OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima

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08/03/2018
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OCTAVIO DE FARIA E CORNÉLIO PENA – Alceu de Amoroso Lima

No tempo de Júlio Diniz e de Machado de Assis, de que nos ocupamos nas crônicas passadas, o romance ainda era a exceção. Hoje, é a regra. Em Portugal o autor da Morgadinha dos Canaviais sucedia a Camilo Castelo Branco e era sucedido por Eça de Queiroz. Cada um a seu tempo, tranquilamente, enchendo a sua época, quase solitários. No Brasil, contavam-se a dedo os romancistas. José de Alencar sucedia a Macedo, como Machado sucedia a José de Alencar. Em torno deles, figuras menores e escassas. Havia como que uma corte literária: um rei e alguns vassalos, de maior ou menor nobreza de brasões. Tudo simples e ainda provinciano. Largos espaços de sombra marcavam os intervalos entre os poucos romancistas que surgiam. E o âmbito de sua repercussão era diminuto.

Hoje, como tudo mudou! Sucedem-se os romances a dois, três e quatro por mês. Vêm do norte e do sul, do litoral e do sertão. Chegam carregados de pensamento ou estuantes de sensualidade. Descem das classes mais elevadas ou sobem do povo inculto. Ultrapassam em realismo tudo o que as imaginações mais depravadas de outrora podiam sequer imaginar (e são desgraçadamente a regra), ou excedem em delicadeza de expressão tudo o que a pena mais casta poderia desejar. Refletem os dramas sociais mais modernos ou evocam o passado histórico ou mesmo pré-histórico da humanidade. Mergulham em pleno nacionalismo literário, procurando febrilmente a expressão original, a língua nova, as figuras regionais, ou populares mais autênticas — ou se espraiam pelo cosmopolitismo de uma terra cada vez mais pequena e mais dividida contra si mesma ou então pelo humanismo em que se revê a figura do homem eterno e universal.

Todos os gêneros coexistem e todas as originalidades individuais se lançam à procura da expressão mais nova e mais aguda. Surgem romancistas novos cada mês, cada semana quase. Os editores não têm mãos a medir e podem selecionar os manuscritos, sem temor de não servir, a tempo e a hora, a curiosidade insaciável de um público que devora toneladas de papel impresso indistintamente, desde que tenham na capa a palavra mágica — “romance” .

Se o consumo, no mercado da ficção, cresce de modo geométrico, não há que temer qualquer espécie de maltusianismo literário, por parte da produção, que não cresce de modo aritmético, mas em proporções de uma geometria não euclidiana.

Estou longe, aliás, de ser pessimista quanto à qualidade dessa massa de romances que ultimamente vêm invadindo as vitrines das livrarias e as nossas estantes. Não sei mesmo de ano literário que possa apresentar tal soma de romances dignos de ser lidos, como este que ora está para findar. Se o romance foi o gênero literário triunfante em 1939, pela preferência tanto de autores como de público, foi também porventura aquele em que obras de melhor quilate vieram a lume. José Vieira, Telmo Vergara, Dinah Silveira de Queiroz, Guilherme Figueiredo, Guilhermino Cesar, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Galeão Coutinho, Lúcia Miguel Pereira, Menotti dei Picchia. Érico Veríssimo, Vianna Moog, “et j’en passe”, se nos deram novelas ou romances de valor desigual, algumas das quais pouco ou nada serão daqui a alguns anos — também nos deixaram algumas obras que ficarão entre as coisas mais sérias de nossas letras de hoje e mesmo de sempre.

Entre esses romancistas, cuja mensagem é das que ficam e não das que apenas encantam de passagem nossa imaginação, dois já se impuseram de modo imperativo às exigências mais difíceis do nosso paladar saturado de hoje em dia — os senhores Cornélio Pena e Octavio de Faria.

Há, entre os dois, grandes afinidades. E há também rigorosas diferenças específicas. São ambos romancistas do Mistério, da Solidão e da Morte. Mas um é prolixo e o outro conciso. Um pretende refletir, como Balzac ou Proust, uma geração e uma época. O outro, pelo contrário, vem trazer-nos o drama das consciências profundas e totalmente isoladas do seu meio e do seu tempo.

