POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 3

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POLÊMICA CARPEAUX – CORÇÃO – 3

CARTA ABERTA AO SR. GUSTAVO CORÇÃO – Otto Maria Carpeaux

Ilustríssimo Sr. Gustavo Corção,

O artigo que o senhor publicou, nesta revista, para defender, contra mim, a inteligência cristã, terminou com as palavras: “…entrego essas páginas à reflexão do sr. Oto Maria Carpeaux”. Tem esta carta o fim de explicar ao senhor porque não estou em condições de aceitar o seu convite.

Como o senhor sabe, não respondi à campanha, levada contra mim, e que o senhor mesmo carateriza de “injusta”, “mesquinha”, “injuriosa”, obra de “má companhia”. Não é possível discutir com “má companhia”, e lamento que o seu artigo não modificou sensivelmente a situação: francamente, em expressões suas como “ventríloco”, “truismo”, “doente”, “detestável”, não posso descobrir a nobreza; e a escolha do momento para juntar o seu ataque aos precedentes, foi mais oportuna do que corajosa. O senhor fez até questão de solidarizar-se com o sr. Bernanos. Justamente com respeito a um libelo “injusto”, “mesquinho” e “injurioso” dele, de que o próprio sr. Bernanos se arrependeu.

Eis o motivo que me impede de aceitar qualquer convite seu em geral, e o seu convite a reflexão em particular. O senhor também não refletiu bastante quando advertiu: “O sr. Otto Maria Carpeaux errou com uma abundância…”, expressão que volta diversas vezes no seu artigo. O seu leitor desprevenido espera então a retificação daqueles erros abundantes: fatos errados, citações erradas, erros em alegações verificáveis. Mas o senhor não dá nada disso. Para o senhor, a palavra “erro” tem sentido diferente: quer dizer opiniões erradas. E quais as opiniões erradas? As que diferem das suas. O senhor, como sei, não gosta das minhas citações, e tampouco gostara da seguinte que o carateriza perfeitamente: “Orthodoxy, mylord, is my doxy. Heterodoxy is another man’s doxy”. Quando a minha opinião difere da sua, a minha está “errada”, evidentemente.

Essa descoberta semasiológica levou-me a meditar, não sobre os meus pecados literários, e sim sobre o seu conceito de crítica literária. O senhor não está gostando do método dialético; não compreende como pude, no mesmo artigo, elogiar a técnica novelística perfeita de Mauriac e censurar a atitude literária vacilante do mesmo. Os seus gracejos sobre a dialética não me importam; não sou defensor oficial do método venerável que nos veio de Sócrates e Platão e encontrou em Hegel apenas a forma mais perfeita; lembro-me que as acusações dos séculos XI e XII contra a filosofia escolástica, que o senhor tem em alto apreço, se serviram também da palavra “dialética”, em sentido pejorativo; e no século XIII, a mesma palavra serviu bem contra a filosofia aristotélica, fundamento da filosofia tomista. Quanto ao emprego do método dialético na crítica literária, para estudar as intenções e atitudes dos autores e distinguí-las claramente das realizações, não vejo inconveniente algum nisso; nenhum outro método presta os mesmos serviços. Deu-me o senhor no seu artigo “Indicações”, acompanhadas dum “eu lhe direi…”, em tom pedagógico, e uma vez a sua modéstia chegou até a frase: “…quero comunicar ao sr. Otto Maria Carpeaux algumas condições tecnicamente necessárias em um ensaio”. Agora, eu lhe direi que grande parte da crítica literária moderna se serve do método dialético, rejeitando o método de Sainte-Beuve, método que presume a concordância fatal entre a obra e a vida, e que consequentemente se perde em investigações biográficas e intimidades pouco delicadas. Por isso, distingui claramente entre a pessoa particular de Mauriac, que não conheço e da qual sei pouco, e a personagem literária Mauriac, apresentada nas obras dele, único objeto do meu estudo. O senhor não compreendeu essa distinção, gritou até “contradição”, o que foi uma conclusão precipitada.

