POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 2

POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 1
08/03/2018
POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 3
08/03/2018

POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 2

MAURIAC E SEUS CRÍTICOS – Gustavo Corção

Há alguns meses Otto Maria Carpeaux publicou no livro “Origens e Fins” um ensaio intitulado “Mauriac?”. O presente estudo pretende responder àquela interrogativa, procurando, ao mesmo tempo, organizar e arrumar o que o ensaísta deixou em erro e desordem ao longo de 13 páginas. Devo notar que nesse meio tempo esse autor tem sido atacado de um modo quase sempre injusto e mesquinho. De todos os desvãos literários surgiram libelos, ironias, sarcasmos e injúrias contra o mesmo Carpeaux que poucos meses atrás desfrutava confortavelmente as inalações dos incensos em que nossa crítica é por vezes desperdiçada. Agora tornou-se alvo dos pequeninos dardos de papel com que alguns publicistas cruzam nossos ares intelectuais.

Geralmente esses ataques simultâneos têm lugar quando aparece algum autor que desagrade a todos com bravura; mas no caso presente eu penso que se passou justamente o contrário e que o sr. Otto Maria Carpeaux é atacado por todos os lados porque tentou agradar a todos os lados. E esse é o maior risco que corre um homem de letras.

Na verdade, depois de ter lido com atenção o seu estudo sobre Mauriac, eu conclui que o mais feroz adversário de Otto Maria Carpeaux é o próprio Otto Maria Carpeaux. Ele mesmo começou a desintegração de sua própria substância, com um método que chama dialético, e não admira que apareçam mil indivíduos dispostos a ajudá-lo nessa tarefa.

Devo declarar enfaticamente que nada tenho a ver com essa campanha e que não me apetece o fígado do infeliz ensaísta. O momento é mal escolhido para esse artigo, dado o risco da má companhia em que, por equívoco, me possam imaginar, com ressalva feita da companhia de Bernanos que considero altamente honrosa. O único problema que me interessa aqui é a “defesa da inteligência cristã”, servindo-me do título de um ótimo artigo publicado em número anterior desta revista por Alfredo Lage. Interessa-me defender um certo número de autores, não porque precisem de meu depoimento para aumento de renome, mas porque julgo sinceramente que nós precisamos do depoimento deles.

 O leitor permitir-me-á, espero, uma certa solenidade de tom para declarar que sou obrigado a essa atitude por um sentimento de responsabilidade. Essa é uma palavra bastante gasta; funciona freqüentemente sem que ocorra à mente que ela deriva de responder. Para nós esse verbo é extremamente grave porque sabemos perfeitamente que teremos que responder por cada artigo escrito e por cada palavra de cada artigo, não diante da história, vago personagem drapeado em pedra, mas diante de um Juiz. Nossa posição, por isso, não é muito cômoda, nem é grande o desembaraço de quem sabe que a palavra é a própria vida do espírito e partícula do Verbo eterno.

 A razão principal que hoje me obriga a analisar o trabalho do sr. Otto Maria Carpeaux está no fato de ser esse autor católico, se bem entendi sua declaração formulada de passagem nesse mesmo ensaio de Mauriac. Fossem outras as circunstâncias, outro o crítico, outro o criticado, não estivesse em jogo a nossa cultura, a nossa tradição, viesse aquele ensaio de outras penas irresponsáveis, pode crer o leitor d’ “A Ordem” que eu não perderia meu tempo e não tomaria o seu.

* * *

O sr. Otto Maria Carpeaux errou com uma abundância que dificulta materialmente a crítica. Hesitei se me demoraria sobre a obra de Mauriac; se me estenderia sobre o estranho juízo formulado sobre a casa e a família; se exigiria explicações sobre o que o autor entende por burguês; se pediria contas da idéia que faz do romance; se denunciaria o mal entendido que lançou sobre o Congregatio de Auxiliis Gratiae ou finalmente se advertiria esse escritor católico que não é bom fazer ironias com o sacramento da penitência. Cada um desses assuntos poderia se estender por muitas páginas; procurei não ser excessivo mas espero que a inevitável extensão deste estudo seja recebida pelo leitor como uma preocupação de acertar, e pelo sr. Otto Maria Carpeaux como uma homenagem.

* * *

Logo nas primeiras páginas do ensaio, depois de um gracejo que fere a unidade e, a meu ver, o bom gosto, pelo tom alto de indivíduo bem informado que tem pena de um “pobre amigo”, sai logo, incisivo e ditatorial, o primeiro decreto-lei do sr. Otto Maria Carpeaux sobre o grande romancista francês:

“Mauriac é fascinante. Todos se sentem fascinados por ele, todos os leitores de romances, e sobretudo as senhoras que constituem entre eles, a maioria”.

Mais adiante admite que Mauriac

“é superior às construções mecanicamente regulares de Paul Bourget, para não falar nas misérias literárias de um H. Bordeaux”.

Mas em seguida:

“Mauriac é inquietante. É o romancista da inquietação. Inquieta ao mundo burguês dos seus romances e dos seus leitores…”

E na penúltima página do malogrado estudo Mauriac é desprezivelmente chamado “sub-Bourget”.

Aí temos uma contradição, banal sem dúvida, porque de altitude tirada de uma métrica literária por demais infantil, mas em todo o caso uma contradição. Entre fascinante e inquietante, se os adjetivos ainda valem alguma coisa, também existe incompatibilidade.

Penso que o sr. Carpeaux descobriu, na sua freqüentação de idéias hegelianas, uma espécie de lógica baseada na contradição, e está convencido que é esse o único elemento capaz de pôr a pena de um ensaísta em movimento. Ele escreve como quem anda, mantendo entre os pés a estimulante rivalidade que parece contraditória. De fato alguém só pode andar se o seu pé direito ora se atrasa ora se adianta sobre o esquerdo. Se o pé direito é Bourget e o esquerdo é Mauriac compreende-se, pela dialética de caminhar, que em cada ocasião seja um deles mais avançado que o outro.

