A LITERATURA COMO FORMA DE RESISTÊNCIA – Daniel McInerny

OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima
08/03/2018

A LITERATURA COMO FORMA DE RESISTÊNCIA – Daniel McInerny

As coisas parecem que vão muito mal, e é difícil ver como poderiam melhorar. Muitas são as causas do nosso mal-estar cultural: a deterioração da vida familiar; a redefinição da instituição do casamento; ameaças à liberdade religiosa. As escolas, em diferentes níveis de ensino, estão escolhendo a caverna em vez da luz. Estamos sofrendo na espinhosa cama das ideologias secularistas.

Mas quantas pessoas descreveram nossa crise cultural como uma crise literária, uma crise da imaginação? Suspeito que não muitas. A própria ideia soa estéril, periférica, para não dizer livresca.

Contudo, este é o apelo enfático do bispo James D. Conley, da Diocese de Lincoln, Nebraska. Uma recente palestra do Bispo Conley, “Ubi Amor, Ibi Oculus: O papel da beleza na Nova Evangelização”, e seu artigo “Sursum Corda: 10 Sugestões para revitalizar a imaginação literária”, oferecem um sábio e refrescante diagnóstico cultural, que merece a nossa atenção e nosso cuidado.

O Bispo compreende que colocar o foco na literatura, no atual contexto, bateria de frente com as expectativas mais sensatas. Até admite ser questionado se isso não seria perda de tempo, e se não seria melhor empregar nossas energias em esforços políticos.

Sem negar a importância dos políticos, o bispo retruca que uma boa política pública “nasce de boas cabeças e bons corações”, e é a literatura que, mais diretamente, chega à mente e ao coração. Um bom resultado na arena política, em outras palavras, dependeria em parte de sucesso na remodelação da personalidade pela experiência de leitura das obras literárias.

O Bispo Conley reconhece, também, que toda crise cultural é, no fundo, uma crise espiritual, uma crise de santidade. Observou que “aqueles, entre nós, que desejam empreender uma renovação da cultura cristã, no mundo atual, devem começar de joelhos, rezando”. “No entanto nós, educados na grande tradição da mentalidade clássica, também devemos começar com livros nas mãos.”

O que o Bispo Conley entende precisamente por literatura, e como, precisamente, a literatura trabalharia para formar corações e mentes, de acordo com a verdade?

A julgar pela relação de obras que discute, o bispo compreende “literatura” de forma muito genérica, incluindo obras de filosofia e teologia. Mas seu interesse não se restringe a obras de argumentação abstrata, nem aos clássicos da espiritualidade. O foco central do Bispo Conley são as obras de imaginação, ou seja, ficção, drama e poesia narrativa.

Entre os itens de uma lista com sugestões de leitura, incluiu a Odisseia, de Homero; as obras de Dante, Chaucer e Cervantes; as peças de Shakespeare; os romances de Charles Dickens; Os noivos de Alessandro Manzoni (um dos favoritos do atual Pontífice); e os produtos do Renascimento Literário Anglo-Católico, em particular as obras do Cardeal Newman, Chesterton, Belloc, Tolkien, Graham Greene e Evelyn Waugh.

Como o encontro com semelhantes obras poderia nos formar? O que ocorre quando “vivemos” no mundo de uma grande obra de imaginação literária?

Tudo começa com o fato de que nós, seres humanos, enquanto espíritos encarnados, nos comprometemos antes de tudo através dos sentidos. Fomos feitos para a verdade, para a compreensão mental da essência das coisas. Mas não conseguimos chegar à essência das coisas, incluindo a essência de Deus, exceto pela sondagem cuidadosa do mundo da matéria.

Se você quer conhecer a essência do casamento, deve sair e olhar para os casamentos bem sucedidos. Se quer conhecer a essência de Deus, e não dispõe de experiências místicas, então deve sair e experimentar, com os cinco sentidos, o grandioso mundo que Ele criou.

A imaginação é uma faculdade fascinante, que nos ajuda a construir uma ponte entre o mundo sensorial e o mundo conceitual. Uma grande obra literária é uma espécie de híbrido, que nos fornece todos os detalhes sensíveis que nossa natureza pode desejar para o conhecimento do mundo, ao lado das ideias e da essência das coisas, que nos ajudam a dar sentido ao mundo.

Assim como o ser humano, uma grande obra literária é um espírito encarnado, uma expressão da verdade revestida de imagens, que reflete o nosso mundo concreto. Por isso é que a grande literatura, para os seres humanos, é um caminho bastante adequado à verdade, no mesmo nível da filosofia e da teologia. Estas últimas disciplinas, de certa forma, alçam-nos para longe de nossa existência aqui nesse mundo contingente e efêmero, enquanto a literatura nele nos imerge – embora não sem uma verdade orientadora que ilumine o nosso caminho.

Temos a tendência de pensar a literatura como coisa superficial e secundária, exatamente porque esquecemos que ela fornece a verdade. Creio que estamos bem cientes disto — que ela fornece a verdade —, quando lemos um romance ou vamos ver uma peça ou um filme. Não vemos nenhum problema, quando falamos sobre um enredo ou um conjunto de personagens, em admitir se é “verdadeiro” ou não em relação à vida (e, portanto, “verossímil”).

Quando, porém, estamos no meio de nossas batalhas culturais, muito frequentemente essa compreensão desaparece. Começamos a pensar, quando nos debruçamos sobre esse assunto de forma mais ampla, que a literatura e as outras artes não pegam pesado o suficiente. Que elas não argumentam. Que elas não persuadem. Que elas não convertem. Como, então, elas poderiam ser úteis?

A verdade, porém, é que a literatura argumenta, persuade e converte. Como? Oferecendo-nos quadros do ser humano em ação, dos seres humanos à procura da felicidade para a qual foram criados.

Em resumo, o modo pelo qual um autor trabalha essa procura imaginária da felicidade, acaba por produzir uma tese sobre o que deveria ser tal felicidade. E porque essa argumentação está revestida de imagens, nós, como espíritos encarnados, de algum modo nos deixamos atrair por ela ou a rejeitamos.

Formação dos bons hábitos de gosto e rejeição — eis o que não seria uma má definição de educação, a educação do caráter (e que, segundo o Bispo Conley, também poderia ser a nossa, se nos apaixonamos pela boa literatura).

Na época em que vivemos, isto significa que um clube de leitura pode ser uma instituição mais vital do que uma organização política. (05/06/2015)

https://www.thecatholicthing.org/2015/06/05/literature-as-a-form-of-resistance/