serão professores, médicos, engenheiros, advogados ou cientistas no ponto para botar em prática as coisas mais lindas do mundo: comer sem regras, gastar sem medidas, fazer sexo por lazer, brigar por qualquer tolice, olho gordo no sucesso alheio, apego fetichista aos bens materiais, supervalorização do ócio. E, obviamente, defendendo o aborto, a eutanásia, o casamento gay, o divórcio, a complacência na educação dos futuros filhos...

Só há um remédio para defender os jovens dessa calamidade: Nosso Senhor Jesus Cristo, igualmente cuspido pelo mau capitalista e o militante de esquerda. (26/08/2014)

 

 

Oração do Anjo de Fátima

 

Preciosa oração que o Anjo de Fátima ensinou aos videntes, antes de começarem as aparições de Nossa Senhora: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam." (20/08/2014)

 

 

Deus dá ou empresta?

 

Tudo o que temos é empréstimo generoso de Deus. E agradeçamos a cada segundo — com a alma permanentemente de joelhos —, por tudo o que Ele nos cede temporariamente. Só uma coisa Deus não pode emprestar, por sua natureza intrínseca e absolutamente amorosa: a vida de cada um de nós. Esta é, e será para sempre, doação definitiva, intransferível, inalienável. (20/08/2014)

 

 

As lágrimas de sangue da Virgem Maria

 

Infelizmente, não me lembro quando uma pequena imagem de gesso da Virgem Maria começou a chorar lágrimas de sangue em Civitavecchia, subúrbio de Roma,. Na época, eu só pensava em coisas efêmeras.

Mas nunca é tarde para saber. Aconteceu em 2 de fevereiro de 1995, enquanto a Igreja comemorava a apresentação do menino Jesus no Templo: uma pequena imagem branca de gesso da Rainha da Paz, de quarenta e três centímetros, começou a chorar lágrimas de sangue em Civitavecchia, pequena cidade no subúrbio de Roma.

A imagem da Rainha da Paz, de quarenta e três centímetros, trouxe-a de Medjugorje o padre Pablo Martin, que então era pároco de um vilarejo próximo a Civitavecchia, e que tinha voltado de uma peregrinação à famosa cidade da Bósnia Herzegovina. Deu a imagem de presente ao amigo Fabio Gregori, eletricista de trinta e dois anos, católico, casado, homem de bem; e foi na própria casa do eletricista que se iniciou o estranho acontecimento — a pequena Maria de gesso vertendo lágrimas de sangue —, logo presenciado por toda a vizinhança. Nos dias seguintes, até 6 de fevereiro, foram 13 lacrimações, todas com provas testemunhais.

Foi um escândalo. Em pouco tempo, o bispo Girolamo Grillo foi alertado e, cético, decidiu apreender a imagem para melhor administrar e apurar o fato. Enquanto investigava, deixou-a no pequeno altar de sua capela privada. Um mês e pouco depois, no dia 15 de março de 1995, enquanto o bispo rezava em companhia de sua irmã, Grazia Maria, esta percebeu um estranho e inesperado líquido vermelho escorrendo dos olhos da Madonna. Era a 14ª lacrimação de Maria — o mesmo número das estações da Via Crucis... A irmã do bispo gritou de susto; e todos que estavam no palácio diocesano correram à capela.

O bispo tomou a imagem e a prendeu entre as mãos, enquanto rezava silenciosamente a Salve Rainha, insistindo sobretudo no primeiro verso: “Salve, Rainha, Mãe de misericórdia”. O próprio Dom Grillo contou tudo em recente livro, La vera storia di un doloroso drama d'amore: la Madonnina di Civitavecchia (Camerata Picena, Shalom, 2011). O que mais era necessário para reconhecer a sobrenaturalidade do fato? A partir de então, não só católicos “comuns”, teologicamente analfabetos, tinham presenciado o escandaloso pranto de sangue, mas também um bispo melindroso, de extrema e necessária cautela, adestrado por ofício contra os ímpetos milagreiros da gente simples.

Quando o fato de Civitavecchia ganhou a mídia, a justiça apreendeu a imagem para investigações. Nenhuma fraude, no entanto, foi constatada. Era uma imagem como tantas outras, representando singelamente a Rainha da Paz. A Criminalpol, polícia federal italiana, colheu parte do material sanguíneo que sobrou da última lacrimação, submeteu-o a análise laboratorial e atestou: não havia nenhum mecanismo fraudulento oculto em suas gélidas entranhas de gesso. Era sangue humano. E, para os que cremos, diretamente originário do coração de Maria, transpassado por aquela espada predita pelo velho Simeão, no dia da apresentação no Templo.

O grande escritor inglês Chesterton, convertido do protestantismo à Igreja Católica, dizia que em milagres acredita aquele que tem provas a seu favor (no caso de Civitavecchia, as lágrimas de sangue vistas por muitas pessoas dignas de crédito); e não acredita em milagres aquele que tem uma teoria contrária a eles...

— Não me venham com fatos — diriam esses últimos. — Deixem-me em paz com minhas ideias!

O mais impressionante, vale repetir, é que essa imagem de Nossa Senhora foi trazida de Medjugorje, vilarejo da Bósnia na qual seis jovens — hoje cinquentões — diziam e ainda dizem receber aparições de Nossa Senhora desde 1981. Naquele fevereiro de 1995, Medjugorje padecia os efeitos terríveis da guerra dos Bálcãs, mas foi preservada intacta do tiroteio sangrento ao redor, sem que houvesse uma única vítima humana na pequena cidade. Há quem procure ver nos acontecimentos de Civitavecchia, entre outras coisas, um atestado do Céu em favor das aparições marianas na ex-Iugoslávia.

Hoje, Dom Girolamo Grillo é bispo emérito e tem uma locução mensal na Rádio Maria, a principal rádio católica da Italia, fundada sob o carisma de Medjugorje. Alerta mensamelmente seus ouvintes para os perigos da nossa época e os remédios sobrenaturais propostos pela mãe de Jesus em suas aparições: obediência às leis de Deus (que Jesus admiravelmente resumiu em duas: amor a Deus e ao próximo), muita oração (sobretudo em família), confissão e Eucaristia frequentes, jejum a pão e água dois dias por semana (de preferência quarta e sexta, segundo antiquíssima tradição da Igreja).

E um pedido especial de Nossa Senhora: rezar por nossos padres e bispos, que necessitam como nunca de nossas orações, pois Deus lhes concedeu um dom especialíssimo, vital para a nossa saúde espiritual: só eles podem pedir, na Santa Missa, a santificação do pão e do vinho, que se transformam milagrosamente em Cristo. (16/08/2014)

 

 

Medjugorje e o demônio

 

Há uma tese, descartada por um dos principais demonólogos da nossa época, padre Gabrielle Amorth, segundo a qual as aparições de Medjugorje seriam uma molecagem do Inimigo.

É possível que o demônio trabalhe contra si mesmo durante tanto tempo? Ele pode ser tudo, menos idiota. O próprio Jesus, quando acusado pelos fariseus de fazer milagres por influência do diabo, respondeu: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino?” (Mateus, 12, 24-26)

Vamos admitir que as aparições de Medjugorje tenham causa demoníaca. Ora, os frutos colhidos na cidadezinha da Bósnia são indubitavelmente divinos: as mensagens são estritamente evangélicas, milhares de pessoas foram convertidas, centenas de milagres estão registrados nos arquivos da paróquia, os seis videntes levam vida cristã exemplar.

Enquanto o Inimigo estiver fazendo e ensinando coisas tão boas, não custa ouvi-lo. Por enquanto, o diabo de Medjugorje está se revelando uma criatura extremamente virtuosa. (12/08/2014)

 

 

Padre Paulo Ricardo

 

Para ser feliz num mundo tão destroçado espiritualmente, só vejo uma saída: converter-se à Igreja Católica. E um bom caminho para Roma, a partir do melancólico País do Carnaval, são os cursos do padre Paulo Ricardo na internet.

Já os filósofos gregos antigos, que não conheceram Cristo, sabiam que felicidade era algo que transcendia a matéria e o corpo. Heráclito de Éfeso já dizia, naquele aforismo famoso: “Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, felizes seriam os bois quando tem capim para mastigar”. A principal finalidade do homem, para Aristóteles, é a busca da felicidade, mas o homem feliz é aquele que atingiu o bem supremo, obrigatoriamente relacionado às coisas da alma e do entendimento, que não são atingíveis plenamente neste mundo. Para os estoicos, feliz era o homem sábio, que conseguia domar os impulsos e as paixões.

No contexto cristão, que felicidade é essa que não consiste nos prazeres do corpo, mas na plena realização do espírito? Primeiro, é preciso dizer que também aqui felicidade não é sinônimo de prazer (os grandes santos, com todas as suas dores, eram pessoas felizes). Na verdade, essa receita de felicidade foi descoberta há pelo menos dois mil anos — se deixarmos de lado a Velha Aliança judaica — e se chama cristianismo. “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim”, disse Jesus (São Mateus, X, 38). Não creio desfigurar esta verdade, se disser que no fundo Ele queria exprimir o seguinte: “Só é verdadeiramente feliz quem toma a sua cruz e me segue”.

Com o propósito de colaborar nesta árdua tarefa, a busca da verdadeira felicidade, o padre Paulo Ricardo criou um site, certamente o principal site católico brasileiro da atualidade, o Christo nihil praeponere (A nada dar mais valor do que a Cristo, em padrepauloricardo.org), com cursos de introdução à Igreja e à teologia católica: Introdução ao método teológico, Introdução ao direito canônico, Teologia do corpo, Teologia mística e os dons carismáticos, Demonologia, Catecismo da Igreja Católica, História da Igreja Antiga, Revolução e marxismo cultural, Terapia das doenças espirituais, Escatologia: o fim dos tempos, A Trindade, Filosofia da linguagem, Revelação e fé, Teodiceia: uma resposta ao mal.

Os cursos, em seu conjunto — “work in progress” que não cessa de crescer —, estão disponíveis pelo irrisório valor de trinta reais. Não há nada parecido, na internet brasileira. Cada curso se compõe de várias aulas, em áudio ou vídeo, em que a erudição do professor se completa catolicamente com a clareza expositiva. Ninguém mais distante da arenga “pós-moderna”, com sua falsa impressão de profundidade, do que padre Paulo Ricardo.

E é com essa disposição, de pensar enquanto ensina e ensinar enquanto pensa, que resolveu em boa hora “reescrever” um desses cursos, Terapia das doenças espirituais (sobre os pecados capitais), baseado inicialmente no pensamento da Patrística, e agora enriquecido, sobretudo, com as contribuições de Santo Tomás de Aquino. Imperdível, como diria o Paulo Francis.

Há um vídeo, no youtube, em que após a Santa Missa um sacerdote paramentado joga vôlei com os fiéis e distribui velocípedes às crianças, num verdadeiro show pós-conciliar. O bem, para esse padre, consiste em dar uma bola ou um velocípede a uma criança pobre. Tudo indica que também seja adepto da bolsa-família... Enfim, é a redução das virtudes morais a imperativos sociológicos.

Mas padre Paulo Ricardo, em consonância com o Magistério da Igreja, vai muito além e insiste que é preciso cuidar de todas as virtudes: para combater a avareza, o desprendimento; contra a gula e a luxúria, a continência; a temperança no lugar da ira; a humildade em vez da vanglória; conter a inveja com a generosidade e a preguiça com a fortaleza. Ninguém espere, portanto, em seu site, bolas coloridas ou velocípedes como brindes, por mais interessantes que sejam como brinquedos e até como objetos da prática filantrópica.