 Para quem anda, porém, a coisa mais importante é chegar. A marcha atinge a perfeição quando o caminhante chega: em casa por exemplo. Nos ensaios do sr. Otto Maria Carpeaux posso dizer sem injustiça que ele anda de um lado para outro, deleitando-se com esse exercício, e não tendo onde parar; e sobretudo não querendo voltar para casa. O sr. Otto Maria Carpeaux professa uma singular aversão por essa instituição antiga — a casa — e pretender incriminar Mauriac, o romancista, o francês, o católico, pelo vício de possuir uma casa de pedras.

 Das páginas 174 e 175 extraio a seguinte citação que esclarece o tom geral do estudo. Depois de uma distinção entre “lecteur” e “liseuse” tirada do Thibaudet, e usada meia dúzia de vezes a seguir para manter o tom alto de autoridade e suficiência, o sr. Otto Maria Carpeaux diz:

“Mas eu não sou uma liseuse, sou um lecteur, e permitindo-me perguntar: Romancista católico? Romancista como Balzac, ou romancista como Bourget? Católico como Bloy, ou católico como Bordeaux? Romancista católico como o mendigo Bloy, como o exilado Bernanos? E já sei que Mauriac não é mendigo, é mais acadêmico; que não está exilado e sim na França onde, como ele escreveu recentemente “le fleuve français continue a courrir”, isto é a vida burguesa de Mauriac continua. Perguntando implacavelmente: — “Qual é a atitude do escritor?” — a atitude que define o valor — recebemos a resposta: “Mauriac é um bem-pensante”.

 “Mas é impossível! Como podem coexistir a inquietação e a atitude burguesa? A casa burguesa de Mauriac, onde rumoreja a inquietação jansenista, é a casa tradicional do romance francês: muito bem construída, com as pedras regulares da matemática cartesiana, como um quebra-cabeças que convidasse a desarmá-lo, a analisar a construção analítica (a) procura de um plano do edifício, isto é, da atitude do autor”.

Ora, aí está. Temos aí nesse trecho uma singular desordem. Dir-se-ia um amontoado de erros que nem sequer estão inteiros, de erros em cacos. Peço ao leitor que não se detenha na qualidade do português, na redação canhestra e obscura. Otto Maria Carpeaux é estrangeiro: sejamos hospitaleiros em sintaxe, regência e estilo. Mas não podemos estender nossa complacência à falta de verdade e à agressão pessoal que parece ter raízes no ressentimento.

 Não fossem as razões já alegadas atrás, essa página seria suficiente para afastar o livro com enfado e reservar a crítica para melhor objeto. Prosseguindo, porém, devemos em primeiro lugar averiguar se o ensaísta quer tratar da obra de Mauriac ou de seus atos e de sua vida íntima; se quer fazer crítica literária ou julgamento moral. Começou falando do autor e agora fala numa “atitude que define o valor”. O que quer isso dizer? Se julga que a apreciação literária do valor dos romances precisa de uma polícia rigorosa dos passos do romancista, Otto Maria Carpeaux está se revelando moralista e recusando a objetividade da obra de arte. 

 Se quer porém investigar sobre a vida de Mauriac procurando a proporção com a sua obra (o que só é legítimo dentro de uma extrema prudência) então deveria chamar testemunhas, deveria ouvir Charles Du Bos, por exemplo, em vez de ir passear diante da casa de família medindo-lhe a fachada e contando-lhe as pedras.

 “… perguntando implacavelmente: qual é a atitude do autor?” O sr. Otto Maria Carpeaux pergunta implacavelmente. Não sei se essa frase em outro idioma tem algum remoto equivalente de bom gosto. Por mim acho-a ridícula, mas reconheço que de certo modo harmoniza com aquela outra timpanosa tirada: “Sou um lecteur“. Está de acordo com o tom alto em que o artigo inteiro foi pendurado. Mas o que não harmoniza com coisa alguma é a misteriosa solução: “Recebemos a resposta”. De quem? Como? A quem perguntou e quem respondeu? De que lado? Com que vento veio essa enigmática mensagem?

 O leitor de Origens e Fins é intimado a crer, sob palavra, que a resposta veio, clara, definitiva, condenatória. Ora, eu creio que na verdade o sr. Otto Maria Carpeaux perguntou-se a si mesmo, e ouviu-se a si mesmo: se assim foi protesto contra a excessiva simplicidade desse tribunal. Ou então perguntou às paredes — da casa de família — e nesse caso certamente ouviu o eco da própria voz porque é desse modo elementar que as pedras costumam responder.

 Em uma análise superficial dos escritos de Otto Maria Carpeaux, parecera-me que havia excesso de citações, sobrecarga de documentações; um estudo mais atento entretanto revelou-me, ao contrário, que ele é extremamente econômico nessa matéria. Cita com abundância, é verdade, mas quase sempre lateralmente, de um modo divergente e profuso. Cita para criar diversões, para puxar uma linha sinuosa e envolvente, de modo a deixar o núcleo do assunto coberto de vegetações parasitárias. Sua documentação é centrifuga e vertiginosa. Vem o nome de Thibaudet para gerar uma frase; vem Maritain, vem Gide, para pequenos comentários reticentes e truncados; vem uma referência, com data, à Congregatio de Auxiliis Gratiae para uma extrapolação que daria um outro estudo mais gravemente errado que o atual, e desse desvio sai outro desvio, outro sub-comentário envolvendo Bernard Groethuysen. Fala em Kierkegaard, em Maurras, em Maurois e em Péguy (comparando este último ao “disciple de Bourget”!). Invoca céus e terra, a Igreja e o Demônio. Busca um aforisma em La Rochefoulcauld, lembra Racine, Pascal e arranca um parágrafo de Yves Goudon. Correndo as linhas por alto, encontro ainda aqui e ali Oscar Wilde, Sinclair Lewis, Balzac, Bloy e Bernanos.

 Pois bem leitor, esse autor tão nutrido de informações, no momento único de seu trabalho em que era indispensável perguntar e ouvir, contentou-se com a dialética dos ventríloquos. Perguntou-se e ouviu-se no ponto preciso em que tocava a pessoa de Maurriac, em que pretendeu julgar a posição moral do romancista francês.