A obra que nos oferece o autor de Maquiavel e o Brasil é o segundo volume da sua Tragédia Burguesa e a segunda parte de Mundos Mortos com que há um ano iniciara o seu “roman fleuve” (Octávio de Faria, Os Caminhos da Vida, José Olympio, 1939). Muito jovem ainda, pois apenas ingressou na terceira década da existência, e tendo iniciado em 1933 sua carreira de publicista, já nos oferece entretanto vários prismas de uma personalidade literária inconfundível — sociólogo com Maquiavel e o Brasil (1931) e Destino do Socialismo (1933); crítico com o estudo sobre Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes ( Dois Poetas, 1935); homem de pensamento com Cristo e César (1937) e Fronteiras da Santidade (1939), revelou-se romancista com Mundos Mortos e homem de teatro com Três tragédias à sombra da Cruz (1939), de que há pouco nos ocupamos. Isso, fora o grande número de obras que nos promete nos gêneros já publicados. Foram, como vemos, seis anos de verdadeira incontinência literária. Tem-se a impressão de um rio cujas águas ficaram algum tempo represadas e que, de repente, rompeu as barreiras e extravazou violentamente por dentro e por fora do mesmo leito.

E o curioso é que essa incontinência literária, que carrega indistintamente o joio e o trigo, se manifesta, tal como a literatura cifrada e dirigida do sr. Cornélio Penna, por uma profunda ausência de “literatura”. Bem sei quanto é difícil graduar, na obra de um autor, os limites da intenção literária, mas se entendermos por intenção literária o propósito de simples divertimento, imaginação e descrição, adorno , ou exibição — é certo que não encontramos vestígio dessa deturpação do verdadeiro sentido da literatura na obra de qualquer um desses dois romancistas do pós-modernismo, em nossas letras. É mister, aliás, acrescentar que uma das feições típicas do romance atual é justamente essa ausência crescente de preocupação estética, que atinge por vezes o desleixo e a facilidade.

No caso do sr. Octavio de Faria logo se nota essa coexistência de um borbulhamento interior de impressões e conceitos, que procuram vazão com a inexistência de qualquer propósito de atitude, de conquista, ou mesmo de objetividade estética. Sua obra de romancista, de teatrólogo, de critico ou de sociólogo se passa exclusivamente (ou aspira a passar) no plano da Verdade. Pode-se mesmo dizer que só a Verdade o interessa. E como ainda não a encontrou ou, antes, perdeu-a e ainda não conseguiu descobrir o caminho de volta — debate-se violentamente contra tudo e contra todos que possam, de qualquer modo, afastá-lo desse único e supremo objetivo. Daí o caráter trágico ou mesmo pessimista de sua obra de romancista, de político ou de publicista. É em tudo um antiburguês, um anticonformista. Daí também a sua preocupação pelo problema da santidade, de que oportunamente nos ocuparemos, mesmo sem ter resolvido os problemas políticos, sociais ou literários que a vida tem desdobrado em seu caminho.

Não se conforma com as meias verdades, a meia beleza, a meia honestidade, a meia autoridade, essa mediocridade normal da vida que é a maior das armas com que o Demônio combate a lei de Deus. Seu amor simultâneo a Cristo e a Cesar, que a muitos pode inquietar ou parecer uma traição (aos cesaristas uma traição a Cesar, aos cristãos uma traição a Cristo), e que ele procurou sustentar dramaticamente, como tudo que escreve (pois é sempre dramático e polêmico) — é uma das modalidades da sua revolta perene contra essa terrível desdignificação do homem, com que a vida vai polindo as arestas mais vivas. O sr. Octavio de Faria, longe de deixar que as ondas da idade venham polir as arestas dos seus rochedos interiores, reage sempre e procura mesmo violentar-se, contanto que possa aguçar, com isso, a sua cidadela intangível ou “intocável”, segundo um dos termos que só ele usa e que sempre voltam em seu estilo, tantas vezes descuidado e deselegante. Não “à dessein”, como faria um esteta requintado, mas pelo acúmulo de águas interiores que o rio tem de desaguar constantemente.

