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JOSEPH PEARCE FALA SOBRE O CATOLICISMO DE SHAKESPEARE – Thomas I. McDonald

William Shakespeare permanece o mais controvertido e desafiante escritor da literatura inglesa, quatro séculos após sua morte. Muitos leitores e frequentadores de teatro ignoram as controvérsias e simplesmente se apaixonam por sua poesia, sua linguagem, seus personagens, suas peças.

No mundo acadêmico, porém, Shakespeare se transformou numa espécie de espelho turvo no qual as pessoas veem o que querem, transformando-o num crítico social marxista, um protofeminista, um mulherengo ou um delicado  homossexual.

Entretanto, a resposta mais óbvia, baseada no que sabemos da época e da família de Shakespeare, foi largamente ignorada: seu catolicismo. Graças a uma série de livros e artigos da última década, isto se tornou um dos aspectos mais controvertidos entre os mais recentes estudos shakespearianos.

Joseph Pearce especializou-se na pesquisa sobre escritores católicos em várias obras, como Literary Converts, The Unmasking of Oscar Wilde, Tolkien: Man and Myth e outras. Ele é escritor-residente e professor de literatura na Universidade Ave Maria, na Florida, co-editor da St. Austin Review, editor da Ignatius Critical Editions, e editor-chefe da Ave Maria’s Sapientia Press.

No último livro de Pearce, The Quest for Shakespeare: The Bard of Avon and the Church of Rome (Ignatius Press), ele põe na mira do microscópio o maior de todos os escritores, elaborando cuidadosa argumentação em defesa de um Shakespeare católico. (Thomas I. McDonald)

 

Em seu novo livro, você expôs toda a evidência disponível e chegou à conclusão de que Shakespeare foi um fiel católico. O que lhe inspirou a avançar por esse caminho?

Na verdade, comecei como um cético, descrente de que as evidências fossem suficientes para provar que Shakespeare tenha sido um católico. Achava que aqueles que afirmavam a sua catolicidade fossem vítimas de um simples pensamento desejável.

Chegou um momento, porém, no qual as evidências foram se acumulando e me fizeram reconsiderar minha posição cética. Eram como peças perdidas de um quebra-cabeças. Chega um momento em que você tem peças suficientes para reconhecer a figura como um todo, mesmo se algumas peças ainda estejam extraviadas. Então me vi tão enredado nesta questão, que mergulhei num período de intensa pesquisa sobre o assunto. O meu livro é o fruto dessa pesquisa.

 

Embora você apresente um “caso” impressionante, não há indícios de que um nome como o de Shakespeare esteja na lista dos suspeitos de catolicismo. Acha que esse “caso” contém elementos suficientes para convencer os mais céticos especialistas de Shakespeare?

O ônus, quanto aos especialistas não católicos, é que eles podem — com base na abundância de evidências, muitas das quais documentadas e não meramente incidentais — apresentar outra conclusão possível. A documentação, as evidências circunstanciais e textuais, tomados em conjunto, transformam o catolicismo do Poeta num “caso” efetivamente inegável. Tais evidências seguramente sobrepujam quaisquer outras que insinuem ter sido Shakespeare protestante ou ateu. Coloquemos a coisa da seguinte maneira: se essas evidências são postas perante um júri de pessoas de bom senso, o “caso” poderia ser tido como já provado, além de qualquer dúvida razoável. Não podemos estar absolutamente certos, mas podemos estar certos o suficiente para chegar a uma conclusão definitiva.

 

Por que a crítica acadêmica reluta em aceitar um Shakespeare católico?

Se os críticos acadêmicos aceitassem o catolicismo de Shakespeare, seriam forçados a admitir que a interpretação que fizeram de suas obras está equivocada. Shakespeare não seria quem eles pensam que ele seja, ou dizem ser; e suas peças não diriam o que eles pensam que elas digam. Em suma, eles teriam de admitir que erraram.

Os críticos acadêmicos honestos considerarão meticulosamente as provas e verão a verdade que se encontra nelas; no entanto, muita gente na universidade é escrava do relativismo e de outras ideologias, que os impedem de reexaminar seus preconceitos dogmáticos. Para dizer mais ou menos como Shakespeare, há algo de podre no reino acadêmico. Não se vê a verdade diante dos próprios olhos, porque não se quer ver. A moderna academia está cega por seus próprios preconceitos. Não obstante, as provas não podem ser negadas indefinidamente, e, enfim, um dia os fatos prevalecerão.

 

Como a crítica católica de Shakespeare pode ser diferente da feminista, marxista ou a assim chamada “teoria queer”? O “texto” em si mesmo não está aberto a toda espécie de interpretações?