Sua briga é mais embaixo e, sobretudo, mais acima. Padre Paulo crê no inferno e no paraíso. Mais do que preparar tranquilos cidadãos para a cidade dos homens, quer formar combatentes para o exército da Luz na terrível batalha contra o bando da Trevas, num verdadeiro adestramento da alma e da carne, corrompidos pelo pecado original, visando o futuro encontro do corpo glorioso e ressuscitado com a alma bem-aventurada que já estará no Céu. Trata-se, portanto, de um curso que você faz hoje, com míseros trinta reais, mas nunca perde a validade: durará pelos séculos dos séculos. (11/08/2014)

 

 

Sempre a Graça divina

 

Por que a verdade cristã, sendo a Verdade, é tão impotente nesta sociedade secularizada? É mais um paradoxo cristão: apesar de estar convencido de que sua religião é a única verdadeira, o católico reprime a sensação de superioridade em relação aos nãos-católicos, pois sabe que tudo isso — poder acreditar no único Salvador, através do seu principal meio, a Igreja — não é mérito seu, mas misericordiosa concessão da Graça divina. Sem a consciência do papel exercido por esta, nenhuma sensação de frustração será maior do que a nossa, ao percebermos que, mesmo de posse da Verdade, não conseguimos demover os incrédulos com nossos argumentos demasiado humanos, por mais brilhantes que sejam. O conceito, sem a prece, é um veículo com tanque quase vazio: andará poucos quilômetros. (09/08/2014)

 

 

O inimigo está vivo

 

A ideia do controle da sociedade pela cultura, que Gramsci viu como condição para a vitória do socialismo, não ruiu com a Perestroica e o muro de Berlim. Continuou a ser a principal fonte de inspiração para os intelectuais do Ocidente, onde quer que atuassem: na mídia, na ciência, nas artes, na universidade, e até nalgumas religiões. O projeto socialista permanece ativo. Portanto, reconhecer a “ditadura do relativismo” como único adversário atual dos conservadores é fechar os olhos a outro front inimigo, que atua quase sempre em união com aquele, mas que, a longo prazo, possui objetivos diferentes. (05/08/2014)

 

 

A tentação niilista da poesia moderna

 

Os simbolistas quiseram inventar o poema puro, atingir uma espécie de estado de anorexia lírica. Têm muitos seguidores ainda hoje, sobretudo no Brasil. O que está por trás dessa assepsia, dessa estranha busca do nirvana poético?

Ainda que nem todo poeta “puro” tenha sido carente de inspiração, costuma ser uma excelente máscara para a mediocridade. Nikos Kazantzakis, um dos homens que mais procurou Deus no século XX, assim escreveu no romance Zorba, o grego sobre a obra poética de Mallarmé: é uma poesia “...exangue, desprovida de cheiro, sabor e substância humana. Palavras vazias, de tonalidade azul descolorida, suspensas no ar. Água destilada, perfeitamente pura, sem micróbios, porém carente de substâncias nutritivas. Sem vida.” “Um jogo intelectual impecável, uma sábia e complicada arquitetura aérea.”

“Poesia pura? A vida transformada em jogo lúcido, transparente, sem o peso sequer de uma gota de sangue. O elemento humano é, por si mesmo, grávido de desejo, de turvações, de impurezas — amor, carne, grito. Que se sublime, pois, em ideia abstrata, e no forno do espírito, transitando de alquimia em alquimia, imaterialize-se e depure-se!” São “puras acrobacias charlatanescas.”

“È sempre assim: no declínio das civilizações, a angústia do homem vai se reduzindo a jogos hábeis de prestidigitadores — poesia pura, música pura, pensamento puro. O último dos homens vivos na terra, livre de toda crença e toda ilusão, que já nada espera e nada teme, percebe como se reduz a espírito a argila de que está feito, e como o espírito não encontra nada em que deitar raízes para sorver e alimentar-se. O último dos homens vivos da terra se esvaziou: já não há nele semente, nem excremento, nem sangue. Todas as coisas se converteram em palavras, todas as palavras em transposições musicais jogralescas. O último dos homens chega ainda mais longe: senta-se na ponta de sua solidão e decompõe a música em mudas equações matemáticas.”

“Buda é o último dos homens. É nisso que está o seu sentido secreto e terrível. Buda é a alma pura que se esvaziou; nele não há nada, ele é o Nada. ‘Esvaziai vossas entranhas, esvaziai vosso coração, esvaziai vosso espírito!’ exclama ele. Onde pisam seus pés já não brotam fontes, não crescem plantas, não nascem crianças.” (02/08/2014)

 

 

Fé e humildade

 

Como as pessoas têm dificuldade de acreditar sinceramente em Deus, em nossa época! Um pensador ateu e sincero, como Cioran, dizia ser uma questão de orgulho. Crer em Deus significava, para ele, humilhar-se. E admitia haver, nesse fato, um aspecto demoníaco muito grave.

Parece que a soberba, das doenças espirituais, é a mais complicada. São João Clímaco contou que um noviço, a quem o superior havia repreendido por soberba, respondeu:

— Perdão, meu pai, mas não sou soberbo.

O superior replicou:

— Nada prova melhor que és, do que o fato de o ignorares.

Exemplo contrário ao do romeno Cioran, de pessoa que foi lentamente despojando-se da soberba, é o do alemão Ernst Jünger, um dos grandes escritores do século XX. Buscou a si mesmo a vida toda — na guerra, na literatura, na ciência, na droga... Buscava também a Deus, e só encontrou-se ao encontrar o Pai Criador aos 102 anos de idade, alguns meses antes de morrer: foi na igreja de São Nepomuk, pelas mãos de padre Roland Niebel, pároco da pequena cidade de Wilflingen, de seis mil habitantes, onde vivia o romancista.

O curioso é que, perto dessa aldeia, fica a Universidade de Tubingen, importante centro teológico do luteranismo, mas o protestante Jünger, que perdeu a fé aos treze anos, nunca poupou críticas à Igreja Luterana, secularizada e manchada por adesões imperdoáveis ao nazismo e ao comunismo. Não quería saber de pastores. Preferia a amizade, nos últimos anos, dos padres católicos. Conversava frequentemente com monsenhor Kubovec, padre tcheco refugiado do comunismo e morador numa uma cidade vizinha, que teve papel decisivo em sua conversão.

Ali, em Wilflingen, professou o Ato de Fé católico, rezando em público o Credo e recebendo o Corpo de Cristo pela primeira vez. Esse fato, o mais importante que pode ocorrer na vida de um homem, obriga-nos, agora, a ler toda a sua obra pelo ângulo da conversão, iluminada por essa luz que se acendeu milagrosamente no último minuto da prorrogação do jogo. (01/08/2014)

 

 

A linguagem das flores

 

No terceiro dia,

Depois que o Criador separou as águas

E as juntou em suas próprias moradas

(Rios, poços, lagos, oceanos),

Fez que da terra brotassem plantas

E das plantas nascessem flores;

E as flores fossem tão belas

Como a inteligência de Deus.

Mas, coroando a obra multicolorida das flores,

Deus não desejou que, embora silenciosas, fossem intransitivas

E fez que exalassem uns odores sutis e agradáveis.

Nasceu então, no terceiro dia, o cheiro das flores.

O perfume é a linguagem silenciosa das flores. (15/07/2014)

 

 

Um pensamento não-católico na Igreja

 

Papa Paulo VI, em 1977, a Jean Guitton: "Hoje, há uma grande inquietação, tanto no mundo como na Igreja, e o que está em questão é a fé... O que me impressiona, quando considero o mundo católico, é que dentro do catolicismo parece predominar, por vezes, um pensamento não-católico, e pode acontecer que este pensamento não-católico, dentro do próprio catolicismo, torne-se mais forte amanhã. Mas ele não representará nunca o pensamento da Igreja. É necessário que subsista um pequeno rebanho, por menor que seja." (11/07/2014)

 

 

Teologia pós-moderna...

 

O pensamento “pós-moderno” já contaminou a teologia católica. Universidades pontifícias e centros de pesquisa já se expressam no doce dialeto da “french theory”, filha do estruturalismo e do heideggerianismo, que  tornaram pedantes como nunca a expressão conceitual. E quando as duas coisas se fundem, como no “pós-modernismo”, a algaravia atinge a plenitude. Mandamento número um: nublar as palavras e as frases, para a expressão se tornar mais sibilina e enigmática, com cara de filósofo maluco.  Com cara de Nietzsche... É a nova retórica da velha e falsa profundidade.

Eis o estilo, por exemplo, do teólogo progressista “pós-moderno” Carmelo Dotolo, que se autoentitula católico. É professor da Universidade Pontifícia Gregoriana e movimenta-se livremente entre obras de Derrida, Deleuze, Althusser, Vatimo, etc.

Mas, do que é possível pescar nessas águas turvas, percebe-se que nosso teólogo anda muito preocupado em saber como será o cristianismo futuro, um cristianismo que precisa ser apetecível a pessoas seduzidas por outras coisas. Segundo ele, a fase “pós-moderna” da História, revertendo o processo de secularização da “modernidade”, devolveu às pessoas o sentimento religioso, ainda que distorcido e contaminado, depois das erosões que a “modernidade” tinha provocado na fé cristã; e, no atual feirão globalista, tem oferecido às pessoas uma grande variedade de “ofertas religiosas”.

Para melhor lidar com esse filho pródigo — a inesperada volta do sentimento religioso —, não convém, na opinião de prof. Dotolo, classificar as pessoas em crentes e não-crentes, pois até estes creem em alguma coisas: na paz, na justiça etc.; e, portanto, conforme suas palavras, são “diversamente crentes”. A postura do teólogo é, aparentemente, pluralista, e deseja atingir aquele ponto comum em que as ideologias mais diversas poderiam encontrar-se e conversar, sobretudo a partir de questões ainda abertas a todos, não concluídas.

Nada fala das questões já fechadas e concluídas do cristianismo, que seriam um critério seguro para orientar o navegante nas névoas da incerteza “pós-moderna”, cuja época, em seu modo de ver, se caracterizaria pela globalização, uma nova na relação com o mundo e a experiência da multiplicidade.

“O caminho do justo é plano e reto”, já dizia o profeta Isaías. Para o nosso teólogo “pós-moderno”, não há caminho, mas caminhos, de preferência inesperados e tortuosos. O “caminho, verdade e vida”, que o Cristo anunciou nos Evangelhos, agora se abrem numa pluralidade multicultural. Aceita o popperiano conceito de “sociedade aberta”, na qual a verdade não existe, mas é obra de um futuro sempre adiado, que fornecerá os critérios móveis de (des)orientação moral. Para esse projeto de um mundo diferente, saído de caminhos sempre incertos, os cristãos podem colaborar de modo precioso com a sua perspectiva.

Como a Igreja, porém, está reagindo diante da nova circunstância? Mais que o magistério bimilenar, interessa-lhe ouvir o “magistério da realidade”, de mãos dadas com esses irmãos “diversamente crentes”.

Impõe-se, portanto, uma reinterpretação da tradição à luz das demandas atuais, uma releitura de toda a teologia a partir do que chama de “novidade conciliar”, em claro descompasso com a “hermenêutica da continuidade” de Bento XVI.

Não é à toa que veja, na piedade popular mariana, uma fé "ingênua" e incompreensível no quadro sócio-cultural de hoje. É preciso controlar tal devocionismo, para que não crie dificuldades à verdadeira educação na fé, especialmente “quando o valor arquetípico de Maria não produz transculturação adequada às demandas da contemporaneidade.” Essa reeducação da clientela mariana implicaria manter o culto de Maria (jamais diz Nossa Senhora) nos estritos quadros do Novo Testamento, sobretudo Maria como solícita visitadora de Isabel e Maria solidária com Jesus condenado, aspecto comunitário e político que não deveriam faltar na veneração mariana, que ele gostaria jamais se afastasse dos limites da liturgia (da qual destaca em especial a sua função educativa, pois o culto é antes de mais nada lugar de encontro e convivência).

Não estranha, portanto, que os teóricos movidos pelas “demandas atuais” — os “pós-modernos” — acabem ocupando um posto central em sua teologia, centrada numa fé cristã renovada, “pós-tradicional”. O magistério do teólogo Dotolo não vem da realidade (pressuposto do velho realismo filosófico), nem da Igreja, apesar de trabalhar com documentos na medida suficiente para não levantar suspeitas de heterodoxia. O seu Cristo, devidamente desconstruído, agora é “pós-moderno” e aliado com o próprio demônio. (10/07/2014)

 

 

Para um método de análise literária

 

Se você for escrever sobre um romance ou um poema, peça a intercessão daqueles velhos “santos” do panteão impressionista, um Agripino Grieco, um Charles Du Bos, um Azorin, que o trabalho sai. Se, por acaso, perceber que anda procurando coisas estranhas nos textos, como actantes, modalizadores, nível intra ou extradiegético, na certa baixou em você o espírito de um Greimas, um Barthes, uma Kristeva, etc. Vai depressa atrás de um exorcista do porte do padre Gabrielle Amorth, que a coisa é séria. Vade retro! (03/07/2014)

 

 

A falta que faz o romance católico

 

 Como o romance católico faz falta! As grandes antinomias do catolicismo literário — fé e dúvida, crime e castigo, justiça e misericórdia, inocência e pecado, carne e espírito, prazer e sacrifício, obediência e rebeldia, ódio e piedade, bem e mal, vício e virtude, caridade e egoísmo, esperança e desespero, perdição e santidade —, também aparecem, de um modo ou de outro, em escritores ateus ou agnósticos, mas, em sua secularização racionalista, tendem a perder a força dramática ou trágica. Sobretudo nos ateus. (01/07/2014)

 

 

Pecado e criação literária

 

A perda da Graça talvez seja o principal estopim da criação ficcional. Literatura sem pecado é um bife sem sal. Quando escolhia os sete pecados capitais como tema das minhas aulas de literatura, notava sempre nos alunos um súbito brilho nos olhos. Não era difícil perceber que o assunto lhes era muito grato. Inicialmente, achava que fosse por motivos virtuosos. “Esse pessoal anda querendo entrar na linha”, pensava eu.