Depois, quero comunicar ao senhor algumas condições tecnicamente necessárias em um estudo literário, p.e. a condição de não desfigurar a opinião do autor estudado; o sr., porem, não disse aos seus leitores que eu explicara as qualidades técnicas do romancista Mauriac pela tradição novelística francesa e os seus defeitos pela atitude pessoal do romancista que pretende ser católico sem renunciar às qualidades não-católicas daquela tradição; e esta distinção, o senhor censurou-a como contradição. Quero comunicar ao senhor também outra condição tecnicamente necessária no estudo sobre um ensaio: ter-se lido o ensaio. O senhor, porém, me recomendou a leitura do estudo de Du Bos sobre Mauriac, sem reparar que o estudo de Du Bos está citado no meu ensaio. Tudo isso leva-me a crer que o senhor não pretendeu fazer crítica literária e sim imitar as atitudes polémicas dum Chesterton ou Bloy. Ora, Bloy, que era um mendigo sem casa, não teria dado tanta importância à “casa” como o senhor fez — voltarei mais tarde a esse ponto: acho, ao contrario, que a falta de casa é condição tecnicamente necessária para desempenhar o papel dum Bloy. E o lugar de Chesterton já esta ocupado.

Para dar ao seu artigo polémico a aparência dum estudo de crítica literária, o senhor invocou a autoridade de autênticos críticos literários. Cita Du Bos, e recomemda-me, naquele tom que me lembra “os meus oito anos” na escola, a leitura dos cinco volumes de “Estudos” de Tristão de Athayde. Agradeço-lhe muito o fato de me ter lembrado o nome do dr. Alceu Amoroso Lima que me convidou, da maneira mais gentil, a colaborar nesta revista sem eu ter feito antes concurso na Escola Literária Gustavo Corção. Na verdade, já lí aqueles cinco volumes sem esperar pela sua indicação; e o respeito devido à autoridade cristã do sr. Alceu Amoroso Lima não me pode impedir de manter, ocasionalmente, uma opinião
literária diferente da opinião dele, e mesmo quando diferente da opinião de outras muitas autoridades literárias. Aceito o risco de estar sozinho no mundo com a minha opinião; embora, como escreveu o senhor, ser eu um escritor que “tentou agradar a todos os lados” — opinião sua com a qual o senhor por sua vez está sozinho no Brasil. Talvez viesse daí o seu afã de identificar a sua própria opinião com a opinião literária do Brasil inteiro. Escreve o senhor: “A obra de Mauriac já era conhecida entre nós antes da chegada do sr. Otto Maria Carpeaux e teria sido prudente da parte desse crítico, antes de iniciar seu estudo, procurar nos livros de autores brasileiros a confirmação de nosso nível de cultura”. Quer dizer, não satisfeito com um “Leia!” imperioso, o senhor acrescenta um “Leia, e adote a mesma opinião!”. Se, por falta de “prudência”, não obedeço, a advertência pessoal torna-se pública, denunciando o meu desprezo ao nível da cultura no Brasil. Conheço essa linguagem jacobina.

O jacobinismo cultural transforma-se, às vezes, em jacobinismo gramatical: o senhor censura a qualidade do meu português, e pede aos leitores perdão pela sintaxe e regências dum estrangeiro. Com muito bom senso chestertoniano, o senhor chega ao ponto de censurar evidentes erros de impressão como se fossem erros de ignorância, não reparando o senhor que, neste caso, a abundância de erros de impressão no seu próprio artigo seria sinal alarmante do seu estado de espirito. Os meus erros de português, aliás, o senhor encontrou-os num texto que foi cuidadosamente revisto por um dos maiores conhecedores da língua no Brasil. Conforme um provérbio, muito em uso entre os povos católicos da Europa, o senhor é “mais papal do que o próprio Papa”.