Um texto não é uma coisa mágica, que reflete os preconceitos de todos aqueles que olham para ele, como um espelho narcisístico. É a encarnação da personalidade de um autor. Quanto mais compreendemos a pessoa que criou uma obra, tanto mais compreenderemos o caráter objetivo da verdade que emerge da obra em si mesma. Qualquer um pode ler uma obra subjetivamente, mas a verdadeira crítica procura ler de modo objetivo.

Se Shakespeare é um católico, seria absurdo afirmar que é um militante dos direitos homossexuais avesso ao cristianismo, tanto como o seria afirmar que os romances de Virgínia Woof contêm ataques católicos ao feminismo e à homossexualidade. Tal crítica não deve ser levada a sério.

 

Pode dar um exemplo de alguma peça, cujo sentido muda fundamentalmente quando considerada por uma lente particularmente cristã?

Falando francamente, a concepção de um Shakespeare católico nos força a olhar para todas as suas peças a partir de uma perspectiva radicalmente diferente. Se o Bardo de Avon foi um audacioso católico, em época verdadeiramente anticatólica, tal fato desacredita muitas das interpretações modernas e pós-modernas de suas peças.

Se Shakespeare é um católico, não pode nada daquilo que a moderna academia parece querer que ele seja. Não é um niilista pós-moderno, muito menos um lacista fanático, um ateísta, um iconoclasta anticristão, um protofeminista, um advogado do homossexualismo. Ao contrário, ele é um moralista cristão, que se deixava guiar pela tradição, cujas obras representam uma sublime resposta e retruque a esses vários erros modernos e pós-modernos.

Se Shakespeare é um católico, como todas as evidências históricas sugerem que o seja, devemos esperar por expressões desse catolicismo em suas peças e ficar atentos a elas. Em meu próximo livro, a sequência de A quest for Shakespeare, vou tentar localizar no enredo de suas peças uma sólida e aterradora prova do catolicismo do Bardo.

Já estudei peças com Hamlet, Rei Lear e O mercador de Veneza a partir desta perspectiva; estou verdadeiramente admirado pela abundância de filosofia e teologia católica que nelas aparecem. É difícil resumir essa dimensão católica em poucas palavras. Shakespeare resiste a ser reduzido a opiniões fortuitas. É suficiente dizer que vemos, em personagens como Cordélia, Hamlet e Portia, aspectos da verdade católica reveladas de maneira sublime; e vemos, nos dilemas enfrentados por esses personagens, um reflexo das dificuldades pelas quais passavam os católicos na Inglaterra elisabetana e jacobita.

 

Como a obra de historiadores como Eamon Duffy, cuja investigação está mudando radicalmente nossa compreensão da Reforma Inglesa, repercute nos estudos shakespearianos?

A obra dos historiadores é crucial para a compreensão das obras literárias. Precisamos conhecer em que as pessoas acreditaram, e a natureza das culturas nas quais viveram, para entender as obras que escreveram. Você não pode compreender Shakespeare objetivamente, sem compreender a Inglaterra elisabetana e jacobita. Por isso, quanto mais conhecemos acerca desse período, mais saberemos sobre as obras que surgiram nessa época turbulenta da história inglesa. E o que é verdadeiro para nosso conhecimento da história, é também verdadeiro em relação ao nosso conhecimento teológico e filosófico.  Se nada sabemos sobre as discussões teológicas e filosóficas que fizeram parte do pano de fundo intelectual da época de Shakespeare, nada saberemos sobre a teologia e filosofia que se manifestam na obra de Shakespeare. Ignorância em teologia e filosofia significa ignorância em Shakespeare.

 

Em maio de 2009, a EWTN vai começar a mostrar The Quest for Shakespeare. Você poderia adiantar para nós alguma coisa sobre o programa?

É uma série em 13 partes, baseada em meu livro. Estou realmente animado com isso. Acabamos de filmar; há algumas grandes atuações de Kevin O’Brien e dos atores do Theater of the Word Incorporated. Sou o narrador, o comentarista, por assim dizer, mas o ponto forte da série são as grandes performances desses atores.

 

O que pode significar para os católicos, se Shakespeare for “um dos nossos”?

Significa que um dos maiores escritores que já existiram, talvez o maior que já tenha existido, está exprimindo as eternas verdades cristãs para uma época muito necessitada delas, como a nossa. Shakespeare é ensinado e lido em todo o mundo. Se pudermos demonstrar que suas obras são católicas, podemos evangelizar o mundo através do poderoso testemunho do mais poderoso dramaturgo da história do cristianismo. (Trad. de J. C. Zamboni)

[Em: http://www.ncregister.com/site/article/joseph_pearce_on_shakespeare_the_catholic]