 Se perguntasse, por exemplo, a Charles Du Bos, teria outra resposta porque esse admirável crítico consagrou um livro inteiro com páginas substanciais, honestas e profundas, a esse romancista que para o sr. Otto Maria Carpeaux é um mero sub-Bourget e um ridículo “bem-pensante”. Charles Du Bos conheceu Mauriac, e sobretudo leu-o; e creio poder afirmar que Du Bos não é também uma “liseuse”. Passemos a palavra a Du Bos, em “François Mauriac ou le problème du romancier catholique”, pg. 31 e seguintes:

“Mais parler de Mauriac, c’est ipso facto, même quand on ne peut aborder le detail, parler de son oeuvre: entre les deux le lien est le plus etroi qui se puisse concevoir, etroit jusqu’à l’indissociable — fonction d’une sincerité dont en France, depuis de la mort de Rivière, je ne vois nulle part l’analogue. De Rivière, j’écrivais il y douze ans qu’il etait tout ensemble atteint et doué de sincerité, et la formule s’applique à Mauriac, et peut-être même devantage encontre, car il y a chez Mauriac cette sincerité qu’a propos de Byron j’ai denommée la plus radicale et la plus redoutable de toutes: la sincerité des humeurs. Toutes les formes de sincerité lui sont inées: la sincerité facile — mais d’une facilité qui chez lui ne fait qu’un avec la naturel même et qui par là desarme — et la sincerité difficile, côuteuse, méritoire, tributaire, elle, d’une lucidité sans cesse en eveil et poussée à la limite (…). Chez Mauriac la vertu de sincerité, ainsi que nos venons de la definir, et dans son acception la plus moderne, la plus contemporaine, coexiste avec la foi, une foi aussi sincère, aussi inée, aussi involontaire que la sincerité elle même, une foi qui, selon les periodes, et même, au sein dune même periode selon les jour, s’inscrit sur le thermomètre psychique aux degrès de temperature les plus variables, mais qui à travers tout, et, à certaines phases, en depit des souhaits de Mauriac lui-même, a toujours persisté; — et, au tornant que j’ai dejá appelé le tournant decisif, irreversible de son trajet, en un texte que est un chef-d’oeuvre d’acuité introspective, Mauriac nous dit: “C’est parce que vous y êtes né… Voilá mon drame. J’y suis né; je ne l’ai pas choisie; cette religio m’a été imposée dès ma naissance. Bien d’autres y sont nés aussi qui ont vite fait de s’en evader. Mais c’est que cette foi qui leur fût inoculée n’a pas pris sur eux. Por moi, j’appartiens à la race de ceux qui, nés dans le catholicisme, ont compris, à peine l’âge d’homme atteint, qu’ils ne porraient jamais plus s’en evader, qu’il ne leur appartenait pas d’en sortir, d’y rentrer.Ils etaient dedans, ils y sont, ils y demeureront à jamais. Ils sont inondés de lumière; ils savent que c’est vrai.”

Estou certo que o leitor me será grato por essa longa citação que transborda o fim colimado de neutralizar as insinuações feitas contra Mauriac. Vale a pena contar o número de vezes que Du Bos emprega a palavra sinceridade, e vale a pena ler nessa mesma citação o que o próprio Mauriac escreveu naqueles dias difíceis (Dieu et Mammon) em que iria se converter “ao que já sabia”.

 Aí está um depoimento sobre a atitude de um escritor que o sr. Otto Maria Carpeaux levianamente tentou apresentar ao público fácil, como uma “bem-pensante”.

 Agora vejamos a “casa” onde “rumoreja (?) a inquietação jansenista” e que tem pedras regulares. O próprio Mauriac em Journal escreveu um artigo sobre essa casa, Malagar. E em Commencement d’un vie nos conta: “Ils ont été vivants, unis par cette tendresse, dans la triste maison dont le plus jeune de leur petit-fils a osé se servir pour y loger les personages de Genitrix”. E isso porque o romancista precisamente absolutamente para seus personagens de uma situação concreta, de ligações plásticas, mesmo nas páginas onde o cenário não fosse descrito. Precisava, para agüentar a tensão imaginativa, das paredes de Malagar, e desse fato (que menciona em Le Romancier et ses Personages) tira o sensibilizado escrúpulo em relação às sombras de seus mortos. Otto Maria Carpeaux, menos escrupuloso, vê através da fachada de pedras a inquietação jansenista, o burguesismo e o farisaísmo do “bem pensante”.

 E porque “casa burguesa”?

 Se é pelas pedras, lembrarei que a casa de Deus também repousa sobre uma pedra angular; se é pela abundância do pão e do vinho, então aquela casa de Caná tornou-se burguesa pela intercessão da Virgem Santíssima e pelo primeiro milagre de seu Filho.

 Permita-me o senhor Otto Maria Carpeaux neste tópico um bom conselho, que lhe dou num tom de autêntica superioridade porque não vem de mim esse direito, mas de coisas antigas como o senso comum, como a casa, como o pão e o vinho, para não falar enfaticamente em nome de um outro que justificará minha advertência: não torne a empenhar a casa e consequentemente o bolso e a mesa, nos seus ensaios e críticas literárias, para não acontecer que seja também julgado e que facilmente lhe perguntem que mal lhe fez Malagar, a casa hereditária, a pedra que o filho recebeu de seus pais; ou desconfiem que essa estabilidade e essa tradição lhe molestem algum ressentimento.

 E porque “burguesa”? 

 O sr. Otto Maria Carpeaux abusa desse termo e acrescenta sua pequenina vergastada pouco convincente nesse Judas de convenção. Páginas adiante em seu trabalho larga de passagem esse truísmo indemonstrado: “o romance é um gênero bem burguês”. Que quer dizer isto? Nesse ponto me embaraço diante de um alternativa: ou me demoro no exame do conceito, ou faço uma exploração lateral sobre o direito de afirmar sem provas nas páginas de um ensaio.

 Como decididamente resolvi abrir mão do repouso, entrando na análise crítica de um ensaio que se oferece fácil e frouxo — a ponto de produzir uma diminuição do meu tônus e de me dar a impressão penosa de estar ralhando com um doente — irei até o fim, até onde, ao menos, julgue estar sendo útil ao leitor e ao próprio Otto Maria Carpeaux.