Essa sua atitude revela-se particularmente quando o senhor entra no terreno das discussões teológicas. Disse eu que a Congregatio de auxiliis gratiae tinha sido dissolvida sem ter resolvido o problema da Graça; a Igreja não se definiu, e a consequência disso foi a querela Jansenista. A sociologia histórica dá muita importância a esse fato. Um estudioso católico, o sr. August M. Knoll, dedicou um livro à relação entre as querelas sobre a Graça e as querelas sobre a proibição canónica dos juros, o fato de ter sido essa publicação autorizada pela censura eclesiástica não é desvalorizado pelo fato de que o senhor não parece conhecer os estudos dessa espécie. E não se trata duma inovação audaciosa, porque a
sociologia da religião já entrou, há multo tempo, no terreno dos estudos da história literária. Estou, desde há muitos anos, familiarizado com esses estudos, de modo que, para citá-los, não precisava “consultar enciclopédias”, como o senhor escreveu, transcrevendo uma expressão da “má companhia”. Sabemos todos, sem consultar enciclopédias, que a literatura francesa moderna se criou no ambiente da querela Jansenista; a famosa psicologia literária dos franceses é, em grande parte, herança daquelas discussões teológicas; fato que se pode descobrir até nas obras de Gide e Mauriac. Contra esses fatos da história literária e espiritual da França, o senhor arremete fortemente; indica-me, para eu me informar com respeito às auxiliis gratiae, citações de S. Tomás. Creio que os padres reunidos na Congregatio de auxiliis gratiae conheceram os textos de S. Tomás tão bem como o senhor, ou talvez melhor; e não adiantou isso, porque nem tudo pode ou deve ser definido filosoficamente. Ao lado dos axiomas, há os mistérios, e ao lado dos dogmas definidos, há as opiniões discutíveis, e ao lado da filosofia, há a literatura cujos
fatos históricos não se refutam por meio de citações teológicas. Em vez de ficar satisfeito com a atitude dum escritor que reconhece e ressalta a importância dos fatores religiosos na história literária, o senhor interpreta as minhas explicações como heresias ou blasfêmias. Descrevi a atitude vacilante da personagem literária Mauriac em face do sacramento da penitência, e o senhor censura isso como se eu zombasse daquele sacramento. Não satisfeito com esse sofisma, o senhor me lança o seu “protesto contra o infeliz trabalho que pretende solapar os alicerces da casa cristã”. Declaração formidável que me lembro vagamente ter lido já em documentos policiais e libelos de promotor público.

Como se explica esse excesso de zelo? Parece-me ter encontrado, naquela palavra “casa”, o centro íntimo das suas preocupações. O romance de Mauriac, como o romance francês em geral, gira em torno dos problemas da família. Consequentemente, falei muito, no meu estudo, sobre questões da família, da “casa”. O senhor, porém, interpretou a palavra no sentido de “casa cristã”, e até de “Igreja”. A sua susceptibilidade nesse ponto é tão grande que nem suporta a discussão literária das qualidades sociológicas e psicológicas da arqultetura. Na verificação do fato de alguma coisa não estar em ordem na “casa” — nem sequer na realidade social e sim em certos romances — o senhor encontra um ataque à
ordem sagrada da Sociedade e até da Igreja. E o senhor dá uma descrição tão pormenorizada da “casa”, mencionando a fachada etc, que a identificação da Igreja e da Casa com as casas materiais e com a sua casa particular se torna manifesta. O que existe no fundo desse equívoco religioso? Se o senhor está preocupado com o destino das casas materiais, no sentido mais amplo da palavra, e da sua casa particular, porque identifica o senhor essa preocupação sociológica sua com a sua ortodoxia teológica? Evidentemente, o senhor confunde o Evangelho e o Mercado Imobiliário.

Permita-me desgostá-lo, outra vez, com uma citação: “Vulpes foveas habent et volucres cæli tabernacula filius autem hominis non habet ubi caput reclinet”. (Matth. VIII, 20).

Como o senhor vê, Ele que disse isso não tinha “casa”. Por isso, pouco me importa o fato de eu também não ter casa. E quando o senhor explicou a minha atitude, aludindo ao meu destino dum exilado que não tem casa — ma-
neira de dizer pouco delicada, para não empregar outro adjetivo mais conveniente — então resolvi seguir o exemplo d’Aquele que também não tinha casa: vou esquecer todo o seu artigo.

Nisso incluo também as suas lições, dadas em tom tão altivo, porque felizmente não sou seu aluno. Apenas, peço-lhe não censurar-me teologicamente nem excomungar-me literariamente, porque o senhor não é meu confessor nem confessor de ninguém, nem padre nem bispo nem Papa. Excedendo-se dessa maneira, o senhor perdeu até o direito de convidar-me à reflexão. À sua “defesa da inteligência cristã”, prefiro a meditação sobre o amor cristão dos cristãos; se o senhor quizesse me acompanhar nessa meditação, o senhor está, por sua vez, convidado.

Subscrevo-me, Ilustríssimo senhor Gustavo Corção, com toda estima e consideração.

Otto Maria Carpeaux

Rio de Janeiro, 14 de Julho de 1944

(In Revista A Ordem, agosto de 1944, p. 171-175)