Só no decorrer dos trabalhos de análise é que notava o meu engano. Eles estavam contentes, sim, em trabalhar com os sete pecados capitais, mas não pela aversão que lhes pudessem provocar. Pelo contrário, era nítido o fascínio pelos vícios em si, como se a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a inveja, a vaidade e a preguiça fossem virtudes que a maioria dos alunos devesse cultivar, e não verdadeiras doenças espirituais. O Dragão é o animal mais presente nos campi. (30/06/2014)

 

 

Educação anticristã

 

Nossos cursos superiores são fabriquetas especializadas em formar anticristãos. E fábricas em plena expansão! Quem tem um filho prestes a ingressar em uma faculdade, sobretudo a pública, mas também a particular, deve saber que será em breve manipulado por um sistema que tem por objetivo transformá-lo num pagãozinho sem remorsos.

Todos já devem ter notado como os livros didáticos do ensino básico e médio estão cheios de coisas estranhas, que não imaginavam pudessem ser ensinadas a crianças e adolescentes. Por exemplo: o aborto como direito da mulher, a rebeldia como virtude juvenil, o combate a toda espécie de autoridade, o incitamento ao ódio entre classes sociais, o estímulo à prática sexual precoce, a escola como ambiente de lazer mais que de estudo, diminuição das tarefas escolares, desnecessidade de ralar para passar de ano.

Já em casa, na própria família, a disciplina anda bastante afrouxada. As crianças quase não se envolvem mais nos trabalhos domésticos; nunca foram tão solicitadas para festinhas e outros encontros sociais, nem sempre em companhia dos pais. Esses, por sua vez, são insistentemente cobrados, pelos próprios filhos, para mantê-los num certo padrão que os conservem competitivos, diante dos coleguinhas: na roupa, no tênis, no corte de cabelo, no modelo de celular, etc.

Tanto a autoridade paterna quanto a escolar são, agora, extremamente complacentes e protecionistas, atitude que a recente “lei da palmada” vem reforçar. Mas quem é que está por trás dessa transformação tão profunda nos hábitos infanto-juvenis? Não serão os pais nem os professores, que só estão preocupados com os problemas miúdos do dia-a-dia.

Atualmente, as duas fontes mais visíveis de mudança comportamental são o livro didático e a grande mídia. Quem está por trás do livro didático é o governo, seja estadual ou federal, atualmente nas mãos da “esquerda” (o PSDB não parece ser de esquerda, mas é). Por trás da grande mídia estão os capitalistas, que tradicionalmente chamamos de “direita”. Por trás, porém, de esquerdistas e direitistas, há um poder invisível a olho nu, internacional, que quer que nossos filhos se especializem nos vícios capitais. Quem comprar o livro O mínimo quer você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho, ganha como brinde um binóculo que permite enxergar esse poder longínquo.

Percebe como isso é estranho? Sempre ouvimos dizer que os esquerdistas eram grandes inimigos dos direitistas... Não é bem assim. Vou dar só um exemplo: a questão da família. Quem abrir um livro didático do PT (ou PSDB) ou ligar numa novela da Globo, vai verificar como há uma grande afinidade de pensamento entre esses falsos inimigos. Tanto o empresário mais egoísta, quanto o presidente do sindicato que a ele se opõe, defendem a mesma lista de compromissos: aborto, casamento gay, divórcio, complacência educacional.

Mas voltemos à universidade, onde nossos filhos ou netos entrarão em breve. Ali permanecerão por quatro, cinco, seis anos, não somente estudando os conteúdos ligados à área profissional escolhida, mas também, e sobretudo, aprimorando aqueles hábitos estranhos que começaram a aprender com a mídia e a escola. No fim do curso, serão professores, médicos, engenheiros, advogados ou cientistas no ponto para botar em prática os sete pecados capitais: comer sem regras, gastar sem medidas, fazer sexo como lazer, brigar por qualquer motivo, olho gordo no sucesso alheio, apego aos bens materiais, supervalorização do ócio. E, obviamente, defendendo o aborto, a eutanásia, o casamento gay, o divórcio, a complacência na educação dos futuros filhos. E così via...

Só há um remédio para os defender desse cancro espiritual: Jesus Cristo, desprezado pelo capitalista e pelo militante de esquerda, igualmente idólatras das coisas deste mundo. (24/06/2014)

 

 

De velórios e moribundos

 

Um amigo, recentemente falecido, gostava de velórios. Era um agnóstico fascinado pela morte; gostava de interrogar longamente a face muda dos defuntos, como que saboreando aquela pergunta sem resposta. Dizia-me:

— Um dia, meu caro, serei eu naquela posição. Enquanto vocês me olharem no caixão, já estarei de posse da verdade definitiva. Ou, o que é mais provável, mergulhado no sono eterno...

Sem confiar no que ensinava a Igreja, o amigo só aceitava o que pessoalmente pudesse experimentar, ilusão que com ele compartilhei por um bom tempo. Um dia, graças a Deus, para supremo espanto do amigo, acordei dessa ilusão agnóstica.

Acordei; e vi, tardia, vergonhosamente, que a maior parte do que sabemos provém do que os outros dizem, portanto, da confiança na palavra alheia. Ele continuou um profissional da dúvida, movendo-se naquela faixa de certeza muito restrita. Se a verdade é o oxigênio da alma, meu amigo agnóstico vivia sempre com falta de ar; eu posso dar testemunho de sua permanente asfixia espiritual.

Sei de outras pessoas que frequentam velórios. São os nossos folclóricos papa-defuntos. Prefiro os frequentadores de moribundos. Também conheço um deles, uma pessoa muito especial. Não é nenhum profissional da doença e da saúde: médico, enfermeiro, farmacêutico. Também não se trata de padre que, hoje bem menos que ontem, leve o sacramento da unção a quem esteja com o pé na cova.

Chama-se Raul. É o honesto contabilista que faz o meu imposto de renda. Cristão até a medula dos ossos, aceita todos os artigos do Credo, sobretudo a vida eterna. E é por isso, por crer na Vida após esta vida, que considera o momento da morte o mais sagrado e crucial de todos:

— Gosto de olhar nos olhos de quem está prestes a fazer a grande viagem e se encontrar com o Senhor. Pra mim, não há momento mais importante neste mundo do que aquele que antecede esse encontro. Isso me dá uma estranha alegria, que não consigo explicar. Fico triste também, nessas horas, mas não pelo que está partindo. Triste pelos parentes, triste por mim, que ainda vamos demorar mais um pouco por aqui.

Quando sabe de um moribundo, vai correndo cumprir esse preceito evangélico, pedir a bênção do viajante que já se encontra na plataforma de embarque e, sobretudo, invejá-lo profundamente. (19/06/2014)

 

 

A soberba dos intelectuais

 

O que distingue a chamada modernidade — esse grande Hoje que já dura quinhentos anos, desde o início do Renascimento — é o crescente descontentamento do homem em relação ao mundo real. Depois do grande milênio medieval, fundamentalmente cristão, o homem de ideias retomou o velho projeto adâmico de ser deus como Deus. Movido pela soberba, auxiliado pelo progresso material e científico, o monstro egocêntrico e egolátrico da modernidade decidiu moldar o mundo segundo os próprios caprichos, ousando duvidar da única realidade indubitável: o Deus que, revelado em Cristo, deixou como único caminho de salvação a sua Igreja, fundada há dois mil anos, pessoalmente, pelo próprio Criador do universo.

A maior promessa do cristianismo, ou seja, a ressurreição do ser humano completo, em corpo e alma, foi caindo em descrédito diante dos bem pensantes — os intelectuais —, que preferiam acreditar no desaparecimento do corpo e da alma, após a morte. O que é, no mínimo, de extremo mau gosto... Foi essa minoria de intelectuais que, a partir do século XVIII, espalhados pela imprensa e a universidade, buscaram condicionar a imensa maioria da população a pensar como eles.

Presos à militância ideológica, os professores e os jornalistas eram operários das ideias, profissionais das ideias, ideias que deviam transformar o mundo — mais que isso, destruí-lo. Já o poeta alemão Heine, em meados do século XIX, no começo da febre mudancista, profetizava coisas horríveis sobre esses professores que, tranquilos em seus paraísos acadêmicos, poderiam destruir toda uma civilização com as suas aparentemente inofensivas ideias. Exemplificava com Rousseau, cujas ideias, espremidas pelas mãos militantes de Robespierre, fizeram correr largos rios de sangue na Revolução Francesa. O mesmo fez Marx e Lênin em relação ao comunismo, Nietzsche em relação ao fascismo, ou Freud em relação à revolução sexual do século XX. “Ideias têm consequências”, afirmava o ensaísta americano Richard Weaver em obra que levava este mesmo título.

O pecado apoderou-se dos sete cômodos principais do nosso coração: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, vaidade, preguiça. O mundo moderno não sabe o que fazer com essa coisa pré-histórica chamada família, e nos convida permanentemente a destruí-la. Demônios educados nas melhores universidades, habilmente disfarçados de financistas internacionais, desembolsam grossas quantias e as espalham por milhares de ONGS ao redor do mundo: desejam que homens se acasalem com homens, mulheres com mulheres, crianças com crianças, gente com bicho, enfim, todas as combinações possíveis da humana libido.

Quem é que prepara o terreno para todas essas mudanças? Os intelectuais, na imprensa e na universidade. Para isso, giram os Dez Mandamentos do avesso e, não contentes, de ponta-cabeça. Intelectuais infiltrados na própria Igreja cuidam de pasteurizar o Cristo, separando-o assepticamente da Cruz redentora: querem um Jesus bonzinho sem Cruz e uma cruz decorativa sem Sangue. Seu Corpo inerme e chagado, que para o mundo novo é de extremo mau gosto, vai lentamente sendo expulso das repartições públicas e das casas comerciais, quando não dos próprios templos. (03/06/2014)

 

 

Ovelhas negras da academia

 

Nem tudo se perde da crítica acadêmica. A própria universidade, que colaborou bastante no assassinato da boa crítica, produziu algumas ovelhas negras, uns poucos professores que perceberam o beco sem saída a que levariam aqueles caminhos manjados do estruturalismo e da crítica marxista. Mencionaria, aqui, o recém falecido prof. Luiz Antônio de Figueiredo, ex-poeta concretista que, ao encontrar-se com Jorge Luís Borges, descobriu também a verdadeira literatura e a maneira mais decente de aproximar-se das obras literárias. Seus ensaios, publicados em algumas revistas acadêmicas ou livros do próprio bolso, não tiveram repercussão que mereciam fora da universidade. (23/05/2014)

 

 

Paulo Francis, ateu e católico...

 

Paulo Francis, agnóstico, não conseguia “acreditar que a vida é apenas uma passagem rumo à cidade de Deus, eterna e bem-aventurada, que nos prometiam os fundadores do cristianismo”, mas acrescentava que essa promessa vinha “com riqueza poética e filosófica até hoje inigualadas por qualquer religião anterior ou posterior” (Trinta anos esta noite, 1ª ed., p. 66). Essa “riqueza poética e filosófica até hoje inigualadas por qualquer religião anterior ou posterior” não é um belo sinal, entre muitos outros, da sobrenaturalidade do cristianismo? (22/05/2014)

 

 

A presença do passado

 

Na atual crise de criação literária no Brasil, redescobrir os esquecidos será um bom passatempo. Nosso país tem vida editorial recente: até o início do século XX, a maior parte da literatura nacional era impressa em Paris ou Portugal. Muitos escritores se viram forçados a fazer do jornal e da revista o único meio, ou pelo menos o principal, para mostrar o que escreviam. Só o sucesso junto ao público jornalístico, que funcionava como espécie de termômetro da temperatura literária, justificava o posterior investimento editorial.

Vários nomes, cujas obras dormiam na vala comum do papel jornal, humilhadas por fungos e ácaros, foram postumamente premiados com essa forma menos efêmera de sobrevida que é o livro, passando a fazer parte da literatura brasileira. Entre esses esquecidos, há os casos curiosos de escritores que, embora solicitados com frequência por editores, pareciam exercer com excessivo rigor a autocrítica e se recusavam a vestir a criação “jornalística” com a casaca mais solene do livro.