 Quanto ao direito de afirmar quero comunicar ao sr. Otto Maria Carpeaux algumas condições tecnicamente necessárias em um ensaio. A rigor a palavra puramente afirmativa só pode vir de Deus, ser por Ele revelada ou inspirada. Os apotegmas espirituais dos Santos Padres, nesse sentido, tinham uma vida própria e autêntica. Na fórmula simples e incisiva uma verdade inteira vivia germinalmente, pronta a fecundar almas e gerar vida. O “logion” apostólico era assim esse pólen pneumático que emprenhava pelos ouvidos uma geração de santos.

 Fora disso, as palavras humanas, para serem portadoras de vida nas inteligências precisam ter uma lógica que as nutra, que as reduza a coisas já sabidas, que às prendam ao chão do senso comum ou à linha da tradição. Cientificamente demonstra-se, filosoficamente raciocina-se; literariamente, explica-se, descreve-se, desenvolve-se, liga-se, justifica-se.

 Ou então, ainda, literariamente, no caso do poeta ou do humorista, valem também seus apotegmas desde que tenham poesia e humorismo, porque nesses casos a lógica, a verdade da coisa, está interiorizada, está dentro das palavras, estuante, esplendendo na superfície como beleza poética ou humorística. Chesterton ou Baudelaire poderão dizer uma frase sem que se tenha o direito de exigir desenvolvimento porque esse desenvolvimento já nos é dado de uma forma enovelada, tensa, em mola, sob as espécies do rio poético ou humorístico.

 O ensaísta (como o próprio Chesterton) freqüentemente passa da lógica para a superlógica poética ou humorística, e é nessa possibilidade riquíssima que se inscreve o valor de um ensaio. Se porém o autor não tem jeito para uma coisa ou outra, e se solta uma frase clara e simples, como um teorema sobre triângulos retângulos, então está obrigado a exibir seus documentos. Essa, creio-o firmemente, é uma das regras da arte. E como Otto Maria Carpeaux não demonstrou suas razões, fico pensando que ignora a regra ou então que escreveu aquela frase para o paladar especializado de dois ou três amigos iniciados em suas obscuridades.

 Afinal porque será o romance um gênero bem burguês? Se é porque procura testemunhar a vida humana tomada na sua singularidade, no personagem concreto considerado um por um, a censura do sr. Otto Maria Carpeaux cabe nos moldes desses publicitas que andaram a exigir de Lucio Cardoso um romance social. E se o sr. Otto Maria Carpeaux quiser apreciar a que medíocres conseqüências pode chegar seu infeliz truísmo esforce-se por ler até o fim algum artigo assinado por Clovis Ramalhete. Aí, se é na verdade um lecteur atento, o sr. Otto Maria Carpeaux verá que laminada chatice pode atingir um polígrafo infeliz a cavalo num sistema. E terá uma idéia aproximada dos seus próprios riscos.

 Se porém a classificação de Otto Maria Carpeaux é baseada em razões tiradas do historicismo, vista a concordância no tempo entre o desenvolvimento do romance e o triunfo da famosa classe detestada, então eu diria, com o mesmo rigor histórico, que o submarino é um veículo excessivamente burguês:

  Aliás eu  creio que já é tempo de deixarmos o burguês em paz:

“Cet mot, qui sent l’argot d’atelier d’une lieu, devrait être supprimé du dictionnaire de la critique. Il n’y a plus de bourgeois, depuis que le bourgeouis (…) se sert lui-même de cette injure. En second lieu le bourgeois — puisque bourgeouis il y a — est forte respectable; car il faut plaire à ceux aux frais de qui l’on veut vivre”.

Essas palavras são de Baudelaire e completaram um centenário inútil, porque o mesmo “argot d’atelier” continua a funcionar nas críticas como se fosse uma novidade de ontem. Eu mesmo devo me penitenciar a esse respeito, mas procurei sempre definir o burguês num sentido diferente da dialética marxista ou nietzchiana, como o tipo que tem uma filosofia da vida tirada das “pompas do mundo”. Mas de modo algum significa classe ou mentalidade avessa às belas artes.

 De modo algum, como católico, poderei dizer que alguém é burguês porque mora em casa de pedras cartesianas (aliás, porque cartesianas?) ou porque seja acadêmico. Mas estarei pronto, dentro de minha definição, a atirar o impropério em cima do antiburguês que para mim é apenas o burguês irritado contra seus iguais que atingiram sucesso e prestígio.

* * *

Antes de deixar esse assunto da casa de pedra quero assinalar a presença de um curioso leit motiv no malogrado estudo de Otto Maria Carpeaux. Chamá-lo-ia o motivo da “volta para casa”. Seria de esperar, sob a pena de um escritor católico, que esse motivo tivesse a largueza de um hino e a festividade de um aleluia, com repicar festivo de sinos em dias de festa.

 Mauriac, justamente Mauriac, não conheceu a alegria da conversão e nunca pôde cantar por sua própria conta o “felix culpa” do filho pródigo. Em página de grande beleza ele mesmo nos diz:

“Il ne m’appartenait pas de perdre la foi (de la perdre pour la retrouver, comme c’ettait mon voeu secret). Je savais dejà que je ne sortirai jamais du catholicisme; il etait au dedans de moi. Où que je fusse, il y serrait aussi. Au lieu d’accepter cette grâce, comme une grace, de quel oeil d’envie je me souviens d’avoir contemplé, un matin, à la chapelle des Bénédictines, Ernest Psichari! Maritain, Psichari, élus pour qui le christianisme avait été un choix, qui l’avaient contemplé du dehors, qui en avaient fait le tour et mesuré les proportions exactes, et repéré la place par rapport aux autres religions. Pour moi quin’en etais jamais sorti, sans cesse je passais d’un extrême à l’autre; tantôt m’imaginant que le christianisme etait l’unique préocupation du monde et tantôt persuadé que je vivais prisionnier d’une petite secte méditerranéene”.