O autor do Destino do Socialismo começou por dois livros de violenta realidade política e de realismo sociológico desabusado. Em face do grande júbilo dos “homens de ação”, que já festejavam o aparecimento de um “homem”, na novissima geração — lançou o seu “non possum” e firmou-se no seu terreno puramente intelectual. Essa incapacidade congênita para a ação talvez lhe proviesse, não apenas de um temperamento totalmente introvertido, mas ainda de sua sede de absoluto, de sua insatisfação pelas meias-realizações que a ação exige, mormente num meio conformista e complacente como o meio brasileiro. Sentindo fechadas, por natureza, as suas comunicações como esse campo de ação, que tanto amava de longe, por ser aquele em que a vida mais se realiza em seu vigor indomável, jogou-se então no romance como um refúgio. Era uma tribuna mais ampla para proclamar, de dentro de sua aparente misantropia intratável, o seu doloroso amor pelos homens, pela tragédia dos homens. E começou então a escrever a tragédia de sua classe, a tragédia burguesa.

Em Mundos mortos era o drama da adolescência, como também Os caminhos da vida, em que volta à infância por vezes, e por vezes começa a invadir o limiar da mocidade. As figuras de Branco e Pedro Borges Borges, que haviam surgido pouco a pouco da penumbra dos adolescentes indistintos de Mundos Mortos e tinham chegado à luta corporal à saída do enterro de Carlos Eduardo — voltam a ser as figuras centrais de Os caminhos da vida. Carlos Eduardo fora o anjo que Branco venerava, na sua eterna procura do absoluto e da pureza, nesse “angelismo” que nos tortura antes de encontrarmos a Deus. Branco, em que tantos traços autobiográficos repontam, é a busca ansiosa da verdade, o homem interior, sensível, delicado, ferido pela brutalidade e pela vulgaridade do mundo. Pedro Borges, ao contrário, é o adolescente convencional e vulgar de nossos dias, ávido de conquistas, brutal, fescenino, desabusado, imperioso e vitorioso na luta de ódios, espertezas e instintos que a vida nos reserva.

A luta entre os dois prossegue em nós, através desses novos tomos do romance. E é toda a vida interior e exterior da adolescência que continua a projetar-se ao longo dessas páginas estuantes de vida, de sofrimento, de experiência, de desespero tantas vezes, e muito vagamente ainda dessa esperança transcendental, desse apelo a Deus, dessa vocação divina que ilumina de longe as trevas duríssimas dessa vida angustiada de Branco e que, só ela, pode satisfazer essa alma toda cheia da grandeza e da miséria do ser humano.

Literalmente, o que me parece mais forte no livro é o episódio de “Geralda ou o ninho entre os astros”, no qual o autor nos apresenta um verdadeiro poema dos olhos, do Olhar, desse sentido do contato dos tímidos com as coisas do mundo, que Machado de Assis multiplicou em sua obra e culminou no famoso episódio do penteado de Capitu. O prelúdio de Tristão e Isolda, em que o tema do olhar, antes, durante e depois do filtro, nos envolve em suas chamas de modo aniquilador, é a música que conviria ouvir para lermos alto as páginas em que Branco faz Geralda “nascer” sob as chamas concentradas, ardentes e distantes dos seus olhos.

* * *

Na capa com que Santa Rosa ilustrou o segundo romance do Sr. Cornélio Penna ainda é a angústia de um olhar que nos envolve, desse olhar aflito de náufrago que Nico Horta passeou pelo mundo, que não o compreendeu nem foi por ele compreendido.