Reeditar os bons é coisa boa. É preciso, porém, cuidado para não se desenterrar cadáveres que não mereçam ressurreição, risco que se corre quando usamos os critérios de avaliação literária em voga na universidade. (21/05/2014)

 

 

Trabalho intelectual e catolicidade

 

Não terá sido mera coincidência o fato dos nossos melhores críticos do século XX — Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Agripino Grieco, Álvaro Lins — serem católicos.

A catolicidade, com sua universalidade e seu apetite integrativo, tem mais condições de arbitrar o jogo cultural. O católico tem mais condições de conviver com estranhos. O milagre cultural que foi o século XIII europeu, jamais excedido nos sete séculos seguintes, é a prova disso. Maritain achava, até, que era possível aliar-se com o exato oposto do cristianismo, o comunismo, que degenerou completamente a virtude da caridade, embora no fim da vida, logo após o término do Vaticano II, tenha reconhecido a miséria em que se encontrava a Igreja pós-conciliar, denunciando a genuflexão de leigos e clérigos diante do “mundo” (v. a parte final do 3º capítulo de Le paysan de da Garonne, obra de 1966 que os nossos maritainianos não quiseram traduzir ao português).

A própria crítica literária parece uma secularização da hermenêutica bíblica, que começou muito bem, com o velhos Padres da Igreja, e terminou muito mal, com os novos padres do estruturalismo e do desconstrucionismo. (20/05/2014)

 

 

O destino eterno de Hamlet pai

 

Papai Hamlet pai estava no Inferno ou no Purgatório? A confiar no que diz o fantasma no primeiro ato, cena cinco, estaria no Purgatório: “Condenado, por um certo tempo, a vagar pela noite e a passar fome no fogo enquanto é dia, até que os crimes cometidos em meus tempos de vida tenham sido purgados, se transformando em cinza.”

Mas o pedido de vingança que faz a Hamlet Júnior — vingança, filha do pecado capital da ira —, será condizente com uma alma salva, a caminho da beatitude, configurada ao Cristo, que ensinou a vítima a dar ao agressor a outra face? Apesar dos códigos de honra medievais, e por mais que o reinado de Cláudio fosse iníquo, baseado no fratricídio e no incesto, não me parece vindo do Céu. O morticínio, no finalzinho, cheira mais a coisa demoníaca do que divina, quando se completa a eliminação de toda a família real e também a de Polônio, candidata a fazer parte daquela, deixando o reino no mais absoluto vazio de poder, facilitando o golpe fatal de Fortinbrás, o inimigo norueguês.

Os teólogos insistem que os demônios e os danados procuram perder as almas, arrastando-as consigo para a infelicidade. Se os demônios podem nos visitar disfarçados de anjos bons, como atesta a longa tradição das aparições na Igreja, também poderia Hamlet pai mentir sobre seu destino eterno, completando no além, com um diabólico filicídio, toda a obra de iniquidade do podre reino dinamarquês. (19/05/2014)

 

 

Nem toda ditadura é totalitária

 

O que foi mais nocivo ao Brasil: a ditadura militar ou essas duas décadas com os socialistas no poder? Nem toda ditadura é totalitária. Exemplo: ditadura de Vargas ou dos militares de 64. Ditadura totalitária é aquela em que tudo, na sociedade, é controlado. É o sonho secreto do PT. “Quando eu crescer e virar gente grande”, diz o governo petista aos próprios botões, “quero trazer tudo na palma da minha mão”. (18/05/2014)

 

 

Tradicionalistas e progressistas na Igreja

 

Há uma velha briga interna, na Igreja, entre tradicionalistas e progressistas, que agora a internet deixa bem exposta... Os tradicionalistas, como seguranças de plantão armados até os dentes, ameaçam-nos presunçosa e permanentemente de excomunhão. São os gendarmes da fé, esquecidos do velho conselho que remonta à Patrística e ao próprio São Paulo (1ª Coríntios, 12 e 13): nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade. Têm um pé na Igreja e outro no perigoso quartel do cisma.

Da parte dos progressistas — cujos dois pés já estão fora da Igreja —, o ataque visa sobretudo a “moral católica”, que não aceitam. São os que mais fornecem material escandaloso à mídia secular. Nada têm contra o homossexualismo; sabem que, em meio a uma comunidade de dezenas de religiosos, numa época pansexualista como a nossa, muitos estão expostos a isso, e acham normal. São, porém, os primeiros a denunciar o caso de algum religioso que derrapa na castidade, se o parceiro do pecado foi alguém menor de dezoito anos. Se o padre pecou com mulher ou outro adulto, só lhes interessa quando são “inimigos” e podem tirar partido do escândalo.

São atitudes que não devem espantar o católico. Já ocorriam nas comunidades primitivas, como atestam as cartas de São Paulo. (17/05/2014)

 

 

Solidão eletrônica

 

Haverá alguma saída no beco sem saída da incomunicabilidade humana? Aparentemente, não. Através da internet e suas redes sociais, somos obrigados a saber de tudo, e tudo desejar, para o bem e para o mal. Temos milhares de “amigos” no facebook, mas nunca fomos tão pateticamente solitários e mesquinhamente individualistas. (16/05/2014)

 

 

Esse pecado original...

 

Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Mais ou menos por aí. Hoje, o nosso miserável projeto de vida se equilibra entre duas vigas mestras: de um lado o Estado onívoro, que quer controlar até as saudáveis palmadinhas na bunda do moleque arteiro; de outro, o grande capital, que torna a nossa existência cada vez mais asfixiante, pelo estímulo permanente aos vícios capitais. (15/05/2014)

 

 

A modernidade, reinado do sujeito

 

O curioso é como o subjetivismo radical acabou por criar os seus mais perfeitos opostos. Um deles, bem concreto, ainda para este mundo: o aniquilamento do indivíduo, devorado pela máquina trituradora do Estado totalitário. O outro, ilusório, para depois da vida: a diluição da alma pessoal e imortal no grande cosmos panteísta. (14/05/2014)

 

 

Ofício dos mortos

 

Morreu ontem o amigo Luiz Antônio de Figueiredo, professor aposentado da Unesp de Assis. Nos últimos tempos andávamos um pouco distantes — uma distância que seu temperamento difícil abriu e encheu de pedras, certamente com a minha colaboração. Era um grande solitário, de simplicidade estoicamente monástica. Bem aposentado da carreira acadêmica, na qual chegou à titulação máxima, morava e vestia-se quase como um eremita do deserto.

Infelizmente, o parkinson o privava, lentamente, das duas coisas que mais amava nesta vida: escrever e cantar ao violão. Escreveu e publicou alguns livros; compôs várias canções, que não ficavam atrás das compostas por seus famosos ex-ídolos da MPB.

Quando professor do Instituto de Artes do Planalto, da Unesp paulistana, foi ligado ao grupo concretista da capital, próximo a Décio Pignatari, de quem foi aluno e amigo. Mais tarde, nos anos oitenta, virou a mesa e se separou de tudo isso, desiludindo-se ao mesmo tempo da arte vanguardista, da MPB engajada, da psicanálise, do estruturalismo e do marxismo.

Jorge Luis Borges foi seu Virgílio na “selva selvaggia” da universidade e do mundo contemporâneo. Como professor, logo abriu mão da parafernália metodológica com que os cursos de Letras entulham o conhecimento da literatura, lendo em voz alta e comentando com argúcia e simplicidade seus autores prediletos — Borges, Schopenhauer, Omar Kayan, Fray Luis de León, Cesário Verde, Fernando Pessoa, e, misteriosamente, o sambista Bezerra da Silva.

A morte era um dos seus assuntos preferidos. Na última vez em que o visitei, no ano passado, voltava eu da missa na Basílica de São Vicente de Paulo, em Assis, que ficava perto da sua casa. Quando me despedi, desejando-lhe a proteção divina, observou com certa e amarga ironia:

— Você parece ter resolvido suas questões com o catolicismo...

Disse qualquer coisa, mas já não me lembro bem o quê. E então ele, abrindo-me o portão da rua:

— Eu ainda não. Quando abro a porta, do outro lado só vejo Ninguém.

Ninguém, silêncio, nada... Essas iscas demoníacas o atraíam, como também tinham me seduzido durante um bom tempo. Mais discípulo de Schopenhauer do que de Cristo, de quem só aceitava os ensinamentos morais, era no entanto, à sua maneira, devoto de São Francisco de Assis, cuja imagem de barro tinha acabado de ver em sua estante.

Luiz foi um grande trabalhador das letras, de seriedade cada vez mais rara neste país do carnaval e do futebol (futebol que seu corpo franzino chegou a praticar na juventude e que, a seu jeito, também amava, discretamente palmeirense). Era uma boa alma. Seu coração era um campo de batalha em que o sentimento de culpa cristão duelava permanentemente com a soberba schopenhauriana, que não harmonizava com sua figura humilde. Tenho fé que, na hora decisiva, ele optou pelo único caminho, a única verdade, a única vida. (13/05/2014)

 

 

A profundidade das aparências

 

De Léon Bloy: “Só as pessoas sem profundidade não confiam nas aparências”. (09/05/2014)

 

 

O coração superpovoado

 

Meu coração era um cômodo vazio, em que minha voz conversava inutilmente com minha própria voz.

— Zé Carlos — perguntava eu, a cada momento — que vamos fazer do minuto que passa?

Embora conversassem longamente, José nunca tinha uma boa nova para José. Conversavam longa, inutilmente, na praça deserta do coração, enquanto o minuto pingava pingava pingava sem sentido.

Agora, José quase não fala mais com José. José quase não fala mais sozinho. José pouco fala consigo mesmo.

Empobreci-me interiormente? Não preciso mais ser rico de riqueza autogerada. Meus interlocutores agora são o Senhor, Nossa Senhora, meus anjos e santos intercessores, pessoas muito mais reais que a ilusória realidade que me cerca.

Meu coração, de repente, se superpovoou. (06/05/2014)

 

 

Caminhos e bifurcações metafísicas

 

Nossas escolhas metafísicas estão, todas, no mesmo plano? Em alguma coisa, a pessoa deverá crer. Não é possível viver sem crenças, sem confiança nalgum testemunho fiável, que é uma das três formas de conhecimento, além do saber por experiência e do saber por raciocínio.

Com respeito a crer ou não crer em Deus, são também três os caminhos que se desdobram à nossa frente: ou confiamos na crença ateísta, segundo a qual Deus não existe; na crença agnóstica, que recomenda o compasso de espera até a morte; ou na crença deísta, que diz ser Deus o responsável por tudo o que existe.

Esta última também abre duas portas ao candidato a crer: uma que leva ao holismo panteísta, que concebe Deus como fonte emanadora de tudo, que permanece materialmente em tudo o que cria e para cujo ímã tudo deve retornar; ou, contrariamente, como criador de todas as coisas, sobretudo do ser humano, feito à sua imagem e semelhança, que deve viver de acordo com os mandamentos divinos.

Nessa última opção, também outras duas portas se abrirão após a morte, segundo o cumprimento ou não daquelas leis durante o estrito tempo da vida neste mundo: a da perdição no Inferno ou a da salvação no Paraíso, com a promessa de ressurreição no final de tudo.

Portanto, só temos caminhos e bifurcações pela frente. A vida é uma complexa malha rodoviária e a escolha dos rumos só a nós pertence. O problema é que, conhecendo a última — que atende pelo nome de cristianismo —, só mesmo com muita coragem nos enfiaremos em qualquer uma das anteriores, correndo o risco de desembocar no sorvedouro sem volta.

Não: nossas escolhas metafísicas não estão, todas, no mesmo nível.

— O cristianismo usa o Inferno como chantagem para limitar nossa liberdade de escolha! — alguém poderia argumentar, até com alguma razão.

Não é tão simples. O Inferno, e a receita para evitá-lo, fazem parte da Revelação divina na última daquelas opções; vêm junto com o pacote, no qual se inserem com precisão absoluta. Não foram inventados pela Igreja. É pegar ou largar...

Por outro lado, a lógica do pacote cristão é tão perfeita, que o estudioso honesto, depois de cotejar todas as possibilidades metafísicas, não terá dúvidas em ficar com ele: o qual é, ao mesmo tempo e da forma mais paradoxal, o mais terrificante e o mais coerente... (04/05/2014)

 

 

Suspiro teológico

 

Esses frios administradores da fé... (30/04/2014)

 

 

A longa marcha da vaca na contramão

 

Algum aluno do Olavo de Carvalho podia pensar em recolher e organizar a imensa bibliografia alheia que o pensador vem recomendando nos últimos vinte anos, à semelhança do que Carpeaux fez com a literatura brasileira.