Mauriac não conheceu aquela alegria: “Quando ele ainda estava longe, seu pai o viu; e tocado de compaixão, correu ao seu encontro, atirou-se ao seu pescoço, e cobriu-o de beijos”. (Lc 15,20). Mauriac estava nos campos, e quando voltou “ouviu a música e os coros” e ficou com ciúmes do irmão (de Psichari, de Maritain) para quem o pai misericordioso matava o bezerro gordo!

 Pois bem, leitor, justamente essa alegria, que Mauriac não conheceu, porque sua conversão foi como a obediência do filho mais velho, a participação na festa para o pródigo, é tomada no malogrado estudo de Otto Maria Carpeaux, no plano da vida de família, como um desprezível reacionarismo. A “volta para casa”, cujo eminente exemplo é a conversão, é em Otto Maria Carpeaux um leit-motiv de escárnios. Em vez de hinos ou repiques festivos, a volta “au sein de la famille” é feita com pizzicati, com síncopes, num ricanement indisfarçado. O leitor poderá se certificar, se quiser, no próprio livro do sr. Otto Maria Carpeaux, porque não tenho gosto de transcrever essas linhas.

  Bem sei que o sr. Carpeaux é um exilado e até ouvi dizer que pertence à raça peregrina de onde veio a Salvação. Imagino comovido que deve ser difícil para ele ver as fachadas das casas, as fachadas tranqüilas, as casas onde moram os gentios, a raça adotada, que não tem nas veias o mesmo sangue da Virgem Mãe, mas mereceu o Sangue de seu Filho. Contudo, não posso deixar de lhe atirar, publicamente e veementemente, o meu protesto contra seu infeliz trabalho que pretende solapar os alicerces já tão castigados da casa cristã, da casa em si mesma; da casa-casa; da casa de pedra; da casa antiga que veio de nossos pais. Mauriac não conheceu a alegria do convertido, mas conheceu a outra, essa de ter morado sempre na mesma casa e na mesma fé, essa alegria que não canta muito alta mas inunda todas as horas, a alegria que nós mesmos — muitos de nós nesses tempos em que todos têm medo de ser burgueses ou reacionários — perdemos há muitos anos.

 O mundo inteiro hoje foge de casa e produz “ricanements” literários, científicos, e filosóficos, sobre o senso comum, sobre a fé comum, sobre a tradição comum. E nesse sentido eu posso dizer de Otto Maria Carpeaux o que ele disse mal, sem jeito e sem verdade de Mauriac. É ele o adolescente mental, o fixado na idade ingrata, a quem repugnam a casa e o “sein de la famille”.

* * *

Relativamente à obra de Mauriac, Otto Maria Carpeaux faz reflexões que me levam a crer (reportando-me ao gracejo com que se empurrou para dentro do malogrado ensaio) que é ele quem confunde Mauriac com outros escritores. Diz por exemplo: “O moralista Mauriac escreve romances, e estes são mais divertis do que aqueles (refere-se, embora sem concordância, às cartas pastorais). Misturam agradavelmente a mística e a sexualidade, chegam a atribuir importância exagerada, quase exclusiva, à sexualidade, o que excita os aplausos dos interessados nesse exagero: as liseuses. Mas eu não sou uma liseuse, sou um lecteur“. 

 E a seguir, como é uso em chicana, tira longas conseqüências para que o leitor, esmagado por elas, aceite as premissas. Mas essas são falsas e as conseqüências, como mostrarei a seguir, são duplamente falsas. Não corresponde a nenhuma realidade objetiva, na obra de Mauriac, e principalmente nos romances depois de Le Noeud de Vipères, aquela “excessiva sexualidade”. Quanto às liseuses devo dizer que não conheço uma só liseuse de Mauriac.

Acontece que tentei introduzir Mauriac três ou quatro vezes entre leitoras de Pearl Buck e Sommerset Maughan, mas fui mal sucedido porque todas repeliram o autor de Le mystère Frontenac.

 Daria lugar a equívoco a leitura de Fleuve de Feu por exemplo, mas acho singular alguém escrever sobre um autor depois de ler um romance de mocidade, sabendo que depois daquele “tournant irreversible” a que se refere Du Bos estão Le Noeud de Vipères, Le Mystère de Frontenac, Les anges noirs, La fin de la nuit. E nessas obras duvido que um crítico tenha a coragem de subscrever as observações de Otto Maria Carpeaux.

 Já não quero me referir à conivência com o pecado de que tão bem fala Maritain e de que Mauriac, a partir de Ce qui était perdu, se liberta, tendo procedido aquela “purification de la source”; mas em particular à presença objetiva e excessiva da sexualidade nesses romances maiores de François Mauriac. Acontece, com esta ou aquela explicação, por tal ou qual motivo, que o pecado da carne está singularmente e extraordinariamente ausente nesses romances. Um crítica mais aguda, e sobretudo mais verdadeira do que a do sr. Otto Maria Carpeaux, poderia reclamar essa ausência e exigir um pouco menos de angelismo nos personagens de Mauriac. Veja-se por exemplo em Les anges noirs (e o nome do romance de certo modo explica e justifica) a anômala isenção do personagem principal, Gabriel Gradère, quer no fundo dos abismos, na maior degradação, guarda uma espécie de castidade inquietante. Nos maiores romances de Mauriac os personagens envelhecem, quase bruscamente, e o autor parece ter pressa de “ranger” as dificuldades dos espessos conflitos da carne, para se demorar nos problemas do espírito. Como em Le Noeud de Vipères e Le mystère Frontenac, o motor de Les anges noirs é o patrimônio da família, o apego à posse, o misterioso apego à sucessão do patrimônio que é mais do que concupiscência porque pretende vencer a própria morte. É até digno de nota que numa cena entre moços em Les anges noirs o autor não resiste e instala um prematuro par de óculos envelhecedores na pobre Catarina — que decididamente tinha pouca idade para vista cansada. “Ela parecia uma velha…”

 Os personagens excelentes, preferidos de Mauriac, são velhos. Sofreram a simplificação na carne, às vezes prematura, para que os conflitos sutis pudessem aparecer inteiramente desabrochados. Isso constitui quase uma especialidade em Mauriac, e um crítico, com um pouco de má vontade, diria que isso constitui um defeito. Mas somente quem não leu esses romances com mediana atenção se arriscaria a dizer o que o sr. Otto Maria Carpeaux disse em seu malogrado ensaio.