Se o Mistério é um aspecto da obra do Sr. Octavio de Faria, é, por assim dizer, toda a obra do Sr. Cornélio Penna. Não o mistério convencional, artificial, arranjado e insincero dos romancistas de efeito, hábeis em sua arte de divertir leitores — mas o Mistério como o próprio sentido profundo da vida. Já em Fronteira rompera categoricamente o Sr. Cornélio Penna com toda a verossimilhança e com todo o realismo vulgar ou psicológico, que por tanto tempo dominara nossos romances. Afirmava-se ali como uma expressão brasileira dessa família universal dos Hölderlin ou dos Gérard de Nerval, dos Edgard Poe ou das Emily Bronte, que nos transportam constantemente dos limites da realidade às fronteiras da lucidez, a esses extremos em que a natureza toca o seu próprio esgotamento e onde começa o desconhecido, o impenetrável, o invisível e mesmo o mistério da Loucura. Tudo isso, em literatura, ou é detestável e ridículo, quando simples efeito teatral ou “espírita”, ou então é formidável, quando expressão de um conceito integral da vida, que não se contenta com essa pobre verdade linear que alcançamos com a limitação dos nossos sentidos. Os dois romances do Sr. Cornélio Penna, este último aliás (Cornélio Penna, Dois romances de Nico Horta, José Olympio, 1939), muito mais perfeito que o primeiro, nos transportam desde as primeiras linhas a esse plano de realidade profunda que transcende a realidade vulgar.

Nico Horta é vítima de uma “incurável inaptidão para a realidade” (p. 255). O drama da Solidão, que é também o das personagens principais do Sr. Octávio de Faria, ele o vive em seu pobre destino, em sua incapacidade congênita de ser feliz. Filho de um pai que morreu louco, gêmeo de um irmão que parecia a própria expressão do vigor e da normalidade mental e, no entanto, seguiu bruscamente (como o deixa suspeitar o autor, pois a arte do Sr. Cornélio Penna é de nunca afirmar nada e deixar sempre os caminhos abertos às sugestões que apenas lança de leve e de passagem) seguiu bruscamente o caminho do pai. E ele, Nico, ele que tudo parecia levar à loucura franca — ficou apenas a meio caminho, passou a vida, sua vida humilde e trágica, curta e dolorosa, nos limites da razão, nessa zona terrível em que sentimos o mundo vacilar em seus fundamentos e perguntamos angustiados onde é o lado de cima e onde o lado de baixo das coisas… Nico Horta nunca o soube com segurança. E foi essa a dor que sempre o acompanhou. Ansiava pela existência sadia, forte, normal, serena, onde o viço da vida subisse naturalmente do solo ao caule e do caule à flor — e, no entanto, o tremendo fantasma da insatisfação, da dúvida, da negação o perseguiu sempre e lhe fechava sorrateiramente os caminhos em sua frente, a seiva em seu caule. E nunca chegava à Flor…

Tudo isso, que pode parecer apenas extravagância e ter aquela inaptidão do monstruoso à expressão literária superior, por ser apenas a exceção — tudo isso é de uma verdade, de um interesse, de uma vida que coloca o Sr. Cornélio Penna não apenas como um original, mas como um dos mais autênticos e sugestivos poetas do nosso romance. E digo poeta, não para o deslocar da verdade para a fantasia, mas para tentar dizer a qualidade delicadíssima de seus toques de verdade, que, embora muito para lá do realismo, nos dão da vida real uma imagem inesquecível, sugestiva e angustiante. E sempre em pequenos capítulos leves, sutis, concisos, de adjetivação extremamente feliz no seu imprevisto-simples, que é a negação do imprevisto-pomposo dos adjetivadores de profissão, por estética e figuração retórica.

É tão difícil aliás traduzir em linguagem crítica o ambiente e as personagens sem arestas do Sr. Cornélio Penna romancista, como é difícil explicar a sua pintura exclusivamente composta de arestas. Muito mais artista do que o Sr. Octavio de Faria, tem o segredo dos entretons, das alusões sugestivas, da linguagem em forma de eco, das figuras misteriosas e trancadas, dos segredos que vão para o túmulo irrevelados, e acima de tudo dessa aura de ilimitação e de incompreensão de todas as coisas, das paisagens como das pessoas, dos acontecimentos como dos pensamentos, que fazem de seus livros qualquer coisa de inconfundível, de delirante, e, ao mesmo tempo, de paradoxalmente verdadeiro. É o contraste perene, a luta e a nostalgia, entre a complexidade infinita do homem e a infinita simplicidade de Deus.

Tanto no caso do Sr. Octávio de Faria como no do Sr. Cornélio Penna, estamos no extremo oposto ao do romance como simples matéria de expressão estética, social ou psicológica. Estamos em cheio no cerne da vida, no âmago da amarga expiação da Queda.

O Jornal – 14 de Janeiro de 1940