Seria uma coisa muito interessante. O leitor de Olavo de Carvalho não assimila só o que esse autor pensou, fonte generosamente aberta no deserto brasileiro das ideias; fica conhecendo, também, toda uma legião bibliográfica de autores que o filósofo leu e assimilou antes de nós, e que marcham na contramão das ideologia vigentes. (26/04/2014)

 

 

Teologia em quadrinhos

 

Uma hipótese de trabalho: o Superman inspirado na concepção cristã do corpo ressuscitado de Jesus. (23/04/2014)

 

 

Droga e rivalidade mimética

 

O conceito de rivalidade mimética de R. Girard ajuda a compreender o fato que mais desestabiliza nossa vida cotidiana: o alto consumo de drogas e a criminalidade que o acompanha. A gula evasionista da droga é uma forma de compensar a diferença entre o que a pessoa é e o que ela gostaria de ser, esta última forma já realizada por outras pessoas mais bem sucedidas social e existencialmente. É sempre a velha inveja por trás de tudo, acompanhada do seu filho predileto: a vingança ressentida. (20/04/2014)

 

 

A médica atéia que acredita em milagres

 

Cansava de contar os milagres mais espantosos a certas pessoas, e elas continuavam indiferentes. Hoje, sei que milagres não são sinais de Deus para todas as pessoas, mas só para quem está disposto a acreditar em Deus como fonte obrigatória de todos os milagres... Bom exemplo disso é a médica canadense Jacalyn Duffin, hematologista. Diz-se ateia, e, ao mesmo tempo, afirma acreditar em milagres, depois de “ter visto pessoalmente fatos surpreendentes, para os quais não encontramos nenhuma explicação científica.” Refere-se, sobretudo, a uma antiga paciente que, com leucemia mieloide aguda, ainda está viva, trinta anos depois.  Garante que não tem condições de explicar a coisa. “Ela, ao contrário, tem”, disse a doutora Jacalyn, que não consegue disfarçar a inveja da paciente.

Ver artigo da médica no seguinte link (http://www.bbc.co.uk/religion/0/24660240), mencionado pelo jornalista italiano Antonio Socci, em seu livro recém lançado Tornati dall’aldilá. (05/04/2014)

 

 

Razões da cruz

 

Era um poeta argentino, católico, grande amigo de Jorge Luis Borges: Francisco Luis Bernardez. Acabei de traduzir um belo soneto de sua autoria, ainda sem aquele necessário “pente fino”:

Se para retomar o retomado

Perdi primeiro o que ficou perdido;

Se para conseguir o conseguido

Tive de suportar o suportado;

Se para estar, agora, enamorado

Necessitei um dia estar ferido,

Foi bem sofrido o mal que foi sofrido,

Foi bem chorado o mal que foi chorado.

Porque, depois, ficou bem comprovado

Que não se goza o bem que foi gozado

Senão depois de tê-lo padecido.

Pois só depois ficou bem compreendido

Que tudo o que a árvore tem de florido

Vive do que está nela sepultado. (03/04/2014)

 

 

A Virgem Maria e o comunismo no Brasil

 

A melhor forma de lembrar os 50 anos da Revolução de 64 é falando a verdade. Há exatamente cinco décadas, os militares prometiam fechar as portas do Brasil ao comunismo. Foram incompetentes. Cinquenta anos depois, estamos literalmente governados por comunistas. Nossa Senhora, em rápida e generosa visita ao Brasil, em 1930, apareceu a duas jovens no interior de Pernambuco, avisando que o país seria dominado por essa desastrosa ideologia. Uma das jovens virou freira, irmã Adélia, e morreu a 13 de outubro de 2013, em pleno regime... comunista! Atentemos ao detalhe do dia de sua morte: 13 de outubro, que foi também foi a grande e última data das aparições de Fátima, dia do Milagre do Sol, com a qual a “modesta” aparição pernambucana tem óbvias conexões, sobretudo na rejeição do regime que, naquele mesmo momento, estava se instalando na Rússia e em breve infestaria boa parte do Ocidente.

Vejam o vídeo do padre Paulo Ricardo (https://padrepauloricardo.org/episodios/o-alerta-de-maria-para-o-brasil) sobre mais uma profecia de Maria que, infelizmente, se cumpriu (e, o que é pior, sobre nossas teimosas cabecinhas brasileiras). (31/03/2014)

 

 

 

25/03/2014. P: Haverá um “estilo conservador” de escrita?

R: A direita pensante precisa, urgentemente, reciclar a sua linguagem. Para ter alguma credibilidade, ela não pode mais se apresentar com paletó e gravata, sob pena do desdém do público. Alguns colunistas conservadores, como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, perceberam bem o problema já no início de suas guinadas ideológicas (o fato de provirem da esquerda facilitou a operação). Por mais que possa parecer estranho, essa adequação estilística ao ritmo mais convulso de nossa época, acolhendo inteligentemente elementos da língua corrente e coloquial, será, sem dúvida, a principal causa do seu sucesso junto ao público.

O detalhe estilístico, sem que se menospreze a densidade conceitual de um Olavo de Carvalho, revela também um aspecto dessa direita mais sagaz: a permanente disposição de reconhecer que, se algo deve ser mudado, não será um apego irracional ao arquétipo “conservador” que o impedirá. Na linha de raciocínio de um Russem Kirk, sabem que a mentalidade conservadora deve ter uma base muito firme, de pedra basáltica — a lei natural, o senso comum —, que lhe preserve das chuvas e trovoadas do relativismo moral, porém com o resto do corpo feito de rocha sedimentar, mais porosa, flexível e aberta às mudanças necessárias, sem recusar do sol, da chuva e do vento da História aquilo que melhore o perfil da estátua.

O estilo é o homem, mas não só o homem que fala, como também, de certa maneira, o que ouve. Quem perde de vista essa noção elementar de retórica estará condenado ao monólogo.

 

 

21/03/2014. P: Temos mais do que merecemos?

R: Sem dúvida. Hoje, pela manhã, preparei meu leite costumeiro, com aveia, farinha e mel, e, enquanto o bebia com pão caseiro, percebi que minha boca experimentava um prazer delicioso, que obrigava a retardar o fim da mastigação, truque hedonista que nunca vi nos meus dois cachorros.

Fiquei naquilo o mais que pude, não pelo simples gozo em si, mas para deixar bem evidente, à minha cabeça de jerico, o quanto Deus é generoso comigo — comigo e conosco. Por que o Senhor, em vez de só criar alimentos funcionalmente adequados à nossa sobrevivência, criou ou proporcionou que criássemos alimentos deliciosos?

Se fosse a comida insossa e só nos mantivesse vivos, já teríamos que agradecer, pelo resto da eternidade, o pão nosso de cada dia que Ele nos deu. Mas não: os alimentos alimentam e, além disso, podem ser gostosos, apontando para outro aspecto, para o agradável, para o Bom. A delícia, embora seja o caminho mais curto para a perdição, é também , e sobretudo, um inequívoco sinal de Deus e indica o Paraíso.

Tudo, na natureza, parece dirigir-se para a simetria. Se no entanto, pobres criaturas, só tivéssemos ao nosso redor uma paisagem cubista, dadaísta, surrealista, ainda assim teríamos o que agradecer pelo resto da eternidade. Mas não: bastam cinco minutos longe das nossas cidades quadradas e fétidas, para os nossos olhos se deliciarem com as nuvens e as estrelas, a sinuosidade das colinas, a esbelteza das árvores, o ritmo dos rios, que dosam ímpeto e serenidade.

Se a comida fosse muito ruim e a paisagem muito feia, mas, mesmo assim, ainda estivéssemos aqui, vivos e lúcidos, teríamos de agradecer por todo o sempre. Mas não... Tivemos mais, muito mais do que merecemos, apesar da inimizade com Deus que inauguramos no Pecado Original.

 

 

20/03/2014. P: Em que sentido a liberação sexual da nossa época tem a ver com controle político?

R: A professora Mary Del Priore, que já trabalhou no Departamento de História da USP, disse coisas no programa Café filosófico, da TV Cultura, que geralmente os professores da USP não costumam dizer, muito menos na politicamente correta TV Cultura. Comparando o casamento burguês do século XIX com o casamento de massa atual, concluiu que as nossas avós e bisavós, apesar da repressão burguesa e cristã que lhes dificultava o orgasmo, eram mais felizes que as mulheres liberadas de hoje, que casam, descasam e sacaneiam numa escala que, até passado não muito remoto, era prerrogativa masculina.

Como explicar o paradoxo? Todos estamos de acordo que o mundo atual vive sob o pleno domínio da “libido”, palavra chique que os psicanalistas utilizam para designar um velho e problemático conhecido nosso: o desejo sexual. Época nenhuma fez jorrar tanto esperma como a nossa!

Em princípio, ninguém deveria temer uma coisa tão humana, que o “design inteligente” de Deus generosamente planejou para nós, responsável pela perpetuação da espécie e a grata união dos cônjuges. Nada há de errado com o desejo sexual, exceto quando o sexo passa a ser utilizado como entorpecente ou meio de controle político e social. É a tese que desenvolve o professor norte-americano E. Michael Jones, na obra Libido Dominandi: Liberação Sexual e Controle Político, ainda sem tradução para o português O ponto de partida do autor é a ideia agostiniana de que não há pior escravidão do que os vícios capitais — gula, luxúria, avareza, ira, inveja, vanglória, preguiça — e todas as demais emoções humanas, como o amor e o ódio, a tristeza e a alegria, a coragem e o medo, a partir do momento em que extrapolam certos limites.

A paixão amorosa é, certamente, a mais temerária das paixões humanas, e a história da literatura moderna atesta-o de forma cabal. Desde o século XVIII, sobretudo a partir do doido Marques de Sade, a intelectualidade anticristã desconfiava de que a revolução política devia acompanhar-se de uma profunda mudança nos hábitos sexuais. Percebeu-se, cada vez mais, que o desejo erótico incontido levava à anarquia, e as massas, entorpecidas pela devassidão, transformavam-se em dócil matéria-prima nas mãos dos poderosos. “Se não dominamos o sexo, ele fatalmente nos dominará”, dizia Chesterton.

E. Michael Jones inverte, de maneira surpreendente, a tese do escritor Aldous Huxley (autor do famoso romance “Admirável mundo novo”), para o qual a liberdade sexual era só uma forma de compensação para o aumento de controle político e econômico, que parecia inevitável na sociedade industrial e pós-industrial (ou sociedade mecânica e eletrônica, na terminologia de Marshall Mc Luhan). Segundo o autor de Libido Dominandi, a liberação sexual não é só válvula de escape, mas ferramenta importante para o monitoramento totalitário das massas, sendo utilizada, nos dois últimos séculos, justamente para anestesiá-las e mais facilmente algemá-las. Qualquer policial sabe como é simples prender bêbados. O povo nunca esteve tão embriagado de prazer sexual, como consequência da permanente revolução tecnológica das mídias, do fácil acesso a anticoncepcionais e, sobretudo, da descristianização da Europa e das Américas.

Há um projeto em andamento, em nível global, que liga de maneira astuta a sexualidade desregrada ao controle demográfico. Há três planos de ação interligados, que prometem fazer mais estragos sociais do que nunca antes na história humana. Plano número um: bebês não devem ser concebidos. Para isso, deve haver uma intensa promoção da homossexualidade, da esterilização e da anticoncepção. Mas, em caso de ocorrer a concepção, há o plano número dois: os bebês concebidos sejam mortos antes de nascer. Daí a política mundialmente orquestrada do aborto. Mas se, apesar de toda a vigilância e repressão, as crianças nascerem, o plano número três de algum modo compensará o insucesso dos anteriores: elas devem ser corrompidas com uma educação sexual liberadora, que as tornem sempre mais susceptíveis aos apelos da carne (a legalização da pedofilia, acreditem se quiserem, será o próximo e inevitável passo). Um dia, se transformarão em adultos discreta ou indiscretamente pervertidos, com plena liberdade de escolher a própria “orientação sexual”, já descrentes da necessidade de suas vidas serem reguladas por leis morais.

É um terrível círculo vicioso, produzido por mentes malucamente demoníacas. Será um triste mundo de adultos privados de todo discernimento moral e entregues ao prazer fácil, perpetuando-se uma sociedade ao mesmo tempo hedonista e autodestrutiva — enfim, a plenitude da aliança de “eros” (impulso de vida) com “thanatos” (impulso de morte), como gostam de dizer os freudianos, que, aliás, muito contribuíram para essa sociedade divertidamente animalesca que aí está, à beira do buraco, ou melhor, dos buracos.

 

 

12/03/2014. P: Você vê alguma saída no beco?