 A obra de Mauriac já era conhecida entre nós antes da chegada do sr. Otto Maria Carpeaux e teria sido prudente da parte desse crítico, antes de iniciar seu estudo, procurar nos livros de autores brasileiros a confirmação de nosso nível de cultura.

 Saberia que Alceu Amoroso Lima (O Espírito e o Mundo) já nos disse, anos atrás, quem era François Mauriac. Nessas páginas, Alceu Amoroso Lima, embora sem o conhecimento pessoal do autor (suponho-o) apostou na sua sinceridade, empenhado nesse ato seu fino instinto de autêntico “lecteur”:

“Mauriac (…) escreve um romance, não como tantos romancistas o fazem, por diletantismo, por amor ao êxito, por exploração do público, por facilidade de escrever ou para descrever tais e tais situações. Ele escreve um romance com a gravidade de um celebrante do oficio divino (…) É o tipo do romancista responsável que sente comprometido o seu próprio destino em tudo o que escreve (…) Mauriac é um só homem quando vive, como quando escreve”.

Essas linhas foram escritas por Alceu Amoroso Lima antes da publicação do livro de Du Bos; é notável a perfeita coincidência, e mais notável ainda a acuidade do crítico brasileiro que, somente pela disciplina do espírito e pelo faro de grande “lecteur” viu levantar-se diante de si, viva e integra, a figura do proprietário de Malagar, desse Mauriac que anos depois um europeu nos quereria apresentar como um “bem pensante”. Recomendo ao sr. Otto Maria Carpeaux a leitura d’O Espírito e o Mundo, bem como dos cinco volumes de estudos de Tristão de Athayde, para ao menos ficar prevenido das coisas e dos autores que já conhecemos aqui no Brasil.

 É ainda em Alceu Amoroso Lima que encontramos a chave dos romances de Mauriac: “O sentido trágico de sua obra está justamente no eterno conflito entre as paixões efêmeras e os princípios imortais”.

 Essa é a chave de Mauriac, e o próprio romancista, no fim de Les anges noirs, deixa-a visível, mas é preciso ter olhos de verdadeiro crítico para ver o que está efetivamente escrito. Diz assim a referida passagem:

“Elle oisait enfin contempler ce qui s’etait accompli de terrifiant, au long d’un demi-siècle, dans ce coin du monde, entre ces créatures éphémères, sous le regard éternel”.

Os romances de Mauriac são isso, reduzidos ao seu último e mais nuclear elemento: um confronto do efêmero com o eterno, ou a dupla pressão desses dois polos sobre a pessoa humana.

 Nesse sentido pode-se dizer que o caráter de sua obra é eminentemente escatológico. O romance, cuja matéria é a pessoa humana, tem duas grandes alternativas quanto à tonalidade que escolhe: ou insiste na substância da pessoa humana, descendo do espírito à matéria, dos conflitos ao sensível, da alma ao rosto, à roupa, aos gestos, e afirmando ontologicamente a singularidade e a unicidade de cada personagem; ou insiste no caráter peregrinal e fugitivo da vida e no confronto quotidiano com o destino, com as últimas coisas. O romance não pode fazer abstração da carne humana para ficar somente com o campo de forças escatológicas, porque nesse caso as tormentas magnéticas desse campo não teriam nenhum sentido para nós que cremos na ressurreição da carne, e para todos os homens em geral que nas profundezas da alma não desejam outra coisa. Também não pode ficar com a carne como um sistema fechado onde todos os conflitos vêm de dentro segundo uma mecânica visceral. Em qualquer dessas amputações o romance falha porque trata de um objeto que não existe, ou pelo menos trata de uma abstração. Mas cada autor, segundo seus dons, prefere insistir em um ou outro aspecto do problema, e enquanto Balzac, por exemplo, é um romancista da substância humana, Mauriac o é do destino, mas no sentido cristão, isto é, da presença das últimas coisas nos quotidiano, na interpenetração do efêmero e do eterno.

 Por isso seus romances são nervosos, breves, arquejantes, taquicardíacos. Os personagens correm diante do tempo. Mauriac tem pressa, e agora compreendemos que tenha pressa de “ranger” o sexto mandamento para que o caráter escatológico de seus personagens tenha melhor transparência. Arrisca-se cair no angelismo, mas defende-se com maestria, e por descarnados que sejam seus personagens não são desencarnados. Vivem, palpitam, são figuras humanas um pouco crepusculares, mas nem por isso menos humanas.

 O efêmero e o eterno. Esse confronto toma freqüêntemente o aspecto de simbolismo e o autor chega a chamar de “ephemères” as figuras que entram e saem, que dançam num bar, diante do personagem que está esmagado por seu destino. Leia-se essa página em Desert de l’Amour:

“C’était l’heure oú dejà le flot se retire: mais les habitués du petit bar demeuraient qui, en même temps que leur vestiaire, s’etaient débarrassés de leur douleur quotidienne. Cette femme en rouge tournoyait de joie, le bras étendue comme des ailes, et l’homme la tenait par les hanches: qu’ils etait heureux, ces deux éphémères unis en plein vol! Su ses epoules énormes, un Americain avait une tête rase de petit garçon: attentif aux directions d’un diu interieur, il improvisait seul des pas, obscènes peut-être; et comme on applaudissait, il salua gauchement avec un sourire d’enfant heureux”.

O “éphémère” para Mauriac é também quase sempre o personagem de Paris, da rua, do bar; o eterno é Malagar. O eterno ele o encontra na casa, na província; na casa da província. A importância da “casa de pedras” na obra de Mauriac pode ser comparada à importância de Combray na outra de Proust, que, segundo E. Curtius, é o próprio centro de gravidade d’À la recherche du temps perdu. Malagar e Combray, ambos, são a eternidade enraizada na infância.

