UM GRANDE ROMANCE BRASILEIRO: “MARCORÉ”

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UM GRANDE ROMANCE BRASILEIRO: “MARCORÉ”

Poucas pessoas, em Batatais-SP, sabem que ali nasceu um grande escritor, Antônio Olavo Pereira, autor de um romance, Marcoré, que se situa entre os mais bem realizados da literatura brasileira contemporânea.

Antônio Olavo era irmão do editor José Olympio e nasceu em Batatais em 1913, morrendo em 1993 na capital paulista, onde viveu a maior parte da vida, quase toda ela dedicada à famosa editora do irmão (que, entre os anos 30 e 60, foi a maior editora brasileira). Na editora José Olympio, Antônio Olavo dirigia o departamento editorial, responsável pela seleção das obras lançadas e o difícil trabalho de editoração das mesmas. Antônio Olavo Pereira foi casado com uma neta de Monteiro Lobato, Gulnara Lobato de Morais Pereira, com quem teve um filho.

Ao contrário da maioria dos escritores brasileiros, Antônio Olavo podia ter publicado quantos livros quisesse, mas era da família dos exageradamente econômicos e discretos. Não escreveu mais que três obras de ficção: a novela Contramão (1950) e os romances Marcoré (1957) e Fio de prumo (1965).

Sua obra-prima, no consenso geral da crítica literária do período, é o romance Marcoré (há edição recente pela editora Arqueiro). Conta a história pungente de um oficial de cartório civil — desses que arrastam a sua vidinha simples em pequena cidade do interior (sem dúvida, inspirada em Batatais; mencionam-se na obra alguns toponímicos familiares aos moradores mais antigos da cidade, como o morro do Tomba-Carro, a Rua do Outro Mundo, inclusive nomes de pessoas, como padre Bento e doutor Leandro).

O oficial, há nove anos casado com Sílvia, filha do tabelião, vivia na casa dos sogros e ainda não tinha filhos. Era a única sombra na vida daquele casal relativamente feliz, que até sabia contornar o temperamento complicado da sogra. Um dia, porém, para surpresa geral, a esposa engravidou. Nove meses mais tarde, após algumas turbulências de voo, um saudável bebê aterrissou na pequena família: o pequeno Marco Aurélio, Marcoré para os íntimos (assim apelidado pela língua simples da empregada doméstica).

Veio de tão longe e tão alto com a estranha missão de provar os pais. É que Sílvia, quase desanimada da maternidade, tinha feito uma estranha promessa: se concebesse, viveria em castidade pelo resto da vida. Cumpriu a promessa que, como esposa católica, jamais poderia ter feito. Como consequência, na difícil condição de homem casado e ao mesmo tempo sem mulher, o marido acabou nos braços de uma amante, viúva desamparada que se deu ao desfrute. Sílvia morreu de complicações cardíacas, e o filho Marcoré nunca mais perdoaria o pai (a quem, por influência da avó, atribuiria a morte prematura da mãe).

Trata-se de uma história bem urdida, narrada pelo próprio oficial de cartório. Nada é forçado, a começar pela linguagem correta e clássica, apimentada aqui e ali de saborosas expressões regionais. Tudo ocorre como poderia ocorrer na própria vida, com seus silêncios e desencontros, com suas efêmeras alegrias. Nenhuma janela para a esperança abria-se ao personagem narrador, que não conseguia pronunciar o nome de Deus. Enfim, e a seu modo, é um romance que beira a tragédia, dessa fugidia e cotidiana tragédia que sabe disfarçar-se sob os fatos mais comuns do dia a dia.

As páginas finais do romance, de admirável e dolorida beleza, revelam a solidão de um homem que, pela soberba e dificuldade de perdoar, enterrava-se cada vez mais em si mesmo, apegado ao último ídolo que lhe restou, após o crepúsculo de todos os seus pequenos deuses particulares: o filho Marco Aurélio. Mas o jovem Marcoré, promissor discípulo do orgulho paterno, já estava experimentando por conta própria o estranho sabor de sentenciar e condenar; e, dócil aprendiz da intransigência, abandonou finalmente o intransigente pai.

Ambientado no início do século XX, o romance Marcoré é um bom estudo psicológico e espiritual da vida de uma família cristã, com todas as dificuldades inerentes ao desafio cristão. (José Carlos Zamboni)