R: Difícil! O ar anda carregado de péssimas notícias, mas é impossível não respirá-lo: as cidades, nas últimas décadas, estão alagadas e submersas pela violenta tempestade de informações. Somos obrigados a saber de tudo, e tudo desejar, para o bem e para o mal. O pecado alugou os sete cômodos principais do nosso coração. O mundo moderno não sabe o que fazer com essa coisa pré-histórica chamada família, e nos convida permanentemente a destruí-la. Demônios educados na melhores universidades, habilmente disfarçados de financistas internacionais, querem que homens se acasalem com homens, mulheres com mulheres, crianças com crianças, gente com bicho, enfim, todas as combinações possíveis da humana libido. Primeiro, viramos o Decálogo do avesso e, não contentes, de ponta-cabeça. Castramos o Cristo, separando-o assepticamente da Cruz redentora. Queremos um Jesus bonzinho sem Cruz; e uma cruz decorativa sem Sangue. Seu Corpo inerme e chagado, que para o mundo novo é de extremo mau gosto, vai lentamente sendo expulso das repartições públicas e das casas comerciais. A única saída para o beco sem saída é rezar.

 

 

09/03/2014. P: Na briga Razão versus Realidade, quem sai ganhando e quem sai perdendo?

R: O que distingue a chamada modernidade — esse grande Hoje que dura desde o fim da Idade Média — é o crescente descontentamento do homem em relação ao mundo real. Movido pela soberba, auxiliado pelo progresso material e científico, o monstro egolátrico da modernidade decidiu moldar o real segundo os seus caprichos. E esse subjetivismo radical acabou por criar o seu perfeito oposto: a anulação do Eu no grande cosmos panteísta.

 

 

07/03/2014. P: Sairá mesmo, do próximo sínodo dos bispos, o “divórcio católico”?

R: Se depender do cardeal alemão Walter Kasper, do hondurenho Maradiaga e outros purpurados do Vaticano, sim. Mas se depender do padre Vianinha, da minha cidade, jamais.

Escuta o que aconteceu com ex-aluna minha. Daniela era infeliz, divorciou-se e casou de novo. Teve mais dois filhos, além do garoto do primeiro casamento. Era, finalmente, uma mulher satisfeita, até que caiu na besteira de voltar a frequentar missas, quando o filho mais velho começou a catequese da primeira comunhão. Em certa missa matinal de domingo, ouviu com espanto o padre ler um trecho dos Evangelhos, no qual Jesus dizia: “Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério.

Jesus parecia falar diretamente com ela e envergonhou-se. Na hora da comunhão, não se moveu do banco. Mais tarde, já em casa, sem nada dizer ao marido, foi informar-se melhor na internet, e soube que, de acordo com a doutrina da Igreja, estava vivendo em pecado grave com o pai dos seus últimos filhos. Cometia, sim, adultério...

— Adultério! — leu com tremor a velha e terrível palavrinha.

Mas como podia ser adúltera, pensou ela, se era separada legalmente do primeiro marido? O próprio site esclarecia aquela dúvida, transcrevendo documentos da Igreja e até outros trechos dos Evangelhos, além daquele que ouvira na missa. O Estado desatava o que o próprio Estado ligou — o casamento civil —, mas não podia separar o que Deus tinha unido através do sacramento do matrimônio. Era, portanto, uma pessoa perfeitamente legal para o Brasil e ilícita para o Céu. Que bela situação!

Caiu deprimida. Procurou um psiquiatra, que em vão tentou lhe ajustar a serotonina. Não tinha paz no coração: pela primeira vez na vida, tinha levado um puxão de orelhas do próprio Jesus. Passou a rezar, coisa que antes nunca fazia, e já não perdia mais as missas do domingo, mesmo sentindo-se humilhada por não poder comungar.

Por que não se aconselhava com algum padre? Os dois primeiros consultados foram condescendentes e sugeriram que ela confiasse na misericórdia divina. Não satisfeita, foi atrás do padre João — padre João Maria Viana, Vianinha para os que dele não gostavam. O velho padre, pároco de um dos bairros mais pobres da cidade, era famoso pela humildade e solicitude, razão pela qual era ao mesmo tempo querido e desprezado.

— O que eu faço, padre? Não quero continuar ofendendo a Deus. Meu segundo marido não liga para o que estou sentindo. Eu aceitaria, até, viver em castidade com ele. Como irmãos, sem sexo... Ou, pelo menos, tentaria... Mas ele zomba e desconversa. É daqueles católicos de duas missas por ano, Páscoa e Natal, como aliás eu também sempre fui. Juro, padre, que quero sair do pecado, mas, se fizer isso, sei que vou destruir também o meu segundo casamento.

Padre João, como os padres anteriores, começou com o mesmo sermão da misericórdia:

— Confie em Deus, minha filha. A bondade divina não tem limites. Mas, se devo dar um conselho, diria que você deve permanecer como está, casada e em harmonia com a nova família. Você está arrependida da separação?

— Mais do que tudo, padre! Acreditava que, numa segunda tentativa, encontraria o Paraíso na terra. Mas durou tão pouco...

Padre João sorriu, bondosamente:

— Deus não queria o divórcio, é certo. Mas agora também não haverá de querer a ruína do segundo casamento. Seja uma boa esposa e boa mãe, continue assídua nas missas, mesmo que não possa receber o Corpo de Cristo. Faça isso como um sacrifício pelos erros cometidos em sua vida. Deus entende maravilhosamente bem a linguagem do sacrifício e da Cruz... Sacrifício de continuar entregando-se ao segundo marido, mesmo sabendo que não é lícito. Sacrifício de privar-se dos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia.

Daniela agradeceu comovida e saiu mais confortada da pequena capela. No entanto, ia para casa ao mesmo tempo triste e alegre. Alegre, pois continuaria normalmente a sua vida, fazendo o que faziam todas as esposas do mundo. Porém triste: sabia que, de algum modo, não estava agindo corretamente. Sentia um peso no coração.

Voltou mais vezes ao velho padre, que lentamente a fazia aceitar a vida como ela era e, sobretudo, como devia ser:

— Você quer o Paraíso muito depressa, minha filha. Ainda não é hora. Sujeite-se à condição humana. Deus estará contente com sua vontade de acertar, mesmo que por linhas tortas...

 

 

05/03/2014. P: Que chance de sucesso pode ter, em nossa época hedonista, uma religião que valoriza a peso de ouro o sacrifício, como a católica?

R: De início, acho que nenhuma chance. Mas como o hedonismo — a busca desmedida do prazer — é um monstro autodestruidor, que elimina quem dele se alimenta, parece que, a longo prazo, a moral cristã tem tudo para ser o ombro do Pai misericordioso que acolhe o filho pródigo de volta, já muito cansado de comer ração de porcos.

 

 

27/02/2014. P: Por que Medjugorje está na contramão da Nova Ordem Mundial?

R: Podemos começar com algumas considerações sobre a data de início das aparições — 24 de junho de 1981, numa obscura aldeia da Iugoslávia, Medjugorje, de cultura eslava e regime comunista. O ditador Tito, como todos os ditadores comunistas, trazia a Igreja sob estrito controle, e a história das perseguições aos seis jovens videntes é um dos capítulos mais interessantes de Medjugorje.

Quarenta dias antes da estreia de Maria, a 13 de maio, o eslavo Karol Wojtyla (Papa João Paulo II), que conhecia na própria pele os espinhos do nazismo e do comunismo, tinha recebido no abdômen um tiro mortal do matador turco Mehmet Ali Agca, que não costumava errar o alvo.

Outra coincidência histórica importante: fazia poucos meses que outro eslavo, o polonês Lech Walesa, fundara o sindicato Solidariedade, decisivo para o fim do comunismo naquele país da Cortina de Ferro.

De início, pelo menos uma coisa há em comum entre João Paulo II e Medjugorje: os dois sofreram sob o comunismo. O plano de assassinato do papa foi obra da ex-KGB; Moscou temia que o pontífice pudesse fazer estragos nalguns países satélites da URSS, também eles eslavos.

Não custa lembrar que 13 de maio foi o dia da primeira aparição de Maria em Fátima, Portugal, cujo principal leitmotiv foram as consequências danosas do comunismo para o século XX. “Se a Rússia não se converter”, dizia Nossa Senhora, “seus erros se espalharão pelo mundo.” Aquela confluência de fatos não era gratuita. João Paulo II atribuiria à mão sobrenatural de Nossa Senhora o desvio de rota daquela bala com destino certo e fatal.

 

 

24/02/2014. P: Já ouviu falar de certa mensagem profética de Nossa Senhora de Medjugorje sobre a Polônia e a Rússia?

Sim. Alguns meses depois de iniciadas as aparições (em 30/10/81), Maria Santíssima falou o seguinte aos videntes: “Na Polônia, em breve, haverá graves conflitos, mas no fim os justos prevalecerão. O povo russo é o povo no qual Deus será mais glorificado. O Ocidente incrementou o progresso, mas sem Deus, come se não fosse Ele o Criador.” A primeira profecia se cumpriu. A segunda parece que está se cumprindo: a Igreja Ortodoxa está crescendo na Rússia. Putin estimula uma moral mais conservadora, os templos se multiplicam e se enchem de fiéis... Resta saber como esse cristianismo conviverá com as ambições imperialistas e fascistas do Kremlin.

 

 

23/02/2014. P: Por que Nossa Senhora aparece há tanto tempo, em Medjugorje? Por que ainda aparece cotidianamente a três videntes, além das aparições mensais e anuais aos outros? Por que as mensagens são tão repetitivas? Por que repetir o que já está há dois mil anos no Evangelho e na boca da Igreja?

R: Só vejo uma resposta: nunca a Igreja e o mundo estiveram tão ameaçados como hoje.

 

 

20/02/2014. P: Rezar demais não vira uma coisa mecânica?

R: Rezem, pedia Jesus. Oração permanente, insistiu São Paulo. Rezem, rezem, rezem!, continua pedindo Nossa Senhora. Rezem; de preferência com o coração. Mesmo a oração puramente labial já começa a te elevar do rés do chão. Muitas vezes você se pergunta: mas, com tanta oração, que tempo terei para minhas imprescindíveis leituras e meus geniais rabiscos? Experimenta e verá. Quanto mais você reza, mais você lê e escreve. A fonte da inspiração e do trabalho jorra, discreta e ocultamente, do generoso bosque divino.

Bom exemplo de como a oração influi, está em Ernest Hemingway. Num conto seu, zombou de Deus através de paródias do Pai Nosso e da Ave Maria, escrevendo: “Ó nada nosso, que estás no nada, nada seja o vosso nome, vosso reino seja nada e seja nada a vossa vontade. Dai-nos hoje o nada nosso de cada dia. Ave nada, cheio de nada, o nada esteja convosco.” Era uma prece; ou, se quisermos, uma anti-prece. Pediu com tanta força o Nada, que o Nada veio. Em 1961, não podendo suportar tanto vazio em seu coração, deu cabo de tudo. Que Deus o tenha, por mais que tenha desejado o oposto.

 

 

13/02/2014. P: Não é impressionante aquela floração católica da literatura brasileira, nos anos trinta?

R: Fato de primeira grandeza, na literatura brasileira contemporânea, foi a conversão ao catolicismo do grande escritor carioca Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), por mais que tenha emburrecido no final da vida.

Num país e numa época em que os principais críticos literários eram homens sem fé religiosa, a militância católica de Alceu de Amoroso Lima foi uma extraordinária novidade, de extensa repercussão, sobretudo a partir de 1928, ano em que assumiu a direção do Centro Dom Vital e de sua revista “A Ordem”, criados em 1922 por Jackson de Figueiredo (mesmo ano da exageradamente famosa semana de arte moderna paulista). Jackson morreu prematuramente, em 1927, e foi o principal responsável pela conversão de Alceu.

Ainda está por ser feito o estudo definitivo da importância do Centro Dom Vital e de sua revista para o pensamento brasileiro, responsáveis pela criação de uma mentalidade cultural cristã disposta a discutir a realidade contemporânea e nela seriamente influir. Mais especificamente, a revista “A Ordem” criou uma atmosfera favorável à expressão e expansão de uma corrente literária espiritualista, basicamente católica, que reunia nomes como os romancistas Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria (cunhado de Alceu), Gustavo Corção, José Geraldo Vieira, Plínio Salgado; e poetas como Tasso da Silveira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, e até o Vinícius de Moraes da primeira fase (que depois trocaria o catolicismo da juventude pelo animismo panteísta dos terreiros de candomblé). É também necessário incluir nesta lista o poeta Manuel Bandeira, que foi recuperando a fé à medida que envelhecia.