 E num certo sentido, ao menos, acima da realização puramente artística, a obra de Mauriac é maior porque afirma essa suprema realidade que é a presença quotidiana desse elemento de infância, da esperança, enquanto o genial Proust se esfalfa em procurar no sensível, no segredo, no mistério ocluso, na anamnese das coisas — flores, torres, cascas de árvores — a lembrança de um Combray perdido, de uma promessa que ouvira, que era o próprio Reino de Deus.

 E por isso eu direi que Mauriac, esse sombrio romancista de personagens taciturnos que deslizam num crepúsculo fugaz, esse romancista pouco amável que as senhoras rejeitam, pode perfeitamente teologalmente merecer o título de romancista da Esperança.

* * *

Esse é Mauriac. Já o sr. Otto Maria Carpeaux está em condições de informa aquele seu “pobre amigo”, infeliz Ekerman que se presta complacente às suas lições. Mande-lhe dizer isto; recomende-lhe Du Bos; Ramon Fernandes; Maritain. E até, para que esse amigo fique sabendo um pouco do Brasil, transcreva-lhe o capítulo inteiro de Alceu Amoroso Lima. Porque, em verdade, creio que esse pobre amigo, depois de ter ouvido o sr. Otto Maria Carpeaux saberá menos do que nunca quem é François Mauriac.

* * *

Conforme disse atrás, Otto Maria Carpeaux tem afeição pelo método divergente. Gosta de desviar, de meter-se em pequenas explorações laterais. Sai do assunto a cada instante para pequenas digressões truncadas. Assim, depois de declarar que Mauriac sofre de obsessão sexual, continua:

“Quero saber como ele resolveu literariamente o problema de pecado e graça. Literariamente, não teologicamente. Solução teológica não existe; em 1598, a discussão sobre a graça entre jesuítas e dominicanos foi proibida pelo Papa Clemente VIII, e a Congregatio de Auxiliis Gratiae, instituída para resolver o problema, foi dissolvida em 1607, sem haver pronunciado decisão. A conseqüência dessa indecisão foi o jansenismo, que passou aos olhos ortodoxos, por obra do demônio. E Mauriac…”

O sr. Otto Maria Carpeux com essa citação deve produzir em certos meios uma impressão forte: lá estão datas, nome de Papa, e o título de uma instituição em latim. A verdade, porém, é que ele interpretou de modo lamentável o problema, e forte no erro, eriçado de equívocos e de confusões, investe novamente contra Mauriac.

 Ora, vale a pena analisar um pouco o que Otto Maria Carpeaux chama problema do pecado e da graça. Há muito mais problemas e muito mais dificuldades do que aquele autor imagina. o caso a que se refere é o da controvérsia em torno das teses apresentadas por Molina, e se a Igreja não se pronunciou de modo definitivo naquela controvérsia só se pode concluir que as teorias do teólogo espanhol não estavam em contradição evidente e próxima com as verdades dogmáticas de que a Igreja tem o depósito, relativas à questão de “auxiliis gratiae”. O assunto foi entregue à ciência teológica que se estende às conclusões mais ou menos remotas que a razão, iluminada pela fé, pode tirar da verdade revelada. É um erro colossal dizer que a abstenção de condenação significa ausência de uma solução dogmática sobre graça e pecado. Pode existir perfeitamente, num ponto avançado da ciência teológica, uma controvérsia que o estado dessa mesma ciência ainda seja incapaz de resolver, mas essa própria incapacidade se exprime em função da existência de uma solução dogmática e todo esforço científico consiste em procurar qual das teorias se opõe ao dogma. Nós mesmo, o sr. Carpeaux e eu, poderemos inventar duas proposições contrárias sem que os doutores da Igreja possam resolver cabalmente a disputa. Em Astronomia, por exemplo, eu poderia afirmar que Marte não tem habitantes e o sr. Carpeaux garantir que os tem. Se os institutos do mundo inteiro declararem que não podem no momento resolver o assunto, acho imprudente concluir que a Astronomia oficial nos autoriza a crer que Martes talvez não exista.

 A respeito do pecado e da graça os molinistas e tomistas só discutiram porque não duvidaram do depósito dogmático, isto é, porque ambos sabiam perfeitamente o que era o pecado e o que era a graça. Sabiam o essencial e o principal, o que não os impedia de procurarem desenvolvimentos científicos porque à inteligência humana apetece o crescimento.

 A prova da perfeita clareza dogmática foi dada pela Igreja nesse mesmo problema, quando condenou Pelágio, os Massilienses, chamados semi-Pelagianos, os Protestantes, e esses mesmos jansenistas de que tanto fala o articulista. O papa proibiu a disputa quando alguns tomistas classificaram o Molinismo de semi-pelagianismo não podendo provar essa afirmação de modo convincente. A questão entretanto não foi encerrada (como julga Otto Maria Carpeaux) mas entregue à ciência. Em trabalhos muitos atuais Garrigou-Lagrange (Dieu, son existence, et sa nature) trata desse assunto e não se sente absolutamente proibido de apontar os erros de Molina. Quando se conseguir uma evidência de que Molina está em contradição com o dogma, então a Igreja condenará oficialmente as suas teses, mas enquanto essa evidência não for razoavelmente atingida a controvérsia pode continuar, cientificamente, embora desde já a Igreja tenha dado todos os sinais de predileção pelas doutrinas de Santo Tomás. O que o autor de Origens e Fins chamou de indecisão da Igreja é na realidade a afirmação da liberdade da inteligência e essa liberdade, de fato, só existe porque existem os dogmas.

 A ausência total de uma dogmática verdadeira ou inventada, não daria nenhuma liberdade, admitida um momento a hipótese de sua possibilidade na vida humana, mas sim a indeterminação que consiste justamente na pulverização das capacidades humanas e na disseminação atomizada de nossa substância. Há muita gente que não sabe mais distinguir entre os dois conceitos e julga que eu me tornarei mais livre se deixar de ser, de um modo qualquer, eu mesmo. Nesse sentido, e a título de exemplo, eu poderia dizer que o casamento aumenta a liberdade e que o divórcio aumenta a indeterminação e por isso fere a própria unidade da pessoa. A mulher divorciada não o está somente do homem que não pôde suportar (ou que não a pôde suportar) mas principalmente divorciada de si mesma, com a sua unidade em crise, com a sua pessoa cortada, com a sua substância dividida. Nesse mesmo sentido a clausura monástica é também uma alta afirmação de liberdade com raízes fincadas na unidade do espírito. Se o sr. Carpeaux gosta de situações tensas eu lhe direi que a nossa fé é rica em paradoxos, mas honestamente devo advertir que ela não tolera a contradição. Nossos paradoxos não são nossos (como por exemplo os paradoxos de Chesterton são os de seus adversários) mas resultam da consciência que temos da ambivalência do mundo. E o maior paradoxo, (tomando o sentido moderno do termo) nós o realizamos, dentro de nossas fracas medidas, carregando a cruz com alegria.

