Sobre o Site

O site O trigo e a peneira sairá no encalço da crítica literária cristã, a de ontem e a de hoje, para revelar que já houve — e continua havendo — essa maneira de ler obras literárias. Além de uma pequena coleção de ensaios sobre poetas, romancistas e dramaturgos (cristãos ou não, mas sempre focalizados pelo ângulo cristão), procurará também dar notícia dos autores cristãos, espalhados pela literatura ocidental. Finalmente, uma antologia da prosa e da poesia cristã.

Ler contos e romances a partir de um ponto de vista cristão é verificar como os personagens se relacionam com Deus, em que medida se aproximam ou se distanciam do Criador. Presume-se que o leitor cristão, relativamente aos homens e mulheres que habitam as páginas das grandes obras literárias, sempre gostará de saber como eles creem ou descreem, e a relação que tudo isso tem com a forma como vivem.

Isto é verdade, sobretudo, para as narrativas literárias cujos autores visavam, no ato de escrever, aprofundar o conhecimento da alma humana. Mesmo quando os escritores são ateus ou agnósticos, e mesmo quando os escritores não querem fazer outra coisa se não contar histórias de aventuras ou de crimes misteriosos, seus personagens são obrigatoriamente criados à imagem e semelhança de seres humanos reais, sempre sujeitos a oscilar entre vícios e virtudes. Stendhal não se inspirou em bois ou jacarés para criar o seu Julien Sorel. Mesmo o homem que se transformou em inseto, na novela A metamorfose de Franz Kafka, deve continuar a ser visto como ser humano e como tal compreendido pelo público leitor.

Para entender melhor essa grande população de personagens literários, distribuídos pela geografia não menos vasta do País da Literatura, talvez possa ser útil a famosa classificação agostiniana das duas cidades opostas: a cidade de Deus e a cidade dos homens, nas quais obrigatoriamente viveriam os seres humanos. Santo Agostinho assim as caracterizava: dois amores teriam fundado duas cidades — o amor a Deus e desprezo de si mesmo criou a Cidade Celeste; e o amor de si, com desprezo de Deus,  fundou a cidade dos homens.

Os personagens romanescos, assim como nós, também têm seus “projetos de vida”, mais ou menos conscientes, sempre em estrita dependência da maneira como se relacionam com Deus. São habitantes de uma daquelas duas cidades, ligadas entre si por uma estrada de mão dupla, com permanente fluxo de cidadãos nos dois sentidos, ora mudando de cidadania, ora procurando manter a identidade que considera mais adequada ao fim que busca alcançar. (J. C. Zamboni)

Sobre o Autor

José Carlos Zamboni foi professor de teoria literária na Universidade Estadual Paulista (UNESP, campus de Assis-SP) de 1989 a 2016. Tem dois livros publicados: o romance Consagro-vos a minha língua (É Realizações, 2010) e a biografia Santa Francisca Romana, esposa, mãe, dona-de-casa (Ecclesiae, 2017).