Esses romancistas e poetas eram contemporâneos do modernismo, mas caminhavam noutra direção, mais inclinados a voos metafísicos, embora sofressem aqui e ali alguma influência das vanguardas europeias. O mais homogeneamente católico dos nossos poetas católicos foi sem dúvida o curitibano Tasso da Silveira, cuja obra se encontra infelizmente esquecida. Quando for reeditado, os futuros leitores de poesia tombarão de espanto (na remota hipótese dessa espécie, a dos leitores de poesia, sobreviver às próximas décadas).

Quanto a Jorge de Lima, em várias de suas obras dialoga com as Sagradas Escrituras e a tradição da Igreja, extraindo dessas plantas milenares o mel silvestre de suas belas imagens. Nas águas límpidas ou misteriosas da Bíblia é que o rebanho de suas metáforas ia dessedentar-se. Do céu claro-escuro da Crucificação é que brotava a luz cristã dos seus versos longos, ungidos como preces e ensanguentados como espadas depois de uma guerra santa. Esse é o banquete que o poeta alagoano tinha e ainda tem a nos oferecer. O agnóstico Drummond foi um bom poeta para o nosso tempo. Jorge de Lima, sobretudo o de “A túnica inconsútil”, é um poeta para todo o sempre.

Murilo Mendes, outro grande poeta católico, foi um genial herético. Tinha pouco domínio sobre a versificação tradicional e destacou-se no verso livre, muito marcado pelo surrealismo e outros movimentos artísticos de vanguarda. Gostava de experimentar novos caminhos, e muitas vezes se perdeu na busca. Sua poesia, que se esforçou pateticamente por conciliar a doutrina cristã com o marxismo e a psicanálise, tem muitos pontos de afinidade com a “teologia da libertação”. Essa teologia logo irá para a lata de lixo da História, ao contrário  da poesia de Murilo.

Augusto Frederico Schmidt foi outro grande poeta católico. Muitos foram os chamados para ser Augusto Frederico Schmidt, mas só um empresário rico, descendente de judeus, foi o escolhido. Entre os candidatos a Schmidt, estava Vinícius de Moraes, que começou Congregado Mariano e terminou Pai de Santo, imerso em uísque como picles no vinagre. O futuro letrista de samba tentou ser poeta metafísico, fez no início alguns belos poemas com cadência bíblica e inspiração cristã, mas o apelo do Alto era maior do que suas forças de atleta do sexo, e se encaminhou cada vez mais para o seu próprio e inelutável destino, o de poeta da MPB, das belas letras de música que fez a partir dos anos cinquenta. Aí estava a sua grandeza: na humildade das letras de música, em que exprimiu todo o seu paganismo afro-brasileiro. Não tinha nascido para o ar rarefeito do lirismo religioso. Era prato raso demais para tão nobre sopa (como costumava dizer o católico Cornélio Pena ao ateu Marques Rebelo).

 

 

06/02/2014. P: Paradoxalmente, o trânsito da ruas é excelente oportunidade para fazer penitência ou para pecar. Concorda comigo?

R: Lembra do velho samba? O que dá pra rir, dá pra chorar. Minha cidade ainda é uma cidade pequena, mas o balé das ruas já é diabolicamente digno de uma metrópole (com o perdão do adjetivo) pós-moderna: bicicletas, motos e carros cruzam-se, rápida e coreograficamente, como se estivessem num palco para um estranho espetáculo de vida e morte. A sinuosa rapidez das motos está cada vez mais virtuosística. Em contraste, as bicicletas deslizam mais calmamente, mas em geral vão por onde nunca deveriam ir, se o critério fosse o da racionalidade: preferem a contramão.

As ruas estão cada vez mais cheias de artistas. Que grande arte não é feita de riscos? De vez em quando, uma ambulância aparece e leva o artista para o pronto-socorro ou direto para o médico legista, sacrificado em pleno exercício da beleza.

Essas motos! Num dia desses, enquanto esperava no carro a minha mulher, vi de repente passar pelo varejão um ruidoso tanque de guerra, com o escapamento bem aberto — brrrrrrr... Pilotava-a um motoqueiro de mais ou menos umas sete arrobas, serenamente plantado no banco. Todos saíram para ver e aplaudir.

— Tomara que fure o pneu! — imprecou a velhinha de olhos brilhantes.

Aristóteles disse que uma cidade com mais de cem mil habitantes é ingovernável. Quem sou eu para corrigir o estagirita? De governar não entendo bulhufas, mas entendo bastante de habitar, e digo, com toda convicção, que uma cidade com mais de dois habitantes — eu e a velhinha de olhos brilhantes — é absolutamente inabitável.

Mas, falando sério, hoje entendo por que tantas pessoas dirigem bêbadas. Só com a cara muito cheia para aguentar dirigir nesse trânsito surrealista, cubista, expressionista, dadaísta, futurista. Que saudades do trânsito parnasiano!

Mas a gente se acostuma com tudo, sobretudo com a lei do menor esforço, que ainda é a lei de trânsito mais respeitada no país do mensalão. Andar de carro, entre outras coisas, é sofrer a lei do menor esforço alheio, excelente oportunidade de penitência. Por falar nisso, quantos pecados não cometemos entre a sarjeta da esquerda e a sarjeta da direita?

Vítimas ou agentes dos pecados do trânsito, vamos lentamente assimilando a falta de educação das ruas, até considerá-la a coisa mais normal do mundo. Um dia, percebemos que já nada mais nos surpreende. Só me espanto, verdadeiramente, quando um brasileiro comete uma delicadeza no trânsito — e, então, agradeço sinceramente a Deus por mais um milagre.

Meu pai tinha oficina e cresci entre carros. Aprendi, logo, que a melhor forma de suportar um automóvel é dirigindo-o. Então vamos dirigi-los. Lembro-me com indizível alegria da última vez em que renovei minha carteira de motorista: o Estado tirou centenas de reais do meu bolso e ainda me fez ouvir, por doze horas, uma aulas inesquecíveis sobre ruas e trânsito, com direito a teste de múltipla escolha no final. O professor não tinha didática e falava muito depressa. Não entendi nada. Merecia ser multado por excesso de velocidade.

Vemos coisas cada vez mais interessantes nas ruas. Noutro dia, passei por um carro, que trazia escrito no vidro traseiro:

— “Cuidado! Neste carro viaja um anjo — Rodrigo”.

Era impossível não ler, pois as palavras dominavam quase todo o vidro. Calculei que o anjo tivesse só alguns meses de vida. Usaria fraldas, certamente. Choraria esgoeladamente pelas razões mais elevadas: de uma pífia vontade de comer a uma pungente dor de barriga. O bebê Rodrigo, projetado desde a concepção para o exibicionismo e a vanglória, já nasceu público, e em público — a ou seja, nas nossas ruas infestadas de carros — deverá encenar os principais atos de sua comédia humana, de pedestre temeroso a motorista insolente.

Enfim, o excesso de carros por quilômetro quadrado acabou arruinando a nossa velha e tranquila cidade. “Bom é onde não estamos”, diz um velho ditado russo. Juro que é para lá que eu gostaria de ir — mas, certamente, não de carro.

 

 

29/01/2014. P: O Inferno é aqui mesmo, como garante um título de romance brasileiro contemporâneo?

R: Não é aqui, mas pode perfeitamente começar aqui; e de fato começa. Quando? Quando a pessoa opta por ir, servilmente, no caminho dos sete vícios capitais: gula, luxúria, avareza, ira, vaidade, inveja, preguiça. Sete que, na verdade, são oito, se incluímos a soberba, que Santo Tomás de Aquino considerava a fonte dos outros sete, a raiz de todos os males.

A soberba é a divinização de si mesmo, que o maluco Nietzsche, o pensador mais querido da universidade, elevou à triste condição de doutrina filosófica. Lembremos que o primeiro pecado da humanidade não foi só a desobediência, que serviu de veículo a uma falta muito mais grave, a soberba, pela qual nossos primeiros pais, sob inspiração demoníaca, pretenderam ser deuses como o próprio Deus.

Dizem que a principal astúcia do demônio é convencer o homem de que o demônio não existe. Mas, logo atrás, vem a sua segunda grande esperteza: instilar no mísero ser humano o desejo de ser o que jamais poderá ser, ou seja, Deus.

O historiador inglês Paul Johnson, em sua recente biografia de Jesus, imagina o demônio assediando o homem moderno, permanentemente seduzido pela ciência e a tecnologia: “Se prostrado me adorares, tudo isto te darei: a compreensão do universo pela física e a matemática; a explicação do corpo humano pela evolução darwiniana e a estrutura cromossômica. Quando o teu conhecimento superar a tua bondade e renunciares às coisas do espírito, enxergarás com a maior clareza todos os segredos do universo. Terás, então, o controle dos elementos muito mais que o próprio Deus.

Teimoso, o inimigo tentou o próprio Cristo, quando após o batismo saiu para jejuar no deserto. “Subiu o diabo a um monte muito alto e Lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a gloria deles, e Lhe disse: Tudo isto Te darei, se prostrado me adorares.” (Mateus, IV,8)

Quem vai para o Inferno? Ninguém sabe. São as pessoas que escolhem esse deplorável destino, ao recusar as leis de Deus. Segundo a sábia doutrina da Igreja, o Pai não manda ninguém ao Inferno. Nunca ela se atreveu a nomear um único homem que para lá tenha ido. O mau ladrão? Nero? Stalin? Hitler? Ninguém sabe. Para lá irá o chefe dos mensaleiros do PT, junto com Fidel Castro? Ninguém sabe. Tomara que se salvem a tempo, e eu com eles...

O amor a Deus não pode ser medido pela quantidade de vezes que Seu santo nome é dito ou pensado por alguém, mas pela obediência concreta às suas palavras. Quantas vezes, jurando crer em Deus, as pessoas não roubam, não mentem, não traem, não abortam, não afrontam os pais, não desejam o sucesso e a mulher do próximo, não vão para a cama com parceiros do mesmo sexo?

Pouco adianta crer em Deus, se o mesmo pacote não incluir uma fé muito firme no Cristo. A primeira providência a tomar, para garantir uma vaga no Inferno, é negar a Jesus a condição de verdadeiro Deus, além de verdadeiro homem. Os que creem em Sua divindade, ao contrário, buscarão seguir o Seu caminho, obedecer a Sua verdade e imitar a Sua vida. Deus pai, que podia ter escolhido outra via para nossa salvação, preferiu a encarnação do Filho, para que a divindade deixasse de ser impalpável e invisível, podendo ser tocada por todos, vista por todos, seguida por todos, imitada por todos. Os que creem em Cristo Deus, pensarão duas vezes antes do divórcio, do aborto, da pornografia, do casamento gay e de sintonizar as novelas da Globo.

Sem o Inferno, a rigorosa agenda da moral cristã não poderia ser cumprida. O Inferno é de uma lógica irrefutável. Quando Deus, através de Cristo, revelou plenamente à humanidade o que Ele esperava de cada um de nós, o tipo de vida que gostaria que vivêssemos, decidiu, em sua infinita sabedoria, pela criação do Inferno. Como discutir com Ele? Fez e está feito, doa a quem doer. Basta admitir, humildemente, que Ele sempre sabe o que faz, e nós quase nunca...

A moral cristã é o mais perfeito e rigoroso programa de vida virtuosa que existe, ao alcance de nossas mãos e, ao mesmo tempo, delas escapando-se, aparentemente como no suplício de Tântalo, personagem da mitologia grega que foi condenado a passar sede ao lado da fonte, e fome próximo à macieira; quando se aproximava, a água sumia e os galhos se alçavam.

Mas podemos reescrever, pela ótica cristã, a fábula grega. E a diferença é que, no cristianismo, a água e as maçãs nunca seriam recusadas por Deus. Deus não brinca em serviço, como os falsos deuses da mitologia. Tântalo, embora cego, um dia poderia encontrar a fonte e matar a sede; a macieira, e matar a fome.

Sem o Inferno, nosso Tântalo cristão cruzaria os braços.

 

 

22/01/2014. P: Voltemos a Medjugorje. Já leu as mensagens da Gospa, que os videntes parecem receber às pencas?

R: Quando é copioso o pecado, sobeja a graça... Que época já foi mais necessitada do que a nossa? A Virgem Santíssima, nestes trinta e dois anos de aparições em Medjugorje, deixou milhares de mensagens aos seis videntes, que eram quase crianças em 1981, quando tudo começou, e hoje são respeitáveis cidadãos da Bósnia-Herzegovina: Ivan, Jakov, Ivanka, Viscka, Marja e Mirjana.

As mensagens são breves; o seu conteúdo é singela e maravilhosamente evangélico. Já é material suficiente para um livro, ao contrário das famosas aparições do século XIX e início do século XX — em Paris, Lourdes, La Salette, Fátima —, em que Nossa Senhora era parcimoniosa em seus recados (curtos e grossos, diríamos em português pouco eclesial). Como as aparições continuam, é um livro aberto, work in progress, como diria o escritor James Joyce, o que levou muita gente maldosa a incluir a Rainha da Paz na categoria pouco lisonjeira das tagarelas.