 Realmente, insistindo na questão da liberdade, ela repousa sobre a unidade e a integralidade do objeto que se quer livre, e isso, para as filosofias de emergências é às vezes apontado como uma coerção. Assim eu diria segundo uma dessas filosofias que meu esqueleto exerce uma insuportável tirania sobre a coletividade de vísceras porque, de certo modo, se opõe ao divórcio dessas vísceras. A Igreja também é apontada como mãe sufocante (e o próprio Otto Maria Carpeaux atribui a Mauriac esse pensamento no infeliz comentário que fez de Genitrix) porque deseja que realizemos o esplendor do nosso Modelo, isto é, que sejamos inteiros e livres. A esse respeito convém lembrar que mais de uma vez as Sagradas Escrituras mostram esse problema da dupla maternidade que disputa o homem. As duas mulheres diante de Salomão reclamavam o mesmo filho, mas a mãe verdadeira consentia na separação mas não na divisão. A maternidade devorante, que repete no útero as forças telúricas, não consente na separação e por isso acho bastante divertida a classificação de “excesso de amor” atribuída a essas psicoses pelo sr. Otto Maria Carpeaux. Como se nós pudéssemos de algum modo exceder o amor!

 Voltando ao assunto do pecado e da graça, se o sr. Carpeaux se interessa realmente por ele e não o considerou apenas como um adorno de erudição (aliás negativo), deixo-lhe aqui algumas indicações: Suma Teológica, Ia. q.q. 23-24 sobre a predestinação. Sobre a eficácia da graça e liberdade humana, Suma Teológica, Ia-IIae, q. 109-114, sobre a ciência de Deus, q. 14-15 especialmente q. 14 art. 13 (ciência dos problemas contingentes). Para a questão molinista pode ver Garrigou-Lagrange no trabalho acima citado.

 Quanto à solução do problema que o sr. Otto Maria Carpeaux reclama, é preciso investigar o que entende ele com isso. Temos dogmas a respeito, sabemos pela fé e pela confiança na palavra de Deus o que é o pecado e o que é a Graça. Evidentemente qualquer pessoa é livre de se rir de nós, porque sofremos da incapacidade de resolver problemas do espírito com fórmulas tiradas da biologia ou da astronomia. Mas uma coisa vemos claramente a respeito daquela solução: onde ir buscá-la praticamente e vitalmente. O mais simples dos fiéis, sem consultar enciclopédias como o sr. Otto Maria Carpeaux e mesmo sem estudar Suma Teológica como lhe recomendei, sabe como resolver esse problema e sabendo-o, estará em condições de aconselhar melhor do que fiz.

 A solução está justamente naquele confessionário que tanto parece intrigar o autor de Origens e Fins. Ele se refere à essa solução, o sacramento da penitência, com um tom deveras singular para um católico. Parece estar piscando o olho cada vez que fala no confessionário. Julga talvez que se passam coisas escabrosas e excitantes quando o pobre sujeito encabulado vai por nas mãos de Deus a infeliz e cinzenta monotonia de seus pecados. O sr. Carpeaux parece zombar dessa monotonia quando entra, sem cerimônia, nos pecados que atribui a Mauriac:

“Mas quando o adolescente François voltou, de mãos postas, do banco de comunhão, viu já no primeiro assento da Igreja, a jovem, inacessível e inviolável como todas da sua burguesia provinciana; sonhou com elas, os sonhos mais solitários e mais perversos de um adolescente, e fugiu, enfim, para os braços das belas pecadoras, que são tão misericordiosas e tornam necessária outra confissão contrita, para se conseguir, outra vez, a graça no banco da comunhão. E assim in infinitum“.   

Mais adiante diz:

“A inquietação dos seus romances é fruto das horas inquietas do adolescente no confessionário”.

E depois:

“Continuou filho fiel do seu confessor, tornou-se, enfim, o próprio confessor das suas leitoras…”

E ainda:

“Desejou, com o ardor mais febril dos adolescentes tentados, a estabilidade no seio da sociedade burguesa, no seio da família burguesa, onde ao filho pródigo está sempre assegurado o perdão da mãe e, após ligeiras dificuldades, o perdão do confessor”.

Por essas amostras o leitor já vê o que pensa esse contraditório escritor sobre o sacramento da penitência. Não me compete avaliar a gravidade de sua imprudência, mais insisto num ponto: o autor numa página diz que a Igreja não achou a solução e na página seguinte dá a entender que não gosta da aplicação prática e sacramental, isto é, que não gosta da solução da Igreja.

* * *

Ignoro como Otto Maria Carpeaux receberá esse estudo que ofereço aos leitores d’ A Ordem e a ele próprio. Mas é fácil prever como ele responderia a acusação de ter caluniado e diminuído Mauriac, porque na página 180 diz por exemplo:

“A sinceridade humana e a sinceridade literária de Mauriac, ambos fora de dúvida…

E adiante:

“Contudo, Mauriac é um excelente romancista”.

O método contraditório que o sr. Carpeaux enfeita com o nome de dialética, presta-se a tudo. Fica o dito por não dito, mas escreveu-se um capítulo. Como porém a natureza humana, por vezes, guarda melhor as censuras que as lisonjas (quando se trata do próximo) acho esse método perfeitamente detestável e profundamente contrário ao testemunho da verdade. E por isso entrego aqui essas páginas à reflexão do sr. Otto Maria Carpeaux.

(In Revista A Ordem, abril-maio de 1944)