A Igreja não obriga ninguém a crer em revelações pós-evangélicas. O pacote da nossa fé foi lacrado com o último livro do Novo Testamento, o Apocalipse joanino, durante os primeiros séculos do cristianismo, quando a Igreja Católica bateu o martelo e decidiu quais seriam os livros canônicos da Bíblia, aceitos em sua maioria até pelos teimosos protestantes.

O próprio Papa Francisco, em duas homilias na Casa Santa Marta, tratou com ironia o que chamou de cristãos revelacionistas, que tendem a acreditar na primeira pessoa que jura, de pés juntos, ter visto a Virgem Maria. Disse o Santo Padre em uma delas:

— Nossa Senhora não é empregada dos Correios, para viver trazendo mensagens diárias!

Com a internet, o fenômeno tende a alastrar-se. O polpudo Dicionário da aparições da Virgem Maria, do padre francês René Laurentin, publicado em 2007, dedica pelo menos um terço de suas quase mil e quinhentas páginas às “aparições” mais recentes, boa parte das quais absolutamente inconvincentes e recusadas pelos bispos locais.

Embora o Papa não tenha feito nenhuma menção à Rainha da Paz, alguns devotos mais ciumentos de Medjugorje não gostaram e reagiram pela rede. No entanto, entre as duas homilias polêmicas, houve um fato auspicioso: em 13 de outubro do ano passado, quando na Praça de São Pedro consagrou solenemente o mundo ao Imaculado Coração de Maria, o Pontífice tratou como visita quase protocolar o grupo de paroquianos de Medjugorje, que tiveram assento junto aos representantes dos santuários marianos já reconhecidos pela Igreja. Não é pouca coisa.

Não deve espantar o fato de Medjugorje ainda aguardar pelo reconhecimento oficial da Igreja: é regra antiga da Santa Sé não aprovar aparições ainda em curso, como é o caso em questão. Sente-se ela, no entanto, no dever pastoral de custodiar à distância esse acontecimento, que é “o principal acontecimento do século XX”, nas palavras de padre Livio Fanzaga, defensor entusiasta de Medjugorje e uma das maiores autoridades italianas no assunto, sobre o qual escreveu vários livros.

Enfim, o imprevisível Francisco é contra ou a favor de Medjugorje? Conheceremos em breve a sua posição. Há duas semanas, no dia 15 de janeiro, concluiu oficialmente os seus trabalhos a Comissão Internacional de Investigação sobre Medjugorje, instituída em 2010 por Bento XVI e presidida pelo Cardeal Camillo Ruini. Além da aparições, o dossiê sobre a cidade balcânica compreende interrogatórios com os videntes e suas testemunhas, as centenas de processos com curas milagrosas, as conversões em massa, além de um impressionante poder de inspirar padres do mundo inteiro, que, acompanhando peregrinações de paroquianos, voltam às suas cidades ao mesmo tempo que retornam à ortodoxia católica, estimulando confissões mensais, celebrando missas diárias, recomendando a reza diária do Santo Rosário, além da prática do jejum a pão e água duas vezes por semana — que os inimigos da Igreja, dentro e fora dela, logo classificam como lamentável retrocesso à Idade Média.

 

 

15/01/2014. P: Há uma heresia cristã, muito antiga, que continua atualíssima: é o pelagianismo. O que vem a ser isto?

R: Tudo começou com o monge Pelágio, provavelmente originário da Grã Bretanha, que viveu entre os séculos IV e V e foi contemporâneo de Santo Agostinho, seu principal adversário. Pelágio defendia a tese, ainda sedutora para as mentes de hoje, segundo a qual o homem poderia salvar-se sozinho, sem a ajuda de Deus, mais confiante na vontade humana do que no poder da graça divina. Essa exagerada autoconfiança provinha de sua negação do pecado original, que anulava completamente o sentido redentor do sacrifício de Jesus no Calvário. Quando desaparece a crença no pecado original — essa tendência demoníaca de todos os homens para o mal —, tudo no mundo passa a ser visto como simples defeito de fabricação, corrigível pela ciência e a tecnologia.

Nos tempos modernos, essa autossuficiência pelagiana provocou pelo menos dois efeitos danosos. O primeiro foi a progressiva descristianização do mundo ocidental, sobretudo após a Revolução Francesa, atingindo seu ponto máximo com o fascismo, o nazismo e as revoluções marxistas do século XX, dos quais brotou, como planta espúria, o relativismo moral dos nossos dias.

O segundo efeito negativo foi dentro do próprio catolicismo. Esse neopelagianismo acaba por tornar inócuo o magistério da Igreja, e seus dogmas e artigos de fé são vistos como farisaísmo ultrapassado. É responsável pela transformação de muitas paróquias em ongs beneficentes, valorizando-se mais um prato de comida do que as devoções tradicionais, quando as duas coisas são igualmente importantes. Já dizia o escritor William Faulkner que a fome mais terrível não era a do estômago, mas a do coração.

Não são poucos, hoje em dia, os padres e religiosos que acreditam mais na eficácia da ação política do que no poder da oração. O estigmatizado São Padre Pio de Pietrelcina, provavelmente o maior santo do século XX, sabia conciliar as duas dimensões: enquanto curava as almas ou intermediava milagres espantosos nos corpos dos seus penitentes, construiu no sul da Itália o grande hospital de São Giovanni Rotondo, destinado aos pobres. O mesmo fez seu conterrâneo Giuseppe Moscati, canonizado por João Paulo II em 1987, professor de cardiologia na Universidade de Nápoles e médico generoso dos miseráveis.

As consequências do pelagianismo são nefastas para a fé, e as erosões provocadas já podem ser vistas a olho nu.  A Eucaristia deixa de ser presença real de Cristo no pão santificado, e se reveste de um sentido meramente simbólico, quando não mágico. Se o Inferno existe, estaria ardentemente vazio, pois a misericórdia divina seria superior à Sua justiça; Deus não passaria de um professor bonachão de escola pública, adepto da progressão automática. Número significativo de católicos até já crê na velha reencarnação pagã — quem não conhece um “espiritólico”? —, que nos daria inúmeras chances de aperfeiçoamento moral nos sucessivos downloads das velhas almas nos novos corpos. Enfim, todo homem de boa vontade seria cristão sem o saber e já estaria automaticamente salvo. É a famosa teoria do “cristão anônimo”, do jesuíta alemão Karl Rahner, mais discípulo do filósofo Martim Heidegger que do Deus que se fez homem e habitou entre nós.

Com o pelagianismo, a vida cristã deixa de significar busca de santidade e se converte num mero exercício de cidadania, com suas “inclusões” e “exclusões” (palavrinhas postas em circulação por neomarxistas franceses). Privilegia-se o cumprimento de regras morais recicladas, em cada época, ao sabor da vontade humana, enquanto o velho Decálogo é jogado na lata de lixo da História. Não será de estranhar se, em breve, voltar entre nós a prática do martírio (atualmente, restrito a países muçulmanos) para cristãos que se obstinarem a adorar a segunda pessoa da Trindade. Bento XVI, que foi serrado em fatias por estudantes no pátio da PUC paulistana, chegou a falar em “martírio branco”, que é o linchamento moral dos católicos, num mundo que deseja eliminar os valores inegociáveis do cristianismo (defesa da vida em todas as suas fases, defesa da heterossexualidade do casamento e sua indissolubilidade, defesa da soberania do indivíduo contra as intromissões do Estado totalitário).

A literatura moderna, da Renascença aos nossos dias, é farta de personagens que experimentaram essa busca de salvação autossuficiente, sem a ajuda de Deus; e todos eles, sem exceção, falharam no ponto principal do percurso. A luta contra os vícios capitais, sem o Cristo como aliado, está condenada à derrota. Leia “Hamlet”, de Shakespeare, “Crime e castigo”, de Dostoiévski, “Madame Bovary”, de Flaubert ou “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, para certificar-se desta incômoda verdade.

 

 

08/01/2014. P: O nazismo não foi pior que o comunismo?

R: Os dois foram males tremendos. Mas, veja bem, o nazismo pelo menos mostrava o seu rosto normal, de Charles Bronson; o comunismo, ao contrário, posava de John Ford, e não era nada disso. Em 1956, o mundo descobriu que o ex-seminarista Stalin era na verdade o mais cruel açougueiro da Europa, do qual Trotski e Lenin não ficavam atrás. Há fartíssima bibliografia a respeito.

Mas tudo isso não era por acaso: o próprio ateísmo marxista autorizava, maquiavelicamente, aquele tipo de atrocidades. É moralmente necessário admitir a existência de Deus, diziam os filósofos, pois se Deus não existe (completava Dostoievski) tudo é permitido. Ora, desde sempre, mas sobretudo a partir do Decálogo mosaico, as ações humanas são dividas em aceitáveis ou não.

O comunismo sempre foi um animal de duas caras, uma espécie de Jano político. Sua ideia de igualdade tinha um pé no cristianismo e agradava a todos os que tinham sede de justiça, mas o preço desse igualitarismo era impor as virtudes da justiça e da caridade na marra, sem margem para o indivíduo escolher entre o bem e o mal, coisa que o capitalismo, com todos os seus vícios terríveis, ainda permitia. 

Como diz o Olavo em seu recente livro contra a idiotismo cultural, um empresário desonesto, que dá emprego a cem ou quinhentos chefes de família, será sempre mais benéfico à sociedade do que um Fidel Castro.

 

 

07/01/2014. P: O comunismo é um filho espúrio da Igreja?

R: O verdadeiro comunismo é a “comunhão dos santos”, um dos principais dogmas católicos. Vejamos o problema do sacrifício, sobretudo quando ele se transforma em auto-sacrifício — ou porque gerado espontaneamente da pessoa, ou por conscientemente aceito pelos que o padecem.

Quando uma jovem oferecia ao Criador o que de mais precioso podia ter — a  virgindade —, doação que a privaria da principal razão de ser da mulher neste mundo — ser mãe —, Deus ficava muito feliz. Mas, como Ele não precisa de nada do que venha das criaturas, dos “servos inúteis” da parábola evangélica, a transferia imediatamente para uma espécie de patrimônio comum, algo como um Banco místico, à disposição dos que necessitassem de um “empréstimo” sobrenatural.

Nossos sacrifícios, penitências e sofrimentos são doados a esse Banco da Comunhão dos Santos, que os repassa, por ação do Espírito Santo, aos necessitados da Igreja peregrina pelos caminhos deste mundo e da Igreja penitente por entre as névoas do Purgatório.

 

 

06/01/2014. Uma jovem universitária, no facebook, disse que odeia Olavo de Carvalho...

R: Como bom católico, Olavo poderia dizer: “Pois eu te amo, garota. Apesar de tudo o que você diz ou pensa.” Só não o faz, acredito eu, pelo risco de ser processado por assédio sexual.

 

 

02/01/2014. P: Como passou a noite de ontem?

R: Cuidando do cachorro. O foguetório da passagem de ano humilhou o meu velho cão de guarda, que queria esconder-se sob a mesa da cozinha. Mudei de ano consolando-o; portanto, praticando a caridade. Depois saí no quintal para ver os fogos de artifício, que tinham lá, inegavelmente, uma certa beleza. Mas fiquei triste, ao perceber o desperdício de tudo aquilo que, em vez de ser oferecido a Deus, principal artífice de todos os anos novos, era lançado ao acaso do céu, oferecido aos deuses das nossas mais minúsculas e humanas expectativas. Ficamos festivamente despertos, na entrada do ano novo, na esperança de que o sentimento do início possa dar o tom para o resto do ano. Eis o verdadeiro sentido dessa estúpida comemoração.

 

 

ALGUNS ENSAIOS & RESENHAS

 

A pequena revolução niilista de Manoel de Barros

 

Georges Bernanos de volta ao Brasil

 

Em defessa do melhor abandonado

 

Notas sobre o politicamente correto

 

O Brasil dos anos 30

 

Os exumadores do Qorpo

 

Pequena introdução a um grande romance

 

Herberto Sales sem retoques nem berloques

 

Há cinquenta anos partia-se o espelho

 

Bóris e dores

 

As últimas crônicas de Otto Lara Resende

 

Octávio de Faria

 

Um amigo brasileiro de Borges

 

Civilização do uai

 

Amigos e inimigos do Carpeaux

 

Mário Quintana completo

 

 

 

CONSAGRO-VOS A MINHA LÍNGUA

Romance de José Carlos Zamboni

 Editora É Realizações

 

 

jc.zamboni@hotmail.com